O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 25 de 137

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O Último Homem Bom

Porão da Helligåndskirke – Copenhague

No final de contas os parafusos da j anelinha do porão tinham sido afrouxados e no chão havia um a seringa usada. Niels j ogou a seringa num a lata de lixo. Ele não chegava a ser louco por sangue de outras pessoas. No espaço entre duas pedras do pavim ento ele encontrou tam bém um parafuso. Pegou-o e experim entou enfiá-lo na dobradiça da j anela. Serviu perfeitam ente. Um dos policiais j ovens estava de pé ao lado dele.

– Você revistou o suj eito? – perguntou Niels.

– Revistei.

– Encontrou um a chave de fenda?

– Não.

Niels lhe m ostrou o parafuso.

– Portanto não foi ele que tirou o parafuso da j anela. Além disso, ele não tem a força necessária para fazer isso.

O policial deu de om bros. Não ligava a m ínim a para aquilo. Então disse:

– Se é só isso, eu vou levar o suj eito para a delegacia.

Niels não estava prestando atenção. Pensava na tatuagem do drogado. Por que um tipo com o aquele, que tinha um a enorm e dificuldade para arranj ar diariam ente as m il coroas de que precisava para sustentar o seu consum o de droga, gastaria dez m il num a tatuagem nova?

Porão da Helligåndskirke – Copenhague

Rosenberg se parecia m uito com a versão dele próprio que Niels havia visto na televisão. Um hom em alto, corpulento, calvo, com um a postura ligeiram ente recurvada. Seu rosto era redondo com o um sol sorridente de desenho infantil. Mas por trás das lentes grossas dos óculos um a grande solenidade se ocultava nos seus olhos fundos.

– Acontece algum as vezes por ano – disse Rosenberg.

Eles estavam de pé no porão sob o escritório da igrej a. O espaço era praticam ente vazio. Poucas cadeiras, algum as caixas de papelão em poeiradas, um a pilha de panfletos num a estante. Nada m ais.

– Os drogados e m oradores de rua sem pre im aginam que a nossa caixa de coleta está repleta de dinheiro. Mas de fato estão ficando m ais ousados. Isso norm alm ente acontece à noite. Nunca em plena luz do dia.

– O senhor não viu nada suspeito? Alguém andando furtivam ente por aí?

– Não. Eu estava lá em cim a no m eu escritório. Respondendo a todos os e-mails raivosos, essas coisas, e repassando todos os detalhes da últim a reunião do conselho da nossa paróquia. Vou poupar você dos detalhes.

Niels olhou atentam ente o pastor. Ele sorriu. As pessoas sem pre falam para a polícia m ais do que esta lhe pergunta.

– Está faltando algum a coisa?

Com um a expressão resignada, Rosenberg passou os olhos pelos bens terrenos da igrej a. Cadeiras dobráveis, caixas de papelão. Coisas que são em pilhadas e em seguida esquecidas.

Niels esquadrinhou a sala.

– Atrás daquela porta tem o quê? – Ele não esperou a resposta; foi até lá e abriu a porta. Viu-se olhando para um quartinho escuro. As luzes fluorescentes dem oraram a acender. Mais m esas e cadeiras dobráveis. E, num canto, um a pilha de colchões velhos.

– É aqui que eles viviam ? – indagou Niels, virando-se.

Rosenberg se aproxim ou.

– Você vai m e prender por isso agora?

Algo que podia ser um a crítica da polícia despontou nos olhos de Rosenberg. Ele havia transform ado um a parede úm ida de porão num a galeria: fotos em branco e preto dos dias que os refugiados tinham passado na igrej a. Um testem unho. Niels olhou para os rostos. Medo. E esperança. A esperança que Rosenberg lhes havia dado.

– Quantos eram ?

– Doze, no grupo m ais num eroso. Isto não é exatam ente o Hotel d’Angleterre, m as eles nunca reclam aram .

– Palestinos?

– E som alis, iem enitas, sudaneses. Até um albanês, um único. Se é que eles estavam dizendo a verdade. Alguns não eram particularm ente falantes quando o assunto era esse. Certam ente eles tinham as suas razões.

Niels estudou o pastor. Eles estavam a apenas centím etros um do outro, m as a distância parecia m aior. Um escudo invisível envolvia Rosenberg. Seu espaço pessoal parecia m ais forte que o das pessoas em geral. Ele perm itia que os outros chegassem até ali, e não m ais perto. Isso não surpreendia Niels. Ele j á havia se deparado várias vezes com algo sem elhante em outras pessoas que ganhavam a vida oferecendo proxim idade e atenção. Psicólogos, psiquiatras, m édicos. Provavelm ente era um m ecanism o inconsciente de sobrevivência.

Rosenberg apagou a luz. Niels se viu im erso na total escuridão.

– É assim que eu conto aos m eus alunos com o foi a noite em que a polícia veio aqui. E com o os refugiados se agarravam uns aos outros. Alguns estavam chorando, m as eles eram coraj osos, m esm o sabendo o que os esperava. Eu conto para os m eus alunos com o os seus colegas arrom baram a porta da igrej a e com o se ouvia o som das botas pesadas avançando pelo piso da igrej a e descendo a escada.

Niels ficou ali escutando a própria respiração.

– Mas eles não entraram ?

– Não. Seus colegas não entraram aqui. Vocês desistiram .

Niels sabia perfeitam ente que quem tinha desistido não havia sido a polícia. Foram os políticos que haviam cedido à pressão da opinião pública. Rosenberg voltou a acender a luz, e Niels olhou novam ente para as fotos, tentando im aginar com o teria sido.

– Não são m ais de doze nessa foto? – Niels contou. Era evidente que havia m ais refugiados naquela foto que nas dem ais. Rosenberg estava de pé no portal. Ele queria que Niels saísse dali.

– Sim , você tem razão. Alguns deles desapareceram .

– Desapareceram ?

De repente Niels notou que Rosenberg estava hesitante.

– Sim , desapareceram . Dois hom ens do Iêm en. Eles sim plesm ente foram em bora.

– Por quê?

– Não sei. Im agino que eles queriam tentar a sorte por conta própria.

Niels soube im ediatam ente que Rosenberg estava m entindo.

 

A igrej a estava totalm ente vazia. Quase totalm ente, na verdade. Um organista estava estudando um a peça, repetindo-a sem parar. Rosenberg não parecia estar preocupado com a inform ação que Niels lhe dera.

– Pessoas boas, é isso? Que tipo de pessoas boas? – perguntou ele.

– Ativistas dos direitos hum anos, trabalhadores em aj uda hum anitária, esse tipo de gente – disse Niels.

– Que m undo é esse? Agora as pessoas boas estão sendo m ortas?

– O senhor só precisa ter cuidado com quem entra aqui. Fique vigilante.

O pastor deu a Niels um a pilha de hinos para que ele segurasse.

– Eu não tenho m edo. Não corro perigo. – A sim ples ideia fez Rosenberg rir, e ele repetiu. – Com certeza não corro perigo de ser considerado um a pessoa boa. Eu lhe garanto isso. Sou um pecador.

– Eu tam bém não acho que o senhor estej a correndo perigo, m as m esm o assim deve ter cuidado.

– Um a vez um hom em procurou Lutero.

– O hom em que nos tornou protestantes?

– Isso, esse m esm o. – Rosenberg voltou a rir, olhando para Niels com o se ele fosse um garoto. – O hom em disse para Lutero: “Eu tenho um problem a. Já pensei m uito nele, e quer saber um a coisa? Eu nunca pequei. Nunca fiz nada que não devia fazer”. Lutero olhou para o hom em . Você adivinha o que ele disse?

Niels se sentiu num a aula de crism a da sua j uventude. Não era um a lem brança agradável.

– Que ele era um hom em de sorte?

Triunfante, Rosenberg balançou a cabeça.

– Não, ele disse que o hom em precisava com eter um pecado. Que Deus existia para salvar os pecadores. Não para os que j á estavam salvos.

O organista parou de tocar. Alguns turistas entraram na igrej a e estudaram seu interior com um a curiosidade com pulsória. Era evidente que Rosenberg ainda queria dizer outras coisas para Niels, m as ele esperou o eco do órgão se dissipar a cam inho do teto.

– Os j udeus têm um m ito sobre as pessoas boas. O senhor conhece esse m ito?

– Eu nunca tive m uito interesse por religião. – Niels viu com o a sua frase tinha soado, então acrescentou com o um pedido de desculpa: – Em bora não devesse dizer isso a um pastor.

Rosenberg prosseguiu com o se Niels não tivesse dito nada, parecendo estar de pé no púlpito num a m anhã de dom ingo.

– Tem a ver com as trinta e seis pessoas boas que m antêm vivo o resto da hum anidade.

– Trinta e seis? Por que trinta e seis?

– Cada letra do alfabeto hebraico tem um valor num érico. As letras que com põem a palavra “vida” totalizam dezoito. E assim , dezoito é um núm ero sagrado.

– E dezoito m ais dezoito são trinta e seis. Isso significa duas vezes sagrado?

– Perfeito para alguém que não se interessa m uito por religião.

Niels sorriu, sentindo um orgulho pueril.

– Com o foi que descobriram isso?

– O que é que o senhor quer dizer?

– Com o foi que se soube que Deus tinha posto trinta e seis pessoas aqui na terra? – Niels conteve um sorriso de descrença.

– Ele falou com Moisés sobre isso.

Niels ergueu o olhar para as enorm es pinturas. Anj os e dem ônios. Mortos se arrastando para fora da sepultura. O Filho de Deus pregado num a cruz de m adeira. Niels tinha visto m uita coisa nos seus vinte anos de polícia. Dem ais. Percorrera Copenhague de cabo a rabo buscando indícios e m otivações para crim es; tinha procurado em cada canto escuro e sinistro da alm a hum ana e descoberto coisas cuj a m era lem brança o deixava nauseado. Mas nunca vira um a som bra de indício de que havia qualquer tipo de vida depois da m orte.

– Sinai. Moisés subiu a m ontanha e recebeu os m andam entos. Nós ainda vivem os a vida de acordo com o que ele ouviu de Deus. A ponto de, na verdade, os term os convertido em lei. Não m atar.

– Isso não conteve ninguém .

Rosenberg deu de om bros e continuou.

– Am ar o próxim o. Não roubar. Tenho certeza de que você conhece os Dez Mandam entos.

– Sim , claro.

– Na realidade o seu trabalho é cuidar para que os Dez Mandam entos de Deus sej am observados. Assim , talvez você estej a m ais envolvido no grande plano do que im agina. – Rosenberg provocou Niels, sorrindo. Niels não pôde deixar de sorrir tam bém . O pastor era inteligente. E experiente. Tinha anos de treinam ento em com o lidar com descrentes.

– Pode ser – respondeu Niels. – Mas o que foi que Deus disse a Moisés?

– Ele disse que em cada geração poria na terra trinta e seis pessoas boas, j ustas, para tom ar conta da hum anidade.

– Eles devem sair por aí fazendo proselitism o ou o quê?

– Não. Porque eles não sabem que foram escolhidos.

– O senhor quer dizer que as pessoas boas não sabem que são boas?

– Isso m esm o. Elas não sabem que são boas. Som ente Deus conhece a sua identidade. Mas elas ficam de vigília sobre todos nós. – O pastor perm aneceu em silêncio por um tem po. – Com o eu disse, isso é m uito im portante na fé j udaica. Se você quer falar com um especialista, vá até a sinagoga em Kry stalgade.

Niels consultou o relógio e pensou em Kathrine, nos tranquilizantes e no avião que ele devia tom ar no dia seguinte.

– Isso é m esm o tão inim aginável? – prosseguiu o pastor. – A m aioria de nós adm ite que o m al existe no m undo. Indivíduos m aus. Hitler. Stálin. Então por que não o oposto? Trinta e seis pessoas que oferecem um contrapeso para a balança divina. Quantas gotas de bondade são necessárias para m anter o m al sob controle? Só trinta e seis, talvez.

O silêncio caiu sobre eles. Rosenberg tom ou das m ãos de Niels os hinos e colocou-os de volta no lugar na estante próxim a da saída. Niels trocou com o pastor um aperto de m ãos. Era a prim eira pessoa da relação com quem ele tinha querido trocar um aperto de m ãos. Talvez o espaço sagrado da igrej a estivesse exercendo um efeito sobre ele, afinal de contas.

– Com o eu disse: só acho que o senhor deve ser um pouco cauteloso – repetiu Niels.

Rosenberg abriu a porta para ele. Lá fora havia um a m ultidão agitada. Música natalina, sinos repicando, carros, barulho – um m undo enfurecido, caótico. Niels olhou nos olhos do pastor, perguntando-se qual teria sido a m entira dele lá no porão.

– No seu necrológio para Gerald Ford, Kissinger disse que o presidente m orto tinha sido o últim o hom em bom . Alguém tam bém disse o m esm o sobre Oscar Schindler. Ou foi Gandhi? Ou Churchill?

– Churchill? Você pode m andar as pessoas para a guerra e ainda assim ser considerado bom ?

Rosenberg fez um a pausa para pensar nisso.

– Podem surgir situações em que fazer o m al é o certo. Mas aí você deixa de ser bom . É disso que o cristianism o trata: de poderm os viver uns com os outros som ente quando aceitam os o pecado com o parte da condição hum ana.

Niels olhou para o piso da igrej a.

– Estou vendo que o am edrontei. Os pastores são bons nisso. – Rosenberg riu am avelm ente.

– Tenho o núm ero do seu telefone – disse Niels. – Assim , vou saber se o senhor m e ligar no m eu celular. Prom eta que m e ligará se acontecer algum a coisa.

 

Niels voltou para o carro. Parou ao lado da j anela do porão da igrej a. Algum a coisa não se encaixava. A j anela do porão. O drogado. A tatuagem . Rosenberg m entindo para ele. Um a porção de coisas não se encaixava, pensou ele. Mas as coisas nem sem pre têm de parecer lógicas. Era isso que envenenava o trabalho do policial. As pessoas são m entirosas. A questão era descobrir qual m entira encobria não só um pecado m as um crim e.