Inverno do Mundo
Capítulo VII
Sábado, 1o de abril, foi o dia do Boicote aos Judeus. Lloy d e Ethel foram passear por Berlim e observaram , incrédulos, o que estava acontecendo. Ethel tom ava notas para seu livro. A estrela de davi fora pintada nas vitrines dos estabelecim entos dos j udeus. Cam isas-pardas se postaram na porta das loj as, intim idando as pessoas que quisessem entrar. Escritórios de advogados e consultórios de m édicos j udeus foram alvo de piquetes. Lloy d viu dois cam isas-pardas detendo pacientes a cam inho do consultório do m édico de fam ília dos Von Ulrich, o Dr. Rothm ann, m as então um carregador de carvão parrudo que havia torcido o tornozelo m andou os cam isas-pardas darem o fora e eles saíram em busca de um a presa m ais fácil.
– Com o as pessoas podem ser tão m ás um as com as outras? – indagou Ethel.
Lloy d estava pensando no padrasto que tanto am ava. Bernie Leckwith era j udeu. Se o fascism o chegasse à Grã-Bretanha, ele seria alvo daquele tipo de ódio. Esse pensam ento fez Lloy d estrem ecer.
Nessa noite, houve um a espécie de velório no Bistrô Robert. Ao que parecia, ninguém tinha organizado nada, m as às oito horas o restaurante estava cheio de social-dem ocratas, j ornalistas colegas de Maud e am igos de Robert do m eio artístico. Os m ais otim istas entre eles diziam que a liberdade só tinha ido hibernar durante a crise econôm ica e que um dia despertaria. O restante só lam entava.
Lloy d bebeu pouco. Não gostava do efeito que o álcool tinha em seu cérebro. Beber prej udicava seu raciocínio. Estava perguntando a si m esm o o que os esquerdistas alem ães poderiam ter feito para im pedir aquela catástrofe, m as não tinha a resposta.
Maud lhes deu notícias de Kurt, filho de Ada:
– Ela o levou de volta para casa e, por enquanto, ele parece razoavelm ente feliz. Mas tem um problem a no cérebro e nunca vai ser um m enino norm al. Quando ficar m ais velho terá que ir para um a instituição, pobrezinho.
Lloy d ouvira falar sobre com o o parto do bebê tinha sido feito por Carla, que tinha apenas 11 anos. Que m enina valente!
Às nove e m eia, o agente Thom as Macke entrou no restaurante usando seu uniform e dos cam isas-pardas.
Na últim a vez em que ele estivera ali, Robert o havia tratado com zom baria, m as Lloy d sentira a am eaça que aquele hom em representava. Aquele bigodinho no m eio do rosto gordo lhe dava um aspecto bobo, m as seus olhos tinham um a centelha de crueldade que deixava Lloy d nervoso.
Robert tinha se recusado a vender o restaurante para ele. O que Macke poderia querer agora?
O agente postou-se no m eio do salão e gritou:
– Este restaurante está sendo usado para prom over um com portam ento pervertido!
Os clientes se calaram , sem saber do que ele estava falando.
Macke ergueu um dedo, com o se quisesse dizer: É melhor vocês escutarem! Lloy d sentiu que havia algo terrivelm ente fam iliar naquele gesto e percebeu que Macke estava im itando Hitler.
– O hom ossexualism o é incom patível com o caráter m ásculo da nação alem ã!
Lloy d franziu o cenho. Será que ele estava dizendo que Robert era gay ?
Jörg entrou no salão vindo da cozinha, usando seu chapéu alto de cozinheiro. Postou-se ao lado da porta, olhando para Macke com ódio.
Um pensam ento chocante ocorreu a Lloy d. Talvez Robert fosse gay .
Afinal de contas, ele e Jörg m oravam j untos desde a guerra.
Ao correr os olhos por seus am igos do m eio artístico, Lloy d reparou que eram todos casais de hom ens, com exceção de duas m ulheres de cabelos curtos...
Ficou estupefato. Sabia que os hom ossexuais existiam e, sendo um a pessoa de m ente aberta, acreditava que eles não deveriam ser perseguidos, m as aj udados. No entanto, considerava-os pervertidos e desagradáveis. Robert e Jörg pareciam hom ens norm ais, que adm inistravam um negócio e levavam um a vida discreta – quase com o duas pessoas casadas!
Virou-se para a m ãe e perguntou, em voz baixa:
– Robert e Jörg são m esm o...
– São, querido – respondeu Ethel.
Sentada ao seu lado, Maud disse:
– Quando j ovem , Robert era o terror dos lacaios.
As duas deram risadinhas.
Lloy d ficou duplam ente chocado: não só Robert era gay, com o Ethel e Maud consideravam isso um m otivo para brincadeiras descontraídas.
– Este estabelecim ento está fechado! – disse Macke.
– O senhor não tem esse direito! – rebateu Robert.
Macke não poderia fechar o restaurante sozinho, pensou Lloy d. Então se lem brou de com o os cam isas-pardas tinham subido ao palco do Teatro do Povo. Olhou na direção da porta – e ficou boquiaberto ao ver outros cam isas-pardas entrando no bistrô.
Os hom ens percorreram as m esas derrubando garrafas e copos. Alguns clientes continuaram sentados im óveis, só observando, outros se levantaram . Vários hom ens com eçaram a protestar aos berros e um a m ulher gritou.
Walter ficou de pé e falou, com a voz alta, porém calm a:
– É m elhor irm os em bora sem fazer alarde. Não há necessidade de violência. Vam os todos pegar nossos casacos e nossos chapéus e voltar para casa.
Os clientes com eçaram a sair. Alguns tentavam pegar os casacos, outros sim plesm ente fugiam . Walter e Lloy d conduziram Maud e Ethel em direção à porta. A caixa registradora ficava próxim a à saída e Lloy d viu um dos cam isas-pardas abri-la e com eçar a enfiar o dinheiro nos bolsos.
Até então, Robert perm anecera parado, olhando im potente seus clientes saírem apressados, m as aquilo era dem ais. Ele soltou um grito de protesto e em purrou o cam isa-parda para longe da registradora.
O hom em lhe deu um soco, derrubando-o no chão, e com eçou a chutá-lo. Outro cam isa-parda se j untou ao prim eiro.
Lloy d correu para salvar Robert. Ouviu a m ãe gritar enquanto em purrava os cam isas-pardas para o lado. Jörg foi quase tão rápido quanto ele, e os dois se abaixaram para aj udar Robert a se levantar.
Foram im ediatam ente atacados por vários outros cam isas-pardas. Lloy d levou socos e chutes, e algum a coisa pesada o atingiu na cabeça. Ao gritar de dor, ele pensou: De novo, não.
Virou-se de frente para os agressores e com eçou a desferir socos com as duas m ãos, acertando com força, tentando socar através do adversário, com o haviam lhe ensinado nas aulas de boxe. Conseguiu derrubar dois cam isas-pardas, então foi agarrado por trás e perdeu o equilíbrio. Instantes depois, estava no chão, com dois hom ens o segurando enquanto um terceiro o chutava.
Então foi virado de bruços, teve os braços puxados para trás e sentiu algo m etálico nos pulsos. Tinha sido algem ado pela prim eira vez na vida. Sentiu um novo tipo de m edo. Aquilo não era só m ais um a confusão. Ele fora espancado e chutado, m as o pior ainda estava por vir.
– Levante-se – disse-lhe alguém em alem ão.
Ele pôs-se de pé com dificuldade. Sua cabeça doía. Viu que Robert e Jörg tam bém haviam sido algem ados. A boca de Robert sangrava e Jörg estava com um dos olhos fechado. Meia dúzia de cam isas-pardas os rodeava. O restante bebia dos copos e garrafas deixados sobre as m esas ou então estava em pé j unto ao carrinho de sobrem esas entupindo-se de doces.
Todos os clientes pareciam ter ido em bora. Lloy d ficou aliviado por sua m ãe ter conseguido escapar.
A porta do restaurante se abriu e Walter tornou a entrar.
– Agente Macke – disse ele, dem onstrando a facilidade típica dos políticos para se lem brar de nom es. Então prosseguiu com a m aior autoridade que conseguiu exibir: – O que significa este ultraj e?
Macke apontou para Robert e Jörg.
– Esses dois hom ens são hom ossexuais – afirm ou. – E o rapaz atacou um policial auxiliar que os estava prendendo.
Walter apontou para a caixa registradora, com a gaveta escancarada e vazia, exceto por algum as m oedas de pequeno valor.
– Policiais por acaso andam roubando agora?
– Um cliente deve ter se aproveitado da confusão criada pelos que estavam resistindo à prisão.
Alguns dos cam isas-pardas deram risadinhas cúm plices.
– O senhor antes era agente de segurança pública, não era, Macke? Talvez sentisse orgulho de si m esm o naquele tem po. Mas e agora, o que o senhor é?
Macke se ofendeu.
– Nós aplicam os a lei para proteger a pátria-m ãe.
– Fico pensando para onde pretendem levar seus prisioneiros – insistiu Walter. – Para um local de detenção devidam ente dentro das norm as? Ou para algum porão clandestino m eio escondido?
– Eles serão levados para a caserna da Friedrichstrasse – respondeu Macke, indignado.
Lloy d viu um a expressão de satisfação cruzar o sem blante de Walter e percebeu que ele havia m anipulado Macke com astúcia, usando o que restava de orgulho profissional ao agente para fazê-lo revelar suas intenções. Agora Walter sabia para onde Lloy d e os outros seriam levados.
Mas o que iria acontecer na caserna?
Lloy d nunca tinha sido preso. Mas m orava no East End londrino e conhecia m uita gente que tivera problem as com a polícia. Passara a m aior parte da vida j ogando bola na rua com m eninos cuj os pais eram presos com frequência. Conhecia a fam a da delegacia da Lem an Street, em Aldgate. Poucos hom ens saíam de lá ilesos. As pessoas diziam que as paredes eram todas m anchadas de sangue. Será que a caserna da Friedrichstrasse seria m elhor?
– Trata-se aqui de um incidente internacional, agente – disse Walter. Lloy d im aginou que ele estivesse usando o título na esperança de fazer Macke se com portar m ais com o um agente de polícia e m enos com o um capanga violento. – O senhor acaba de prender três cidadãos estrangeiros: dois austríacos e um inglês. – Ele ergueu um a das m ãos com o para evitar algum protesto. – Agora é tarde para voltar atrás. As duas em baixadas serão inform adas e não tenho dúvida de que seus representantes entrarão em contato com nosso Ministério das Relações Exteriores na Wilhelm strasse em m enos de um a hora.
Lloy d se perguntou se isso seria verdade.
Macke deu um sorriso desagradável.
– O Ministério das Relações Exteriores não vai sair correndo em defesa de duas bichas e de um rapaz arruaceiro.
– Nosso m inistro das Relações Exteriores, Von Neurath, não é m em bro do seu partido – disse Walter. – Ele pode m uito bem pôr os interesses da pátria-m ãe em prim eiro lugar.
– Acho que o senhor vai descobrir que ele faz o que lhe m andam fazer. E agora, se m e dá licença, está obstruindo o cum prim ento do m eu dever.
– Estou lhe avisando! – disse Walter, coraj oso. – É m elhor o senhor seguir à risca o procedim ento... ou então terá problem as.
– Sum a da m inha frente! – esbravej ou Macke.
Walter saiu do restaurante.
Lloy d, Robert e Jörg foram conduzidos para fora e j ogados na traseira de algum tipo de cam inhonete. Foram obrigados a se deitar no chão enquanto os cam isas-pardas se sentavam nos bancos para vigiá-los. O veículo partiu. Lloy d descobriu que estar algem ado era doloroso. Tinha a constante sensação de que seu om bro estava prestes a se deslocar.
Graças a Deus, a viagem foi curta. Eles foram em purrados para fora da cam inhonete e para dentro de um prédio. Estava escuro, e Lloy d não conseguia enxergar m uita coisa. Diante de um a m esa, seu nom e foi anotado num livro e seu passaporte confiscado. Robert perdeu o prendedor de gravata e a corrente do relógio, am bos de ouro. Por fim , as algem as foram retiradas e os três foram levados para um côm odo com luz m ortiça e j anelas gradeadas. Já havia uns quarenta detentos lá dentro.
Todo o corpo de Lloy d estava dolorido. Um a dor no peito parecia indicar um a costela quebrada. Seu rosto estava cheio de hem atom as e ele sentia um a dor de cabeça lancinante. Queria um a aspirina, um a xícara de chá e um travesseiro. Acreditava que iria dem orar algum as horas para conseguir qualquer um a dessas coisas.
Os três foram se sentar no chão perto da porta. Lloy d apoiou a cabeça nas m ãos, enquanto Robert e Jörg debatiam quanto tem po a aj uda dem oraria a chegar. Com certeza Walter ligaria para um advogado. No entanto, todas as regras norm ais haviam sido suspensas pelo Decreto do Incêndio do Reichstag, de m odo que eles não dispunham de nenhum a proteção legal. Walter tam bém entraria em contato com as em baixadas: sua m aior esperança agora era a influência política. Lloy d achou que a m ãe provavelm ente tentaria fazer um a ligação internacional para o Ministério das Relações Exteriores britânico em Londres. Se conseguisse com pletá-la, o governo com certeza teria algo a dizer sobre a prisão de um estudante inglês. Tudo isso levaria tem po – um a hora, no m ínim o, m ais provavelm ente duas ou três.
No entanto quatro horas se passaram , depois cinco, e a porta não se abriu.
Países civilizados tinham leis que regulam entavam o tem po m áxim o que a polícia podia m anter alguém detido sem form alidades: um a acusação, um advogado, um j ulgam ento. Lloy d então se deu conta de que essa regra não era apenas um a questão técnica. Ele poderia ficar ali para sem pre.
Descobriu que todos os outros prisioneiros eram políticos: com unistas, social-dem ocratas, sindicalistas e um padre.
A noite passou devagar. Nenhum dos três dorm iu. Para Lloy d, isso era im pensável. A luz cinzenta da m anhã j á entrava pelas j anelas gradeadas quando a porta da cela finalm ente foi aberta. No entanto, nenhum advogado ou diplom ata entrou, apenas dois hom ens de avental em purrando um carrinho sobre o qual repousava um grande panelão. Serviram -lhes um m ingau ralo de aveia. Lloy d não com eu, m as pegou um a caneca de latão e tom ou um café com gosto de cevada queim ada.
Im aginou que os funcionários de plantão na em baixada britânica durante a noite fossem diplom atas em com eço de carreira, com pouca influência. Pela m anhã, assim que o em baixador acordasse, seriam tom adas as devidas providências.
Um a hora depois do café da m anhã, a porta tornou a se abrir, m as dessa vez só havia cam isas-pardas do lado de fora. Eles fizeram todos os prisioneiros – uns quarenta ou cinquenta hom ens – saírem da cela e puseram -nos dentro de um cam inhão, um veículo com laterais de lona, tão apertados que tiveram de ficar em pé. Lloy d deu um j eito de ficar perto de Robert e Jörg.
Talvez estivessem indo para o tribunal, m esm o sendo dom ingo. Torceu para que isso acontecesse. Ao m enos lá haveria advogados e algum arrem edo de j ulgam ento de acordo com a lei. Pensou que tinha fluência suficiente na língua alem ã para fazer a defesa sim ples de seu caso, e com eçou a ensaiar seu discurso em silêncio. Estava j antando num restaurante com a m ãe, viu um hom em roubando a caixa registradora, se m eteu na confusão e a situação fugiu ao controle. Im aginou o contrainterrogatório ao qual seria subm etido. Iriam lhe perguntar se o hom em que ele havia atacado era um cam isa-parda. Ele responderia: “Não reparei na roupa dele – tudo o que vi foi um ladrão.” As pessoas no tribunal ririam e o prom otor público ficaria com cara de bobo.
Eles foram levados para fora da cidade.
Dava para ver o lado de fora pelas frestas das laterais de lona do cam inhão. Lloy d calculou que houvessem percorrido uns trinta quilôm etros quando Robert disse:
– Estam os em Oranienburg. – Era o nom e de um a pequena cidade ao norte de Berlim .
O cam inhão parou diante de um portão de m adeira entre duas colunas de tij olo. Dois cam isas-pardas arm ados com fuzis estavam de guarda.
Lloy d sentiu um pouco m ais de m edo. Onde estava o tribunal? Aquilo ali m ais parecia um cam po de prisioneiros. Com o eles podiam j ogar pessoas na prisão sem j ulgam ento?
Após um a curta espera, o cam inhão entrou e parou j unto a um conj unto de construções m alcuidadas.
Lloy d estava ficando cada vez m ais nervoso. Na noite anterior, ao m enos havia o consolo de Walter saber onde ele estava. Agora, era possível que ninguém m ais soubesse. E se a polícia sim plesm ente dissesse que ele não tinha sido detido e que não havia registro da sua prisão? Com o ele seria resgatado?
Eles desceram do cam inhão e seguiram até um prédio que parecia um a espécie de fábrica. O lugar tinha o m esm o cheiro de um bar. Talvez fosse um a antiga cervej aria.
Novam ente anotaram seus nom es. Lloy d ficou satisfeito por haver algum registro de sua m ovim entação. Nenhum deles estava am arrado ou algem ado, m as eram constantem ente vigiados por cam isas-pardas arm ados com fuzis, e Lloy d teve a sinistra sensação de que aqueles rapazes estavam só esperando um a desculpa para atirar.
Cada um deles recebeu um colchão de lona recheado de palha e um cobertor fino. Foram conduzidos para um prédio em m au estado que um dia talvez tivesse sido um arm azém . Então com eçou a espera.
Ninguém foi buscar Lloy d naquele dia.
À noite apareceu outro carrinho com um panelão de ensopado de cenoura com nabo. Cada hom em recebeu um a tigela de ensopado e um pedaço de pão. Fazia 24 horas que Lloy d não com ia. Estava fam into. Devorou o parco j antar e desej ou poder repetir.
Em algum lugar do cam po, havia três ou quatro cães que passaram a noite inteira uivando.
Lloy d se sentia suj o. Era a segunda noite que passava com as m esm as roupas. Precisava tom ar um banho, fazer a barba e vestir um a cam isa lim pa. O toalete, que consistia em dois barris num canto, era totalm ente noj ento.
Mas a m anhã seguinte seria segunda-feira. Algum a coisa iria acontecer.
Lloy d pegou no sono por volta das quatro da m anhã. Às seis, eles foram despertados por um cam isa-parda que berrava:
– Schleicher! Jörg Schleicher! Quem é Jörg Schleicher?
Talvez eles fossem ser soltos.
Jörg se levantou e disse:
– Sou eu. Jörg Schleicher sou eu.
– Venha com igo – disse o cam isa-parda.
Com a voz assustada, Robert perguntou:
– Por quê? O que vocês querem com ele? Para onde ele vai?
– E você, quem é? A m ãe dele, por acaso? – retrucou o cam isa-parda. – Deite-se aí e cale a boca. – Ele cutucou Jörg com o fuzil. – Você, para fora.
Ao vê-los partir, Lloy d se perguntou por que não tinha dado um soco no cam isa-parda e pegado seu fuzil. Talvez tivesse conseguido escapar. E, m esm o que não conseguisse, o que poderiam fazer com ele – j ogá-lo na prisão? Mas a verdade era que na hora H a ideia de fugir nem lhe ocorrera. Estaria com eçando a pensar com o um prisioneiro?
Até ansiava pelo m ingau de aveia.
Antes do café da m anhã, todos foram conduzidos para o lado de fora.
Ficaram em pé ao redor de um a pequena área delim itada por um a cerca de aram e, cuj o tam anho equivalia a um quarto de um a quadra de tênis. O lugar parecia ter sido usado para arm azenar algum a coisa sem m uito valor, talvez toras de m adeira ou pneus. O ar frio da m anhã fez Lloy d estrem ecer: seu sobretudo ficara no Bistrô Robert.
Foi então que ele viu Thom as Macke se aproxim ar.
O policial usava um sobretudo preto por cim a do uniform e de cam isa-parda. Lloy d reparou que tinha um passo pesado e pés chatos.
Atrás de Macke, dois cam isas-pardas seguravam os braços de um hom em nu com um balde enfiado na cabeça.
Lloy d ficou olhando, horrorizado. As m ãos do prisioneiro estavam am arradas nas costas, e o balde estava preso bem firm e com barbante debaixo de seu queixo, para não cair.
Era um hom em relativam ente j ovem e m agro, com pelos púbicos louros.
– Ai, m eu Deus... é Jörg – gem eu Robert.
Todos os cam isas-pardas do cam po haviam se reunido ali. Lloy d franziu o cenho. O que era aquilo, algum a espécie de brincadeira cruel?
Jörg foi conduzido para dentro do espaço cercado e deixado lá, trem endo. Os dois hom ens que o escoltavam se retiraram . Desapareceram por alguns m inutos e então voltaram , cada um trazendo dois pastores-alem ães pela coleira.
Aquilo explicava os latidos durante a noite.
Os cães estavam m agros, com falhas na pelagem am arelada que indicavam problem as de saúde. Pareciam fam intos.
Os cam isas-pardas conduziram os anim ais até o cercado.
Lloy d teve um a vaga porém terrível prem onição do que estava prestes a acontecer.
– Não! – gritou Robert, correndo para a frente. – Não, não, não! – Ele tentou abrir o portão do cercado. Três ou quatro cam isas-pardas o puxaram para trás com violência. Ele se debateu, m as j á tinha quase 50 anos, enquanto os hom ens eram j ovens e fortes. Robert não conseguiu vencê-los. Eles o j ogaram no chão com desprezo.
– Não – disse Macke para seus hom ens. – Façam -no assistir.
Eles puseram Robert de pé e seguraram -no de frente para a cerca de aram e.
Os cães foram levados para dentro do cercado. Estavam agitados, latindo e salivando. Os dois cam isas-pardas m anej avam os anim ais com destreza e sem m edo nenhum ; ficou óbvio que tinham experiência. Lloy d se perguntou, consternado, quantas vezes j á tinham feito aquilo antes.
Os hom ens soltaram os cachorros e correram para fora do cercado.
Os anim ais partiram para cim a de Jörg. Um deles o m ordeu no calcanhar, outro no braço, um terceiro na coxa. Dentro do balde de m etal soou um grito abafado de dor e pânico. Os cam isas-pardas vibravam e aplaudiam . Os prisioneiros assistiam , m udos de pavor.
Depois do choque inicial, Jörg tentou se defender. Tinha as m ãos am arradas e não conseguia ver nada, m as podia chutar a esm o. Ainda assim , seus pés descalços tinham pouco im pacto sobre os anim ais fam intos. Os cães se esquivavam dos chutes e tornavam a atacar, rasgando-lhe a carne com os dentes afiados.
Jörg tentou fugir. Com os cães em seu encalço, correu às cegas em linha reta até trom bar com a cerca de aram e. Os cam isas-pardas gritaram anim ados. Jörg correu em outra direção, com o m esm o resultado. Um dos cachorros arrancou um naco da nádega de Jörg, e os cam isas-pardas riram m uito alto.
– A cauda! Morda a cauda dele! – gritava um deles.
Lloy d supôs que “cauda”, der Schwanz em alem ão, fosse um a gíria para pênis. A anim ação do hom em beirava a histeria.
O corpo branco de Jörg estava cheio de ferim entos que sangravam . Ele se encolheu j unto à cerca, com o rosto encostado no aram e, protegendo os genitais, desferindo chutes para trás e para os lados. Mas estava perdendo as forças. Seus chutes foram enfraquecendo. Já quase não conseguia se m anter ereto. Os cães foram ficando m ais ousados, m ordendo-o e engolindo nacos sangrentos.
Por fim , Jörg escorregou para o chão.
Os cães se acom odaram para com er.
Os hom ens que haviam trazido os anim ais tornaram a entrar no cercado. Com m ovim entos experientes, tornaram a prender as coleiras, puxaram os anim ais de cim a de Jörg e os levaram em bora.
O espetáculo havia term inado e os cam isas-pardas com eçaram a se retirar, ainda conversando anim adam ente.
Robert correu para dentro do cercado e dessa vez ninguém o deteve. Ele se abaixou ao lado de Jörg, gem endo.
Lloy d aj udou-o a desam arrar as m ãos do com panheiro e a retirar o balde. Jörg estava inconsciente, m as ainda respirava.
– Vam os levá-lo para dentro. Segure as pernas dele – disse Lloy d, pegando Jörg pelas axilas.
Os dois o levaram até o prédio onde haviam passado a noite. Puseram -no em cim a de um colchão. Os outros prisioneiros se reuniram em volta, assustados e calados. Lloy d torceu para um deles anunciar que era m édico, m as nenhum o fez.
Robert despiu o paletó e o colete, depois tirou a cam isa e usou-a para lim par o sangue.
– Precisam os de água lim pa – falou.
Havia um a torneira no pátio. Lloy d foi até lá, m as não tinha nenhum recipiente. Voltou para o cercado. O balde continuava ali no chão. Ele o lavou, depois o encheu com água.
Quando voltou para dentro, o colchão estava encharcado de sangue.
Robert m ergulhou a cam isa no balde e, de j oelhos, continuou a lavar as feridas de Jörg. O tecido branco não dem orou a ficar verm elho.
Jörg com eçou a recobrar a consciência.
Robert pôs-se a falar com ele em voz baixa:
– Calm a, m eu am or. Já passou e eu estou aqui. – Mas Jörg não parecia escutar.
Então Macke apareceu com m ais quatro ou cinco cam isas-pardas. Agarrou Robert pelo braço e o puxou.
– Então! – disse ele. – Agora você sabe o que pensam os sobre hom ossexuais pervertidos.
Lloy d apontou para Jörg e falou, com raiva:
– Pervertido é quem faz isso. – Reunindo toda a sua raiva e desprezo, concluiu: – Agente Macke.
Macke assentiu de leve com a cabeça para um dos cam isas-pardas. Com um m ovim ento de falsa casualidade, o hom em inverteu a posição do fuzil e acertou Lloy d na cabeça com a coronha.
O rapaz caiu no chão segurando a cabeça, tom ado pela dor.
– Por favor, só m e deixe cuidar de Jörg – pediu Robert.
– Talvez – respondeu Macke. – Prim eiro venha até aqui.