O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 116 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 2

Centro de trauma, Hospital Nacional – Copenhague

Hannah se sentia m elhor que nunca. Um sentim ento explosivo de liberdade. Ela era capaz de pensar com m uito clareza, sem nenhum lim ite. Ali havia espaço para os seus pensam entos.

Q uinta-feira, 24 de dezembro

Um a faixa de escuridão num a luz avassaladora. Hannah virou o rosto. Não se im portava. Até que acidentalm ente pensou em Niels. Então a escuridão se expandiu e não lhe era possível fazer nada; apenas perm itir que ela a tragasse.

Eu acabei de experim entar um a coisa incrível.

Form as nebulosas, quase oníricas, num quarto branco. Um a das form as se aproxim ou. Inclinou-se sobre ela. Um brilho nos olhos...

– Ela voltou!

– O quê?

– Venha ver.

Murm úrios em volta dela. Espantoso. Alguém riu aliviado. Que mulher resistente.

As vozes estavam ficando m ais altas. Especialm ente um a voz fem inina. As outras form as chegaram até ela. Ligaram coisas ao seu corpo, que tinha a interferência de diversas m áquinas, e falavam em voz baixa enquanto se concentravam no trabalho.

– É inacreditável – disse alguém .

Outra pessoa disse que ela precisava ser estabilizada. A quem eles estavam se referindo com aquele “ela”?

Eles aproxim aram luzes dos seus olhos. Espetaram agulhas nas suas m ãos. Ela ouviu um bip soar debilm ente no quarto.

– Onde...?

Seria Hannah sussurrando? Não havia nenhum a reação. Ela tentou lim par a garganta. Só então sentiu seu corpo. E o encontro não foi prazeroso. Um a dor abrasadora no peito e na garganta. Um a sensação de dorm ência nas pernas. A voz estava m ais baixa.

– Onde é que... – Hannah foi interrom pida pelo som de um helicóptero. Ao olhar pela j anela, ela o viu se afastar. O Hospital Nacional. Claro.

– Ela está tentando dizer algum a coisa.

Rostos a olhavam . Ela estava deitada im óvel, reunindo forças para tirar as pernas da cam a. Precisava encontrar Niels e adverti-lo. Mas isso era im possível. Ela não conseguia se m exer. Não por causa de dores. Seu corpo estava paralisado.

– Você está m e ouvindo?

Alguém falava com ela. Um a frenética voz m asculina que tentava ser gentil.

– Hannah Lund? Você está ouvindo o que eu digo?

– Estou.

– Você ficou inconsciente por m uitos dias. Ficou m ais que inconsciente. Você sabe onde está?

O Hospital Nacional. As palavras se recusavam a passar do pensam ento para a fala. Recusavam -se a deixar a sua boca.

– Você sabe que está no Hospital Nacional, em Copenhague? Você se envolveu num acidente grave em Jutlândia e foi trazida para cá de helicóptero.

Hannah não tentou responder. O m édico lhe falava com o se ela fosse um a criança.

– Você está ouvindo tudo o que eu lhe digo?

– Estou.

– Bom . Porque é im portante que você...

– Que dia é hoj e?

– Quinta-feira, 24 de dezem bro. Feliz Natal. – O rosto estava ficando m ais nítido e Hannah notou um leve sorriso. Um hom em j ovem com óculos de arm ação escura.

– Am anhã...

– O quê?

– Onde é que está o Niels?

– Ela está falando do am igo. O hom em que tam bém se envolveu no acidente – disse um a voz.

– Onde é que está o Niels?

Ela se soergueu e derrubou o suporte do soro, e só então percebeu que tinha conseguido girar suas pernas até elas ficarem para fora da cam a. Dor de cabeça. Parecia que ela havia batido a cabeça em algum a coisa. Talvez no chão ou no suporte do soro. A porta abriu. Jalecos brancos entraram apressados. Mais rostos anônim os, bem -intencionados. Um a voz disse:

– Ela está em estado de choque. Precisa...

Hannah não ouviu o nom e do sedativo que queriam lhe dar, m as lhe ocorreu que a voz tinha razão. Ela estava em estado de choque. Seu cérebro era um a confusão de pensam entos desconexos. Durante breves intervalos de tem po ela sentia cada artéria e cada veia do seu corpo, assim com o o sangue que se agitava no seu cérebro. Então ela se ouviu dizer:

– Eu não estou em estado de choque.

Puseram -na de novo na cam a. Ela foi incapaz de resistir. Um a voz tranquilizante, quase arrastada, disse:

– Você sofreu um grave acidente de carro. Um carro em alta velocidade a atropelou.

– Am anhã...

– Você precisa descansar, Hannah.

– Quando o sol se puser... Niels.

– Preste atenção, Hannah. O seu m arido, ou seu am igo, está vivo. Vocês dois precisam descansar.

– O que é isso?

Novam ente a voz sussurrante:

– Podem os ir um pouco m ais depressa?

– Não...

Um a sensação de calor na sua m ão.

– Que dia é hoj e?

– Nós j á falam os isso. É quinta-feira de m anhã. Véspera de Natal. Mas você não devia estar pensando em nada, além de descansar um pouco. Vocês dois tiveram m uita, m uita sorte. Nós estam os lhe dando um m edicam ento, vai aj udá-la a relaxar.

A voz ficou pastosa. Hannah ainda a ouvia, em bora as palavras não tivessem sentido. O rem édio estava dom inando o seu corpo. Ela lutou contra ele, m as era um a luta desigual e a escuridão voltou. Libertando-a.