O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 32 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 25

Aeroporto Kastrup – Copenhague

17 de dezembro, quinta-feira

É um dos aeroportos civis m ais antigos do m undo, construído num prado da periferia de Copenhague. O m ais bem preservado da Europa nos anos im ediatam ente posteriores à Segunda Guerra Mundial. Enquanto a m aioria dos dem ais aeroportos tinha sofrido pesados bom bardeios, a m ão protetora de alguém fora posta sobre Kastrup. Poderes superiores? Coincidência? Ou teria sido o resultado de um a política de colaboração com as forças de ocupação alem ãs?

– O senhor quer ficar no term inal de em barques internacionais?

– Isso. Por favor. Term inal 3. Estou com um pouco de pressa – disse Niels.

O penetrante sol de inverno nunca subia no céu a ponto de evitar ofuscar a vista dos m otoristas. Niels pôs os óculos escuros, que pretendia usar na África. Ergueu o olhar: um céu lindo, azul-profundo. Um Airbus estava decolando. Niels tentou reprim ir um a sensação crescente de náusea. Todo ano m ais de duzentos e sessenta m il aviões decolavam ou aterrissavam em Kastrup. Milhões de pessoas chegavam naquele aeroporto ou dele partiam . Niels havia lido todos os fatos. Conhecia as estatísticas. Sabia que quando saísse do táxi, o que aconteceria logo a seguir, ele deveria respirar aliviado porque a parte m ais perigosa da viagem havia acabado. Mas esse conhecim ento não tinha efeito terapêutico sobre ele. Pelo contrário.

– Se você tiver sorte o seu voo não vai atrasar. – O taxista parou o carro. – Minha prim a devia ter ido para Ancara ontem . Mas está sentada lá, esperando.

Niels apenas balançou a cabeça, olhando para o prédio de vidro e aço em form a de asa que assom ava diante dele. A conferência sobre o clim a estava causando m uitos atrasos nos voos. Durante os onze dias que ela duraria, Kastrup seria o incontestável centro de atividade do m undo. Até onde ele pudera se inform ar pela internet, seu voo estava no horário. A m aioria dos chefes de Estado j á havia chegado. Alguns deles inclusive j á haviam ido em bora.

 

Niels com eçou a transpirar logo que entrou na sala de em barque. Foi ao banheiro m asculino. Engoliu algum as pílulas e j ogou água fria no rosto. Olhou para si m esm o no espelho. Seu rosto tinha um a palidez m órbida. As pupilas dos olhos estavam grandes e sua expressão era tensa.

– O senhor está bem ?

Niels olhou para o espelho. Um hom em baixo e gorducho, do sul da Europa, com um ar am igável.

– Estou bem . Obrigado.

Durante um m om ento o hom em não se m exeu. O tem po suficiente para Niels ter vontade de lhe dizer que deixasse de encará-lo. Finalm ente o hom em foi em bora.

Mais água. Niels tentou controlar a respiração. Quase conseguiu, m as foi interrom pido por outra voz. Essa vinha de um alto-falante.

– Últim a cham ada para o passageiro Niels Bentzon, que viaj a a bordo do SAS Voo 656 para Paris, partindo às oito e quarenta e cinco. Em barque no Portão 11.

O fato de ele ter de m udar de avião em Paris não facilitava as coisas. Seria preciso passar duas vezes por aquele processo infernal.

Niels fechou os olhos. Procurou m udar de tática. Então tentou o oposto. Tentou se fixar no m om ento presente. Disse a si m esm o que era preciso se concentrar e agir com sensatez. Perm itir-se sentir o m edo, com batendo-o com bom senso e estatísticas. Milhões de pessoas estavam sem pre lá em cim a no céu. Meu Deus, tudo o que ele tinha de fazer era a m esm a coisa que elas faziam : sentar-se num avião, tom ar um a xícara de café, ver um film e, talvez dorm ir um pouco. Aceitar o fato – quem sabe até m esm o saborear a ideia – de que todos nós vam os m orrer. Mas isso não aj udou. Não era o avião nem a m orte que o assustavam . Era a ideia de sair de Copenhague.

Niels enxugou o rosto com um a toalha de papel, respirou fundo e tentou reunir coragem . Então saiu da sala de espera e se encam inhou para o portão de em barque. Atravessando a sala de em barque, quase deserta naquela hora, lhe ocorreu a im agem m ental de um condenado dando os últim os passos na direção do cadafalso. Ele concluiu que a execução seria preferível à entrada num avião.

 

***

– Obrigada. Boa viagem .

A aerom oça, transbordante de confiança, lhe deu seu m elhor sorriso profissional e a licença para entrar no avião. Ninguém prestou atenção nele. Nenhum olhar de censura porque ele havia chegado tão tarde. Estavam todos ocupados com seus próprios pensam entos. Niels encontrou seu lugar e se sentou. Tranquilo, olhou para a poltrona diante da dele. Tudo era ótim o. Ele estava sob controle. Sua respiração era quase norm al. Talvez as pílulas estivessem cum prindo seu papel, afinal de contas.

Então Niels viu suas m ãos, que ele pousara no colo.

Elas estavam se contraindo espasm odicam ente, com o se reagindo a um a carga elétrica. E a sensação com eçava a se espalhar. Ele sentia isso. Os espasm os foram subindo lentam ente pelos seus braços e om bros, chegaram ao peito e depois até o diafragm a. Todos os sons em torno dele desapareceram . Ele olhou em pânico à sua volta. Um a m enininha, de uns cinco anos, se virou para olhá-lo com um a fascinação infantil. Seus lábios estavam se m exendo. Ele a ouviu dizer:

– O que é que aquele hom em está fazendo, m am ãe?

Ele viu a j ovem m ãe silenciar a filha. Dizendo a ela que parasse de olhar para ele, que não lhe desse atenção.

Niels se levantou. Precisava sair. Agora.

Ele estava prestes a vom itar. E voltara a transpirar. Cam baleou pelo corredor com o se estivesse bêbado, m as fazendo o possível para dissim ular seu estado. Fez o que pôde para m anter a dignidade num a situação im possível.

– O senhor não pode sair do avião. – A aerom oça que o havia acolhido pouco tem po antes o olhava fixam ente. Seu sorriso estava um pouco m ais tenso.

Niels se recusou a parar. O avião estava balançando; os m otores tinham com eçado a funcionar.

– O senhor não pode... – Ela olhou sobre o om bro.

Um com issário de bordo veio correndo.

– Sinto m uito, m as o senhor precisa voltar para o seu lugar.

– Eu sou policial.

Niels continuou andando pelo corredor. Estava a poucos m etros da porta.

– O senhor ouviu o que eu disse? Preciso lhe pedir que volte para o seu lugar.

Ele pegou no braço de Niels. Calm am ente e em silêncio. Dem onstrando um a paciência adm irável. Niels o em purrou e agarrou a m açaneta da porta.

– Escute. – Novam ente o com issário de bordo. Continuava tentando ser paciente.

Niels m ostrou sua identidade policial.

– Polícia de Copenhague. Eu preciso sair do avião. – Sua voz trem ia.

Alguém m urm urou para o com issário de bordo.

– Vá cham ar o capitão.

– Eu preciso sair! – gritou Niels.

Silêncio absoluto. Todos os outros passageiros estavam de olhos fitos nele. O com issário olhava para ele. Talvez houvesse um a som bra de sim patia nos seus olhos.

Então ele concordou.

 

A rodinha da m ala havia entortado e Niels precisou lutar para que ela girasse na direção certa. Ele xingou baixinho. A localização da m ala e sua retirada do avião tinham levado um a eternidade. Os encarregados das bagagens deixaram bem clara a sua contrariedade com o trabalho extra por causa dele.

Niels finalm ente desistiu. Parou e carregou a m ala. Então encontrou um a m esa e se sentou para tom ar um a cervej a.

A cadeira era desconfortável. A náusea não havia passado de todo. Ele não estava com vontade de beber; só queria se sentir m elhor. Queria estar m orto. Por que ele não tinha podido ficar no avião? Queria ligar para Kathrine, m as a vergonha o estava contendo.

Outra cadeira, agora bem m ais confortável. Um assento adequado, proj etado para longos períodos de espera. Niels não se lem brava de ter m udado de lugar. Estava com o celular na m ão. Kathrine. “Am ada Kathrine. Eu não estou desistindo.”

Ela teria de se contentar com um a m ensagem de texto.

Ele olhou através das enorm es j anelas. Um Boeing 737 decolou da pista.

 

Passou-se m eia hora. Talvez m ais. Os aviões aterrissavam e decolavam . As pessoas partiam em viagem , outras chegavam . Em presários, turistas, políticos, j ornalistas, integrantes de diversas organizações am bientais. Niels os estudava. Alguns j á pareciam cansados e desestim ulados; outros estavam cheios de esperança e expectativa. Todos eles em m ovim ento. Indo de um lugar para outro.

Enquanto isso ele estava apenas sentado.

Ele se levantou e foi até a fila diante do balcão de passagens da Alitalia. Não estava pensando conscientem ente; seu cérebro havia parado. Tudo tinha se apagado. Todos os pensam entos sobre a viagem , todos os preparativos cuidadosam ente executados, todas as estatísticas. De que serviam agora? O que ele poderia fazer com tudo aquilo?

– Perdão, você é italiano? – indagou Niels em inglês. Ele estava tão surpreso com as suas palavras quanto o j ovem a quem se dirigira.

– Sim , sou.

– Você poderia falar no telefone para m im ? É urgente.

Niels não lhe deu tem po para responder, apenas digitou o núm ero no seu celular e o entregou ao hom em .

– Cham e Tom m aso di Barbara. Peça a ele para m e m andar por fax tudo o que ele tem sobre o caso. É para Niels Bentzon. O núm ero está aqui. – Niels apontou para o núm ero no seu cartão de visitas.

– Mas...

– Tudo!