O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 60 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 51

Entre a Cidade do Cabo e Khayelitsha – África do Sul

A m aioria das pessoas que foram à África conversou depois sobre o fenôm eno, especialm ente aquelas que tinham penetrado bem no interior. Longe dos turistas, da cobiça e das inevitáveis equipes de televisão europeias que queriam fazer film es sobre todo aquele sofrim ento. “Era um a questão de entrar em acordo com a m orte.” No interior – a artéria que batia tão ferozm ente para os seres hum anos aos quais era perm itido se arrastar para fora do atoleiro – era possível sentir as próprias origens da espécie hum ana. Em bora a cor original tenha sido clareada, foi dali que nós viem os. Podia-se sentir isso. A terra. O lar assum ia um significado totalm ente novo.

A prim eira vez que Kathrine foi à savana ela chorou. Chorou com o um a filha que tinha voltado à casa paterna para ser abraçada. Estava pronta para m orrer ali. Marc não se sentiu do m esm o m odo. Ele tinha crescido na África. Adorava o lugar, m as não estava pronto para m orrer. Por isso tinha contratado guarda-costas para acom panhá-los. Três zulus chegaram à tarde. Com largos sorrisos. Rindo alto do que quer que Kathrine lhes dissesse.

Eles tinham m etralhadoras e espingardas. Bobby, Michael e Andy. Todos os africanos tinham nom es diferentes para diferentes situações, exatam ente com o os artistas europeus e am ericanos. Um nom e para os brancos e o seu nom e real, que eles nunca revelavam . Não gostavam que lhes perguntassem .

– Khay elitsha?

– Isso.

– Por que a senhora quer ir lá? – perguntara um deles, rindo novam ente. – Lá não tem nada, não tem nada – ele ficava repetindo.

– Isso é realm ente necessário? – indagou Kathrine quando Marc pôs um a pistola no porta-luvas da picape em poeirada.

– Kathy. – Ele se voltou para ela com um sorriso. Ela não gostava de ser cham ada de Kathy. – Nós não estam os na pacífica Escandinávia. Isto aqui é a África do Sul. Você precisa de um a arm a. – Ele tinha provavelm ente os dentes m ais brancos do m undo inteiro.

– Mas... – Ela se calou. Algo na expressão dele a fez hesitar. Ele nem precisava dizer em voz alta. Ela sabia o que ia pela sua cabeça. “Mas o que um a m ulher m im ada de um país de conto de fadas com o a Dinam arca sabe sobre isso?”

 

Os zulus os seguiam de perto no seu veículo, e Marc não os perdia de vista, olhando no espelho retrovisor.

– Um assassinato, hem ? – disse ele.

Kathrine sorriu e encolheu os om bros.

– Eu sei. Assassinato é o que m ais acontece na África do Sul. – Ela acendeu um cigarro. Um a coisa era boa na África: podia-se fum ar até m orrer sem encontrar um a m uralha de olhares de censura. Ali a m orte fazia parte da vida. A m orte estava presente de um m odo totalm ente diferente daquele a que estam os acostum ados. Conosco é quase um a surpresa quando a m orte um dia aparece e bate na porta. Com o se nunca pensássem os que um dia a festa acabaria.

Muita vida e m uita m orte. Assim era a África. Na Dinam arca era exatam ente o contrário. As pessoas não viviam de verdade. E oficialm ente a m orte não existia. Tudo o que restava era um a existência em que um dia se seguia a outro e ninguém percebia de fato.

Ela tossiu. Os cigarros locais eram fortes. Tinha sido um dia cansativo. Reuniões. Ligações telefônicas interm ináveis. Naquela m anhã ela havia encontrado cento e nove e-mails não respondidos na caixa de entrada do seu correio eletrônico. No dia seguinte seria a m esm a coisa.

– Em que lugar de Khay elitsha? – A voz de Marc era rude e m asculina. Esse era um ponto positivo.

Ela lhe entregou um bilhete com as coordenadas do GPS e um endereço aproxim ado. Fora preciso um grande esforço – e a aj uda dos especialistas em tecnologia de inform ação da em presa – para converter as coordenadas do GPS de Niels em um endereço real.

– Tudo bem . – Ele lhe dirigiu um sorriso indulgente. Ele era tudo o que Niels não era. Marc não tinha lados ocultos, seu hum or não m udava sem explicação, não havia abism os m entais em que ela caía. Ele era apenas Marc. Extrem am ente agradável e ligeiram ente enfadonho.

Eles rodaram por um a rodovia de doze faixas com um asfalto negro brilhante que tinha sido recém -aplicado. Marc bebericava um café e ligou o rádio, m as depois m udou de ideia e desligou-o. Kathrine olhou para trás. No outro veículo Andy acenou e lhe dirigiu um sorriso largo. A tem peratura lá fora era de vinte graus e m eio e o ar estava m uito seco, cheio de gases de escapam ento, poeira e areia, soprada das vastas savanas até ali. Guindastes se elevavam no horizonte, com o se a poluição tivesse provocado um a m utação nas girafas da África, que atingiram alturas grotescas. Estrada em obras, trabalhadores suados m isturando terra e cim ento, sons de britadeiras e m áquinas de pavim entação, com pontes e pistas sendo reparadas e m elhoradas.

– Você conhece Bill Shankly ? – Marc avançou um sinal verm elho.

– Não.

– Um lendário j ogador de futebol de Liverpool. Um a vez ele disse qualquer coisa do tipo: “Algum as pessoas acham que o futebol é um a questão de vida ou m orte. Eu acho que esse tipo de atitude é desapontador. Posso garantir a todos vocês que ele é m uito m ais im portante que isso”. – Marc olhou para Kathrine e riu. – Se você vê o que está acontecendo na África do Sul agora, com a Copa do Mundo para com eçar daqui a apenas sete m eses, você tem de adm itir que Bill Shankly tinha razão. Quer dizer, só por causa de um a pequena bola de couro o m undo inteiro está se preparando para m udar. Pelo m enos externam ente – acrescentou ele.

Kathrine olhou pela j anela.

Num a transição im perceptível, a m oderna m etrópole ocidental estava agora cedendo lugar à grande cidade africana tão divulgada pela m ídia: favelas, desespero, lixo, calor e poeira. Era im possível dizer onde com eçava Khay elitsha. Eles tinham transposto de carro um a linha divisória invisível, e a partir daquele m om ento não havia m ais esperança. Tudo o que restara era a sobrevivência pela sobrevivência. A luta diária para encontrar algum a coisa para com er e beber e para evitar ser vítim a de algum crim e aleatório. Na África do Sul havia cinquenta m il assassinatos por dia. A cada trinta segundos um a m ulher era estuprada.