O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 84 de 137

Páginas do PDF

O Último Homem Bom

Capítulo 72

Hospital Nacional – Copenhague

15h04

Um novo corredor no universo aparentem ente infinito de corredores estéreis, portas fechadas e pessoas com j alecos.

– Perdão, onde fica o Departam ento de Pediatria? – perguntou Niels a um a enferm eira.

– À direita – respondeu ela.

– Obrigado. – Ele com eçou a correr.

Clínica Pediátrica – Copenhague

15h07

As crianças haviam se sentado em círculo na sala de recreação. Duas delas estavam doentes dem ais para se levantar, por isso suas cam as tinham sido levadas para a sala. Um j ovem com cam isa de xadrez verm elho estava sentado num a cadeira pequena dem ais para ele e tinha na m ão um livro. Acim a dele estava dependurado um cartaz que dizia: “conheça o autor da série de livros de horror infantis”.

– Onde é que você vai buscar todas as suas ideias para os m onstros? – perguntou um a criança quando Niels abriu cam inho e entrou. A enferm eira sentada no chão com um a garota de cinco anos no colo olhou contrariada para o intruso.

– Maria Deleuran? – indagou ele.

– Elas foram todas descansar enquanto as crianças ficam aqui conhecendo o autor.

– É urgente. Eu sou da polícia de Copenhague.

Nesse m om ento todas as crianças se viraram e olharam para Niels.

– Por que você não vai até a sala de descanso e pergunta se ela está lá? – A enferm eira se reclinou e apontou para o corredor.

Niels olhou para o relógio. Menos de m eia hora até as 15h37. Ele parou e esfregou os olhos. Não sabia dizer se era por causa dos rostinhos das crianças, m as se sentia arrasado com tanta inj ustiça. Crianças pequenas não deviam ficar doentes. Deve haver algum a falha na criação; aquilo era o tipo de coisa que levava um a pessoa a querer exigir de Deus um a explicação. Ou talvez fosse a sua tarefa que o arrasasse. Ele ia m alograr. Hannah tinha razão, era im possível. Um a nova ideia: talvez a sua reação fosse apenas um a m anifestação da personalidade m aníaco-depressiva que os outros lhe atribuíam . Será que ele estava em pleno episódio m aníaco? Ele se inclinou contra a parede para se apoiar enquanto tom ava fôlego. Talvez Hannah fosse m esm o louca, com o Som m ersted achava. Ou talvez fosse o contrário: talvez os assassinos fossem reais dem ais. E inexplicáveis.

A porta no final do corredor se abriu. Ele viu de relance um a loira sair rapidam ente e desaparecer. Só pôde ver as costas. Seria ela?

– Tudo bem . Você precisa se concentrar – m urm urou ele para si m esm o. As crianças estavam rindo de algum a coisa e Niels vislum brou o sol pela j anela. Os risos infantis espontâneos reacenderam a sua esperança. Ele se viu correndo novam ente. Virou num canto e ouviu as vozes das enferm eiras na sala de descanso.

– Maria Deleuran? – Sem resposta. As três enferm eiras continuaram conversando. Niels m ostrou sua identificação policial. – Estou procurando Maria Deleuran.

Elas pararam de conversar e se voltaram para encará-lo.

– Aconteceu algum a coisa?

– Ela está trabalhando? – indagou ele.

– Ela não está aqui.

Niels olhou para as outras enferm eiras. A m ais velha parecia conhecê-la m elhor, ou pelo m enos foi ela quem falou.

– Aconteceu algum a coisa?

– Você tem certeza de que ela não está aqui?

O olhar da enferm eira hesitou. Niels notou isso im ediatam ente.

– Você poderia ligar para ela?

– Posso tentar. – Sem se apressar, ela se pôs de pé. Seu traseiro tinha deixado um grande afundado na im itação de couro do sofá.

– Você poderia ser um pouco m ais rápida?

Ela olhou zangada para Niels. Um a m atrona velha. Dom inadora. Era evidente que as outras enferm eiras tinham m edo dela.

– Nós não som os obrigadas a fornecer núm eros de celular, na verdade.

– Eu não estou lhe pedindo para m e dar o núm ero. Você só precisa ligar para ela e dizer que a polícia de Copenhague está aqui e quer falar com ela.

– Mas ela j á foi em bora.

– Então por que ela não registrou a saída?

– Às vezes nós esquecem os. O que é que está acontecendo?

– Eu preciso lhe pedir para ligar para ela. Agora!

Espero que você não sej a casada, pensou Niels enquanto ela digitava o núm ero. E se for, eu tenho pena do seu m arido. Ele olhou em torno de si. Um quadro de avisos. Cartões-postais, horários de trabalho, fotos, bilhetinhos. Um a linda j ovem loira num a aldeia africana, cercada de crianças.

– Talvez eu possa aj udá-lo de algum a outra form a – disse a enferm eira velha.

Niels a ignorou enquanto retirava a foto.

– Esta é a Maria?

Ninguém respondeu. As enferm eiras se entreolharam . Nas costas da foto estava escrito: Estes são meus filhos. Espero que todas vocês estejam bem, aí no norte gelado. Tenho saudade da nossa farra na hora do café. O desenho de um rosto sorridente, seguido por: Amo vocês. Maria.

– Maria Deleuran?

– É.

– Ela tem filhos?

– Por quê?

– Maria Deleuran tem filhos?

Um silêncio inexplicável se instalou na sala.

– Não – disse a m atrona depois de algum tem po.

– A que horas ela saiu? Você tem certeza de que ela j á foi em bora? – Niels apontou para um a cadeira vazia com um j aleco dependurado no espaldar. – Aquilo é dela?

Um a das enferm eiras se levantou e lhe dirigiu um sorriso sim pático.

– Escute: a Maria saiu às duas da tarde. Ela trabalha no turno da m anhã. Você pode ver isso no horário de trabalho. – A enferm eira fez um sinal de cabeça apontando para o quadro de avisos. – Pode ser que ela tenha trabalhado um tem po extra, m as ela não está aqui, de qualquer form a. Eu teria prazer em levar um recado para ela.

A m atrona disse:

– Ela não está atendendo a ligação.

– Ela tem algum a am iga aqui? – perguntou Niels. – Costum a se encontrar com alguém depois do trabalho?

– Eu sou am iga dela.

Niels se voltou. Era a prim eira vez que aquela enferm eira falava. Ele leu o nom e no crachá: “tove fanø, er”.

– Ela passa m uito tem po com m ais alguém no hospital, Tove? É um lugar m uito grande.

– Acho que não.

– Am igos, am antes, talvez alguém que está ligado ao seu trabalho de aj uda hum anitária.

Tove parou para pensar e depois balançou a cabeça. Niels olhou para a m atrona. Ela deu de om bros, com um a cara m al-hum orada.

– Vocês todas gostam dela?

– O quê?

– Vocês têm filhos? Todas vocês?

Olhares confusos.

– Eu fiz um a pergunta.

Todas assentiram com a cabeça. Exceto a am iga de Maria. Tove estaria a m eio cam inho entre os quarenta e os cinquenta anos. Então ela levou as m ãos à barriga grávida.