O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 120 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 6

Corredores do Hospital Nacional – Copenhague

Ela não tem um lugar m elhor para estar na véspera de Natal? Hannah não podia deixar de pensar isso enquanto Agnes em purrava sua cam a hospitalar para dentro do elevador.

– Até agora tudo bem . Não deixe de m e avisar se com eçar a sentir dor. – A velha sorriu. Dos seus lábios rachados saiu um riso rouco, quase sem som , que revelou um a longa vida de fum ante. – Sou aposentada e trabalhei aqui na ala de m aternidade até dez atrás, quando m e diagnosticaram com câncer. Os m édicos m e deram dois anos de vida, no m áxim o. Então eu dediquei m eu tem po a algo que sem pre havia m e interessado. E é por isso que eu a procurei.

– Você está interessada em acidentes de carro?

– Não. Em experiências de quase m orte. Talvez essa m inha sobrevida se deva ao fato de eu ter passado tanto tem po pensando na m orte. Você até pode dizer que a m orte pôs em fuga o m eu câncer. – Ela sorriu. – De qualquer form a ele ainda não acabou com igo. Eu pareço m órbida? Fique à vontade para dizer o que estiver pensando. Você acha que eu sou m aluca, não é?

– Não.

– Então tudo bem . Para m im há um a certa lógica em continuar o m eu trabalho de parteira com um estudo de experiências de quase m orte. Eu passei a prim eira parte da vida aj udando as pessoas a virem ao m undo; estou usando a segunda parte para tentar entender o que acontece quando nós o deixam os.

– Mas eu não tive um a experiência de quase m orte.

– Eu quero lhe m ostrar o que aconteceu. Onde você m orreu. Talvez isso refresque a sua m em ória.

O elevador chegou ao térreo, e Agnes em purrou a cam a para o corredor. Era evidente que ela estava em terreno conhecido. Segurando com as duas m ãos a cabeceira, ela em purrou a cam a pela sala. Hannah ergueu o olhar para o queixo de Agnes até ela perceber isso e dizer:

– Vam os com eçar com o fenôm eno da experiência de quase m orte. O que é isso, exatam ente? – Ela respirou fundo. – O fenôm eno j á é conhecido há m uito tem po. Porque houve pessoas que m orreram m as depois voltaram à vida e relataram o que experim entaram .

– As últim as convulsões do cérebro?

– Talvez. Poucas pessoas levam a sério essas histórias. A m aioria apenas ri. Mas as técnicas m édicas m elhoraram gradualm ente e nós nos tornam os capazes de reviver um núm ero cada vez m aior de pessoas, e com isso o nosso conhecim ento aum entou bastante. Os m édicos e cientistas estão com eçando a levar a sério o fenôm eno. Você j á ouviu falar de Elisabeth Kübler-Ross e Ray m ond Moody ?

– Não tenho certeza.

– São dois m édicos que na década de setenta em preenderam um a pesquisa pioneira sobre o fenôm eno. De acordo com eles, há nove elem entos básicos que frequentem ente são considerados em relação às experiências de quase m orte. Estou falando rápido dem ais?

– Eu sou astrofísica.

Agnes riu.

– Os nove elem entos são: um som de zum bido; a dim inuição das dores; um a experiência de estar fora do corpo, na qual o agonizante flutua, por assim dizer, fora do seu corpo; a im pressão de ser puxado por um túnel escuro a um a velocidade absurda; a im pressão de pairar acim a da Terra e de olhar para ela com o se de um ponto privilegiado de observação em outro planeta; encontros com pessoas que parecem im pregnadas de um a luz interna, frequentem ente am igos e parentes j á m ortos; um encontro com um a força espiritual...

– Deus?

– Talvez. Esse encontro é seguido por um breve resum o da vida da pessoa agonizante. A vida passa diante dos olhos dela, com o costum am os dizer. Finalm ente – e isso pode parecer o m ais estranho de tudo – há um a oferta para voltar à vida ou perm anecer onde está.

– Você quer dizer que perguntam para a pessoa se ela quer viver ou m orrer?

– Essa é um a m aneira de dizer o que ocorre.

– E nesse m om ento a m aioria das pessoas escolhe o novo lugar?

– Parece que sim .

– Que grande bobagem ! Vida após a m orte.

– Pelo m enos de acordo com Kübler-Ross e Moody. Para eles não havia dúvida. Eles consideraram isso um a prova de que um núm ero significativo de pacientes foi capaz de descrever essas experiências. Claro, havia m uitos céticos. Um deles era o dr. Michael Sabom . O dr. Sabom realizou ele próprio um a pesquisa. E se surpreendeu m uito ao ver o resultado dela: até sessenta por cento dos pacientes ressuscitados na clínica cardiológica onde ele trabalhava foram capazes de descrever sua experiência de quase m orte. E com grande detalhe.

Agnes olhou para Hannah antes de prosseguir.

– Há tam bém um a explicação biológica. As pupilas dos olhos se expandem notavelm ente quando o corpo está prestes a m orrer. Assim , estam os falando de um a percepção visual m uito real. Você pode cham ar isso de um a form a de ilusão visual sofisticada. Outra explicação física é que no m om ento da m orte o corpo experim enta um tipo de envenenam ento por dióxido de carbono. Sabe-se que o envenenam ento por dióxido de carbono dá às pessoas a im pressão de estarem sendo em purradas ao longo de um túnel. Outros dizem que se trata sim plesm ente de alucinações. Um a espécie de doença m ental.

Agnes Davidsen deu de om bros.

– Talvez tenha a ver com a tentativa subconsciente de ocultar da pessoa o fato quase insuportável de que ela está prestes a m orrer. Assim , a m ente cria um a experiência para m ostrar que a coisa não é tão ruim . A pessoa está rum ando para a luz, o calor e o am or. Mas isso não explica tudo.

– Eu achei que você ia dizer isso.

– Existem exem plos de pessoas que m orreram e ao voltarem à vida foram capazes de descrever encontros com outras pessoas enquanto estavam m ortas, em bora na época elas não soubessem que essas outras pessoas estavam m ortas. Isso não é fascinante? Agora até a ONU entrou na questão.

– O que é que você está querendo dizer?

Agnes com eçou a em purrar a cam a de Hannah; transpôs um a porta, virou e aj ustou o freio.

– Em 2008 aconteceu, com o patrocínio da ONU, um a reunião im portante sobre as experiências de quase m orte. Os pesquisadores puderam externar publicam ente os seus questionam entos sobre a percepção da consciência e todas as experiências que nós não podem os explicar sem serm os ridicularizados.

– A ciência é im placável.

– Sim . Pela m esm a razão, no ano seguinte um grupo de m édicos resolveu iniciar um a investigação sobre experiências de quase m orte.

– Eu não acho que seria fácil estabelecer fatos verificáveis.

– Não. E no entanto um m édico inglês propôs um m étodo m uito sim ples, quase bobo.

– Qual é?

– Nos quartos de prontos-socorros e de centros de traum a de m uitos países diferentes foram instaladas prateleiras perto do teto. Bem no alto, para que ninguém pudesse ver o que havia nelas. Diversas im agens foram colocadas lá.

Hannah estava com eçando a im aginar aonde Agnes ia chegar com aquilo. Ela olhou para cim a. Inicialm ente não viu, m as então olhou para o outro lado do quarto. E lá estava. Bem no alto, dez centím etros abaixo do teto, havia um a pequena prateleira preta.

Agnes estava olhando para ela.

– Ninguém sabe que tipo de im agem está lá. Nem m esm o eu. Ela chegou da sede em Londres num envelope selado.

Hannah sentiu a boca secando e o coração m artelando. Queria sair dali.