O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 4 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 2

Hospital Suvarna – Mumbai, Índia

Três dias antes Giuseppe Locatelli tinha recebido um e-mail perguntando se ele poderia aj udar a localizar um econom ista indiano m orto recentem ente. Giuseppe não estava m uito interessado em atender ao pedido, m as, com o andava ansioso para ir em bora da Índia, im aginou que se fizesse um grande esforço para se desem baraçar dos seus afazeres, provavelm ente isso serviria com o um tram polim para um em prego m elhor em outra em baixada italiana. Talvez nos Estados Unidos. Esse era o seu sonho. Washington, d.c. Ou o consulado em Nova York, que lidava com tudo o que se relacionava às Nações Unidas. Qualquer coisa m enos aquelas ruas m alcheirosas. Então ele não hesitou em dizer sim .

 

Foi um a viagem longa e tediosa, m esm o tendo sido feita m uito cedo de m anhã. O táxi avançava lentam ente pela favela fervilhante de gente. Durante sua prim eira sem ana na Índia, Giuseppe havia aprendido a não olhar para os pobres. Evitava fazer isso, pois era assim que os visitantes de prim eira viagem acabavam cercados por um enxam e de m endigos. Mas m antendo os olhos fixos à frente e perm anecendo distante e frio eles o deixavam em paz. Na Índia precisam os ignorar a pobreza quando estam os na rua e esperar para chorar quando sozinhos. Do contrário a cena é capaz de nos destruir.

O táxi parou.

– Hospital Suvarna, senhor.

Giuseppe pagou o m otorista e desceu. Havia um a fila de pessoas diante do hospital. As filas estavam por toda parte no país. Filas na praia, filas na delegacia, filas diante de cada pequena clínica que tivesse um curativo e um pedaço de gaze. Giuseppe forçou seu avanço sem olhar no olho de ninguém . Sem assim ilar nada do que havia à sua volta.

Falou em inglês com a recepcionista.

– Giuseppe Locatelli. Da em baixada italiana. Tenho um a entrevista com o dr. Kahey.

 

O dr. Kahey não parecia aborrecido pela sobrecarga. Dava a im pressão de calm a e controle ao falar sobre a Sardenha, onde Giuseppe nunca havia estado, enquanto eles desciam para o necrotério. Giuseppe não pôde deixar de m anifestar sua adm iração pelo m édico tão atarefado.

– Tanta gente esperando lá fora. Com o o senhor consegue cuidar de todas aquelas pessoas?

– Elas não estão aqui para se tratar – disse o dr. Kahey com um sorriso com placente. – Não se preocupe.

– Então por que elas estão aqui?

– Vieram dem onstrar sua estim a.

– A quem ?

O dr. Kahey olhou Giuseppe com um ar surpreso.

– O hom em que você acabou de ver. Raj Bairoliy a. Você não notou que todos traziam flores?

Giuseppe enrubesceu. Não tinha visto nada. Fixara o olhar bem à sua frente, tem endo que, se olhasse para aquelas pessoas, elas o considerariam propenso à com paixão e lhe pediriam um a esm ola. Kahey continuou falando com seu cantar indiano:

– Bairoliy a foi um dos conselheiros m ais próxim os de Muham m ad Yunus, o inventor do m icrocrédito. O senhor conhece o sr. Yunus?

Giuseppe balançou a cabeça. Mas claro que ele j á havia ouvido falar do m icrocrédito – os em préstim os que tinham possibilitado a m ilhares e m ilhares de pessoas com eçar um negócio pequeno e inovador.

– Yunus recebeu o Prêm io Nobel da Paz em 2006 – disse o dr. Kahey enquanto puxava a gaveta com o corpo do econom ista m orto. – Mas o prêm io poderia ter sido dado tam bém a Bairoliy a.

Giuseppe assentiu com a cabeça. O m édico afastou o lençol. O econom ista m orto parecia em paz. Seu rosto era cinzento. Giuseppe se lem brou da cor do rosto da avó no velório dela. Então lim pou a garganta e disse que ligaria para a autoridade policial que o tinha m andado ali.

– Claro, claro.

Ele digitou o núm ero no celular. Responderam im ediatam ente.

– Tom m aso di Barbara? – perguntou ele.

– Si.

– Giuseppe Locatelli. Chiamero dall´ambasciata a Mum bai.

– Si. Si!

– Com o o senhor pediu, eu estou ao lado do corpo do sr. Raj Bairoliy a.

O hom em ao telefone pareceu agitado e com o se estivesse resfriado.

– As costas dele. Você está vendo as costas dele?

Giuseppe voltou-se para o m édico, que havia se afastado um pouco para fum ar.

– As autoridades italianas estão perguntando sobre as costas dele.

– Ah. Você quer ver a m arca. – Kahey deu de om bros e pôs o cigarro no peitoril da j anela. – Talvez você possa m e dizer o que é isso. – Ele deu a Giuseppe um olhar de encoraj am ento. – Você vai ter de m e aj udar.

Giuseppe ficou com o celular na m ão, sem saber ao certo o que fazer.

– Tem os de virá-lo de costas.

– Me ligue depois – ordenou o hom em ao telefone antes de desligar.

– Vam os. Não tenha m edo. Ele não vai m achucar ninguém . Vou contar até três. Pronto? – O dr. Kahey riu enquanto Giuseppe pegava no corpo. – Um , dois, três!

O corpo virou de costas abruptam ente, com um braço rígido dependurado. Giuseppe Locatelli olhou espantado para as costas do m orto. Um a m arca se estendia de um om bro ao outro.

– O que é isso? – indagou ele.