O Último Homem Bom
Estocolmo – Atraso
– Quem arrum ou essa sacola foi o senhor m esm o?
– Claro. É a m inha sacola.
– Para onde o senhor está indo?
– Para Estocolm o.
– O senhor trabalha lá?
– Não. Vou em visita fam iliar. Tenho visto. Algum problem a?
– De onde o senhor é?
– Iêm en. Está havendo algum problem a?
O segurança lhe devolveu a sacola sem esboçar um pedido de desculpa.
Abdul Hadi parou no m eio da sala de em barque. Loj as, publicidade de film es e publicidade de m odos de vida. Ele sentia um profundo desprezo. Dirigido ao Ocidente e à estranha relação que os ocidentais têm com a segurança. É pura ficção, pensou ele. Exatam ente com o o sonho do que farão para eles todos os seus produtos. Agora os viaj antes acham que tudo é bom , que tudo é seguro. Mas ninguém está seguro. Abdul Hadi não sonharia em tentar trazer um a arm a para o aeroporto. Por que dificultar as coisas para si m esm o? Tudo tinha sido preparado para ele no seu destino. Ele sabia aonde devia ir. Sabia quem ia m orrer e com o ele faria isso acontecer.
Estocolmo – Atraso
Ele olhou para o m onitor que m ostrava os horários de partida. O atraso não era problem a; não lhe faltava tem po. Ele aterrissaria em Estocolm o com tem po de sobra. Alguém o encontraria no aeroporto, o levaria até a estação ferroviária e o aj udaria a encontrar o trem certo para Copenhague.
Olhou para os passageiros que estavam por perto e pensou: “Não. Vocês não estão nem um pouco seguros”. A ideia lhe agradou. “Podem revirar as m inhas sacolas, m e pedir para tirar os sapatos, m e pedir para tirar todas as roupas, com o fizeram no prim eiro aeroporto onde m udei de avião. Mas isso não os deixará em segurança.”
Abdul Hadi pensou na hum ilhação que sofrera no aeroporto em Mum bai. Som ente ele fora retirado da fila; m ais ninguém . Obedientem ente ele havia seguido seu acom panhante pelo subsolo. Dois seguranças do aeroporto foram na frente e dois policiais indianos fechavam o cortej o. A sala tinha duas j anelas. Não havia cadeiras nem m esa. Ele precisou pôr as roupas no chão. Tinha pedido um a cadeira, porque o chão estava im undo. Perguntaram se ele queria pegar o avião ou criar caso. Ele pensou em criar caso. Os ocidentais não eram tratados assim , nem m esm o quando havia suspeitas em relação a eles. Mas concentrou o pensam ento no seu obj etivo. Na vingança.
E então ele pensou: nós nunca serem os aceitos no m undo deles. Talvez tolerados. Mas não aceitos. Não em pé de igualdade. Ele havia conversado sobre isso com o irm ão caçula logo antes de partir. Se não voltasse, o irm ão passaria a ser o chefe da fam ília. Era por isso que o caçula tinha vindo da Arábia Saudita, onde ele havia sido trabalhador hóspede. Os sauditas eram quase piores que os ocidentais. Decadentes. Patéticos. Mentirosos. Todo m undo sabia que suas m ulheres cobriam o corpo só para m anter as aparências. Na noite de sexta-feira elas pegavam aviões fretados e iam para Beirute. No avião trocavam a roupa. Tiravam a burca enquanto os hom ens vestiam ternos Hugo Boss. Abdul Hadi tinha estudado na Universidade Am ericana de Beirute durante os anos que antecederam a guerra civil. Ele via os sauditas chegarem todo fim de sem ana, com a aparência totalm ente transform ada. As m ulheres punham biquíni e iam para a praia, enquanto os hom ens se em bebedavam e j ogavam cartas no cassino. Ele não sabia quem m ais m erecia o seu ódio: os sauditas que nos fins de sem ana se faziam de ocidentais na única cidade do m undo que fingia concordar com eles ou os ocidentais que os tinham atraído para lá. Atraído com prom essas de liberdade. A liberdade de tentar ter as m esm as coisas que os ocidentais tinham . Mas eles não podiam tê-las. Isso era algo que Abdul Hadi sabia por experiência própria – e um a experiência am arga. Em bora fosse um hom em bonito, sobretudo antes de seu cabelo com eçar a em branquecer, ele não havia tido a m enor chance com as m oças am ericanas da universidade.