O Último Homem Bom
Capítulo 8
O vento do m ar do Norte gem ia no hotel antiquado. Enquanto Niels e Hannah percorriam o corredor a cam inho dos quartos, ele im aginou que durante a noite o vento poderia em purrar com tanta fúria o hotel que o prédio acabaria em Copenhague. Ele deve ter dito isso em voz alta, porque Hannah riu e disse:
– É m elhor não fazer tanto barulho. Acho que j á é m uito tarde.
– Por que você está dizendo isso? – Só então Niels percebeu que tinha bebido dem ais. – Nós som os os únicos hóspedes.
Hannah parou e pegou a chave dela.
– Obrigada pela noite encantadora.
– Sou eu que devo lhe agradecer.
Havia algo m uito ponderado no m odo com o Hannah virou as costas para ele. Sem olhá-lo, ela perguntou:
– Você gostaria de entrar?
– O últim o desej o do condenado?
Ela se virou.
– Eu só pensei que podia ser consolador. Ou m aravilhoso. Você sabe o que eu quero dizer.
Niels fez um afago na face dela. Aquilo foi idiota. Se ele tivesse parado para pensar alguns segundos, encontraria pelo m enos dez coisas que seria preferível ele ter feito.
– Eu não acho que seria um a boa ideia – disse ele. – Durm a bem .
Ele não se m exeu. Tudo no corpo de Niels estava lhe dizendo para ir para o seu quarto – fora os pés.
– Você devia fazer um a coisa errada de vez em quando. – A voz dela o pegou desprevenido.
– O que é que você quer dizer?
– Você devia fazer algum a coisa ruim .
– Pode ser. Mas ir para o seu quarto com você não teria nada de ruim .
Niels fechou a porta atrás de si. Ouviu Hannah falar consigo m esm a no corredor. Fazer alguma coisa ruim, disse ela duas vezes antes de abrir a porta do quarto e entrar.
A m arca estava ficando m ais clara. Niels estudou suas costas no espelho do banheiro. Virou a cabeça o m áxim o que seu corpo perm itia, exam inando a pele inchada e averm elhada. Um tipo de erupção cutânea. Um a erupção com vontade própria. Ainda não se viam núm eros. Ainda?
Ele foi até a m esa e se sentou. Não conseguia dorm ir. O estado de sem iem briaguez e grande cansaço não lhe conferia a calm a necessária para adorm ecer. Ele ignorou a placa não fum e que viu na porta e acendeu um cigarro; depois contou quantos ainda restavam no m aço. Olhou à sua volta no quarto. Pensou em Hannah e na dolorosa perda que ela sofrera. Em Kathrine e no quanto ansiava por ela, que estava a m ilhares de m ilhas de distância. Aquilo era m ais intenso que quando ela estava bem diante dele. Tentou afastar de sua m ente esse pensam ento, m as ele não se m ovia. Dois cigarros depois ele viu a cena da últim a briga se desenrolar palavra por palavra no m eio do quarto. Viu os dois com toda a clareza: com o atores am adores, eles estavam na sua frente, gritando um com o outro. Sentiu-se a ponto de avançar com o um j uiz de boxe, gritar “Break” e depois m andar cada um para um canto diferente – ele para o m ar do Norte e ela para a Cidade do Cabo.
Algo o fez abrir a gaveta da m esa. Encontrou ali um catálogo telefônico local, um cartão-postal que nunca havia sido rem etido para a avó de alguém em Gudhj em . E um a Bíblia. Pegando o livro de capa preta, ele o folheou. Abraão, Isaac, Rebeca. Já fazia um a eternidade que ele não segurava nas m ãos um a Bíblia. Ele dependurou o coldre e a pistola no espaldar da cadeira. Parecia errado ter essas duas coisas tão próxim as um a da outra – um a arm a e um a Bíblia. Os Beatles vieram em seu socorro, com o som ente a m úsica popular é capaz, quando em oções contraditórias precisam ser resolvidas. Ele ainda estava m eio em briagado – na verdade m ais que m eio –, senão teria com eçado a cantar “Rocky Raccoon”.
Niels foi para a cam a e ficou deitado de costas. Fechou os olhos e com voz rouca ainda cantarolou um verso antes de flutuar na terra dos sonhos.