O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 59 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 50

Vesterbrogade – Copenhague

Um pedacinho da China tinha se introduzido entre duas loj as de roupas na Vesterbrogade.

O restaurante se cham ava O Bam bu Dourado. “Restaurante” era um eufem ism o para um lugar que tinha som ente um as poucas m esas de plástico, um a m inúscula cozinha aberta e na j anela um rosto com um sorriso tristonho, que os proprietários tinham tentado esconder atrás de um a palm eira de plástico. O inspetor do serviço de vigilância sanitária escrevera com tinta verm elha um com entário severo: “Precisa de m elhorias na higiene dos alim entos”. Niels tentava proteger da neve o toca-fitas quando entrou no estabelecim ento. Lá dentro estava quente. Alguém lhe havia dito que os asiáticos eram m uito educados. No entanto aqueles indivíduos pareciam ter esquecido isso, porque na cozinha estava acontecendo um a guerra. O chefe – o único que vestia terno – esbravej ava com a equipe da cozinha.

Niels lim pou a garganta sem nenhum resultado. Então avançou até um pequeno balcão com um a caixa registradora e depositou nele o toca-fitas. E esperou. Olhou em torno de si para plantas de plástico em vasos dispostos no peitoril das j anelas. Na parede um m apa da China. Um enorm e cartaz de propaganda da Olim píada de Pequim . Um cardápio: m acarrão, broto de bam bu, bolinhos prim avera, bife Kung Pao. Havia um televisor ligado e o program a que estava sendo transm itido falava da conferência sobre o clim a. Um hom em alto e corpulento, do grupo de ilhas de Vanuatu, no Pacífico Sul, tinha lágrim as nos olhos enquanto discursava contra os países industrializados – especialm ente a China – que exploravam o am biente. Suas palavras pareciam se dirigir a ouvidos m oucos, porque nas fileiras da frente havia m uita conversa. Alguns delegados finlandeses estavam disfarçando o riso a propósito de algo que os telespectadores desconheciam . A m aioria dos participantes da conferência parecia achar que o grupo das ilhas de Vanuatu e todos aqueles problem as não iam privá-los do seu sono em belezador.

– Eles querem pegar a gente.

Niels se voltou e viu o chinês m ais velho, num terno um pouco acim a do seu núm ero.

– Por que é que culpam sem pre a gente? – disse o hom em . – Sem pre é a China.A China leva a culpa de tudo. – Ele dirigiu a Niels um sorriso am argo. – O senhor quer um a m esa?

– Eu sou da polícia de Copenhague. – Niels m ostrou sua identidade policial. Procurou detectar algum a reação m ínim a no rosto do hom em , m as não viu absolutam ente nada.

– Preciso que m e traduzam isto. – Ele não deu ao hom em tem po para pensar antes de apertar o botão “Play ” no toca-fitas.

– O que é isso?

– O senhor pode m e dizer o que é que estão falando na fita?

Eles ouviram . A gravação durava cerca de um m inuto. Parecia um a conversa telefônica. Isso Niels j á havia im aginado. Um hom em ligando para um a m ulher. Aparentem ente ele estava pedindo aj uda. Sua voz denotava um pânico crescente.

A fita parou.

– O senhor entende o que eles dizem ?

– Ele está sofrendo. O hom em da fita.

– Isso eu consigo perceber. Mas o que é que ele diz?

– Ele está perguntando: “O que é que está acontecendo?” O senhor entendeu?

– Não. Quer dizer, entendi o que o senhor está m e dizendo, m as não o significado.

O hom em interrom peu Niels.

– Toque outra vez.

Niels voltou a fita. Então o gerente convocou alguém da equipe da cozinha. Um j ovem veio se j untar a eles, parecendo um tipo subm isso. Depois de um a conversa em chinês, o gerente apertou o botão “Play ”.

– Mais alto – disse o gerente.

Niels aum entou o volum e. Era difícil fazer o som da fita se superpor ao barulho que vinha da cozinha.

– O senhor entende o que eles estão falando? – indagou ele.

O j ovem traduziu. E então o gerente traduziu para o dinam arquês o que ele havia dito.

– O hom em da fita está dizendo: “O que é que está acontecendo? Está tão quieto. Meu Deus. O que é que está acontecendo com igo? Está tão quieto. Vênus.E a Via Láctea”.

– Vênus e a Via Láctea? – Niels rebobinou novam ente a fita para ouvi-la m ais um a vez. Não havia silêncio na fita. Pelo contrário. No fundo um sino estava batendo; ouviam -se vozes altas e sons de trânsito.

– Tem m uito barulho. Não está quieto de m odo algum . Você tem certeza de que é isso que ele está dizendo?

– É isso m esm o. Ele é de Pequim – disse o gerente, dando m ostras de ter perdido o interesse naquela conversa que não tinha nada a ver com ele.

– Então ele está conversando sobre com o está quieto apesar de haver m uito barulho?

Niels dirigiu a pergunta para o hom em m ais j ovem , que respondeu num dinam arquês um tanto m acarrônico.

– É o que ele diz. “O que é que está acontecendo? Está tão quieto. Meu Deus. O que é que está acontecendo com igo? Está tão quieto. Vênus. E a Via Láctea.”

Niels se perguntou por que Tom m aso achara tão im portante ele ouvir aquela fita.

Está tão quieto.