O Último Homem Bom
Khayelitsha – África do Sul
Marc parou o carro e esperou alguns segundos até o veículo com os guarda-costas voltar a ficar bem atrás deles. As ruas estavam se estreitando, as casas eram m enores: cabanas, galpões feitos de lata ondulada, casas de pau a pique, calham beques em poeirados e cachorros por toda parte. Com o rabo entre as pernas, eles seguiam m ancando, rosnando e visivelm ente sedentos. Em Khay elitsha as crianças não brincavam . Isso foi um a das prim eiras coisas que Kathrine observou. Elas apenas ficavam nas ruas, olhando e fum ando cigarro. Um garoto chutava um a bola de futebol. Sua cam iseta costurada em casa tinha nas costas o nom e MESSI. Um a m ulher estava gritando com os filhos. Eles não lhe davam atenção. O que m ais incom odava Kathrine era o lixo. Havia lixo por toda parte. Garrafas de Coca-Cola. Latas. Sacolas plásticas, pneus de carro, em balagens descartadas. O fedor de poeira, calor, urina e desesperança inevitavelm ente penetrava no carro.
Marc seguiu o GPS, virando prim eiro à direita e depois à esquerda. A poeira cobriu im ediatam ente o para-brisa com o um a película m arrom que em prestava a tudo um ar de irrealidade.
Kathrine costum ava evitar ao m áxim o os locais pobres da cidade, o que fez da África do Sul um lugar agradável para a sua estadia. Durante os prim eiros m eses ela passava o tem po no escritório, no hotel e em restaurantes e cafés do centro financeiro da cidade. Ela quase conseguia esquecer onde estava. Poderia ser Nova York ou Londres durante um verão quente.
Marc estava falando de um dos seus colegas, que ele considerava um idiota. Kathrine ouvia só com m eio ouvido. Quando ele m udou de assunto, ficou evidente que ela não estivera prestando atenção.
– Kathy ?
– Oi.
– E hoj e à noite? – Ele parou o carro e olhou para ela. – Eu conheço um restaurante indiano m uito bom .
Kathrine lhe devolveu o olhar. Marc acabara de convidá-la para um encontro rom ântico. Havia sem anas ele ensaiava essa investida. Ela sabia que isso ia acontecer; tinha esperado esse convite, m as ainda assim foi pega de surpresa. Ele sorriu. Aqueles dentes brancos. Seu sorriso dizia que no convite havia m ais que um j antar num restaurante. Kathrine não tinha dúvida de que se aceitasse acabaria indo para a cam a com ele. Marc estava lhe oferecendo o pacote com pleto. Com ida, bebida e sexo. Ela queria dizer sim . Seu corpo queria dizer sim . Ela sentia um a im pressão de calor no fundo do estôm ago.
– Por que você está parando? – indagou ela.
Ela havia esperado que ele lhe exigisse um a resposta. A ideia de que ela precisaria dar essa resposta a estava instigando agradavelm ente. O colarinho da cam isa dele estava desabotoado, revelando um peito bronzeado, m usculoso. Assim , talvez ela tenha ficado um pouco desapontada quando Marc aceitou a sua indecisão e sim plesm ente disse, enquanto apontava para o GPS:
– Estam os aqui.
Kathrine não sabia o que tinha esperado encontrar, m as não havia nada especial naquela m oradia, fora o seu isolam ento em relação ao restante da favela – a casa estava sozinha num raio de vários m etros quadrados. Pilhas de lixo form avam um a fronteira que separava a favela do início da natureza.
Ela achou que Marc tinha lido errado o GPS. Por que Niels a faria ir até aquela casa – aquele barracão insignificante no m eio de um a favela interm inável, com m ilhões de outras casas? Deve ter havido algum engano. Por outro lado, a única coisa que ela sabia sobre a casa era que, pelo j eito, em j ulho havia acontecido um assassinato dentro dela. Niels não lhe tinha contado nada m ais, m as por que isso não seria plausível?
Marc ficou no carro. Os três guardas tinham descido do carro e um deles ficou alguns m etros atrás de Kathrine.
Ela atravessou a rua, que era pouco m ais que um a faixa de terra irregular e seca. A porta parecia ter vindo de um arm ário velho e fora posta ali apenas para m anter as aparências. Muitos j ovens estavam chutando um a bola de trapo fora da casa. Um deles gritou:
– Vai se foder, branquela! – e riu com os outros. Andy gritou algo em zulu, m as parece que isso não am edrontou os m eninos.
Kathrine bateu na porta e esperou. Não aconteceu nada. Ela bateu novam ente. Receava quebrar a porta. Por fim um a velha desdentada a abriu e ficou olhando para Kathrine com o se ela fosse ar.
– Olá – disse Kathrine dando-se conta de que não tinha a m enor ideia do que dizer. – A senhora m ora aqui? – Sem resposta. Kathrine percebeu que a m ulher era praticam ente cega. Seus olhos estavam cobertos por um a som bria nuvem cinzenta. Muita gente na África era cega. – A senhora fala inglês?
Kathrine j á ia se virar para cham ar Marc quando a m ulher disse em inglês:
– Meu filho não está em casa.
– Seu filho?
– Eu estou tom ando conta da casa.
– Tudo bem . – Kathrine esperava que a m ulher a convidasse para entrar, m as isso não aconteceu. – Eu vim aqui para descobrir se... Meu nom e é Kathrine. Eu não sou da África do Sul. – Ela j á havia notado que norm alm ente essa frase costum ava ter um efeito positivo sobre a população local. Os europeus eram populares, ou pelo m enos m ais populares que outros brancos.
Som ente então o rosto da m ulher denunciou um a reação. Sob um dos olhos surgiu um tique nervoso. Ela ergueu a voz.
– Anistia?
Antes que Kathrine pudesse dizer que não, a velha pôs a cabeça para fora da porta com o se quisesse olhar em torno.
– Quantos vieram ?
– Meu colega está sentado no carro – disse Kathrine. – E conosco estão três guarda-costas.
– Já era hora de vocês aparecerem .
A velha deu m eia-volta e desapareceu dentro da casa. Se não fosse cega teria visto o grande letreiro pintado na lateral da Land Rover: dbb arquitetos. De dentro da casa ela cham ou:
– Entre, Anistia!
Algum as cadeiras bam bas, um a m esa e um a cam a m uito m al-acabada. Sobre a cam a um cartaz m ostrando o tim e de futebol sul-africano. Acim a dele haviam escrito na parede: “Bafana, Bafana. Deus está do seu lado”.
A velha ofereceu chá a Kathrine, servindo-lhe um a xícara antes que ela respondesse.
– Chá de rooibos. Faz bem – disse ela. – Lim pa a m ente. – Kathrine olhou para o líquido turvo na chávena.
– O que é que vocês estão pensando em fazer para tirar ele? – perguntou a velha. – Ele não m atou ela. Vocês entendem ? O que é que vocês vão fazer?
Kathrine engoliu com força. Eu preciso lhe dizer que não sou da Anistia Internacional, pensou ela. Mas em vez disso ela disse:
– Talvez fosse m elhor a senhora m e falar um pouco sobre o que aconteceu.
– Ele não m atou ela. A m ulher da fábrica. Ele é inocente, exatam ente com o o Mathij sen dizia.
– Quem ?
– O Mathij sen – repetiu a velha. Um leve sorriso passou pelos lábios dela e as rugas da sua sobrancelha pareceram relaxar quando ela pensou naquele Mathij sen. – Era um hom em bom . Ele nos aj udou.
A m ulher falava depressa e Kathrine tinha dificuldade em entender o que ela dizia.
– Mat... – com eçou Kathrine.
– Mathij sen. O advogado do m eu filho. Joris Mathij sen.
– E quem é ele? – perguntou Kathrine. – É ele que o seu filho é acusado de ter m atado?
– Não! Não! – A velha balançou a cabeça. – Mathij sen m orreu aqui, nesta casa. Ele queria nos aj udar.
– Eu não estou entendendo. O advogado m orreu aqui? Quando foi isso?
Antes que a m ulher com eçasse a contar a história, Kathrine foi buscar Marc no carro.
– A velha pensa que nós som os da Anistia Internacional – m urm urou ela. – Acho que nós não devem os tirar dela essa esperança.
Dentro da casa, Marc m eneou a cabeça educadam ente para a m ulher e quando viu que ela não enxergava a cum prim entou. Em bora fosse óbvio que a velha j á havia contado a história m uitas vezes, havia na sua voz um calor quando ela a narrava.
Seu filho, Benny, trabalhava num a fábrica de calçados em Durbanville. Mas atiraram nele e no tum ulto que se seguiu esfaquearam a filha do proprietário e ela m orreu. Foi assim que a velha descreveu os acontecim entos. Acusaram Benny de assassinato. Alguém cuj o nom e Kathrine não entendeu disse posteriorm ente que Benny estava a m uitos m etros da m oça, sendo im possível que ele a tivesse m atado. Era um a situação sem esperança para Benny. Ele não tinha dinheiro para contratar um bom advogado.
– Mas então apareceu o Joris Mathij sen.
Marc sabia quem era esse hom em . Ele era conhecido com o um dos cérebros que estava por trás da Com issão da Verdade e da Reconciliação, que trabalhou de 1995 a 2000 para expor as violações dos direitos hum anos ocorridas durante o apartheid. A com issão era totalm ente diferente dos outros tribunais, porque não estava interessada em punir as pessoas. Ela oferecia anistia para os crim inosos que estivessem dispostos a apresentar um relato com pleto do que tinham feito. Se dissessem a verdade, eles poderiam ficar livres. Com o Mathij sen – que estava havia m uito tem po longe das atenções do público – tinha chegado até Benny ninguém sabia. A velha não podia explicar isso. Ela só sabia que Benny e Mathij sen tinham se encontrado várias vezes na prisão e que Benny inclusive tinha ficado bem m ais esperançoso depois de se encontrar com o experiente advogado de defesa. No dia 24 de j ulho, Mathij sen foi a Khay elitsha visitar a casa onde Benny passara a infância. Ele bebeu chá com a velha e lhe prom eteu tirar Benny da prisão.
– Ele prom eteu. Vocês entendem ?
Quando j á estava indo em bora, o advogado viu um a som bra passar pelo pátio no fundo da casa. Inicialm ente ele ia ignorá-la, m as depois resolveu investigar. A velha ficou dentro da casa. Passaram -se m uitos m inutos. Ela não ousou sair da casa. Mas finalm ente reuniu coragem e foi lá fora; encontrou Joris Mathij sen deitado de costas com os braços abertos de cada lado do corpo. Estava m orto. Benny foi condenado a vinte e dois anos de prisão por assassinato, sem possibilidade de liberdade condicional.
Kathrine ficou à beira das lágrim as ao ver a desesperança no rosto da velha:
– Quando ele sair da prisão eu j á vou estar m orta há m uito tem po. – Kathrine prom eteu aj udar; por alguns segundos ela até im aginou que era funcionária da Anistia Internacional. De qualquer form a ia contatar o grupo quando voltasse para casa. Prom eteu a si m esm a que faria isso.
A velha ficou sentada em silêncio por um m om ento. Depois se levantou com esforço e cam inhou os poucos m etros da sala até um a porta na parede do fundo. Kathrine não a havia notado. Em purrando um pouco a porta, a m ulher a abriu, e então eles entraram num espaço fechado. Eles chegaram a um lugar coberto de flores que j á haviam m urchado havia m uito tem po sob o sol escaldante. Um a pequena foto do advogado estava dependurada ali. “Nascido em 26 de abril de 1962. Morto em 24 de j ulho de 2009.”