Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 115 de 153

Páginas do PDF

Inverno do Mundo

Capítulo VI

– Ele vai ser um ótim o deputado.

– Não com você a tiracolo. Nem vai ser eleito. Ele é um m aldito de um socialista. E você é ex-fascista.

– Já pensei nisso. Sei que é um problem a...

– Problem a? É um a barreira intransponível. Espere só até os j ornais saberem ! Você vai ser crucificada do m esm o j eito que fui hoj e.

– Im agino que você vá contar isso para o Daily Mail.

– Não vai ser preciso... os adversários dele se encarregarão disso. Ouça bem o que estou dizendo: ao seu lado, Lloy d William s não tem a m enor chance.

 

VI

Nos prim eiros cinco dias de j unho, o tenente Woody Dewar e seu pelotão de paraquedistas, j unto com cerca de outros m il hom ens, ficaram isolados num cam po de pouso em algum lugar a noroeste de Londres. Um hangar havia sido convertido num gigantesco aloj am ento, com centenas de catres dispostos em longas fileiras. Enquanto aguardavam , distraíam -se assistindo a film es e ouvindo discos de j azz.

Seu obj etivo era a Norm andia. Por m eio de planos com plexos para tentar enganar o inim igo, os Aliados haviam tentado convencer o alto-com ando alem ão de que o alvo seria uns 300 quilôm etros m ais para nordeste, em Calais. Se os alem ães tivessem acreditado na m entira, a força de invasão iria encontrar um a resistência relativam ente leve, pelo m enos nas prim eiras horas.

Os paraquedistas seriam os prim eiros a chegar, no m eio da noite. A segunda leva seria a força principal, com posta por cinco m il navios com 130 m il hom ens que iriam desem barcar nas praias norm andas ao raiar do dia. A essa altura, os paraquedistas j á deveriam ter destruído redutos alem ães no interior e assum ido o controle de conexões de transporte im portantes.

O pelotão de Woody tinha que conquistar um a ponte sobre um rio num a cidadezinha cham ada Église-des-Soeurs, a 16 quilôm etros do litoral. Depois de conseguir isso, precisava m anter o controle da ponte para im pedir a passagem de qualquer unidade alem ã enviada para reforçar as defesas da praia até a força principal de invasão os alcançar. Não podiam perm itir em hipótese algum a que os alem ães explodissem a ponte.

Enquanto esperavam o sinal verde, Ace Webber prom oveu um torneio de pôquer no qual ganhou m il dólares e tornou a perdê-los. Cam eron Canhoto lim pava e lubrificava obsessivam ente sua carabina leve sem iautom ática M1 m odelo paraquedista, de coronha dobrável. Lonnie Callaghan e Tony Bonanio, que não iam com a cara um do outro, iam à m issa j untos todos os dias. Pete Schneider, o Furtivo, afiou seu facão com prado em Londres até que fosse possível fazer a barba com ele. Patrick Tim othy, que era a cara de Clark Gable e tinha um bigode parecido, tocava sem parar a m esm a m elodia no ukulele, levando todos à loucura. O sargento Defoe escrevia longas cartas para a esposa, depois as rasgava e com eçava outra vez. Mack Trulove e Joe “Fum aça” Morgan cortaram e rasparam os cabelos um do outro, acreditando que assim facilitariam o trabalho das equipes m édicas caso sofressem ferim entos na cabeça.

A m aioria dos soldados tinha apelidos. Woody descobrira que o seu era Uísque.

Inicialm ente m arcado para dom ingo, 4 de j unho, o Dia D foi adiado por causa do m au tem po.

Na noite da segunda-feira, 5 de j unho, o coronel fez um discurso.

– Hom ens! – gritou ele. – Esta noite vam os invadir a França!

Os soldados soltaram rugidos de aprovação. Woody achou aquilo um a ironia. Eles estavam ali, seguros e quentinhos, m as m al podiam esperar a hora de partir, pular de aviões e aterrissar nos braços de tropas inim igas com intenção de m atá-los.

Foi-lhes servida um a refeição especial, com tudo o que eles aguentassem com er: carne de vaca, porco e frango, batatas fritas, sorvete. Woody não se interessou por nada disso. Sabia m elhor do que os outros o que o aguardava e não queria enfrentar aquilo de barriga cheia. Com eu um a rosquinha e tom ou um café. O café era am ericano, arom ático e saboroso, ao contrário da bebida detestável servida pelos britânicos – isso quando eles tinham algum café para servir.

Woody tirou as botas e se deitou no catre. Pensou em Bella Hernandez, seu sorriso, seus seios m acios.

Quando se deu conta, um a sirene estava tocando.

Por alguns instantes pensou que estivesse acordando de um sonho ruim no qual partia para um com bate a fim de m atar pessoas m ás. Então percebeu que era verdade.

Todos vestiram os m acacões e j untaram seu equipam ento. Tinham m uitas coisas para carregar. Algum as eram essenciais: um a carabina com 150 tiros de calibre .30; granadas antitanque; um a pequena bom ba conhecida com o granada Gam m on; com ida; pastilhas purificadoras de água; um kit de prim eiros socorros contendo m orfina. Outras eles poderiam ter dispensado: um a ferram enta para cavar trincheiras, um kit de barbear, um m anual de expressões em francês. Estavam tão carregados que os m ais baixos tinham dificuldade de andar até os aviões alinhados na pista de pouso escura.

As aeronaves que iriam transportá-los eram Sky trains C-47. Sob as luzes fracas, Woody constatou, surpreso, que todas elas haviam sido pintadas com listras pretas e brancas bem m arcadas. O piloto de seu avião era Bonner, um capitão m al-hum orado vindo do Meio-Oeste dos Estados Unidos.

– É para evitar que os nossos m alditos artilheiros nos derrubem – explicou o capitão.

Antes de em barcar, os hom ens foram pesados. Donegan e Bonanio levavam bazucas desm ontadas dentro de bolsas presas às pernas, o que aum entava seu peso em m ais de 35 quilos cada um . Quando subiram a bordo, Bonner se zangou.

– Vocês estão m e sobrecarregando! – vociferou para Woody. – Não vou conseguir tirar esta porra do chão!

– A decisão não foi m inha, capitão – retrucou Woody . – Fale com o coronel.

O sargento Defoe foi o prim eiro a em barcar e avançou até a frente do avião, onde sentou-se j unto ao arco aberto que conduzia à cabine de com ando. Ele seria o últim o a saltar. Se na últim a hora alguém se m ostrasse relutante em pular para a escuridão, seria auxiliado por um bom em purrão de Defoe.

Donegan e Bonanio, com suas bolsas nas pernas contendo as bazucas e todo o restante, precisaram de aj uda para subir os degraus. Com o era o líder do pelotão, Woody em barcou por últim o. Seria o prim eiro a saltar e a aterrissar.

O interior do avião era cilíndrico, com um a fileira de assentos de m etal sim ples de cada lado. Os hom ens tiveram dificuldade para prender os cintos de segurança em volta do equipam ento, e alguns nem se deram o trabalho. A porta se fechou e os m otores ganharam vida.

Woody estava ao m esm o tem po anim ado e com m edo. De form a totalm ente irracional, estava ansioso pelo início da batalha. Para sua surpresa, pegou-se im paciente para saltar, encontrar o inim igo e disparar suas arm as. Queria que aquela espera acabasse.

Pensou se algum dia tornaria a ver Bella Hernandez.

Teve a im pressão de sentir o avião penar para avançar pesadam ente pela pista de decolagem . Com esforço, ele foi ganhando velocidade. Pareceu prosseguir pelo chão por um a eternidade. Por fim , Woody se perguntou qual seria a extensão daquela m aldita pista. Então o avião finalm ente decolou. A sensação de estar voando era tão pequena que Woody achou que o avião estivesse a poucos m etros acim a do solo. Então olhou para fora. Estava sentado ao lado da últim a das sete j anelas, bem j unto à porta, e pôde ver as luzes protegidas da base se afastarem aos poucos. Eles estavam no ar.

Apesar do céu encoberto, as nuvens em itiam um a luz tênue, provavelm ente porque a lua havia surgido m ais atrás. Na ponta de cada asa brilhava um a luzinha azul, e Woody pôde ver seu avião entrar em form ação com outros, desenhando um gigantesco V no céu.

A cabine era tão barulhenta que, para se fazerem ouvir, eles tinham que gritar no ouvido uns dos outros, e as conversas logo cessaram . Todos se rem exiam nos assentos duros, tentando em vão encontrar um a posição confortável. Alguns fecharam os olhos, m as Woody duvidou que alguém de fato estivesse dorm indo.

Estavam voando baixo, a pouco m ais de 300 m etros, e de vez em quando ele via o cintilar opaco e cinzento de rios e lagos. Em determ inado m om ento, avistou um grande grupo de pessoas: centenas de rostos erguidos para os aviões que rugiam no céu. Sabia que m ais de m il aeronaves estavam sobrevoando o sul da Inglaterra ao m esm o tem po e deu-se conta de que isso devia ser um a visão extraordinária. Ocorreu-lhe que aquelas pessoas estavam testem unhando a história ser escrita e que ele fazia parte dessa história.

Meia hora depois, passaram pelos balneários ingleses e com eçaram a sobrevoar o m ar. A lua brilhou por alguns instantes por um a brecha nas nuvens, e então Woody viu os navios. Mal pôde acreditar em seus olhos. Era um a verdadeira cidade flutuante: em barcações de todos os tam anhos navegando em fileiras irregulares com o casas nas ruas de um a cidade, m ilhares delas, até onde a vista alcançava. Antes que pudesse cham ar a atenção dos com panheiros para aquela visão adm irável, as nuvens tornaram a encobrir a lua e a im agem desapareceu com o um sonho.

Os aviões fizeram um a curva aberta para a direita, a fim de chegar à França a oeste do ponto em que os paraquedistas com eçariam a saltar. Depois seguiriam para leste pelo litoral, verificando sua posição com a aj uda de m arcos em terra, para garantir que os hom ens aterrissassem onde deveriam .

As Ilhas do Canal, que apesar de localizadas m ais perto da França eram britânicas, tinham sido ocupadas pelos alem ães após a batalha da França, em 1940. Portanto, quando a arm ada sobrevoou o arquipélago, a artilharia antiaérea alem ã abriu fogo. Os Sky trains voavam em baixa altitude e estavam m uito vulneráveis. Woody percebeu que poderia m orrer antes m esm o de chegar ao cam po de batalha. Detestaria m orrer assim , em vão.

O capitão Bonner com eçou a voar em zigue-zague para evitar os tiros. Woody ficou grato por isso, m as o efeito da m anobra foi lastim ável nos soldados. Todos ficaram enj oados, até m esm o ele. Patrick Tim othy foi o prim eiro a sucum bir à náusea e vom itar no chão. O cheiro ruim piorou o m al-estar dos outros. Pete Furtivo vom itou em seguida, e depois vários outros ao m esm o tem po. Todos tinham se em panturrado de carne e sorvete e agora botavam tudo para fora. O fedor ficou insuportável, e o chão se transform ou num a poça noj enta e escorregadia.

O curso do avião se estabilizou quando eles deixaram as ilhas para trás. Alguns m inutos depois, o litoral da França apareceu. O avião se inclinou e virou à esquerda. O copiloto se levantou da cadeira e foi falar no ouvido do sargento Defoe, que se virou para o pelotão e ergueu os dez dedos. Dez m inutos para o salto.

O avião desacelerou, passando da velocidade de cruzeiro de 250km /h para a velocidade adequada ao salto, cerca de 160km /h.

De repente, eles entraram no m eio de um nevoeiro denso o suficiente para fazer sum ir a luzinha azul na ponta da asa. O coração de Woody acelerou. Para aviões voando em form ação cerrada, aquilo era perigosíssim o. Que tragédia seria m orrer num acidente de avião, e não em com bate. No entanto, tudo o que Bonner podia fazer era seguir um curso reto e plano e torcer para que nada acontecesse. Qualquer m udança de direção causaria um a colisão.

O avião saiu do nevoeiro tão de repente quanto havia entrado. De am bos os lados, com o por m ilagre, os outros aviões perm aneciam em form ação.

A artilharia antiaérea abriu fogo quase no m esm o instante e, com o se fossem flores m ortais desabrochando, tiros com eçaram a explodir entre os aviões bem próxim os uns dos outros. Woody sabia que, naquelas circunstâncias, as ordens do piloto eram m anter a velocidade constante e voar direto para a zona-alvo. Bonner, porém , desobedeceu às ordens e saiu da form ação. O rugido dos m otores atingiu o volum e m áxim o. Ele recom eçou a voar em zigue-zague. O nariz do avião m ergulhou quando ele tentou aum entar ainda m ais a velocidade. Ao olhar pela j anela, Woody viu que m uitos outros pilotos haviam sido igualm ente indisciplinados. Não conseguiam controlar o im pulso de salvar a própria vida.

A luz verm elha se acendeu acim a da porta: quatro m inutos para o salto.

Woody teve certeza de que a tripulação, desesperada para se livrar dos paraquedistas e voar de volta a um lugar seguro, tinha acendido a luz cedo dem ais. Mas era ela que estava com os m apas, e ele não podia reclam ar.

Levantou-se.

– De pé, prendam as fitas! – ordenou.

A m aioria dos hom ens não podia ouvi-lo, m as todos sabiam o que ele estava dizendo. Levantaram -se, e cada um deles prendeu sua fita de abertura autom ática ao cabo que corria acim a de suas cabeças, para não serem acidentalm ente j ogados para fora do avião. A porta se abriu e o vento entrou na cabine com um rugido. O avião ainda voava rápido dem ais. Saltar naquela velocidade era desagradável, m as esse não era o m aior problem a. Eles iriam aterrissar m ais afastados uns dos outros, e Woody levaria m uito m ais tem po para reunir seus hom ens em terra. A aproxim ação do obj etivo ficaria atrasada. Ele com eçaria sua m issão depois do horário m arcado. Am aldiçoou Bonner.

O piloto continuou inclinando o avião para os lados, tentando se esquivar dos tiros. Os hom ens se esforçavam para m anter o equilíbrio no chão escorregadio por causa do vôm ito.

Woody olhou pela porta aberta. Ao tentar ganhar velocidade, Bonner havia perdido altitude, e o avião estava agora a cerca de 150 m etros do chão – baixo dem ais. Talvez os paraquedas não tivessem tem po de se abrir com pletam ente antes de os hom ens chegarem ao chão. Ele hesitou, então acenou para cham ar seu sargento.

Defoe postou-se ao seu lado e olhou para baixo, em seguida fez que não com a cabeça. Aproxim ando a boca do ouvido de Woody , gritou:

– Metade dos nossos hom ens vai quebrar o tornozelo se saltarm os desta altura. Os que estão carregando as bazucas vão m orrer.

Woody tom ou um a decisão.

– Não deixe ninguém saltar! – gritou para Defoe.

Então soltou sua fita e avançou, abrindo cam inho por entre a dupla fileira de soldados em pé, até chegar à cabine de com ando. A tripulação era com posta por três hom ens. Gritando a plenos pulm ões, Woody falou:

– Mais alto! Mais alto!

– Volte lá para trás e salte! – retrucou Bonner, aos berros.

– Ninguém vai saltar a esta altitude! – Woody se inclinou e apontou para o altím etro, que indicava 146 m etros. – É suicídio.

– Saia da cabine, tenente. É um a ordem .

Apesar de hierarquicam ente inferior, Woody não cedeu:

– Só quando o senhor ganhar altitude.

– Se vocês não saltarem agora, vam os passar da zona-alvo!

Woody perdeu a paciência:

– Mais alto, seu im becil de m erda! Mais alto!

A expressão de Bonner era de fúria, m as Woody não se m exeu. Sabia que o piloto não iria querer voltar para a base com um avião cheio. Seria subm etido a um inquérito m ilitar para saber o que dera errado. Bonner havia desobedecido a m uitas ordens nessa noite para querer passar por isso. Soltando um palavrão, puxou o m anche para trás com um tranco. O nariz em pinou na m esm a hora, e o avião com eçou a ganhar altitude e perder velocidade.

– Satisfeito? – rosnou Bonner.

– Merda, não! – Woody não estava disposto a voltar lá para trás e dar ao piloto a chance de reverter a m anobra. – Nós pulam os a 300 m etros.

Bonner aum entou a aceleração até o m áxim o. Woody m anteve os olhos grudados no altím etro.

Quando atingiram 300 m etros, voltou para a traseira. Abriu cam inho entre os hom ens aos em purrões, chegou à porta, olhou para fora, ergueu os dois polegares e saltou.

O paraquedas se abriu na m esm a hora. Enquanto o pano se inflava, ele despencou depressa pelo ar, e então a queda foi am parada. Segundos depois, caiu na água. Por um a fração de segundo, sentiu pânico, tem endo que o covarde Bonner os houvesse feito saltar no m ar. Mas então seus pés pisaram em terra firm e – ou, m ais precisam ente, em lam a – e ele entendeu que havia pousado num cam po inundado.

A seda do paraquedas se espalhou à sua volta. Ele se desvencilhou do tecido e soltou as correias que o prendiam .

De pé em m ais de m eio m etro de água, olhou em volta. Ou aquilo era um pasto alagado, ou, o que era m ais provável, um terreno que fora inundado pelos alem ães para prej udicar o avanço de um a força de invasão. Não viu ninguém , am igo ou inim igo, tam pouco nenhum anim al, m as a luz estava fraca.

Olhou para o relógio – eram 3h40 da m adrugada –, verificou a bússola e se orientou.

Em seguida, tirou a carabina M1 do com partim ento e desdobrou o cabo. Inseriu um pente de 15 tiros na fenda e acionou o slide para pôr um a bala na câm ara. Por fim , girou a alavanca de segurança para soltá-la.

Levou a m ão ao bolso e pegou um obj eto m etálico pequeno, parecido com um brinquedo de criança. Quando pressionado, ele em itia um clique específico. Obj etos com o aquele tinham sido distribuídos a todos os hom ens, para que fossem capazes de se reconhecer no escuro sem ter que recorrer a senhas em inglês que poderiam denunciá-los.

Quando ficou pronto, tornou a olhar em volta.

Em itiu dois cliques para testar o sinal. Instantes depois, recebeu outro clique em resposta, logo à sua frente.

Ele avançou chapinhando pela água. Sentiu cheiro de vôm ito. Em voz baixa, perguntou:

– Quem está aí?

– Patrick Tim othy .

– Tenente Dewar. Venha com igo.

Tim othy tinha sido o segundo a saltar, então Woody calculou que, seguindo na m esm a direção, teria um a boa chance de encontrar os outros.

Uns cinquenta m etros m ais adiante, trom bou com Mack e Joe Fum aça, que j á haviam se encontrado.

Saíram do terreno alagado e chegaram a um a estrada estreita, onde viram as prim eiras baixas. O im pacto da aterrissagem de Lonnie e Tony, am bos com bazucas presas em bolsas nas pernas, havia sido forte dem ais.

– Acho que Lonnie m orreu – disse Tony .

Woody foi verificar. Era verdade. Lonnie não estava respirando. Parecia ter quebrado o pescoço. Tony, por sua vez, não conseguia se m exer, e Woody deduziu que ele tivesse quebrado a perna. Aplicou-lhe um a inj eção de m orfina, em seguida arrastou-o para fora da estrada até o terreno adj acente. Ele teria que ficar ali esperando socorro m édico.

Woody m andou Mack e Joe Fum aça esconderem o corpo de Lonnie, por m edo de que, através dele, os alem ães chegassem a Tony .

Tentou distinguir a paisagem à sua volta, esforçando-se para reconhecer algo que correspondesse a seu m apa. A tarefa lhe pareceu im possível, sobretudo no escuro. Com o guiaria aqueles hom ens até o obj etivo se nem sabia onde estava? A única coisa da qual podia ter razoável certeza era que eles não haviam aterrissado onde deviam .

Ouviu um barulho estranho e, instantes depois, viu um a luz.

Acenou para os outros se abaixarem .

Os paraquedistas tinham instruções para não usar as lanternas, e os franceses estavam suj eitos a um toque de recolher, de m odo que a pessoa que se aproxim ava devia ser um soldado alem ão.

À luz débil, Woody viu um a bicicleta.

Levantou-se e em punhou a carabina. Pensou em atirar logo, m as não conseguiu se forçar a fazer isso.

– Halt! Arrêtez! – gritou.

A bicicleta parou.

– Oi, tenente – disse a pessoa que pedalava.

Woody reconheceu a voz de Ace Webber e baixou a arm a.

– Onde você arrum ou essa bicicleta? – perguntou, incrédulo.

– Do lado de fora de um a fazenda – respondeu Webber, lacônico.

Woody conduziu o grupo por onde Webber tinha vindo, im aginando que fosse m ais provável os outros estarem naquela direção do que em qualquer outra. Ansioso, foi procurando m arcos no terreno que correspondessem ao seu m apa, m as estava escuro dem ais. Sentiu-se inútil, burro. Era um oficial. Tinha que resolver esse tipo de problem a.

Recolheu outros hom ens de seu pelotão pelo cam inho, e então chegaram a um m oinho. Woody decidiu que não podia continuar avançando às cegas, então deu a volta no m oinho e esm urrou a porta.

Um a j anela se abriu no andar de cim a e um hom em perguntou, em francês:

– Quem é?

– Am ericanos – respondeu Woody . – Vive la France!

– O que vocês querem ?

– Libertá-los – respondeu Woody com seu francês de colegial. – Mas preciso de aj uda com m eu m apa.

O m oleiro riu e falou:

– Já vou descer.

No m inuto seguinte, Woody estava na cozinha, abrindo o m apa de tecido sobre a m esa, debaixo de um a luz forte. O m oleiro lhe m ostrou onde estavam . Não era tão ruim quanto Woody tem ia. Apesar do pânico do capitão Bonner, estavam apenas 6,5 quilôm etros a nordeste de Église-des-Soeurs. O m oleiro indicou o m elhor traj eto no m apa.

Um a m enina de uns 13 anos entrou na cozinha de cam isola, pé ante pé.

– Mam an disse que vocês são am ericanos – falou para Woody .

– Isso m esm o, m adem oiselle – respondeu ele.

– Conhecem Glady s Angelus?

Woody riu.

– Por acaso eu a encontrei um a vez, no apartam ento do pai de um am igo.

– E ela é m uito, m uito linda?

– Ainda m ais linda do que parece no cinem a.

– Eu sabia!

O m oleiro ofereceu vinho a Woody .

– Não, obrigado – respondeu ele. – Quem sabe depois que ganharm os.

Então o m oleiro o beij ou nas duas faces.

Woody tornou a sair e conduziu seu pelotão para longe dali, em direção a Église-des-Soeurs. Contando com ele próprio, nove dos 18 hom ens que haviam partido estavam reunidos. Tinham sofrido duas baixas: Lonnie, m orto, e Tony, ferido. Sete outros ainda não haviam sido encontrados. Suas ordens eram de não passar m uito tem po tentando encontrar todo m undo. Assim que tivesse hom ens suficientes para dar conta da operação, devia seguir para o alvo.

Um dos sete sum idos logo apareceu. Pete Furtivo surgiu de dentro de um a vala e j untou-se ao grupo com um “Oi, pessoal” casual, com o se aquilo fosse a coisa m ais natural do m undo.

– O que você estava fazendo ali dentro? – perguntou-lhe Woody .

– Pensei que vocês fossem alem ães – respondeu Pete. – Estava escondido.

Woody tinha visto o brilho pálido da seda do paraquedas dentro da vala. Pete devia estar escondido lá dentro desde a aterrissagem . Obviam ente havia entrado em pânico. Mas Woody fingiu acreditar na sua história.

Ele queria m esm o era encontrar seu sargento. Defoe era um soldado experiente e Woody pretendia contar m uito com sua aj uda. Mas ele não apareceu.

Estavam se aproxim ando de um a encruzilhada quando ouviram um barulho. Woody identificou o som de um m otor ligado e duas ou três vozes conversando. Mandou todos se abaixarem , e o pelotão prosseguiu engatinhando.

Mais à frente, viu que um m otociclista conversava com dois hom ens a pé. Os três estavam de uniform e. Falavam alem ão. Havia um a construção na encruzilhada, talvez um a pequena taberna ou um a padaria.

Woody decidiu esperar. Talvez os alem ães fossem em bora. Queria que seu grupo avançasse em silêncio e sem ser visto pelo m áxim o de tem po possível.

Cinco m inutos depois, perdeu a paciência. Virou-se para trás e sussurrou:

– Patrick Tim othy !

Alguém disse:

– Pat Vom itão! O Uísque está cham ando.

Tim othy se aproxim ou. Continuava cheirando a vôm ito e esse agora era seu apelido.

Woody j á tinha visto Tim othy j ogar beisebol e sabia que ele arrem essava com força e precisão.

– Acerte um a granada naquela m oto – falou.

Tim othy pegou um a granada na m ochila, puxou o pino e a arrem essou.

Um retinir m etálico ecoou.

– O que foi isso? – perguntou um dos alem ães.

Então a granada explodiu.

Foram duas detonações. A prim eira derrubou os três hom ens no chão. A segunda foi a explosão do tanque da m otocicleta, que proj etou no ar um a coroa de cham as que cham uscou os hom ens, produzindo um cheiro de carne queim ada.

– Fiquem onde estão! – gritou Woody para seu pelotão.

Observou a construção. Será que havia alguém lá dentro? Durante os cinco m inutos seguintes, ninguém abriu nenhum a j anela ou porta. Ou o lugar estava deserto, ou os ocupantes estavam escondidos debaixo da cam a.

Woody se levantou e acenou para que o pelotão avançasse. Sentiu-se estranho ao passar por cim a dos cadáveres pavorosos dos três alem ães. Havia ordenado a m orte de hom ens que tinham m ães e pais, esposas ou nam oradas, talvez filhos. Agora, os três não passavam de um a horrorosa m assa de sangue e carne queim ada. Woody deveria ter experim entado um a sensação de vitória. Era o seu prim eiro contato com o inim igo, e ele os derrotara. Mas tudo o que sentiu foi um a leve náusea.

Depois da encruzilhada, im pôs um ritm o acelerado e ordenou aos hom ens que não conversassem nem fum assem . Para m anter o nível de energia, com eu um a barra de chocolate m ilitar, que tinha gosto de argam assa com açúcar.

Meia hora m ais tarde, Woody ouviu o barulho de um carro e m andou todos se esconderem nos cam pos. O veículo andava depressa, com os faróis ligados. Devia ser alem ão, m as os Aliados estavam m andando j ipes de planador j unto com arm as antitanque e outras peças de artilharia, então era possível que aquele fosse um veículo am igo. Deitou-se sob um a sebe para vê-lo passar.

O carro passou depressa dem ais para Woody identificá-lo. Ele pensou se deveria ter m andado o pelotão atirar. Não, decidiu: pensando bem , era m elhor se concentrarem na m issão.

Atravessaram três vilarej os que Woody conseguiu identificar no m apa. Cães ladravam de vez em quando, m as ninguém saiu para investigar. Os franceses deviam ter aprendido a ser discretos sob a ocupação inim iga. Era um tanto sinistro esgueirar-se pelas estradas de um país estrangeiro no escuro, arm ado até os dentes, passando por casas silenciosas em que as pessoas dorm iam sem saber do poder de fogo m ortal que havia bem debaixo de suas j anelas.

Por fim , chegaram aos arredores de Église-des-Soeurs. Woody ordenou um a pausa curta para descansar. Eles entraram num pequeno bosque e se sentaram no chão. Beberam água dos cantis e com eram . Fum ar ainda estava proibido: a brasa de um cigarro aceso podia ser vista de um a distância surpreendente.

Segundo a avaliação de Woody, a estrada em que seguiam deveria conduzir diretam ente à ponte. Não existia nenhum a inform ação confiável sobre com o a ponte estava sendo protegida. Com o os Aliados tinham decidido que ela era um ponto im portante, im aginou que os alem ães achassem a m esm a coisa, então devia haver algum a segurança; m as isso podia significar qualquer coisa, desde um hom em arm ado com um fuzil até um pelotão inteiro. Woody só poderia planej ar o ataque quando visse o alvo.

Dez m inutos depois, deu a ordem para avançar. Os hom ens não precisavam m ais ser alertados sobre a necessidade de fazer silêncio: podiam pressentir o perigo. Seguiram pela rua sem barulho, passando por casas, igrej as e loj as, m antendo-se j unto às paredes, estreitando os olhos para tentar enxergar na penum bra, sobressaltando-se com qualquer ruído. Um a tosse alta e repentina vinda da j anela aberta de um quarto quase fez Woody disparar a carabina.

Église-des-Soeurs estava m ais para um vilarej o grande do que para um a cidade pequena, e Woody viu o cintilar cor de prata do rio antes do que esperava. Ergueu um a das m ãos para que todos parassem . A rua principal levem ente inclinada descia em direção à ponte, o que lhe proporcionou um a boa visão. O curso de água tinha uns trinta m etros de largura, e a ponte era um a estrutura única, em arco. Devia ser um a construção antiga: de tão estreita, seria im possível que dois carros passassem lado a lado.

A m á notícia era que havia um a casam ata em cada extrem idade: duas cúpulas gêm eas de concreto, com fendas horizontais para atirar. Um a dupla de sentinelas patrulhava a ponte entre as casam atas. Estavam de pé, um em cada ponta. O m ais próxim o falava j unto à fenda da casam ata, provavelm ente conversando com quem estava lá dentro. Então am bos andaram até o m eio da ponte, onde olharam por cim a do parapeito para a água negra que passava lá em baixo. Com o não pareciam m uito tensos, Woody concluiu que ainda não tinham conhecim ento do início da invasão. Por outro lado, não estavam à toa. Perm aneciam atentos, m oviam -se e olhavam em volta com um a atitude relativam ente alerta.

Woody não sabia dizer quantos hom ens poderiam estar dentro da casam ata, nem com o eles estariam arm ados. Haveria m etralhadoras atrás daquelas fendas? Ou apenas fuzis? Isso faria um a grande diferença.

Desej ou ter algum a experiência de batalha. Com o deveria lidar com aquela situação? Im aginou que havia m ilhares de hom ens na m esm a situação que ele: oficiais de patente baixa recém -prom ovidos que sim plesm ente tinham que im provisar à m edida que avançavam . Se ao m enos o sargento Defoe estivesse ali...

O j eito m ais fácil de neutralizar um a casam ata era se aproxim ar sem ser visto e atirar um a granada pela fenda. Um hom em habilidoso provavelm ente conseguiria rastej ar até um a delas sem ser notado. Mas Woody precisava elim inar as duas ao m esm o tem po, caso contrário o ataque à prim eira alertaria os ocupantes da segunda.

Com o poderia chegar à casam ata m ais afastada sem ser visto pelas sentinelas?

Sentiu que seus hom ens ficavam inquietos. Não gostavam de pensar que seu líder estava inseguro quanto ao próxim o passo.

– Pete Furtivo – cham ou Woody –, rastej e até a casam ata m ais próxim a e j ogue um a granada pela fenda.

Apesar de aterrorizado, Pete respondeu:

– Sim , tenente.

Em seguida, Woody escolheu os dois m elhores atiradores do pelotão.

– Joe Fum aça e Mack, escolham um sentinela cada um – ordenou. – Atirem assim que Pete lançar a granada.

Os dois soldados aquiesceram e ergueram as arm as.

Na falta de Defoe, Woody decidiu tornar Ace Webber seu braço direito. Escolheu quatro outros e falou:

– Vocês vão com Webber. Assim que os tiros com eçarem , saiam correndo a toda a velocidade pela ponte e invadam a casam ata do outro lado. Se forem rápidos o suficiente, pegarão os caras dorm indo.

– Sim , tenente – respondeu Webber. – Os filhos da m ãe não vão nem saber o que aconteceu.

Woody pensou que a agressividade do soldado devia ser para disfarçar o m edo.

– Todos os que não estiverem no grupo de Webber, sigam -m e até a casam ata m ais próxim a – acrescentou.

Woody se sentia m al por delegar a Webber e seu grupo a tarefa m ais perigosa e ficar com a relativa segurança de atacar a casam ata m ais próxim a. No entanto, lhe disseram repetidas vezes que um oficial não devia arriscar a vida sem necessidade, pois poderia deixar seus hom ens sem liderança.

Eles seguiram em direção à ponte, com Pete na frente. Aquele era um m om ento perigoso. Dez hom ens andando j untos por um a rua não passariam despercebidos por m uito tem po, nem m esm o à noite. Qualquer um que olhasse com atenção na sua direção poderia detectar m ovim ento.

Se o alarm e fosse dado cedo dem ais, Pete Furtivo talvez não conseguisse chegar à casam ata m ais próxim a, e o pelotão perderia a vantagem da surpresa.

O cam inho foi longo.

Pete chegou a um a esquina e parou. Woody im aginou que o soldado estivesse esperando a sentinela m ais próxim a sair de seu posto j unto à casam ata e andar até o m eio da ponte.

Os dois atiradores encontraram abrigo e se posicionaram .

Woody se abaixou sobre um dos j oelhos e acenou para que os outros fizessem o m esm o. Ficaram todos observando a sentinela.

O hom em deu um trago fundo no cigarro, j ogou-o no chão, pisou na guim ba para apagá-la e soltou um a com prida nuvem de fum aça. Então se levantou, aj eitou a correia do fuzil no om bro e com eçou a andar.

A sentinela na outra extrem idade tam bém se pôs em m ovim ento.

Pete correu pelo últim o quarteirão e chegou ao final da rua. Agachou-se no chão e atravessou depressa, engatinhando. Chegou à casam ata e se levantou.

Ninguém percebeu nada. Os dois sentinelas continuaram andando um na direção do outro.

Pete sacou um a granada e tirou o pino. Então aguardou alguns segundos. Woody deduziu que ele não quisesse que os hom ens dentro da casam ata tivessem tem po de atirar a granada de volta para fora.

Pete esticou o braço pela curva da cúpula de cim ento e deixou a granada cair lá dentro delicadam ente.

As carabinas de Joe e Mack dispararam . A sentinela m ais próxim a tom bou, m as a que estava m ais longe ficou ilesa. Coraj osam ente, não deu m eia-volta e saiu correndo, m as abaixou-se sobre um dos j oelhos e tirou o fuzil do om bro. No entanto, não foi rápido o suficiente: as carabinas atiraram novam ente, quase ao m esm o tem po, e ele caiu sem disparar.

Então, com um baque abafado, a granada de Pete explodiu dentro da casam ata m ais próxim a.

Woody j á estava correndo a toda a velocidade, com seus hom ens logo atrás. Em poucos segundos, chegaram à ponte.

A casam ata tinha um a porta baixa de m adeira. Woody a abriu e entrou. Três alem ães de uniform e j aziam m ortos no chão.

Ele se aproxim ou de um a das fendas de tiro e olhou para fora. Webber e seus quatro hom ens estavam correndo pela ponte curta, atirando na casam ata m ais distante enquanto avançavam . A ponte tinha apenas algum as dezenas de m etros, m as a distância se revelou excessiva. Quando os am ericanos chegaram à m etade, um a m etralhadora abriu fogo. Eles ficaram encurralados num corredor estreito, sem nenhum a proteção. A m etralhadora disparava num ritm o enlouquecedor e, em poucos segundos, todos os cinco caíram . Os tiros continuaram a chover sobre eles por vários segundos, para garantir que estivessem m ortos – e, de quebra, certificando tam bém a m orte das duas sentinelas alem ãs.

Quando os tiros cessaram , nenhum deles se m exeu.

Houve silêncio.

– Ah, m eu Pai do céu – disse Cam eron Canhoto ao lado de Woody .

Woody poderia ter chorado. Tinha provocado a m orte de dez hom ens – cinco am ericanos e cinco alem ães – e m esm o assim não alcançara seu obj etivo. O inim igo continuava ocupando a outra extrem idade da ponte e poderia im pedir as forças Aliadas de atravessá-la.

Restavam -lhe quatro hom ens. Se tentassem avançar correndo pela ponte, seriam todos m ortos. Ele precisava de outro plano.

Estudou a paisagem do vilarej o. O que m ais poderia fazer? Desej ou ter um tanque.

Tinha que agir depressa. Talvez houvesse tropas inim igas em outro lugar da cidade. Elas deviam ter sido alertadas pelos tiros e logo iriam reagir. Se tom asse as duas casam atas, ele poderia resistir. Sem isso, estaria encrencado.

Se os seus hom ens não conseguissem atravessar a ponte, pensou, desesperado, talvez pudessem atravessar o rio a nado. Resolveu dar um a olhada rápida na m argem . Então falou:

– Mack e Joe Fum aça, atirem na outra casam ata. Vej am se conseguem acertar um a bala pela fenda. Mantenham os caras ocupados enquanto dou um a olhada em volta.

As carabinas abriram fogo e ele saiu pela porta.

Conseguiu se abrigar atrás da casam ata enquanto olhava por sobre o parapeito da ponte para o trecho m ais acim a na m argem do rio. Então teve que atravessar a rua correndo para ver a outra m argem . No entanto, nenhum tiro foi disparado pelos inim igos.

O rio não tinha m uro de contenção. A terra sim plesm ente descia até a água. A outra m argem parecia igual, em bora não houvesse luz suficiente para ter certeza. Um bom nadador conseguiria atravessar. Sob o arco, não seria fácil vê-lo da posição inim iga. Ele então poderia repetir na outra ponta o que Pete Furtivo tinha feito na m ais próxim a: lançar um a granada dentro da casam ata.

Ao exam inar a estrutura da ponte, teve um a ideia m elhor: abaixo do parapeito, um a saliência de uns trinta centím etros de largura a m argeava por fora. Um hom em com nervos de aço poderia atravessar por ali, abaixado, sem ser visto.

Woody voltou para a casam ata conquistada. O m ais baixo de seus hom ens era Cam eron Canhoto. Era tam bém m uito ousado: não costum ava ficar nervoso.

– Canhoto – cham ou Woody –, há um a saliência escondida que m argeia a parte externa da ponte, logo abaixo do parapeito. Deve ser para operários usarem durante um a eventual reform a. Quero que você rastej e até o outro lado e atire um a granada dentro daquela casam ata.

– Pode deixar com igo – respondeu Canhoto.

Era um a resposta coraj osa para alguém que acabara de ver cinco com panheiros serem m ortos.

Woody se virou para Mack e Joe Fum aça e disse:

– Deem cobertura a ele.

Os dois com eçaram a atirar.

– E se eu cair? – perguntou Canhoto.

– São só uns cinco m etros até a água, seis no m áxim o – respondeu Woody. – Você vai ficar bem .

– Certo – respondeu Canhoto. Ele foi até a porta da casam ata. – Só que eu não sei nadar – com pletou, e então saiu.

Woody o viu atravessar a rua correndo. Ele olhou por cim a do parapeito, em seguida passou as pernas para o outro lado e se abaixou até sum ir de vista.

– Muito bem – disse Woody aos outros. – Cessar fogo! Ele está a cam inho.

Todos ficaram observando. Nada se m ovia. Woody percebeu que a aurora estava chegando: j á dava para ver m elhor a cidade. Mas nenhum dos m oradores apareceu: eles sabiam que era perigoso. Talvez as tropas alem ãs estivessem se m obilizando em algum a rua vizinha, m as ele não ouviu nada. Deu-se conta de que estava atento esperando escutar o ruído de um m ergulho, com m edo de que Canhoto caísse no rio.

Um cachorro atravessou a ponte correndo: era um vira-lata de porte m édio, com um rabo curvo em pinado no ar num a atitude atrevida. Depois de farej ar os cadáveres com interesse, seguiu em frente, decidido, com o se tivesse um com prom isso im portante em algum outro lugar. Woody o viu passar pela casam ata m ais distante e seguir rum o ao outro lado da cidade.

Estava am anhecendo. Isso significava que a força principal estava desem barcando nas praias. Alguém tinha dito que aquele era o m aior ataque anfíbio da história da guerra. Ele se perguntou que tipo de resistência os invasores iriam encontrar. Não havia nada m ais vulnerável que um soldado carregado de m aterial chapinhando pelo m ar raso: o terreno plano da praia à sua frente proporcionava um cam po desim pedido para atiradores escondidos nas dunas. Woody sentiu-se grato por aquela casam ata de concreto.

Canhoto estava dem orando. Será que tinha caído na água sem fazer barulho? Será que algum a coisa saíra errado?

Então Woody o viu: um a form a esguia, vestida de cáqui, passando de bruços por cim a do parapeito na outra extrem idade da ponte. Prendeu a respiração. Canhoto se aj oelhou no chão, engatinhou até a casam ata e então se levantou, com as costas grudadas no dom o curvo de concreto. Com a m ão esquerda, sacou um a granada. Puxou o pino, aguardou alguns segundos e então esticou o braço, lançando a granada pela fenda.

Woody ouviu o baque da explosão e viu um clarão de luz forte sair das fendas de tiro. Canhoto ergueu os dois braços acim a da cabeça, com o gesto de um cam peão.

– Protej a-se de novo, seu babaca – disse Woody, m esm o que Canhoto não pudesse ouvi-lo. Talvez houvesse algum soldado alem ão escondido num prédio ali perto, esperando para vingar a m orte dos com panheiros.

Mas nenhum tiro ecoou e, depois de um a curta dancinha da vitória, Canhoto entrou na casam ata e Woody respirou aliviado.

No entanto, ainda não estava totalm ente seguro. Àquela altura, um a investida súbita de duas dezenas de alem ães poderia retom ar a ponte. Então tudo teria sido em vão.

Obrigou-se a esperar m ais um m inuto para ver se algum soldado inim igo aparecia. Nada se m oveu. Estava com eçando a parecer que não havia alem ão nenhum em Église-des-Soeurs além dos que vigiavam a ponte. Eles provavelm ente deviam ser substituídos a cada 12 horas por outros soldados vindos de algum a caserna a poucos quilôm etros dali.

– Joe Fum aça, livre-se dos alem ães m ortos – ordenou. – Jogue-os no rio.

Joe arrastou os três corpos para fora da casam ata e os lançou na água, depois fez o m esm o com as duas sentinelas.

– Pete, Mack – continuou Woody –, vão até a outra casam ata e fiquem com Canhoto. Não baixem a guarda. Ainda não m atam os todos os alem ães da França. Se virem algum soldado inim igo se aproxim ando da sua posição, não hesitem , não negociem : sim plesm ente atirem .

Os dois hom ens saíram da casam ata e atravessaram a ponte em passo acelerado até a outra ponta.

A casam ata m ais distante estava agora ocupada por três am ericanos. Se os alem ães tentassem retom ar a ponte, teriam dificuldade, sobretudo com o dia cada vez m ais claro.

Então Woody percebeu que, se algum a força inim iga se aproxim asse, os am ericanos m ortos no m eio da ponte delatariam a tom ada das casam atas. Sem isso, ele poderia conservar o elem ento-surpresa.

Isso significava que tam bém tinha que se livrar dos cadáveres am ericanos.

Avisou aos outros o que iria fazer, então saiu da casam ata.

O ar m atinal lhe pareceu fresco e lim po.