O Último Homem Bom
Seção 2141
Niels abriu a porta o suficiente para entrever o que estava acontecendo lá dentro. Viu que algum tipo de cirurgia estava em andam ento. Um a equipe de m édicos, enferm eiras e cirurgiões trabalhava concentrada. Um m ulher veio ao encontro dele.
– O senhor não deve fazer isso!
– Sou da polícia. Estou procurando Gry Libak.
– O senhor precisa esperar até a cirurgia acabar.
– Não, eu tenho de falar com ela agora.
– Estam os no m eio de um a operação! O que é que o senhor está pensando?
– Eu sou da polícia.
– Nenhum a pessoa sem autorização pode entrar aqui – interveio ela. – Nem m esm o da polícia. O senhor precisa ir em bora!
– Ela está aqui? Gry Libak? Você é Gry ?
– Gry acabou de sair. E agora o senhor precisa m esm o ir em bora. Ou registram os um a queixa am anhã.
– Saiu? Ela volta? Já term inou seu turno?
– Vou fechar a porta agora.
– Só m ais um a pergunta. – Niels pôs o pé na porta.
– Vou ter de cham ar a segurança.
– A vida dela corre perigo. Essa é a única razão pela qual eu estou aqui.
Os m édicos não tinham desviado o olhar do seu trabalho. Nem por um segundo. Mas então um deles olhou para Niels. Por um m om ento os únicos sons que se ouviram foram a m úsica de Mahler e o bip m onótono indicando que o paciente estava vivo. Ritm o significava esperança, um som constante significava m orte. Era assim . Um m édico com m áscara branca respondeu à pergunta de Niels.
– Você deve encontrá-la no vestiário. Estivem os trabalhando por doze horas a fio, por isso ela provavelm ente vai tom ar um banho dem orado.
– Obrigado. Onde fica o vestiário?
Niels deixou a sala cirúrgica enquanto a enferm eira dizia:
– Seção 2141.
Hannah chegou correndo.
– Niels!
– Spreckelsen foi um fiasco. Mas talvez Gry Libak...
– Onde?
– No vestiário. Seção 2141.
Niels olhou para o relógio. Sete m inutos.
Seção 2141
15h30
Vestiário fem inino. Longas fileiras de pequenos arm ários de m etal brilhante entrem eadas por bancos estreitos. Ninguém à vista.
Niels gritou:
– Gry Libak?
– Os nom es estão em ordem alfabética.
Niels parou um pouco para pensar. Eles deviam ter com eçado por ali. As pessoas sem pre escondem seus segredos pessoais e seus pecados no trabalho, onde não podem ser encontradas pelos entes queridos.
– Encontre o arm ário dela. Gry Libak.
– E depois?
– Depois o arrom be.
– Niels?
– Faça isso!
Os cadeados das portas estavam quase todos à m ostra. Hannah percorreu um a fileira. Jakobsen, Signe. Jensen, Puk. Klarlund, Bente. Kristoffersen, Bolette. Lewis, Beth. Libak, Gry. Ela pressionou a porta. Trancada.
Niels estava percorrendo o alfabeto de trás para diante. Fiola, Finsen, Ej ersen, Egilsdottir, Deleuran, Maria.
Ele tentou puxar a porta. Não, isso não funcionaria. Então ele deu m eia volta, procurando algum a ferram enta. Algo que pudesse... O cabo da vassoura! Ele tirou a vassoura do carrinho de lim peza, enfiou o cabo sob o cadeado e torceu. O cadeado cedeu facilm ente e caiu no chão com um estalo m etálico. Hannah estava de pé atrás dele, parecendo desesperada.
– Não consigo abrir.
– Tom e. Use isto para rom per o cadeado.
Hannah pegou a vassoura. Decididam ente, aquilo não era o forte dela.
– Ela está aqui! – gritou Niels.
– Quem ?
– Maria. A m ulher que nós não conseguim os encontrar. As roupas dela ainda estão aqui.
Um casaco, cachecol, sapatos. Maria estava no prédio.
No lado interno da porta do arm ário havia várias fotos e cartões-postais colados. Um a carteira artesanal africana de couro estava na prateleira. Num dos cartões-postais estava escrito: Você é um anjo, Maria. Deus a abençoe. Rwinkwavu Hospitals, Ruanda. Niels exam inou a foto. O perfil de um a linda loira.
– Eu vi você – m urm urou ele. – Eu vi você. – Ele se voltou para Hannah. – É ela. Tudo se aj usta.
– Olhe o tem po. Só tem os m ais cinco m inutos.
Niels não ouviu o resto dos protestos de Hannah. Ele j á estava correndo.
Ela ficou onde estava, olhando-o enquanto ele se afastava. O que ele lhe havia dito? Que as pessoas o consideravam m aníaco-depressivo? De qualquer m aneira “m aníaco” descrevia adequadam ente o seu com portam ento naquele m om ento.