Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 80 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IV

Vanderm eier pareceu não entender.

– Ahn?

Chuck im provisou:

– Um lugar m enor, m ais tranquilo... Igual a este, só que m ais discreto. Entende o que quero dizer?

– Parece ótim o! – O capitão esvaziou o copo.

Chuck segurou Vanderm eier pelo braço direito e acenou para Eddie segurar o esquerdo. Os dois conduziram o capitão em briagado para fora do bar.

Por sorte, um táxi aguardava na penum bra do beco. Chuck abriu a porta.

Nessa hora, Vanderm eier beij ou Eddie.

O capitão envolveu seu subordinado com os braços, pressionou os lábios nos dele e disse:

– Eu te am o.

O coração de Chuck se encheu de m edo. Agora não havia m ais com o aquilo term inar bem .

Eddie desferiu um soco na barriga do capitão, com força. Vanderm eier grunhiu e arquej ou. Eddie o acertou de novo, dessa vez no rosto. Chuck se interpôs entre os dois. Antes de Vanderm eier cair, ele o fez entrar no banco traseiro do táxi.

Inclinou-se na j anela e entregou ao m otorista um a nota de dez dólares.

– Leve-o para casa, e pode ficar com o troco – falou.

O táxi foi em bora.

Chuck olhou para Eddie.

– Rapaz, agora estam os m esm o encrencados.

 

IV

No entanto, Eddie Parry nunca foi acusado de agressão a um oficial.

Na m anhã seguinte, o capitão Vanderm eier apareceu no Antigo Prédio Adm inistrativo com um olho roxo, m as não fez nenhum a acusação. Chuck entendeu que a carreira do capitão seria arruinada caso ele adm itisse ter se envolvido num a briga no The Band Round the Hat. Apesar disso, não se falava em outra coisa que não seu olho roxo.

– Ele disse que escorregou num a poça de óleo na garagem de casa e bateu com o rosto no cortador de gram a, m as acho que a m ulher deu um soco nele – com entou Bob Strong. – Vocês j á viram a cara dela? É igualzinha a Jack Dem psey .

Nesse dia, os criptógrafos do subsolo inform aram ao alm irante Nim itz que os j aponeses iriam atacar Midway no dia 4 de j unho. Mais especificam ente, às sete horas da m anhã as forças j aponesas estariam 280 quilôm etros ao norte do atol.

Sua confiança era quase tão grande quanto davam a entender.

Eddie, por sua vez, estava pessim ista.

– O que podem os fazer? – perguntou ao se encontrar com Chuck na hora do alm oço. Com o tam bém trabalhava para a inteligência naval, sabia o que os criptógrafos tinham descoberto sobre a força dos j aponeses. – Os j apas estão com 200 navios no m ar, praticam ente a Marinha deles inteira... E nós? Quantos navios tem os? Trinta e cinco!

Chuck não estava tão cético.

– Mas a força de ataque deles é só um quarto desse núm ero. O restante são as forças de ocupação, distração e reserva.

– E daí? Um quarto desse total ainda é m ais do que toda a nossa Frota do Pacífico!

– Na verdade, a força de ataque deles tem só quatro porta-aviões.

– Mas nós tem os apenas três. – Eddie apontou com o sanduíche de presunto que tinha na m ão o porta-aviões encardido de fum aça parado no dique seco e coberto por um enxam e de operários e acrescentou: – Incluindo o Yorktown avariado.

– Bom , sabem os que eles vão chegar, e eles não sabem que nós estam os à sua espera.

– Tom ara que isso faça tanta diferença quanto Nim itz acredita.

– Tom ara m esm o.

Ao voltar para o subsolo, Chuck recebeu a notícia de que não trabalhava m ais lá. Tinha sido transferido... para o Yorktown.

– É o m odo que Vanderm eier encontrou para m e punir – disse Eddie, choroso, nessa noite. – Ele acha que você vai m orrer.

– Não sej a pessim ista – falou Chuck. – Talvez nós ganhem os a guerra.

Alguns dias antes do ataque, os j aponeses substituíram seus m anuais de código por novos. Os hom ens do subsolo suspiraram e com eçaram tudo de novo do zero, m as conseguiram reunir poucas inform ações antes da batalha. Nim itz teve que se contentar com o que j á tinha e torcer para que o inim igo não m udasse todo o plano na últim a hora.

Os j aponeses esperavam tom ar Midway de surpresa e ocupar o atol com facilidade. Torciam para que os am ericanos então atacassem com força total para tentar recuperá-lo. Nessa hora, a frota j aponesa de reserva entraria em ação para dizim ar toda a frota am ericana. O Japão dom inaria o Pacífico.

E os Estados Unidos pediriam para negociar a paz.

Nim itz planej ava cortar o m al pela raiz, m ontando um a arm adilha para a força de ataque antes que ela tom asse Midway .

Chuck agora fazia parte dessa arm adilha.

Ele preparou sua bolsa, despediu-se de Eddie com um beij o e os dois foram j untos até o cais.

Lá, cruzaram com Vanderm eier.

– Não deu tem po de consertar os com partim entos estanques – inform ou-lhes o capitão. – Se abrirem um rom bo no navio, ele vai afundar feito um caixão de chum bo.

Chuck levou a m ão ao om bro de Eddie para contê-lo e perguntou:

– Com o vai o olho, capitão?

A boca de Vanderm eier se contorceu num esgar m aldoso.

– Boa sorte, veado. – Então ele se afastou.

Chuck apertou a m ão de Eddie e subiu a bordo.

Esqueceu Vanderm eier na m esm a hora, pois seu desej o finalm ente acabara de ser realizado: ele estava no m ar, e em barcado num dos m ais grandiosos navios j á fabricados.

O Yorktown era a em barcação líder da classe dos porta-aviões. Com com prim ento superior a dois cam pos de futebol, sua tripulação era de m ais de dois m il hom ens. O navio tinha capacidade para transportar noventa aeronaves: antigos bom bardeiros Douglas Devastator de asas dobráveis; bom bardeiros de m ergulho Douglas Dauntless, m ais recentes; e, para escoltá-los, caças Grum m an Wildcat.

Quase tudo no porta-aviões ficava abaixo do convés, com exceção da ilha de dez m etros de altura que se erguia no convés de pouso. Ela abrigava o com ando e o centro de com unicações do navio: a ponte de com ando, a sala de rádio logo abaixo, a sala dos m apas e a sala de preparação dos pilotos. Atrás da ilha ficava um im enso duto para expelir a fum aça, form ado por três cham inés um a dentro da outra.

Quando o Yorktown deixou o dique seco e saiu de Pearl Harbor soltando vapor, alguns dos operários continuavam a bordo, term inando seu trabalho. A vibração dos m otores colossais quando o porta-aviões ganhou o m ar deixou Chuck em polgado. No m om ento em que chegaram a alto-m ar e o navio com eçou a subir e descer j unto com as ondas do Pacífico, ele teve a sensação de que estava dançando.

Chuck foi posto na sala de rádio, escolha sensata que aproveitava sua experiência na m anipulação de m ensagens.

O porta-aviões navegou até um ponto de encontro a nordeste de Midway. Seus rem endos recém -soldados rangiam com o sapatos novos. Havia um a lanchonete a bordo, conhecida com o Gedunk, que servia sorvete fabricado diariam ente. Ali, na prim eira tarde, Chuck encontrou Trixie Paxm an, que tinha visto pela últim a vez no The Band Round the Hat. Ficou feliz por ter um am igo a bordo.

Na quarta-feira, 3 de j unho, véspera do dia previsto para o ataque, um hidroavião da Marinha em m issão de reconhecim ento a oeste de Midway detectou um com boio de navios j aponeses de transporte de tropas – provavelm ente trazendo a força de ocupação que deveria tom ar o atol após a batalha. A notícia foi divulgada a todas as em barcações am ericanas, e Chuck, na sala de rádio do Yorktown, foi um dos prim eiros a ficar sabendo. Aquilo era um a confirm ação sólida de que seus colegas do subsolo tinham razão, e ele ficou aliviado por eles terem acertado. Percebeu que aquilo era um a ironia: ele não estaria correndo tanto perigo se eles houvessem com etido um erro e os j aponeses estivessem em outro lugar.

Já fazia um ano e m eio que Chuck estava na Marinha, m as ainda não participara de nenhum a batalha. Reparado às pressas, o Yorktown seria alvo de torpedos e bom bas j aponesas. Estava navegando em direção a pessoas que fariam todo o possível para afundá-lo – e com Chuck dentro. Era um a sensação esquisita. Na m aior parte do tem po, ele se sentia estranham ente calm o, m as de vez em quando tinha o im pulso de saltar a am urada e com eçar a nadar de volta para o Havaí.

Nessa noite, escreveu para os pais. Se m orresse no dia seguinte, ele e a carta provavelm ente naufragariam com o navio, m as escreveu m esm o assim . Não com entou nada sobre o m otivo da transferência. Pensou em confessar que era hom ossexual, m as logo descartou essa ideia. Disse aos pais que os am ava e que era grato por tudo o que tinham feito por ele. “Se eu m orrer lutando por um país dem ocrático e contra um a ditadura m ilitar cruel, m inha vida não terá sido em vão.” Ao reler a carta, achou a frase m eio pom posa, m as deixou com o estava.

A noite foi curta. As tripulações dos aviões receberam o cham ado para o desj ej um à um a e m eia. Chuck foi desej ar boa sorte a Trixie Paxm an. Com o recom pensa por terem m adrugado, os soldados que iriam tripular os aviões com eram bife com ovos.

Os aviões foram trazidos dos hangares sob o convés nos im ensos elevadores do navio, depois m anobrados até os pontos de estacionam ento no convés para serem abastecidos e m uniciados. Alguns pilotos partiram para localizar o inim igo. O restante ficou sentado na sala de instruções, j á equipado para o com bate, à espera de notícias.

Chuck com eçou o trabalho na sala de rádio. Logo antes das seis, captou a transm issão de um hidroavião de reconhecim ento:

MUITOS AVIÕES INIMIGOS INDO PARA MIDWAY

Alguns m inutos depois, recebeu um a transm issão parcial:

PORTA-AVIÕES INIMIGOS

Pronto. Havia com eçado.

No m inuto seguinte, quando a inform ação com pleta chegou, ficaram sabendo que a força de ataque inim iga estava quase no ponto exato previsto pelos criptógrafos. Chuck sentiu orgulho – e m edo.

Os três porta-aviões am ericanos – Yorktown, Enterprise e Hornet – estabeleceram um curso que levasse seus aviões a um a distância da qual pudessem atacar os navios j aponeses.

Na ponte de com ando estava o alm irante Frank Fletcher, um veterano de 57 anos que tinha o nariz com prido e ganhara a Cruz da Marinha na Prim eira Guerra Mundial. Quando foi levar um a m ensagem até lá, Chuck o ouviu dizer:

– Não vim os nenhum avião j aponês até o m om ento. Isso significa que eles ainda não sabem que estam os aqui.

Chuck estava ciente de que esta era a única vantagem dos am ericanos: eles tinham inform ações m elhores.

Os j aponeses sem dúvida pretendiam pegar Midway desprevenido, num a repetição do que acontecera em Pearl Harbor, m as, graças aos criptópgrafos, isso não iria acontecer. Os aviões am ericanos de Midway não seriam alvos fáceis parados nas pistas. Quando os j aponeses chegaram , j á estavam todos no ar prontos para a briga.

Os oficiais e soldados na sala de rádio do Yorktown escutavam , tensos, o tráfego de transm issões coalhado de estática vindo de Midway e dos navios j aponeses, e não tinham dúvida de que um a terrível batalha aérea estava sendo travada acim a do m inúsculo atol. No entanto, não sabiam quem estava vencendo.

Pouco depois, os aviões am ericanos que estavam em Midway foram atrás do inim igo e atacaram os porta-aviões j aponeses.

Em am bas as batalhas, pelo que Chuck pôde entender, a artilharia antiaérea levara a m elhor. A base de Midway sofreu apenas danos leves, e quase todas as bom bas e torpedos disparados contra a frota j aponesa erraram o alvo. Nos dois confrontos, porém , m uitas aeronaves foram abatidas.

O placar parecia em patado – o que preocupava Chuck, pois os j aponeses tinham m ais aviões de reserva.

Pouco antes das sete, o Yorktown, o Enterprise e o Hornet deram m eia-volta e passaram a navegar para sudeste. Esse curso infelizm ente os levava para longe do inim igo, m as seus aviões precisavam do vento sudeste para decolar.

Todos os cantos do Yorktown estrem eciam com o estrondo das aeronaves à m edida que os seus m otores eram acelerados ao m áxim o e elas avançavam pelo convés a toda a velocidade, um a após outra, e ganhavam o ar. Chuck reparou que o Wildcat tendia a erguer a asa direita e puxar um pouco para a esquerda ao acelerar pelo convés, característica da qual os pilotos reclam avam m uito.

Às oito e m eia, os três porta-aviões am ericanos j á tinham m andado 155 aeronaves atacarem a força inim iga.

As prim eiras chegaram ao alvo na hora exata, quando os j aponeses estavam ocupados reabastecendo e rearm ando seus aviões que tinham voltado de Midway. Os conveses de pouso estavam coalhados de m unição espalhada em m eio a um verdadeiro ninho de serpentes de m angueiras de abastecim ento, tudo pronto para explodir num segundo. Devia ter sido um a carnificina.

Mas não foi.

Quase todos os aviões am ericanos da prim eira leva foram abatidos.

Os Devastators eram antiquados. Os Wildcats que os escoltavam , em bora pouco m elhores, não eram páreo para os Zeros j aponeses, velozes e fáceis de m anobrar. Os aviões que restaram para lançar seus proj éteis foram dizim ados pela devastadora artilharia antiaérea dos porta-aviões.

Lançar um a bom ba de um avião em m ovim ento sobre um navio tam bém em m ovim ento ou soltar um torpedo de form a que este atingisse um navio eram feitos extraordinariam ente difíceis, sobretudo para um piloto que estivesse sendo alvej ado.

A m aioria dos tripulantes desses aviões perdeu a vida tentando.

E nenhum deles conseguiu acertar um tiro sequer.

Nenhum a bom ba ou torpedo am ericano atingiu o alvo. As prim eiras três levas de aviões, despachadas cada um a de um porta-aviões, não infligiram qualquer dano à força de ataque j aponesa. A m unição de seus deques não explodiu, as m angueiras de com bustível não pegaram fogo. Os navios saíram ilesos.

Ao ouvir as m ensagens transm itidas pelo rádio, Chuck com eçou a se desesperar.

Viu com um a clareza renovada a genialidade do ataque a Pearl Harbor, sete m eses antes. Os navios am ericanos ancorados eram alvos estáticos, próxim os uns dos outros, relativam ente fáceis de acertar. Os caças que poderiam tê-los protegido foram destruídos nas pistas. Quando os am ericanos conseguiram se arm ar e fazer uso da artilharia antiaérea, o ataque j á estava quase no fim .

No entanto, aquela batalha ainda estava em curso e nem todos os aviões am ericanos tinham chegado à zona-alvo. Chuck ouviu um oficial gritar no rádio do Enterprise:

– Ataquem ! Ataquem !

Um piloto respondeu, lacônico:

– Positivo, assim que conseguir encontrar os m alditos.

A boa notícia era que o com andante j aponês ainda não despachara aviões para atacar os navios am ericanos: estava se atendo ao plano e concentrando-se em Midway. A essa altura, j á devia ter entendido que estava sendo atacado por aeronaves transportadas em porta-aviões, m as era possível que não tivesse certeza quanto à localização das em barcações inim igas.

Apesar dessa vantagem , os am ericanos não estavam ganhando.

Então a situação m udou. Um a frota de 37 bom bardeiros de m ergulho Dauntless lançada pelo Enterprise avistou os j aponeses. Os Zeros que protegiam as em barcações tinham descido até quase o nível do m ar para com bater os atacantes da leva anterior. Assim , os bom bardeiros se viram acim a dos caças e puderam descer na direção deles contra o sol. Minutos depois, m ais 18 bom bardeiros Dauntless do Yorktown chegaram ao local. Um dos pilotos era Trixie.

O rádio explodiu com m ensagens anim adas. Chuck fechou os olhos e se concentrou para tentar destrinchar os sons distorcidos. Não conseguiu identificar a voz de Trixie.

Então, por trás das vozes, com eçou a ouvir o silvo característico de bom bardeiros m ergulhando. O ataque tinha com eçado.

De repente, pela prim eira vez, ouviram -se gritos de triunfo dos pilotos.

– Peguei você, seu puto!

– Cacete, deu até para sentir a explosão!

– É isso aí, seus filhos da puta!

– Na m osca!

– Olhem só com o eles queim am !

Os hom ens da sala de rádio com em oraram anim ados, m as não sabiam ao certo o que estava acontecendo.

Tudo term inou em poucos m inutos, m as um relatório claro dem orou a chegar. A alegria da vitória deixou os pilotos incoerentes. Aos poucos, à m edida que eles se acalm avam e com eçavam a voltar aos porta-aviões, a situação se esclareceu.

Trixie Paxm an estava entre os sobreviventes.

Com o da vez anterior, a m aioria de suas bom bas tinha errado o alvo, m as um as dez haviam acertado em cheio, e essas poucas foram suficientes para causar danos enorm es. Três im ensos porta-aviões j aponeses estavam pegando fogo: Kaga, Soryu e a nau capitânia, Akagi. O inim igo agora só tinha um único porta-aviões, o Hiryu.

– Três de quatro navios! – exultou Chuck. – E eles ainda nem chegaram perto dos nossos!

Mas isso logo m udou.

O alm irante Fletcher despachou dez bom bardeiros Dauntless à procura do últim o porta-aviões j aponês. No entanto, o radar do Yorktown captou um a frota de aviões a oitenta quilôm etros, provavelm ente vinda do Hiryu, e se aproxim ando cada vez m ais. Ao m eio-dia, Fletcher despachou 12 Wildcats para enfrentar os aviões inim igos. O restante das aeronaves foi arrum ado para não estar em posição vulnerável no convés quando o ataque com eçasse. Enquanto isso, as m angueiras de abastecim ento do Yorktown foram enchidas com dióxido de carbono, com o precaução anti-incêndio.

A frota de atacantes era form ada por 14 “Vals”, bom bardeiros de m ergulho Aichi D3A, e caças Zero de escolta.

É agora, pensou Chuck: m inha prim eira batalha. Sentiu ânsia de vôm ito. Engoliu com força.

Antes m esm o de os aviões j aponeses aparecerem , a artilharia do Yorktown com eçou a disparar. O porta-aviões tinha quatro pares de grandes canhões antiaéreos, com canos de 12,5 centím etros de diâm etro capazes de lançar seus proj éteis a vários quilôm etros de distância. Depois de localizar a posição do inim igo com o auxílio do radar, os oficiais de artilharia dispararam um a salva de gigantescos proj éteis de 25 quilos na direção dos aviões que se aproxim avam , aj ustando os tim ers para que eles explodissem ao atingir o alvo.

Os Wildcats subiram m ais alto que os aviões inim igos e, segundo as inform ações transm itidas pelos pilotos no rádio, conseguiram derrubar seis bom bardeiros e três caças.

Chuck correu até a ponte de com ando com um a m ensagem avisando que o restante da força de ataque estava a cam inho. O alm irante Fletcher respondeu, calm o:

– Bem , j á pus m eu capacete de m etal... Não posso fazer m ais nada.

Chuck olhou pela j anela e viu os bom bardeiros de m ergulho surgirem zunindo no céu, vindo em sua direção num ângulo tão inclinado que pareciam estar despencando. Resistiu ao im pulso de se j ogar no chão.

O porta-aviões deu um a guinada repentina a bom bordo, virando o lem e ao m áxim o. Qualquer tentativa de fazer os aviões inim igos se desviarem da rota valia a pena.

O convés do Yorktown tinha tam bém quatro Chicago Pianos – canhões antiaéreos m enores, de curto alcance, com quatro canos cada um . Estes abriram fogo, e a artilharia dos cruzadores que escoltavam o porta-aviões fez o m esm o.

Enquanto Chuck olhava da ponte de com ando, aterrorizado e sem poder fazer nada para se defender, um dos artilheiros do convés acertou a m ira e atingiu um Val. O avião pareceu se partir em três pedaços. Dois deles caíram no m ar e um terceiro foi se espatifar contra a lateral do navio. Então outro Val explodiu. Chuck vibrou.

Mas ainda restavam seis bom bardeiros.

O Yorktown deu um a guinada brusca para estibordo.

Os Vals enfrentaram a barragem m ortal da artilharia antiaérea do convés para perseguir o porta-aviões.

Quando chegaram m ais perto, as m etralhadoras localizadas nas passarelas de am bos os lados do convés de pouso tam bém abriram fogo. As arm as antiaéreas do Yorktown com eçaram a tocar um a sinfonia letal: os estrondos graves dos canhões de 12,5 centím etros, os sons m édios dos canhões de quatro canos, os tiros acelerados das m etralhadoras.

Chuck viu a prim eira bom ba cair.

Muitas bom bas j aponesas tinham um fusível de retardo. Em vez de explodir com o im pacto, dem oravam ainda um ou dois segundos. A ideia era que perfurassem o convés e fossem explodir bem no interior do navio, causando o m aior estrago possível.

Mas essa bom ba rolou pelo convés.

Tom ado por um m isto de fascínio e terror, Chuck não conseguiu desgrudar os olhos do artefato. Por alguns instantes, pareceu que a bom ba talvez não fosse causar dano algum . Então ela explodiu com um estrondo e um clarão de fogo. Os dois canhões antiaéreos de quatro canos que ficavam na popa foram destruídos na m esm a hora. Pequenos incêndios com eçaram no convés e nas torres.

Para assom bro de Chuck, os hom ens à sua volta perm aneceram tão calm os quanto se estivessem assistindo a um a sim ulação de guerra num a sala de reuniões. Mesm o cam baleando por causa do trem or do piso na ponte de com ando, o alm irante Fletcher continuou a gritar ordens. Instantes depois, equipes de controle de danos j á corriam pelo convés de pouso com m angueiras de incêndio, enquanto m aqueiros recolhiam os feridos e os carregavam por escadas de tom badilho m uito íngrem es para os postos m édicos localizados no interior do navio.

Não houve nenhum incêndio de grandes proporções: o dióxido de carbono das m angueiras de abastecim ento os evitara com sucesso. Tam pouco havia no convés avião arm ado com bom bas que pudesse explodir.

Instantes depois, outro Val desceu silvando em direção ao Yorktown, e um a bom ba acertou a cham iné. A explosão fez o im enso porta-aviões balançar. Um a gigantesca cortina de fum aça preta oleosa se ergueu dos dutos. Chuck percebeu que a bom ba devia ter danificado os m otores, pois o navio perdeu velocidade de im ediato.

Outras bom bas erraram o alvo e foram cair no m ar, levantando verdadeiros gêiseres que m olhavam o convés, onde a água do m ar se m isturava ao sangue dos feridos.

O Yorktown foi perdendo velocidade até parar de vez. Então os j aponeses acertaram um a terceira bom ba, que entrou pelo elevador da proa e explodiu em algum lugar sob o convés.

De um a hora para outra, o confronto acabou, e os Vals sobreviventes subiram pelo lím pido céu azul do Pacífico e desapareceram .

Ainda estou vivo, pensou Chuck.

O navio não estava perdido. Equipes de com bate a incêndios com eçaram a trabalhar antes m esm o de os j aponeses sum irem de vista. Sob o convés, os engenheiros afirm aram que haviam conseguido religar os boilers em m enos de um a hora. Equipes de reparos rem endaram o rom bo no convés de pouso usando tábuas de pinho de 1,80m x 1,20m .

O equipam ento de rádio, porém , fora destruído: agora o alm irante Fletcher estava cego e surdo. Junto com seu Estado-Maior, ele se transferiu para o cruzador Astoria e passou o com ando tático para o alm irante Spruance, do Enterprise.

– Vá se foder, Vanderm eier... Eu sobrevivi – disse Chuck entre dentes.

Mas ele cantou vitória antes do tem po.

Com um estrem ecim ento, os m otores tornaram a ganhar vida. Agora sob o com ando do capitão Buckm aster, o Yorktown voltou a singrar as ondas do Pacífico. Alguns dos aviões que haviam decolado de seu convés j á tinham ido se abrigar no Enterprise, m as outros continuavam no ar. Então o navio se virou na direção contrária à do vento, para que eles com eçassem a pousar para reabastecer. Com o o porta-aviões não tinha m ais rádio, Chuck e seus colegas viraram um a equipe de sinalização, e passaram a se com unicar com os outros navios usando bandeiras antiquadas.

Às duas e m eia, o radar de um cruzador que escoltava o Yorktown detectou aviões se aproxim ando pelo oeste – provavelm ente um a frota de ataque vinda do Hiryu. O cruzador transm itiu a inform ação para o porta-aviões. Buckm aster despachou 12 Wildcats para interceptar os j aponeses.

Mas os caças não devem ter conseguido deter o ataque, pois dez torpedeiros sugiram no m ar, avançando por entre as ondas e seguindo, certeiros, em direção ao Yorktown.

Chuck pôde ver os aviões com nitidez. Eram Nakagim as B5N, que os am ericanos cham avam de Kates. Cada um deles transportava, preso sob a fuselagem , um torpedo com quase m etade do com prim ento da própria aeronave.

Os quatro cruzadores pesados que escoltavam o porta-aviões com eçaram a fazer disparos no m ar, levantando um a barreira de água e espum a, m as os pilotos j aponeses não se deixaram deter com tanta facilidade, e passaram direto por esse obstáculo.

Chuck viu o prim eiro deles soltar seu torpedo. O proj étil com prido caiu na água, com a ponta virada para o Yorktown.

O avião passou pelo navio chispando, tão perto que Chuck pôde ver a cara do piloto. Além do capacete, ele tam bém usava um a bandana verm elha e branca na cabeça. Num gesto de triunfo, agitou o punho fechado para a tripulação no convés. Então desapareceu.

Outros aviões passaram rugindo. Torpedos eram lentos, e às vezes os navios conseguiam se esquivar, m as o avariado Yorktown era grande dem ais para navegar em zigue-zague. Um trem endo baque se fez ouvir, sacudindo o porta-aviões: torpedos tam bém eram bem m ais potentes do que bom bas norm ais. Chuck teve a im pressão de que haviam sido atingidos na popa, a bom bordo. Um a segunda explosão veio logo depois, e dessa vez chegou a levantar o navio, j ogando no chão m etade da tripulação que estava no convés. Então, os potentes m otores ratearam .

Novam ente, as equipes de reparos com eçaram a trabalhar antes m esm o de os aviões inim igos desaparecerem . Dessa vez, porém , não conseguiram dar conta das avarias. Chuck foi se j untar às equipes que operavam as bom bas-d’água e viu que o casco de aço do im enso porta-aviões estava rasgado com o um a lata de conservas. Um a cachoeira de água do m ar entrava pelo rom bo. Em poucos m inutos, Chuck sentiu que o convés havia se inclinado. O Yorktown estava adernando a bom bordo.

As bom bas não conseguiram conter o fluxo de água, sobretudo porque os com partim entos estanques da em barcação tinham sido danificados no m ar de Coral e não puderam ser consertados durante os reparos feitos às pressas no estaleiro.

Quanto tem po o porta-aviões dem oraria para naufragar?

Às três da tarde, Chuck ouviu a ordem :

– Abandonar navio!

Marinheiros lançaram cordas por cim a da alta am urada do convés inclinado. No hangar, tripulantes puxaram fios para liberar m ilhares de coletes salva-vidas de com partim entos no teto, fazendo-os cair com o um a chuva. As em barcações que form avam a escolta do porta-aviões se aproxim aram e soltaram seus botes. A tripulação do Yorktown tirou os sapatos e com eçou a se atropelar para pular a am urada. Por algum m otivo, deixaram os sapatos arrum ados no convés em fileiras perfeitas, centenas de pares, com o um a espéce de sacrifício ritual. Feridos eram baixados em m acas para baleeiras que aguardavam no m ar. Chuck se viu dentro d’água, nadando o m ais rápido que podia para se afastar do Yorktown antes que ele em borcasse. Um a onda o pegou de surpresa e levou sua boina. Ele agradeceu o fato de aquele oceano ser o Pacífico, cuj as águas eram quentes. No Atlântico, poderia ter m orrido de frio enquanto esperava o resgate.

Foi recolhido por um bote salva-vidas, que seguiu pegando outros m arinheiros. Dezenas de outros botes faziam o m esm o. Muitos hom ens desciam do convés principal, m ais baixo do que o convés de pouso. Inexplicavelm ente, o Yorktown conseguiu perm anecer na vertical.

Quando toda a tripulação estava em segurança, eles foram acolhidos a bordo das em barcações que form avam a escolta do porta-aviões.