Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 135 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo III

Erik, irm ão de Carla, voltou para casa no verão, à beira da m orte. Contraíra tuberculose num cam po de trabalhos forçados soviético, e fora liberado depois de ficar fraco dem ais para trabalhar. Passara sem anas dorm indo ao relento, viaj ando a bordo de trens de carga e pegando carona com cam inhoneiros. Chegou à casa dos Von Ulrich descalço e com roupas im undas. Seu rosto parecia um a caveira.

Mas ele não m orreu. Talvez tenha sido a com panhia de pessoas que o am avam ; ou o tem po m ais quente à m edida que o inverno cedia lugar à prim avera; ou apenas o descanso. De todo m odo, passou a tossir m enos e recuperou força suficiente para fazer alguns serviços na casa: consertar j anelas quebradas, arrum ar as telhas, desentupir canos.

Felizm ente, no com eço do ano, Frieda Franck tinha encontrado um a m ina de ouro.

Ludwig Franck m orrera no bom bardeio aéreo que destruíra sua fábrica, e durante algum tem po Frieda e a m ãe tinham ficado tão pobres quanto o restante da população. Mas então ela arrum ou um em prego de enferm eira no setor am ericano e, pouco depois, com o explicou a Carla, um pequeno grupo de m édicos lhe pediu que vendesse o excedente de com ida e cigarros no m ercado negro em troca de um a porcentagem dos lucros. Depois disso, ela aparecia na casa de Carla um a vez por sem ana com um a cestinha de suprim entos: roupas quentes, velas, pilhas para lanterna, fósforos, sabão e com ida – toucinho, chocolate, m açãs, arroz, pêssegos em conserva. Maud dividia a com ida em porções e dava a Carla um a porção dupla. Ela aceitava sem hesitar, não em benefício próprio, m as para am am entar o pequeno Walli.

Sem a com ida clandestina de Frieda, o bebê talvez não tivesse sobrevivido.

Ele estava m udando depressa. Os cabelos escuros com os quais nascera tinham caído e em seu lugar haviam nascido cabelos finos e louros. Aos 6 m eses, tinha os incríveis olhos verdes de Maud. À m edida que seus traços se definiam , Carla reparou num a dobrinha de pele no canto externo dos olhos que lhe dava um olhar puxado, e im aginou se o pai do m enino seria siberiano. Não se lem brava de todos os hom ens que a haviam estuprado. Mantivera os olhos fechados na m aior parte do tem po.

Não os detestava m ais. Por m ais estranho que fosse, sua felicidade por ser m ãe de Walli era tão grande que ela m al conseguia lam entar o ocorrido.

Rebecca era fascinada por Walli. Agora que acabara de com pletar 15 anos, tinha idade suficiente para sentir o princípio do instinto m aterno, e sem pre se m ostrava disposta a aj udar Carla a dar banho no bebê e vesti-lo. Brincava com ele o tem po todo, e o m enino balbuciava de alegria ao vê-la.

Assim que Erik se sentiu forte o bastante, filiou-se ao Partido Com unista.

Carla ficou pasm a. Depois de tudo o que ele havia sofrido nas m ãos dos soviéticos, com o podia fazer aquilo? Logo percebeu que o irm ão se referia ao com unism o da m esm a form a que costum ava se referir ao nazism o um a década antes. Só torcia para que sua desilusão dessa vez não dem orasse tanto a chegar.

Os Aliados estavam ansiosos pela volta da dem ocracia à Alem anha, e eleições m unicipais para Berlim foram m arcadas nesse m esm o ano.

Carla estava certa de que a cidade não voltaria ao norm al até que os próprios habitantes assum issem o controle, então decidiu apoiar o Partido Social-Dem ocrata. Mas os berlinenses logo descobriram que os ocupantes soviéticos tinham um conceito curioso de dem ocracia.

Em novem bro, eles haviam ficado chocados com o desfecho das eleições na Áustria. Os com unistas austríacos esperavam um a disputa apertada com os socialistas, m as tinham conquistado apenas quatro vagas das 165 disponíveis. Os eleitores pareciam culpar os com unistas pela brutalidade do Exército Verm elho. O Krem lin, pouco habituado a eleições lícitas, não previra isso.

Para evitar um resultado sem elhante na Alem anha, os soviéticos propuseram um a fusão entre com unistas e social-dem ocratas, no que cham avam de Frente Unida. Apesar da forte pressão, os social-dem ocratas resistiram . Então os russos com eçaram a prendê-los no leste do país, da m esm a form a que os nazistas tinham feito em 1933. Nessa região, a fusão foi im posta. Mas as eleições em Berlim eram supervisionadas pelos quatro Aliados, e os social-dem ocratas conseguiram sobreviver.

Quando o tem po esquentou, Carla pôde voltar a se revezar na fila da com ida. Levava Walli enrolado num a fronha – não tinha roupas de bebê. Certo dia, de m anhã, quando estava a alguns quarteirões de casa, na fila para com prar batatas, ficou surpresa ao ver um j ipe am ericano encostar na calçada com Frieda no banco do carona. O m otorista de m eia-idade j á m eio calvo se despediu dela com um beij o na boca, e ela desceu do carro. Estava usando um vestido azul sem m angas e sapatos novos. Afastou-se depressa em direção à casa dos Von Ulrich, levando sua cestinha.

Carla entendeu tudo num a fração de segundo. Frieda não vendia artigos no m ercado negro, tam pouco havia grupo de m édicos algum . Ela era am ante de um oficial am ericano que a sustentava.

Isso não era incom um . Milhares de belas m oças alem ãs tinham sido forçadas a um a escolha: ver a fam ília m orrer de fom e ou ir para a cam a com um oficial generoso. As francesas tinham feito o m esm o durante a ocupação nazista. Ali na Alem anha, as esposas dos oficiais falavam nisso com am argura.

Mesm o assim , Carla ficou horrorizada. Pensava que Frieda am asse Heinrich. Os dois planej avam se casar assim que a vida recuperasse um m ínim o de norm alidade. Aquilo deixou Carla enoj ada.

Ela chegou ao com eço da fila, com prou sua porção de batatas e voltou depressa para casa.

Encontrou Frieda no andar de cim a, na sala de estar. Erik tinha lim pado o côm odo e tapado as j anelas com j ornal, o m elhor substituto que havia para o vidro. Havia m uito tem po que as cortinas tinham sido transform adas em roupa de cam a, m as a m aior parte das cadeiras ainda sobrevivia, com o estofado desbotado e gasto. Por m ilagre, o piano de cauda tam bém continuava ali. Um oficial russo o tinha visto e anunciado que retornaria no dia seguinte com um guindaste para içá-lo pela j anela, m as nunca voltara.

Assim que Carla chegou, Frieda pegou Walli do seu colo e com eçou a cantar para o m enino a canção “A, B, C, die Katze lief im Schnee”. Carla observou que as m ulheres que ainda não tinham filhos, Rebecca e Frieda, não se fartavam de brincar com Walli. Já as que tinham sido m ães, Maud e Ada, adoravam o bebê, m as o tratavam de form a prática.

Frieda abriu a tam pa do piano e incentivou Walli a bater nas teclas enquanto ela cantava. Havia m uitos anos que ninguém tocava o instrum ento. Maud não encostava nele desde a m orte de seu últim o aluno, Joachim Koch.

Depois de alguns m inutos, Frieda disse a Carla:

– Você está séria. O que houve?

– Sei com o você consegue a com ida que traz para nós – respondeu Carla. – Não trabalha no m ercado negro, não é?

– É claro que trabalho – respondeu Frieda. – Que história é essa?

– Eu a vi descendo de um j ipe hoj e de m anhã.

– O coronel Hicks m e deu um a carona.

– Ele beij ou você na boca.

Frieda olhou para outro lado.

– Eu sabia que deveria ter descido antes. Poderia ter vindo a pé do setor am ericano.

– Mas, Frieda, e Heinrich?

– Ele nunca vai saber! Vou tom ar m ais cuidado, j uro.

– Você ainda o am a?

– É claro! Nós vam os nos casar.

– Então por que...?

– Estou farta de passar dificuldades! Quero usar roupas bonitas, ir a boates e dançar.

– Não é isso – disse Carla, convicta. – Você não pode m entir para m im , Frieda... som os am igas há m uito tem po. Diga a verdade.

– A verdade?

– Sim , por favor.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Fiz isso por Walli.

Carla soltou um arquej o de choque. Isso nunca havia lhe ocorrido, m as fazia sentido. Acreditou que Frieda estivesse fazendo um sacrifício daqueles por ela e pelo filho.

No entanto, sentiu-se péssim a. Aquilo a tornava responsável pelo fato de Frieda se prostituir.

– Que horror! – exclam ou. – Você não deveria ter feito isso... Nós teríam os dado um j eito.

Ainda com o bebê no colo, Frieda se levantou da banqueta do piano.

– Não teriam , não! – exclam ou, arrebatada.

Walli se assustou e com eçou a chorar. Carla o tom ou nos braços e o ninou, afagando suas costas.

– Vocês não teriam dado um j eito – disse Frieda, dessa vez m ais baixo.

– Com o você sabe?

– Durante todo o inverno bebês foram levados para o hospital nus, enrolados em j ornal, m orrendo de fom e e de frio. Eu m al conseguia olhar para eles.

– Ah, m eu Deus! – Carla apertou Walli em seu colo.

– Eles ficam com um a cor azul característica quando m orrem congelados.

– Pare.

– Preciso falar sobre essas coisas, senão você não vai entender o que fiz. Walli teria virado um desses bebês azuis congelados.

– Eu sei – sussurrou Carla. – Eu sei.

– Percy Hicks é um hom em bom . Tem um a m ulher sem graça em Boston, e eu sou a coisa m ais sexy que ele j á viu na vida. Quando fazem os sexo, ele é carinhoso, rápido e sem pre usa preservativo.

– Você precisa parar com isso – disse Carla.

– Você não está falando sério.

– É, não estou m esm o – confessou Carla. – E é essa a pior parte. Sinto-m e tão culpada...

– Mas você não tem culpa. A escolha foi m inha. As m ulheres alem ãs têm que fazer escolhas difíceis. Estam os pagando pelas escolhas fáceis que os alem ães fizeram 15 anos atrás. Hom ens com o m eu pai, que achou que Hitler seria bom para os negócios; e com o o pai de Heinrich, que votou a favor da Lei Plenipotenciária. As filhas têm que pagar pelos pecados dos pais.

Alguém bateu com força na porta da frente. Instantes depois, elas ouviram os passos rápidos de Rebecca correndo para o andar de cim a, para o caso de ser o Exército Verm elho.

Então Ada falou:

– Ah! Bom dia, senhor!

Ela soou surpresa e um pouco preocupada, m as não pareceu estar com m edo. Carla se perguntou quem poderia provocar essa m istura específica de reações na criada.

Passos pesados e m asculinos soaram na escada, e então Werner entrou na sala.

Estava suj o, em frangalhos e m uito m agro, m as seu rosto bonito exibia um sorriso largo.

– Sou eu! – disse ele, eufórico. – Voltei!

Então viu o bebê. Seu queixo caiu, e o sorriso desapareceu.

– Ah – disse ele. – O que... quem ... de quem é esse bebê?

– É m eu, am or – respondeu Carla. – Deixe-m e explicar.

– Explicar? – repetiu ele, zangado. – Que explicação pode haver? Você teve um filho com outro hom em ! – Ele se virou para ir em bora.

– Werner! – gritou Frieda. – Nesta sala estão duas m ulheres que am am você. Não vá em bora sem nos ouvir. Você não está entendendo.

– Estou entendendo tudo perfeitam ente.

– Carla foi violentada.

– Violentada? Por quem ? – indagou Werner, pálido.

– Não cheguei a saber o nom e deles – respondeu Carla.

– Deles? – Werner engoliu em seco. – Foram ... foi m ais de um ?

– Cinco soldados do Exército Verm elho.

A voz dele se transform ou num sussurro:

– Cinco?

Carla assentiu.

– Mas... você não poderia ter... Quer dizer...

– Eu tam bém fui violentada, Werner – disse Frieda. – E m am ãe tam bém .

– Meu Deus, o que está acontecendo nesta cidade?

– Um inferno – respondeu Frieda.

Werner sentou-se pesadam ente num a poltrona de couro gasta.

– E eu pensando que o inferno fosse o lugar onde eu estava – falou. Então enterrou o rosto nas m ãos.

Ainda com Walli no colo, Carla atravessou a sala e ficou em pé na frente da poltrona de Werner.

– Werner, olhe para m im – pediu ela. – Por favor.