Inverno do Mundo
Capítulo VI
Cum prim entou-a com um aperto de m ãos.
– Daisy Fitzherbert.
Ethel arqueou as sobrancelhas.
– Ah! – disse ela. – Você é a viscondessa de Aberowen.
Daisy enrubesceu e baixou a voz.
– Ninguém na ARP sabe disso.
– Seu segredo está seguro com igo.
Daisy hesitou antes de continuar:
– Conheci seu filho, Lloy d. – Não pôde evitar as lágrim as que m arej aram seus olhos ao pensar no tem po que os dois haviam passado j untos em Tŷ Gwy n, e no m odo com o ele cuidara dela na noite do aborto. – Ele foi m uito gentil com igo um a vez, quando precisei de aj uda.
– Obrigada – disse Ethel. – Mas não fale com o se ele estivesse m orto.
A reprim enda foi branda, m as Daisy teve a sensação de ter sido terrivelm ente insensível.
– Perdoe-m e! – desculpou-se. – Soube que ele desapareceu em com bate. Que estupidez a m inha.
– Mas ele não está m ais desaparecido – disse Ethel. – Fugiu pela Espanha. Chegou em casa ontem .
– Ah, m eu Deus! – O coração de Daisy agora estava disparado. – Ele está bem ?
– Está, sim . Na verdade, está com um a aparência ótim a, apesar de tudo por que passou.
– Onde... – Daisy engoliu em seco. – Onde ele está agora?
– Ora, deve estar em algum lugar por aqui. – Ethel olhou em volta. – Lloy d? – cham ou.
Nervosíssim a, Daisy correu os olhos pela m ultidão. Seria m esm o verdade?
Um hom em de sobretudo m arrom rasgado virou-se e disse:
– Sim , Mam ?
Daisy o encarou. Seu rosto estava bronzeado e ele estava extrem am ente m agro, no entanto parecia m ais bonito do que nunca.
– Venha cá, m eu am or – pediu Ethel.
Lloy d deu um passo à frente e então viu Daisy. De repente, sua expressão se transform ou. Ele abriu um sorriso.
– Oi – falou.
Daisy se levantou com um pulo.
– Lloy d, há alguém aqui de quem você talvez se lem bre...
Daisy não conseguiu se conter. Correu até Lloy d e atirou-se em seus braços. Apertou-o com força. Encarou aqueles olhos verdes, beij ou as faces queim adas de sol e o nariz quebrado, depois beij ou sua boca.
– Eu te am o – falou, desatinada. – Eu te am o, te am o, te am o.
– Eu tam bém te am o, Daisy – respondeu ele.
Atrás de si, Daisy ouviu a voz cheia de ironia de Ethel:
– Estou vendo que se lem bra m uito bem .
VI
Lloy d estava com endo torradas com geleia quando Daisy entrou na cozinha da casa da Nutley Street. Parecendo exausta, ela sentou-se à m esa e tirou o capacete de aço. Tinha o rosto encardido e os cabelos suj os de cinza e poeira. Lloy d achou-a irresistivelm ente linda.
Ela passava lá quase todas as m anhãs, depois de term inados os bom bardeios e de a últim a vítim a ter sido levada para o hospital. A m ãe de Lloy d lhe dissera para se sentir em casa, e Daisy levara suas palavras ao pé da letra.
Ethel lhe serviu um a xícara de chá e perguntou:
– Noite difícil, m inha querida?
Daisy assentiu, com ar funesto.
– Um a das piores. O edifício Peabody , na Orange Street, foi incendiado.
– Ah, não! – exclam ou Lloy d, consternado.
Conhecia o lugar: um a casa de côm odos im ensa e superlotada, habitada por fam ílias pobres com vários filhos.
– É um prédio bem grande – com entou Bernie.
– Era – corrigiu-o Daisy. – Centenas de pessoas m orreram queim adas e só Deus sabe quantas crianças ficaram órfãs. Quase todos os m eus pacientes não resistiram e faleceram a cam inho do hospital.
Lloy d estendeu o braço por cim a da pequena m esa e segurou a m ão dela.
Daisy ergueu os olhos da xícara de chá.
– É im possível se acostum ar com isso. Você pensa que vai ficando m enos sensível, m as não. – Estava tom ada pela tristeza.
Num gesto de com paixão, Ethel pousou a m ão no om bro da m oça por alguns instantes.
– E nós estam os fazendo o m esm o com as fam ílias na Alem anha – com pletou Daisy .
– Incluindo m eus velhos am igos Maud e Walter e seus filhos, im agino – concordou Ethel.
– Não é um horror? – Daisy balançou a cabeça, desanim ada. – Qual é o problem a conosco?
– Qual é o problem a com a raça hum ana? – em endou Lloy d.
Bernie, sem pre prático, falou:
– Vou dar um pulo na Orange Street para m e certificar de que todo o possível está sendo feito pelas crianças.
– Vou com você – disse Ethel.
O casal pensava de form a parecida, agia j unto sem qualquer esforço e m uitas vezes um parecia ler o pensam ento do outro. Lloy d os vinha observando com atenção desde que voltara para casa, preocupado que o casam ento deles pudesse ter sido abalado pela chocante revelação de que Ethel nunca tivera um m arido cham ado Teddy William s e de que o pai de Lloy d na verdade era o conde Fitzherbert. Conversara bastante sobre isso com Daisy, que agora j á sabia de toda a verdade. Qual seria a sensação de Bernie após ter sido enganado por duas décadas? Mas Lloy d não conseguia ver nenhum sinal de que isso fizesse diferença. A seu m odo pouco sentim ental, Bernie tinha adoração por Ethel, que, a seus olhos, era incapaz de com eter qualquer erro. Acreditava que ela nunca faria nada para m agoá-lo, e tinha razão. Isso fazia Lloy d torcer para um dia, quem sabe, tam bém ter um casam ento assim .
Daisy reparou que ele estava de uniform e.
– Aonde você vai?
– Fui cham ado ao Ministério da Guerra. – Ele olhou para o relógio no consolo da lareira. – É m elhor eu ir.
– Pensei que você j á tivesse contado o que aconteceu.
– Venha com igo até o m eu quarto que lhe explico enquanto ponho a gravata. Traga seu chá.
Os dois foram para o andar de cim a. Daisy olhou em volta com interesse, e ele se deu conta de que era a prim eira vez que ela entrava em seu quarto. Olhou para a cam a de solteiro, para a estante que continha livros em alem ão, francês e espanhol, para a escrivaninha com sua fileira de lápis apontados, e se perguntou o que ela estaria pensando de tudo aquilo.
– Que quartinho m ais agradável – com entou ela.
Não era um quartinho. Tinha o m esm o tam anho dos outros quartos da casa. Mas os padrões de Daisy eram diferentes.
Ela pegou um porta-retratos. Era um a foto da fam ília à beira-m ar: Lloy d ainda m enino, de calça curta, a bebê Millie de m aiô, um a j ovem Ethel com um grande chapéu m ole, e Bernie de terno cinza, com um a cam isa branca com o colarinho aberto e um lenço am arrado na cabeça.
– Foi em Southend – explicou Lloy d.
Pegando a xícara da m ão dela, pousou-a sobre a penteadeira, e tom ou Daisy nos braços. Beij ou-a na boca. Ela retribuiu o beij o com um a ternura cansada e acariciou o rosto dele, deixando o corpo pesar contra o seu.
Um m inuto depois, ele a soltou. Ela estava m esm o cansada dem ais para carícias, e ele tinha um com prom isso.
Ela tirou as botas e se deitou na cam a.
– O Ministério da Guerra m e pediu que fosse lá de novo – disse ele enquanto dava o nó na gravata.
– Mas da últim a vez você passou horas lá.
Era verdade. Tivera de cavar fundo em sua m em ória para se lem brar de cada detalhe do tem po que passara foragido na França. Eles queriam saber a patente e o regim ento de cada alem ão com quem ele havia cruzado. É claro que Lloy d não se lem brava de todos, m as tinha sido um aluno aplicado em Tŷ Gwy n e conseguiu lhes dar m uitas inform ações.
Aquele era um relatório padrão de inteligência m ilitar. No entanto, eles tam bém lhe perguntaram sobre sua fuga e quiseram saber que estradas ele havia usado e quem o havia aj udado. Dem onstraram interesse até m esm o por Maurice e Marcelle, e o repreenderam por não saber o sobrenom e do casal. Ficaram m uito entusiasm ados com Teresa, que claram ente poderia se tornar um a im portante colaboradora para futuros fugitivos.
– Hoj e vou conversar com pessoas diferentes. – Ele olhou de relance para um bilhete datilografado sobre a penteadeira. – No Hotel Metropole, na Northum berland Avenue. Quarto 424. – O endereço ficava perto da Trafalgar Square, num bairro com m uitos escritórios do governo. – Parece que é um departam ento novo responsável pelos prisioneiros de guerra britânicos. – Ele pôs a boina pontuda na cabeça e se olhou no espelho. – Estou elegante?
Não houve resposta. Ele olhou para a cam a. Daisy havia adorm ecido.
Lloy d pôs um cobertor sobre ela, deu-lhe um beij o na testa e saiu.
Disse à m ãe que Daisy estava dorm indo em sua cam a, e Ethel garantiu-lhe que daria um a olhada nela m ais tarde, para ver se estava tudo bem .
Lloy d então pegou o m etrô até o centro de Londres.
Quando contara a Daisy a verdade sobre suas origens, ela acreditara sem pestanej ar, pois de repente se lem brou de Boy ter lhe dito que Fitz tinha um filho ilegítim o em algum lugar.
– Que estranho – com entara ela, adotando um ar pensativo. – Os dois ingleses por quem m e apaixonei na verdade são m eios-irm ãos. – Então estudara Lloy d com um olhar avaliador. – Você herdou a beleza de seu pai. Boy só herdou o egoísm o.
Lloy d e Daisy ainda não tinham ido para a cam a. Um dos m otivos era porque ela nunca tirava folga. E, na única ocasião em que os dois tiveram um a chance de ficar a sós, as coisas deram errado.
Fora no dom ingo anterior, na casa de Daisy em May fair. Seus em pregados tinham tirado a tarde de folga e, sem ninguém por perto, ela o levou até seu quarto. No entanto, estava nervosa e pouco à vontade. Depois de beij á-lo, virou a cabeça para o lado. Quando ele pôs as m ãos em seus seios, ela as afastou. Ele não entendeu nada: se não devia se com portar assim , o que os dois estavam fazendo ali no quarto dela?
– Sinto m uito – dissera Daisy por fim . – Am o você, m as não consigo fazer isso. Não consigo trair m eu m arido na casa dele.
– Mas ele traiu você.
– Pelo m enos foi em outro lugar.
– Tudo bem .
Ela o encarou.
– Você acha que estou sendo boba?
Ele deu de om bros.
– Depois de tudo por que passam os j untos, essa sua atitude m e parece excessivam ente correta, sim ... m as escute, se é assim que você se sente, tudo bem . Eu seria um canalha se tentasse forçá-la a fazer algo para o qual você não está preparada.
Ela o envolveu com os braços e apertou com força.
– Já falei isso antes – disse. – Você é m uito m aduro.
– Não vam os desperdiçar a tarde inteira – disse ele. – Vam os ao cinem a.
Foram ver Charlie Chaplin em O grande ditador e riram bastante. Depois do film e, ela voltou ao trabalho.
Pensam entos agradáveis sobre Daisy ocuparam a m ente de Lloy d durante todo o traj eto até a Em bankm ent Station. Em seguida, ele subiu a Northum berland Avenue até o Metropole. As réplicas de antiguidades do hotel tinham sido rem ovidas, e o lugar agora estava m obiliado com m esas e cadeiras utilitárias.
Após alguns m inutos de espera, Lloy d foi conduzido até um coronel alto de m odos enérgicos.
– Li seu relatório, tenente – com entou o coronel. – Bom trabalho.
– Obrigado.
– Nós esperam os que m ais pessoas sigam o seu exem plo, e gostaríam os de aj udá-las. Estam os especialm ente interessados em pilotos cuj os aviões tenham sido derrubados. É caro treinar esses hom ens, e nós os querem os de volta para que possam continuar voando.
Lloy d considerava essa um a atitude dura. Se um hom em sobrevivesse a um pouso de em ergência, deveria m esm o ser cham ado para se arriscar a passar por tudo outra vez? Mas os feridos eram m andados de volta ao com bate assim que se recuperavam . Isso era a guerra.
– Nós estam os m ontando um a espécie de ferrovia clandestina da Alem anha até a Espanha – disse o coronel. – Estou vendo aqui que você fala alem ão, francês e espanhol. O m ais im portante, porém , é que j á esteve na situação de um fugitivo. Gostaríam os de transferi-lo para o nosso departam ento.
Lloy d não esperava por isso e não soube m uito bem o que pensar a respeito.
– Obrigado, coronel, fico honrado. Mas é um trabalho burocrático?
– De form a algum a. Querem os que volte para a França.
O coração de Lloy d disparou. Ele não pensava que precisaria enfrentar esses perigos outra vez.
O coronel viu a consternação em seu rosto.
– Você sabe o perigo que isso representa.
– Sei, sim , coronel.
Em tom abrupto, o superior disse:
– Pode recusar, se quiser.
Lloy d pensou em Daisy na Blitz, nas pessoas m ortas no incêndio do edifício Peabody, e percebeu que não queria recusar.
– Se o senhor achar im portante, coronel, estou inteiram ente disposto a voltar, é claro.
– Você é um hom em bom – com entou o coronel.
Meia hora m ais tarde, Lloy d voltou atordoado para a estação de m etrô. Agora fazia parte de um departam ento cham ado MI9. Voltaria à França com docum entos falsos e grandes quantias em dinheiro. Dezenas de alem ães, holandeses, belgas e franceses j á haviam sido recrutados no território ocupado para a perigosíssim a tarefa de aj udar pilotos britânicos e da Com m onwealth a voltar para casa. Ele seria um dos vários agentes do MI9 encarregados de expandir essa rede.
Se fosse pego, seria torturado.
Apesar do m edo, tam bém estava em polgado. Pegaria um avião até Madri: seria sua prim eira viagem aérea. Tornaria a entrar na França pelos Pireneus, e lá entraria em contato com Teresa. Circularia disfarçado entre os inim igos e conduziria os resgates bem debaixo do nariz da Gestapo. Iria garantir que os hom ens que seguissem os seus passos não se sentissem tão sozinhos e sem am igos quanto ele próprio se sentira.
Voltou para a Nutley Street às onze horas. Encontrou um recado da m ãe: “A Miss Estados Unidos não deu nem um pio.” Depois de passar no prédio bom bardeado, Ethel devia ter ido à Câm ara dos Com uns, e Bernie ao Conselho do Condado. Lloy d e Daisy tinham a casa só para si.
Ele subiu até o quarto. Daisy continuava dorm indo. Sua j aqueta de couro e a grossa calça de lã estavam j ogadas no chão de qualquer m aneira. Ela estava deitada vestida apenas com a roupa de baixo. Aquilo nunca tinha acontecido antes.
Ele tirou o paletó e a gravata.
Um a voz sonolenta falou:
– Pode tirar o resto.
Ele olhou para ela.
– O quê?
– Tire a roupa e deite-se aqui.
A casa estava vazia: ninguém iria incom odá-los.
Lloy d tirou as botas, a calça, a cam isa e as m eias, em seguida hesitou.
– Você não vai ficar com frio – disse ela.
Rem exeu-se debaixo das cobertas, e j ogou em cim a dele um baby -doll de seda.
Ele esperava que aquele m om ento fosse solene e de grande paixão, m as Daisy parecia achar que a situação m erecia risos e diversão. Lloy d estava disposto a se deixar levar.
Tirou a cam iseta e a cueca e enfiou-se ao seu lado na cam a. Sentiu seu corpo m orno, lânguido. Estava nervoso: na verdade, nunca lhe dissera que era virgem .
Sem pre ouvira falar que era o hom em quem deveria tom ar a iniciativa, m as Daisy parecia não saber disso. Depois de beij á-lo e acariciá-lo, segurou seu pênis.
– Ah, rapaz... eu estava torcendo para que você tivesse um desses.
Então Lloy d não se sentiu m ais nervoso.