O Último Homem Bom
Capítulo 49
Cidade do Cabo – África do Sul
Poderia ser um a pintura. O oceano Índico. As palm eiras. Ao se sentar na sua sala, no décim o segundo andar, Kathrine frequentem ente pensava nas fotos de estúdio encom endadas pelos seus pais, que quando criança ela sem pre tirava j unto com a irm ã.
Eles iam de carro da sua casa no cam po até a cidade de Roskilde. Já de longe eles viam as duas agulhas da catedral, pontudas com o furadores, apontando para o céu, para Deus, com o um a declaração de guerra: “Não se aproxim e nem m ais um centím etro”.
Kathrine adorava a cidade. Roupas novas, um superm ercado gigantesco onde eles sem pre se perdiam nos interm ináveis corredores de geleias e tem peros. E a escada rolante. Kathrine tinha um pouco de m edo dela. Mas a escada rolante as levava até o andar onde a foto era tirada. Ela e a irm ã nunca podiam escolher o panoram a de fundo, m as o fotógrafo sem pre lhes m ostrava as opções. Prim eiro ele descia um pano de fundo que apresentava um cenário de floresta. Árvores cobertas de m usgo bem no m eio da m ata, onde a luz do sol só brilhava quando as árvores perdiam todas as suas folhas. Sua irm ã tinha um gosto terrível e sem pre queria algo com m uitas cores, preferivelm ente cor-de-rosa. Depois havia o cenário de praia. Era por esse que Kathrine era apaixonada, m as sua m ãe se recusava term inantem ente a aceitá-lo. Kathrine nunca havia entendido por que não lhe perm itiam escolher aquele fundo. A foto desse panoram a tinha sido tirada de um plano ligeiram ente superior à praia, com o se a pessoa estivesse sentada nas dunas e olhando para o m ar. Eles norm alm ente precisavam resolver a questão com um a solução de com prom isso: um a clareira na floresta, com as árvores recuadas à distância. Só Deus sabe que tipo de tendências sexuais subconscientes estavam latentes na escolha de cenário feita pela sua m ãe. Ou que tipo de repressão a m otivava. Kathrine se fazia essa pergunta. Ela achava que talvez estivesse sentada ali naquele escritório, naquela parte do m undo, porque a vista se parecia com o cenário que lhe tinham negado na sua infância. Ela queria claridade, m as sua m ãe insistia no crepúsculo escuro, que correspondia m elhor à atm osfera dom éstica. O pai de Kathrine sofria de “buracos negros”, com o a m ãe se referia ao seu problem a. Hoj e o rotulariam de m aníaco-depressivo. Não que algum dia ele tenha sido particularm ente m aluco. Se pelo m enos ele tivesse exibido um pouco de com portam ento m aluco, com o os que Kathrine havia visto descritos na internet: pais que ou estavam deprim idos ou eufóricos. Quando estavam eufóricos, tudo era possível: viaj ar, com prar um carro novo, m udar-se para outro país. As coisas não tinham sido assim no seu lar quando ela era criança. O velho era reservado, m as m ais ou m enos norm al, ou então não dizia nada e ficava sentado im óvel com o um lagarto durante sem anas a fio.
Ali ela dispunha de ar-condicionado e j anelas à prova de som . Marc estava pairando um pouco adiante na área aberta de escritórios onde as secretárias e os arquitetos e engenheiros m ais j ovens tinham sua m esa. Ele estava procurando um pretexto para entrar novam ente na sala dela. Kathrine se perguntava se queria ir para a cam a com ele. Tinha acontecido um flerte entre eles, quanto a isso não havia dúvida. A ideia de fazer sexo com Marc tinha sido m ais instigante quando ela achava que Niels viria visitá-la. Agora que ele não vinha e que ter um caso se tornara um a possibilidade real, ela não tinha certeza. Marc tentava cruzar seu olhar com o dela através das paredes de vidro. Ela se virou para olhar pela j anela. A vista proibida da sua m ãe. O m ar. A luz.
– Oi, Kathrine. – Marc estava de pé no vão da porta, com a pélvis quase im perceptivelm ente proj etada.
– Oi, Marc.
– Não vai descansar? – Ele falava um inglês com o típico sotaque bôer sul-africano que nada tinha de sexy.
– Estou só m andando o últim o relatório – respondeu ela.
– Seu m arido não vem ?
Ele sabia perfeitam ente que Niels não vinha. Naquele m om ento Marc era tudo m enos fascinante. Kathrine sentiu os olhos m arej arem .
– Desculpe, Marc. Eu realm ente preciso ficar sozinha.
Marc olhou para ela com um a expressão que era um pedido de desculpa. Ele não era do tipo insistente, e Kathrine sabia disso. Era um hom em agradável. Não tinha culpa se ela escolhera se casar com um hom em que tanto a fazia lem brar o pai. Ela havia passado m uito tem po im aginando com o aquilo podia ter acontecido. Não tinha encontrado um a resposta, m as aprendera a adm itir que as pessoas adultas frequentem ente acabam escolhendo alguém que é um a cópia do pai ou da m ãe – norm alm ente aquele com quem elas ainda têm problem as. Com o era o caso dela com o pai e o seu tem peram ento soturno.
Nem sem pre as coisas tinham sido daquele j eito. No início Niels não lem brava o seu pai, de m odo algum . Tinha um tem peram ento calm o, m as não caía em buracos negros. Nessa época eles riam m uito quando estavam j untos. Sem pre. E ele parecia am bicioso. Ou ela sim plesm ente im aginara isso? Talvez. Será que nós, seres hum anos, tem os um aparelho capaz de selecionar as pessoas que m ais tarde na vida irão se parecer com a m ãe ou o pai que era difícil? Ou nós as fazem os ficar assim ? Será que nós podem os fazer alguém assum ir o papel?
Kathrine olhou pela j anela. As cristas das ondas pareciam bolhas de cham panhe. Ela recebeu um a m ensagem de Marc. “Perdão.” Ao se voltar, viu-o de pé no m eio da sala, parecendo em total desalento. Era um hom em bonito. Nesse instante o celular tocou. “Niels”, ela leu na tela.
– Eu estava sentada aqui pensando em você – disse ela.
– O que é que você estava pensando?
– Nada que você vá gostar de ouvir.
Ela sorriu para Marc. Ele era infinitam ente m ais sexy agora que ela falava com Niels no telefone. Mas a ideia de Marc ser seu am ante a repugnava.
– Preste atenção. Eu não fui visitar você porque...
Ela o interrom peu.
– Eu acho que sei por quê, am or.
– Não. Você não sabe. Eu estou trabalhando num caso. Um hom icídio. E é um caso realm ente com plicado.
Ele fez um a pausa para im pressionar, antes de com eçar a contar tudo para Kathrine. Os assassinatos, os locais dos crim es, os núm eros nas costas das vítim as. Kathrine ouviu calada. Não se m anifestou nem m esm o quando ele expôs a teoria sobre um a m orte, um assassinato não com unicado, em Khay elitsha. Então Niels ficou em silêncio. Esperando. Não falou sobre Hannah.
– Você m udou de departam ento? – perguntou ela finalm ente.
– Não. Não é bem isso. A questão com eçou com o um caso rotineiro. Eu precisava advertir alguns cidadãos dinam arqueses que poderiam se tornar vítim as. Foi assim que eu fui envolvido.
– E é por isso que não vem ?
Niels fez um a pausa para pensar. Ele queria dizer que sim . Que a sua am bição exigia que ele ficasse na Dinam arca para trabalhar no caso. Kathrine gostaria de ouvir isso. Ela sem pre criticava a sua falta de am bição. Isso e m uitas outras coisas.
– Acho que é isso.
– Você acha que é isso?
– Eu não sei o que há por trás de tudo isso, Kathrine. Mas tenho a im pressão de que é im portante e preciso da sua aj uda.
– Você quer que eu vá até Khay elitsha?
– Exatam ente.
– Niels, não é um lugar seguro para um a m ulher branca. Khay elitsha é um a das piores favelas da África do Sul. E isso diz m uita coisa.
Niels não respondeu. Persuadir Kathrine a fazer algum a coisa seria um a batalha perdida. Ela precisaria se persuadir. Não era um silêncio côm odo. Ele ficou surpreso ao ouvi-la dizer, sem apresentar nenhum a outra obj eção:
– Tudo bem .