O Último Homem Bom
Terça-feira, 15 de dezembro de 2009
– E o refém ?
– Não sabem os nada.
– Tem crianças lá?
– Não sabem os nada, Niels. Leon está na escada. – O policial apontou.
Terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Fodam-se! É o que um a alm a honesta havia escrito na parede acim a do nom e dos residentes. A escada era um a ruína e atestava as decisões políticas dos últim os anos: Viva os cristãos, Foda-se Israel e Morte aos policiais. Foi só isso que Niels teve tem po de ler antes que a enferruj ada porta dianteira se fechasse com um estrondo atrás dele. Em poucos segundos ele tinha ficado encharcado.
– Está chovendo?
Niels não sabia dizer qual dos três policiais na escada estava tentando ser engraçado.
– Terceiro andar, é isso?
– Isso m esm o, senhor.
Provavelm ente riram às suas costas enquanto ele subia a escada. No cam inho ele passou por outros dois policiais m uito j ovens que usavam coletes à prova de bala e tinham pistolas autom áticas. O m undo não havia se tornado um lugar m elhor desde que Niels entrara na academ ia de polícia, m ais de vinte anos antes. Pelo contrário. Ele via isso nos olhos dos policiais j ovens. Duros, frios, fechados.
– Vão com calm a, garotos. Nós voltam os vivos para casa, não tem problem a – disse Niels ao passar por eles.
– Leon? – gritou um dos policiais. – O negociador está vindo.
Niels sabia exatam ente o que Leon significava. Se Leon fosse forçado a escolher um m ote, seria: A operação foi um sucesso mas o paciente morreu.
– É o m eu am igo Dam sbo? – gritou Leon do patam ar da escada antes de Niels ficar visível.
– Eu não sabia que você tinha am igos, Leon.
Leon saltou dois degraus e olhou surpreso para Niels, agarrando com am bas as m ãos a pequena pistola autom ática Heckler & Koch.
– Bentzon? De onde foi que desenterraram você?
Niels olhou nos olhos de Leon. Mortos, cinzentos – um reflexo do clim a típico de novem bro.
Fazia m uito tem po que os dois não se encontravam . Niels andara de licença para tratam ento de saúde durante os últim os seis m eses. A barba rala de Leon em branquecera e os cabelos tinham recuado na testa, deixando visíveis m uitas rugas.
– Achei que iam m andar o Dam sbo.
– Dam sbo está doente. Munkholm está de férias – respondeu Niels afastando a boca da Heckler & Koch apontada para ele.
– Dá para você segurar essa, Bentzon? Já está durando m uito tem po. Você ainda está tom ando rem édios? – Nos lábios de Leon abriu-se um sorriso condescendente antes de ele prosseguir. – Nos últim os tem pos você tem se ocupado principalm ente com docum entos, não é isso?
Niels balançou a cabeça, tentando dissim ular o fato de estar sem fôlego. Fingiu que respirava profundam ente para refletir sobre a situação.
– A coisa é m uito feia? – perguntou ele.
– Peter Jansson, vinte e sete anos. Está arm ado. É veterano da guerra do Iraque. Parece que até ganhou um a m edalha. Agora está am eaçando m atar toda a fam ília. Um colega do exército está vindo para cá. Talvez ele convença o cara a soltar as crianças antes de estourar os m iolos.
– Pode ser que a gente consiga tam bém convencê-lo a não estourar os m iolos – respondeu Niels com um olhar duro para Leon. – O que você acha?
– Quando é que você vai encarar a realidade, Bentzon? Alguns caras sim plesm ente não valem o dinheiro. Um a pena de prisão, pensão por incapacidade, essas coisas.
Niels ignorou a crítica de Leon.
– E o que m ais, Leon? Com o é o apartam ento?
– Duas salas na frente. A porta abre direto na prim eira sala, não tem hall de entrada. Parece que ele está na sala da esquerda. Ou no quarto do fundo. Ele j á disparou uns tiros. Nós sabem os que estão com ele duas crianças e a m ulher dele. Ou ex-m ulher. Ou então só um a criança e um a filha adotiva.
Niels olhou para Leon com um ar inquiridor.
– É isso. A história varia dependendo do vizinho com quem a gente fala. Você vai entrar?
Niels fez que sim com a cabeça.
– Infelizm ente ele não é totalm ente idiota.
– O que é que você está querendo dizer?
– Ele sabe que só tem um j eito de ter certeza de que o negociador não está escondendo um a arm a ou um transm issor.
– Você está m e dizendo que ele quer que eu tire a roupa? – Suspiro profundo.
Leon deu a Niels um a olhar de solidariedade e assentiu com a cabeça.
– Se você não quiser fazer isso eu entendo. Podem os invadir o apartam ento.
– Não. Tudo bem . Já fiz isso antes. – Niels desafivelou o cinto.
No verão do ano seguinte Niels Bentzon com pletaria quinze anos no departam ento de hom icídios – os últim os dez anos com o negociador, que é o policial enviado durante situações em que há um refém ou alguém am eaçando se m atar. Eram invariavelm ente hom ens. As arm as sem pre apareciam quando o m ercado de valores entrava em queda livre e os econom istas anunciavam um a crise financeira. Niels se surpreendia ao descobrir quantas arm as as pessoas guardavam em casa. Revólveres da Segunda Guerra Mundial. Rifles de caça e espingardas com m ira, infalivelm ente sem licença.
– Meu nom e é Niels Bentzon. Sou policial. Não estou vestido, com o você pediu. Não estou com nenhum a arm a nem transm issor. – Cautelosam ente, Niels abriu a porta. – Você está m e ouvindo? Meu nom e é Niels. Sou policial e estou desarm ado. Sei que você é soldado. Peter, eu sei que é difícil tirar a vida de alguém . Estou aqui só para conversar com você.
Niels ficou im óvel na porta e ouviu. Nenhum a resposta. Apenas o m au cheiro de um a vida que tinha se desintegrado. Lentam ente seus olhos se acostum aram à escuridão.
Ao longe um vira-lata estava latindo. Durante vários segundos Niels teve de confiar no seu olfato: pólvora. Sem querer, ele tinha pisado num a caixa de cartuchos. Ele pegou um . Ainda estava quente. Niels decifrou a inscrição no fundo do m etal: 9 m m . Ele conhecia bem esse calibre. Três anos atrás tivera a honra de receber na coxa um a bala alem ã desse calibre, exatam ente. Na gaveta superior da escrivaninha de Kathrine, em casa, ele tinha escondido o proj étil que o cirurgião havia extraído dele. Um parabelo de 9 m m . O calibre m ais popular do m undo. O nom e “parabelo” vem do latim . Niels tinha visto na Wikipédia: Si vis pacem, para bellum. Se você quer a paz, prepare-se para a guerra. Esse era o lem a do fabricante alem ão, a Deutsche Waffen und Munitionsfabriken – a com panhia que havia fornecido m unição para o exército alem ão nas duas guerras. E que esplêndida paz foi o resultado.
Niels pôs a caixa de cartucho de volta no chão, onde a encontrara. Ficou quieto, recom pondo-se. Para poder prosseguir precisava se livrar daquela lem brança desagradável. Do contrário o m edo o dom inaria. O m enor trem or na sua voz deixaria nervoso o rapaz que m antinha o refém . Kathrine. Ele pensou em Kathrine. Ele precisava parar de fazer aquilo ou não seria capaz de continuar.
– Você está bem , Bentzon? – sussurrou Leon de algum lugar atrás dele.
– Feche a porta, Leon – respondeu Niels com voz áspera.
Leon obedeceu. Os faróis dianteiros dos carros que passavam em baixo na rua em itiam clarões através das j anelas, e Niels viu seu próprio reflexo no vidro. Pálido, am edrontado, nu e indefeso. Ele estava gelando.
– Estou de pé na sala do apartam ento, Peter. Meu nom e é Niels. Estou esperando você conversar com igo.
Niels estava calm o. Absolutam ente calm o. Sabia que a negociação poderia levar grande parte da noite, m as norm alm ente ele não precisava de tanto tem po. A coisa m ais im portante num a situação com reféns era descobrir no m enor tem po possível o m áxim o possível sobre a pessoa que m antinha reféns. Descobrir algo sobre o ser humano que havia por trás das am eaças. Som ente quando se vê a pessoa real há algum a esperança. Leon era um idiota. Só via a am eaça. E por isso term inava invariavelm ente atirando.
Niels procurou no apartam ento sinais do homem chamado Peter. Olhou as fotos na geladeira: Peter com a m ulher e duas filhas. Sob as fotos estava escrito com ím ãs: “Clara” e “Sofie”. Ao lado desses nom es ele leu: “Peter” e “Alexandra”. Clara – a filha m ais velha – era quase adulta. Talvez um a adolescente. Tinha aparelho nos dentes e espinhas. Era bem m ais velha que a caçula. Sofie não teria m ais de seis anos. Loira e delicada. Parecia com o pai. Clara não parecia nem com o pai nem com a m ãe. Talvez fosse filha de um casam ento anterior. Niels respirou profundam ente e voltou à sala.
– Peter? Clara e Sofie estão com você? E Alexandra?
– Cai fora – disse um a voz firm e do fundo do apartam ento. No m esm o instante o corpo de Niels cedeu ao frio e ele com eçou a trem er. Peter não estava desesperado. Estava determ inado. Era possível negociar com o desespero, m as com a determ inação era pior. Outra respiração profunda. A batalha não estava perdida. Descubra o que o sujeito quer. Essa era a tarefa m ais im portante de um negociador. E se não há nada que ele queira, aj ude-o a encontrar algo – não interessa o quê. A questão era fazer o cérebro com eçar a esperar. Naquele exato m om ento o cérebro de Peter se via nos seus últim os m inutos; Niels ouviu isso no tom confiante da sua voz.
– Você disse algum a coisa? – indagou Niels tentando ganhar tem po.
Nenhum a resposta.
Niels olhou em torno de si. Ele ainda não sabia do detalhe que poderia decidir a situação. O papel de parede tinha girassóis, grandes girassóis, do piso ao teto. Suas narinas detectaram outro cheiro, m isturado ao cheiro de m edo e de urina de cachorro. Sangue fresco. Os olhos de Niels localizaram a sua fonte no canto, enrodilhada num a posição que teria parecido im possível.
Alexandra tinha levado duas balas no coração. Só nos film es alguém teria se dado ao trabalho de sentir o pulso dela; na realidade ele via um buraco no coração e um a vida desperdiçada. Ela o estava olhando com olhos esbugalhados. Niels ouvia os soluços abafados de um a das filhas.
– Peter? Eu ainda estou aqui. Meu nom e é Niels...
Ele foi interrom pido por um a voz.
– O seu nom e é Niels e você é policial. Eu ouvi! E lhe disse para cair fora.
Um a voz profunda, decidida. De onde ela vinha? Do banheiro? Por que diabos Leon não tinha conseguido um a planta baixa?
– Você quer que eu vá em bora?
– Quero, droga!
– Infelizm ente eu não posso. Minha obrigação é ficar aqui até isso acabar. Não im porta o que acontecer. Eu sei que você entende isso. Você e eu, Peter... nós dois tem os um trabalho que exige a nossa perm anência, m esm o quando isso é im possível.
Niels ficou atento, ainda de pé ao lado do corpo de Alexandra. Ela apertava na m ão pedaços de papel. O rigor mortis ainda não havia se instalado, e não era difícil arrancar os papéis da sua m ão. Niels se levantou; ao lado da j anela se valeu das luzes da rua de Dortheavej . A carta era do departam ento de defesa. Um a dispensa. Palavras dem ais, cobrindo três páginas. Niels exam inou rapidam ente o seu conteúdo. Problemas pessoais ... instável ... incidentes lamentáveis ... oferta de ajuda e retreinamento. Por alguns segundos sentiu que tinha voltado atrás no tem po. Que estava se insinuando na últim a foto da fam ília. Im aginou a situação: Alexandra encontrou a carta. Peter tinha sido dispensado. Ele era a única fonte de renda da fam ília. Dispensado enquanto ainda estava tentando digerir toda a porcaria que tinha visto e feito quando servia ao país. Niels sabia que eles nunca conversaram sobre o assunto – os soldados do Iraque e do Afeganistão. Recusavam -se a responder às perguntas m ais óbvias: Você atirou em alguém ? Matou alguém ? Eles sem pre davam respostas evasivas. A razão disso não era sim ples? Os disparos feitos pelos soldados e que cortaram as veias e artérias e órgãos dos inim igos causaram quase o m esm o dano à alm a dos soldados.
Peter tinha sido dispensado. Ao partir para a guerra era um hom em de verdade, m as o que voltara era um a ruína. E Alexandra não podia lidar com aquilo. Sua principal preocupação eram as crianças; as m ães são sem pre assim . Um soldado atira, e um a m ãe pensa nos filhos. Talvez ela tenha gritado com ele. Dito que ele era incom petente, que as deixara na m ão. E então Peter fez o que lhe tinham ensinado: se os conflitos não podem ser resolvidos de m odo pacífico, atira-se no inim igo. Alexandra se tornara o inim igo.
Finalm ente.
Finalm ente Niels tinha o detalhe que poderia usar. Ele conversaria com Peter com o um soldado. Apelaria para o seu sentido de honra, para a sua m asculinidade.