Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 89 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo II

– Acidente? – perguntou o alm irante. – Isso é provável?

Groves não escondeu sua opinião de que aquela era um a pergunta idiota.

– Pelo am or de Deus, estam os produzindo um a bom ba experim ental – respondeu. – Um a bom ba tão potente que prom ete aniquilar um a cidade de porte m édio com um a única detonação. Seria burrice ignorar a possibilidade de um acidente.

O alm irante pareceu prestes a protestar, m as Stim son tornou a intervir:

– Prossiga, general.

– A terra no Tennessee é barata – disse Groves. – A energia elétrica tam bém . E nossa fábrica vai usar m uita energia.

– Então o senhor está propondo com prar essas terras.

– Estou propondo visitá-las hoj e. – Groves olhou para o relógio. – Na verdade, preciso sair agora para pegar o trem para Knoxville. – Ele se levantou. – Se m e dão licença, cavalheiros, não quero perder tem po.

Os outros hom ens que estavam na sala ficaram boquiabertos. Até m esm o Stim son pareceu surpreso. Ninguém em Washington sonhava em sair da sala de um secretário antes que este encerrasse a reunião. Aquilo era um a trem enda quebra de protocolo. Mas Groves não parecia se im portar.

E conseguiu se safar.

– Muito bem – disse Stim son. – Não querem os atrasá-lo.

– Obrigado, secretário – disse Groves, e saiu.

Greg se apressou a segui-lo.

 

II

A secretária civil m ais bonita do Novo Edifício do Gabinete de Guerra cham ava-se Margaret Cowdry. Tinha grandes olhos escuros e um a boca larga, sensual. Quando ela erguia o rosto e sorria, sentada atrás de sua m áquina de escrever, a sensação que se tinha era de j á estar fazendo am or com ela.

O pai de Margaret havia transform ado a arte de fazer pão num a indústria de produção em m assa: “Biscoitos Cowdry, tão fresquinhos quanto os da sua m ãe!” Ela não precisava trabalhar, m as estava fazendo a sua parte pelo esforço de guerra. Antes de convidá-la para alm oçar, Greg se certificou de que ela soubesse que ele tam bém era filho de um m ilionário. Um a rica herdeira em geral preferia sair com rapazes abastados: assim podia ter certeza de que ele não estava atrás do seu dinheiro.

Era outubro, e fazia frio em Washington. Margaret estava usando um elegante sobretudo azul-m arinho, com om breiras e cintura m arcada. A boina no m esm o tom tinha um ar m ilitar.

Os dois iam alm oçar no Ritz-Carlton, m as, ao chegar lá, Greg viu o pai com Glady s Angelus. Não queria um a refeição a quatro. Quando explicou isso a Margaret, ela disse:

– Não faz m al. Vam os alm oçar no Clube Universitário Fem inino, aqui do lado. Sou sócia de lá.

Greg nunca tinha ido a esse clube, m as teve a sensação de que j á ouvira falar dele. Passou alguns instantes tentando se lem brar, m as não conseguiu, então esqueceu o assunto.

No clube, Margaret tirou o sobretudo e revelou um vestido de caxem ira azul-roy al que m oldava suas curvas de form a sedutora. Manteve o chapéu e as luvas, com o faziam todas as m ulheres de classe ao com erem fora.

Com o sem pre, Greg saboreou a sensação de entrar num recinto de braços dados com um a linda m ulher. Havia poucos hom ens no restaurante do Clube Universitário Fem inino, m as todos o invej aram . Em bora não adm itisse isso para ninguém , apreciava esse sentim ento tanto quanto levar as m ulheres em questão para a cam a.

Pediu um a garrafa de vinho. Margaret diluiu o seu com água m ineral, ao estilo francês, dizendo:

– Não quero passar a tarde inteira corrigindo m eus próprios erros de digitação.

Greg lhe contou sobre o general Groves:

– Ele sabe o que quer e vai atrás. De certa form a, é um a versão m alvestida do m eu pai.

– Todo m undo o detesta – com entou Margaret.

Greg assentiu.

– Ele não faz a m enor questão de ser sim pático.

– Seu pai tam bém é assim ?

– Às vezes, m as em geral usa o charm e.

– O m eu é igualzinho! Talvez todos os hom ens de sucesso sej am assim .

O alm oço passou depressa. O serviço nos restaurantes de Washington estava m ais acelerado. O país estava em guerra, e as pessoas tinham coisas urgentes a fazer.

A garçonete lhes trouxe o cardápio de sobrem esas. Greg olhou para ela, e ficou surpreso ao reconhecer Jacky Jakes.

– Olá, Jacky ! – falou.

– Oi, Greg – respondeu ela, com a fam iliaridade encobrindo o nervosism o. – Com o tem passado?

Greg lem brou que o detetive lhe dissera que Jacky trabalhava no Clube Universitário Fem inino. Era essa a lem brança que havia lhe escapado antes do alm oço.

– Bem – respondeu. – E você?

– Muito bem .

– Tudo na m esm a? – Ele queria saber se ela ainda estava recebendo m esada de seu pai.

– Praticam ente.

Greg deduziu que algum advogado devia estar lhe pagando e que Lev se esquecera por com pleto daquele assunto.

– Que bom – com entou.

Jacky se lem brou do trabalho.

– Vão querer sobrem esa?

– Sim , por favor.

Margaret pediu um a salada de frutas e Greg, um sorvete.

Quando Jacky se afastou da m esa, Margaret com entou:

– Ela é m uito bonita. – Então fez cara de quem espera um a resposta.

– É, acho que sim – disse Greg.

– E não está de aliança.

Greg deu um suspiro. Com o as m ulheres eram observadoras.

– Você está se perguntando com o posso ser am igo de um a bela garçonete negra solteira – falou. – É m elhor eu contar a verdade: tivem os um caso quando eu tinha 15 anos. Espero que não fique chocada.

– É claro que estou chocada – retrucou Margaret. – Estou m oralm ente indignada. – Ela não estava nem falando sério nem brincando, m as algo entre as duas coisas. Não chegava a estar escandalizada, m as talvez não quisesse passar a im pressão de que encarava o sexo de form a casual, ao m enos não em seu prim eiro alm oço j untos.

Jacky trouxe as sobrem esas e perguntou se eles queriam café. Não havia tem po para isso – o Exército não aceitava alm oços dem orados –, então Margaret pediu a conta.

– Convidados não podem pagar aqui – explicou. Quando Jacky se afastou, ela arrem atou: – O interessante é que você tem m uito carinho por ela.

– Tenho? – Greg ficou surpreso. – Acho que tenho boas recordações. Bem que gostaria de voltar a ter 15 anos.

– Mas m esm o assim ela tem m edo de você.

– Não tem , não!

– Medo, não. Pânico.

– Acho que não.

– Acredite em m im . Os hom ens são cegos, m as um a m ulher vê esse tipo de coisa.

Greg exam inou Jacky com atenção quando ela trouxe a conta e percebeu que Margaret tinha razão. Jacky continuava assustada. Toda vez que via Greg, ela se lem brava de Joe Brekhunov e de sua navalha.

Isso deixou Greg zangado. A m oça tinha o direito de viver em paz.

Ele teria que tom ar algum a providência.

Sagaz feito um a águia, Margaret falou:

– Acho que você sabe por que ela está com m edo.

– Meu pai a am eaçou. Estava com m edo de que eu m e casasse com ela.

– Seu pai é um hom em que m ete m edo?

– Ele gosta que tudo corra com o ele quer.

– O m eu é igualzinho – disse ela. – Um a flor de pessoa, até você o contrariar. Aí ele vira um a fera.

– Que bom que você entende.

Os dois voltaram ao trabalho. Greg passou a tarde inteira zangado. De algum a form a, a am eaça de seu pai ainda pairava sobre a vida de Jacky com o um a influência m aligna. Mas o que ele podia fazer?

O que seu pai faria? Esse era um bom j eito de considerar a questão. Lev ficaria com pletam ente obcecado por reverter a situação a seu favor, e não se im portaria com quem fosse preciso ferir para conseguir isso. O general Groves agiria de form a parecida. Tam bém posso ser assim , pensou Greg, afinal sou filho dele.

Um plano com eçou a se form ar em sua m ente.

Ele passou a tarde lendo e resum indo um parecer provisório do Laboratório de Metalurgia da Universidade de Chicago. Um dos cientistas da instituição era Leo Szilard, prim eiro a descrever o conceito de reação nuclear em cadeia. Judeu húngaro, Szilard estudara na Universidade de Berlim até o fatídico ano de 1933. A equipe de pesquisadores de Chicago era chefiada por Enrico Ferm i, físico italiano cuj a esposa j udia havia deixado a Itália quando Mussolini publicara o Manifesto da raça.

Greg ficou im aginando se os fascistas percebiam que seu racism o provocara tam anha debandada de cientistas brilhantes para o lado inim igo.

Ele entendia perfeitam ente o conceito físico em questão. A teoria de Ferm i e Szilard era que, quando um nêutron se chocava com um átom o de urânio, a colisão podia produzir dois nêutrons. Esses dois nêutrons, por sua vez, podiam colidir com outros átom os de urânio para se transform ar em quatro, depois oito, e assim por diante. Szilard batizara esse fenôm eno de reação em cadeia – um a ideia genial.

Assim , um a tonelada de urânio era capaz de produzir a m esm a energia de três m ilhões de toneladas de carvão – pelo m enos em tese.

Na prática, isso nunca tinha sido feito.

Ferm i e sua equipe estavam m ontando um a pilha de urânio no Stagg Field, estádio de futebol am ericano desativado que pertencia à Universidade de Chicago. Para que o m aterial não explodisse de form a espontânea, enterraram o urânio em grafite, para absorver os nêutrons e im pedir a reação em cadeia. Seu obj etivo era aum entar gradualm ente a radioatividade até um nível em que m ais nêutrons fossem criados do que absorvidos – o que provaria a existência da reação em cadeia – e, em seguida, dim inuí-la depressa, antes que ela explodisse a pilha, o estádio, o cam pus e, possivelm ente, toda a cidade de Chicago.

Até agora, não haviam obtido sucesso.

Greg escreveu um a avaliação positiva do parecer, pediu a Margaret Cowdry que a datilografasse na m esm a hora e, em seguida, levou-a para Groves.

O general leu o prim eiro parágrafo e perguntou:

– Vai funcionar?

– Bem , general...

– A porra do cientista é você. Vai funcionar?

– Sim , general, vai funcionar – respondeu Greg.

– Ótim o – disse Groves, e j ogou o resum o na lixeira.

Greg voltou para sua m esa e passou algum tem po sentado encarando a reprodução da Tabela Periódica na parede à sua frente. Tinha quase certeza de que a pilha nuclear iria funcionar. Estava m ais preocupado em com o forçar o pai a retirar a am eaça feita a Jacky .

Mais cedo, havia decidido lidar com aquele problem a da m esm a form a que Lev teria lidado. Agora estava com eçando a pensar nos detalhes práticos. Precisava assum ir um a posição radical.

Seu plano com eçou a tom ar form a.

Mas será que ele teria peito para enfrentar o pai?

Às cinco da tarde, encerrou o expediente.

No cam inho de casa, parou num a barbearia e com prou um a navalha dobrável, do tipo em que a lâm ina fica encaixada no cabo.

– Com a sua barba, o senhor vai ver que funciona m elhor do que um a gilete – com entou o barbeiro.

Mas Greg não iria usar a navalha para se barbear.

Estava m orando na suíte perm anente do pai no Hotel Ritz-Carlton. Quando chegou, Lev e Glady s tom avam drinques.

Lem brou-se de ter encontrado Glady s pela prim eira vez naquele quarto, sete anos antes, sentada no m esm o sofá de seda am arela. Ela agora era um a estrela de cinem a ainda m ais fam osa. Lev a fizera protagonizar um a série de film es de guerra descaradam ente aventurescos, nos quais ela desafiava nazistas m al-encarados, derrotava j aponeses sádicos graças à sua inteligência e velava a convalescença de m ásculos pilotos am ericanos. Não era m ais tão bonita quanto aos 20 anos, observou Greg. A pele do rosto j á não tinha a m esm a textura lisa e perfeita; os cabelos não pareciam tão fartos; e ela estava usando um sutiã, peça que sem dúvida devia desprezar naquele tem po. No entanto, ainda tinha os m esm os olhos azul-escuros que pareciam irradiar um convite irresistível.

Greg aceitou um m artíni e se sentou. Será que iria m esm o desafiar o pai? Nunca tinha feito isso nos sete anos desde que apertara a m ão de Glady s pela prim eira vez. Talvez j á estivesse na hora.

Vou agir exatam ente com o ele agiria, pensou.

Tom ou um gole da bebida e pousou o corpo sobre um a m esinha lateral de pernas finas. Em tom casual, disse a Glady s:

– Quando eu tinha 15 anos, m eu pai m e apresentou a um a atriz cham ada Jacky Jakes.

Os olhos de Lev se arregalaram .

– Acho que não a conheço – disse Glady s.

Greg tirou a navalha do bolso, m as não a abriu. Segurou-a na m ão, com o se avaliasse seu peso.

– Eu m e apaixonei por ela.

– Por que está desencavando essa história agora? – perguntou Lev.

Glady s sentiu a tensão no ar e assum iu um a expressão aflita.

– Meu pai teve m edo de que eu quisesse m e casar com ela – prosseguiu Greg.

Lev deu um a risada zom beteira.

– Aquela piranha vagabunda?

– Ela era um a piranha vagabunda? – perguntou Greg. – Achei que fosse atriz. – Olhou para Glady s. A ofensa velada a fez corar. Greg prosseguiu: – Meu pai fez um a visita a ela e levou um colega, Joe Brekhunov. Você o conheceu, Glady s?

– Acho que não.

– Sorte sua! Joe tem um a navalha igual a esta. – Greg abriu a navalha com um estalo, exibindo a lâm ina afiada e reluzente.

Glady s soltou um arquej o.

– Não sei que brincadeira você acha que está fazendo... – com eçou Lev.

– Só um instante – interrom peu Greg. – Glady s quer ouvir o resto da história. – Sorriu para ela, que estava apavorada. – Meu pai disse a Jacky que, se ela tornasse a m e ver, Joe Brekhunov cortaria seu rosto.

Ele fez um m ovim ento brusco com a navalha, bem pequeno, e Glady s soltou um gritinho.

– Chega dessa história – disse Lev, dando um passo em direção ao filho.

Greg ergueu a m ão que segurava a navalha. Lev parou.

Greg não tinha certeza se seria capaz de ferir o pai. Mas Lev tam bém não tinha.

– Jacky m ora aqui em Washington – disse Greg.

– Você está trepando com ela outra vez? – perguntou-lhe o pai, grosseiro.

– Não. Não estou trepando com ninguém no m om ento, m as tenho planos para Margaret Cowdry .

– A herdeira dos biscoitos?

– Por quê? Vai fazer Joe am eaçá-la tam bém ?

– Não sej a idiota.

– Jacky hoj e em dia é garçonete... Nunca conseguiu o papel no cinem a que esperava. Às vezes esbarro com ela na rua. Hoj e ela m e serviu o alm oço num restaurante. Sem pre que m e vê, ela acha que Joe virá atrás dela.

– Essa m ulher está louca – disse Lev. – Eu nem m e lem brava dela até cinco m inutos atrás.

– Posso dizer isso a ela? – indagou Greg. – Acho que a esta altura ela tem direito a um pouco de paz.

– Pode dizer a ela o que quiser, porra. Para m im ela não existe.

– Maravilha – disse Greg. – Ela vai gostar de saber.

– Agora guarde essa droga dessa navalha.

– Só m ais um a coisa. Um aviso.

Lev fez cara de bravo.

– Você está me dando um aviso?

– Se algum a coisa ruim acontecer com Jacky... qualquer coisa... – Greg m oveu a navalha para um lado e para outro, só um pouquinho.

– Não m e diga que vai cortar a cara de Joe Brekhunov – zom bou Lev com desdém .

– Não.

Lev exibiu um a pontinha de m edo.

– Vai cortar a m inha?

Greg fez que não com a cabeça.

– O que vai fazer então, pelo am or de Deus? – perguntou Lev, irritado.

Greg olhou para Glady s.

A m ulher levou alguns instantes para entender aonde ele queria chegar. Então se encolheu na poltrona estofada de seda, levou as duas m ãos às faces com o se quisesse protegê-las e soltou outro gritinho, dessa vez m ais alto.

– Seu babaquinha – disse Lev ao filho.

Greg fechou a navalha e se levantou.

– Era assim que você teria agido, pai – falou, e então saiu do quarto.

Bateu a porta e recostou-se na parede, ofegante com o se tivesse corrido. Nunca sentira tanto m edo na vida. No entanto, tam bém estava triunfante. Havia enfrentado o pai usando as táticas do próprio Lev, e chegara até a lhe m eter um pouco de m edo.

Enquanto andava até o elevador, guardou a navalha no bolso. Sua respiração se norm alizou. Ele virou a cabeça para olhar o corredor do hotel, quase esperando ver o pai sair correndo atrás dele. Mas a porta da suíte perm aneceu fechada. Greg entrou no elevador e desceu até o lobby .

Entrou no bar do hotel e pediu um dry m artíni.