Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 94 de 153

Páginas do PDF

Inverno do Mundo

Capítulo II

– Deixe que eu cuido disso, por favor – pediu Lowther.

– Esses hom ens acabaram de atravessar os Pireneus – argum entou Lloy d. – Eles estão exaustos.

– Então é m elhor descansarem antes de continuar.

Lloy d fez que não com a cabeça.

– É perigoso dem ais. A cidade que fica no alto da colina tem um prefeito sim pático à causa... por isso o ponto de encontro é aqui. Mais em baixo no vale, porém , a política é outra. Há agentes da Gestapo por toda parte, com o você bem sabe... e a m aioria dos policiais espanhóis está do lado deles, não do nosso. Meu grupo estará correndo sério risco de ser preso por entrar no país ilegalm ente. Você sabe com o é difícil tirar alguém das prisões de Franco, m esm o um inocente.

– Não vou perder m eu tem po discutindo com você. Sou seu superior hierárquico.

– Não é, não.

– O quê?

– Tam bém sou m aj or. Portanto, nunca m ais m e cham e de “garoto”, a m enos que queira levar um soco no nariz.

– Minha m issão é urgente!

– Então por que não trouxe o seu próprio veículo?

– Porque este estava disponível!

– Não estava, não.

Will Donelly , o am ericano gordo, deu um passo à frente.

– Concordo com o m aj or William s – falou com seu sotaque arrastado. – Ele acabou de salvar a m inha vida. Já o senhor, m aj or Lowther, não fez m erda nenhum a.

– Isso não vem ao caso – retrucou Lowther.

– Bem , a situação aqui m e parece bem clara – continuou Donelly. – O cam inhão é do m aj or William s. O m aj or Lowther quer o cam inhão, m as não vai ter. Fim de papo.

– Fique fora dessa história – disse Lowther.

– Eu sou tenente-coronel, portanto superior a vocês dois.

– Mas esta aqui não é a sua j urisdição.

– Nem a sua, pelo visto. – Donelly virou-se para Lloy d. – Vam os indo?

– Eu insisto! – esbravej ou Lowther.

Donelly virou-se para ele outra vez.

– Maj or Lowther, cale a porra da boca. Isto é um a ordem !

– Muito bem , pessoal... todos a bordo – disse Lloy d.

Lowther lançou-lhe um olhar de ira e esbravej ou:

– Você ainda m e paga, seu galesinho de m erda.

 

II

Os narcisos j á tinham com eçado a florir em Londres quando Daisy e Boy foram fazer exam e m édico.

A consulta tinha sido ideia de Daisy. Estava farta de Boy culpá-la por não conseguir engravidar. Ele vivia com parando-a à m ulher do irm ão, May , que tinha três filhos.

– Deve haver algo de errado com você – dissera ele, agressivo.

– Eu j á engravidei um a vez.

Ela estrem eceu ao se lem brar da dor do aborto; então, recordando-se de com o Lloy d tinha cuidado dela, sentiu um a dor diferente.

– Algum a coisa pode ter acontecido de lá para cá e tornado você estéril – dissera Boy .

– Ou você.

– Com o assim ?

– Pode m uito bem haver algo de errado com você – respondera Daisy .

– Não diga bobagem .

– Olhe, eu proponho um acordo. – Ocorreu-lhe que estava negociando com o seu pai, Lev. – Eu aceito fazer um exam e... se você tam bém fizer.

Isso o deixara surpreso, e ele hesitara antes de dizer:

– Está bem . Mas você vai prim eiro. Se eles disserem que não há nada de errado, eu vou.

– Não – insistira ela. – Quem vai prim eiro é você.

– Por quê?

– Porque não confio em você no que diz respeito a m anter prom essas.

– Tudo bem , então. Vam os j untos.

Daisy não sabia m uito bem por que estava fazendo aquilo. Havia tem po que j á não am ava Boy. Estava apaixonada por Lloy d William s, que ainda não tinha voltado da Espanha, onde cum pria um a m issão sobre a qual não podia falar m uito. No entanto, era casada com Boy. Ele havia sido infiel, é verdade – e com diversas m ulheres. Mas ela tam bém com etera adultério, m esm o que com um hom em só. Não tinha nenhum em basam ento m oral para reclam ar; consequentem ente, estava paralisada. Sentia apenas que, se cum prisse a sua função de esposa, talvez conseguisse m anter os últim os resquícios de autoestim a que lhe restavam .

O consultório do m édico ficava na Harley Street, não m uito longe de sua casa, m as num bairro m enos rico. Daisy achou a consulta desagradável. O m édico reclam ou por ela ter chegado dez m inutos atrasada. Fez m uitas perguntas sobre seu estado de saúde geral, seus ciclos m enstruais e o que cham ou de suas “relações” com o m arido. Em nenhum m om ento olhou para ela, m as tom ava notas com um a caneta-tinteiro. Em seguida enfiou um a série de instrum entos frios dentro de sua vagina.

– Faço isso todos os dias, não precisa se preocupar – disse ele, lançando-lhe um sorriso que dizia o contrário.

Quando Daisy saiu da consulta, esperou que Boy fosse rom per o acordo e desistir da sua. No entanto, ele entrou, m esm o de cara feia.

Enquanto aguardava, Daisy releu um a carta do m eio-irm ão, Greg. Ele descobrira que tinha um filho, fruto de um caso com um a garota negra quando ele estava com 15 anos. Para espanto de Daisy, seu irm ão play boy estava encantado com o m enino e disposto a participar de sua vida, m esm o que não com o pai, m as com o tio. E o que era ainda m ais surpreendente: Lev tinha conhecido o neto e dito que ele era inteligente.

Que ironia, pensou ela. Greg tinha um filho, m esm o que nunca tivesse querido ser pai, e Boy não tinha nenhum , em bora ansiasse loucam ente por um herdeiro.

Seu m arido saiu da sala do m édico um a hora depois. O doutor lhes prom eteu os resultados para dali a um a sem ana. Eles foram em bora do consultório ao m eio-dia.

– Depois dessa, preciso de um drinque – disse Boy .

– Eu tam bém – concordou Daisy .

Eles olharam para os dois lados da rua, repleta de casas idênticas.

– Este bairro parece um deserto. Nenhum m ísero pub à vista.

– Eu não vou a um pub de j eito nenhum – disse Daisy. – Quero um m artíni, e ninguém sabe preparar m artíni em pubs.

Ela sabia do que estava falando. Certa vez pedira um m artíni no King’s Head, em Chelsea, e tinham lhe servido um copo de verm ute quente absolutam ente intragável.

– Vam os ao Hotel Claridge, por favor – pediu ela. – Fica só a cinco m inutos a pé daqui.

– Ótim a ideia!

O bar do Claridge estava cheio de pessoas conhecidas. Regras rígidas regulavam as refeições que os restaurantes podiam servir, m as o Claridge encontrara um a brecha: não havia restrição nenhum a quanto à distribuição de com ida, de m odo que eles ofereciam um bufê gratuito e cobravam apenas pelas bebidas, praticando seus preços j á naturalm ente salgados.

Daisy e Boy se acom odaram em m eio àquele esplendor art déco e bebericaram dois drinques perfeitos. Ela com eçou a se sentir m elhor.

– O m édico m e perguntou se eu tive caxum ba – disse Boy .

– Mas você teve.

A caxum ba era um a doença típica da infância, m as Boy a contraíra havia apenas uns dois anos. Ficara acantonado por um breve período num a igrej a de East Anglia e pegara a infecção dos três filhos pequenos do vigário. Sentira m uita dor.

– Ele explicou por quê?

– Não. Você sabe com o são esses caras. Nunca dizem droga nenhum a.

Daisy pensou que j á não era m ais tão alegre e descontraída quanto antigam ente. Nos velhos tem pos, j am ais teria se preocupado daquele j eito com seu casam ento. Sem pre gostara das palavras de Scarlett O’Hara em ...E o vento levou: “Pensarei nisso am anhã.” Porém , não era m ais assim . Talvez estivesse am adurecendo.

Boy pedia um segundo drinque quando Daisy olhou para a porta do bar e viu o m arquês de Lowther entrar, usando um uniform e am arrotado e m anchado.

Não gostava daquele hom em . Desde que ele desconfiara de seu relacionam ento com Lloy d, passara a tratá-la com um a fam iliaridade pegaj osa, com o se os dois com partilhassem um segredo que os tornasse íntim os.

Lowther sentou-se à m esa com eles sem ser convidado, deixou cair a cinza do charuto na calça cáqui e pediu um m anhattan.

Daisy logo viu que as intenções dele não eram boas. Seus olhos tinham um brilho de deleite m aldoso que não podia ser explicado apenas pela expectativa de um bom drinque.

– Já faz m ais ou m enos um ano que não o vej o, Lowthie – disse Boy . – Por onde tem andado?

– Estava em Madri – respondeu Lowther. – Não posso falar m uito a respeito. Inform ação sigilosa, sabe com o é. E você?

– Passo m uito tem po treinando pilotos, m as ultim am ente voei em algum as m issões, depois que intensificam os os bom bardeios à Alem anha.

– Um a ótim a providência. Precisam os dar aos alem ães um gostinho de seu próprio veneno.

– Você pode até achar isso, m as os pilotos andam reclam ando bastante.

– É m esm o? Por quê?

– Porque toda essa conversa sobre alvos m ilitares é um a grande balela. De nada adianta bom bardear fábricas na Alem anha, porque eles sim plesm ente as reconstroem . Então agora estam os atacando grandes áreas habitadas por um a densa população de classe trabalhadora, pois eles não conseguem substituir os operários com a m esm a rapidez.

Lowther assum iu um a expressão chocada.

– Então a nossa política é m atar civis.

– Exatam ente.

– Mas o governo está nos garantindo...

– O governo está m entindo – disse Boy. – E as equipes dos bom bardeiros agora sabem disso. Muitos não se im portam , é claro, m as alguns se sentem m al. Segundo eles, se estiverm os fazendo a coisa certa, devem os dizer isso claram ente. Por outro lado, se estiverm os fazendo a coisa errada, devem os parar.

Lowther pareceu pouco à vontade.

– Não acho que deveríam os estar tendo esta conversa aqui.

– Tem razão – concordou Boy .

A segunda rodada de drinques chegou. Virando-se para Daisy , Lowther perguntou:

– E a esposinha? A senhora deve estar fazendo algum trabalho de guerra. Com o diz o ditado: cabeça vazia, oficina do diabo.

Daisy respondeu em tom neutro e casual:

– Agora que a Blitz acabou, eles não precisam m ais de m ulheres para dirigir am bulâncias, então estou trabalhando para a Cruz Verm elha. Tem os um escritório em Pall Mall. Fazem os o possível para aj udar os am ericanos que estão servindo aqui.

– Hom ens sedentos por um pouco de com panhia fem inina, não é m esm o?

– Em geral, só sentem saudades de casa. Gostam de ouvir sotaque am ericano.

Lowthie olhou para ela com lascívia.

– Im agino que a senhora tenha m uito talento para consolar esses soldados.

– Eu faço o que posso.

– Aposto que sim .

– Lowthie, você está bêbado? – indagou Boy. – Porque essa sua conversa está m uito inconveniente.

A expressão de Lowther foi tom ada por desdém .

– Ah, Boy , por favor, não m e diga que você não sabe. Por acaso é cego?

– Boy , vam os para casa, por favor – pediu Daisy .

Mas seu m arido a ignorou e dirigiu-se a Lowther:

– Que história é essa?

– Pergunte a ela sobre Lloy d William s.

– Se você não m e levar, irei para casa sozinha – disse Daisy .

– Você conhece algum Lloy d William s? – perguntou-lhe Boy .

Ele é seu irm ão, pensou Daisy. Sentiu um forte im pulso de revelar o segredo e deixar o m arido pasm o de surpresa, m as resistiu.

– Você tam bém conhece – falou. – Ele estudou em Cam bridge com você. Levou-nos a um a casa de espetáculos no East End, anos atrás.

– Ah! – disse Boy, lem brando. Então, intrigado, tornou a se dirigir a Lowther: – Aquele cara? – Era difícil para Boy ver Lloy d com o um rival. – Um hom em que não tem dinheiro nem para com prar a própria casaca? – disse, cada vez m ais incrédulo.

– Três anos atrás, ele fez o m eu curso de inteligência em Tŷ Gwy n. Daisy estava m orando na m ansão na época – contou Lowther. – Se bem m e lem bro, você estava arriscando a vida na França em um Hawker Hurricane. Enquanto ela se engraçava com aquele espertinho galês... na casa da sua própria fam ília!

O rosto de Boy estava ficando verm elho.

– Lowthie, se você estiver inventando isso, j uro que quebro a sua cara.

– Pergunte à sua m ulher! – retrucou Lowther com um sorriso confiante.

Boy virou-se para Daisy .

Ela não havia dorm ido com Lloy d em Tŷ Gwy n. Isso só acontecera em sua cam a de solteiro, na casa da m ãe dele, durante a Blitz. Mas não podia explicar isso a Boy na frente de Lowther. De toda form a, era um m ero detalhe. A acusação de adultério era verdadeira, e ela não iria negar. O segredo tinha sido revelado. Tudo o que ela queria agora era conservar pelo m enos um a aparência de dignidade.

– Boy, vou contar tudo o que você quiser saber... m as não na frente desse porco m alicioso – falou.

Ele ergueu a voz de tanto espanto:

– Quer dizer então que você não nega?

As pessoas da m esa ao lado se viraram , parecendo constrangidas, e tornaram a prestar atenção em seus próprios drinques.

Então foi a vez de Daisy levantar a voz:

– Eu m e recuso a ser interrogada no bar do Claridge.

– Então você confessa? – gritou Boy .

O salão ficou em silêncio.

Daisy se levantou.

– Não vou adm itir nem negar nada aqui. Contarei tudo a você em particular, em casa, que é onde casais civilizados tratam desse tipo de assunto.

– Meu Deus, você fez m esm o isso, foi para a cam a com ele! – vociferou Boy .

Até os garçons pararam de trabalhar e ficaram im óveis, assistindo à briga.

Daisy foi até a porta.

– Sua puta! – gritou Boy .

Daisy não sairia deixando essa frase sem resposta. Virou-se para ele outra vez:

– De putas você entende bem , não é m esm o? Tive o desprazer de conhecer duas das suas, lem bra? – Ela correu os olhos pelo salão. – Joanie e Pearl – falou, com desdém . – Quantas esposas iriam tolerar um a coisa dessas?

Então ela saiu do bar antes que ele pudesse responder.

Entrou num táxi que estava parado diante do hotel. Quando o carro estava se afastando da calçada, viu Boy surgir na rua e entrar no táxi seguinte da fila.

Daisy disse o endereço ao taxista.

De certa form a, estava aliviada com o fato de a verdade ter vindo à tona. Mas tam bém sentia-se m uito triste. Sabia que algo havia term inado.