Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 69 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

Depois de algum tem po, Woody falou:

– Seu chá deve ter esfriado.

Ela riu.

– Eu am o você, Woody .

– Am a m esm o?

– Espero que não fique assustado por eu dizer isso.

– Não. – Ele sorriu. – Fico m uito feliz.

– Eu sei que as m oças não devem dizer isso assim , de form a tão direta. Mas não consigo fingir que estou em dúvida. Não quando j á tom ei um a decisão.

– É – falou Woody . – Eu j á tinha percebido.

 

V

Greg Peshkov estava m orando nos aposentos perm anentes que seu pai m antinha no Ritz-Carlton. Lev aparecia de vez em quando, nos deslocam entos entre Buffalo e Los Angeles, e passava alguns dias no hotel. Atualm ente, porém , Greg tinha o apartam ento só para si – e para Rita Lawrence, a curvilínea filha do congressista, que tinha passado a noite lá e agora estava adoravelm ente despenteada usando um roupão de seda verm elha m asculino.

Um garçom lhes trouxe o café da m anhã, os j ornais e um envelope com um recado.

A declaração conj unta de Roosevelt e Churchill tivera m ais efeito do que Greg previra. Mais de um a sem ana depois, ainda era a principal notícia dos j ornais. A im prensa a havia batizado de Carta do Atlântico. Para Greg, a declaração não passava de expressões cautelosas e com prom issos vagos, m as o m undo não pensava assim . Ela foi recebida com o um prenúncio de liberdade, dem ocracia e com ércio m undial. Diziam que Hitler estava furioso e afirm ava que aquilo equivalia a um a declaração de guerra dos Estados Unidos à Alem anha.

Até os países que não tinham participado da conferência queriam assinar a carta, e Bexforth Ross sugerira que os signatários fossem cham ados de Nações Unidas.

Enquanto isso, os alem ães seguiam derrotando a União Soviética. Ao norte, aproxim avam -se de Leningrado. Ao sul, os russos em retirada tinham explodido a barragem do Dnieper, m aior com plexo hidrelétrico do m undo e sua m enina dos olhos, só para não deixá-lo cair nas m ãos dos invasores alem ães – um sacrifício de partir o coração.

– O Exército Verm elho conseguiu refrear um pouco a velocidade da invasão – disse Greg a Rita, com os olhos pregados no Washington Post. – Mas os alem ães continuam avançando oito quilôm etros por dia. E afirm am ter m atado três m ilhões e m eio de soviéticos. Será possível?

– Você tem algum parente na Rússia?

– Tenho, sim . Um dia, quando estava m eio bêbado, m eu pai m e contou que deixou um a garota grávida lá.

Rita fez um a careta de reprovação.

– Infelizm ente, ele é assim – disse Greg. – É um grande hom em , e grandes hom ens não obedecem às regras.

Ela não disse nada, m as ele entendeu sua expressão: Rita não concordava com sua opinião, m as não queria discutir por isso.

– Enfim , tenho um m eio-irm ão russo, ilegítim o com o eu – continuou Greg. – O nom e dele é Vladim ir. Não sei m ais nada a seu respeito. Talvez a esta altura j á estej a m orto. Ele tem idade para lutar. Deve estar entre esses três m ilhões e m eio.

Ele virou a página do j ornal.

Ao term inar as notícias, leu o recado que o garçom havia trazido.

Era de Jacky Jakes. Nele, estavam escritos um núm ero de telefone e as palavras Não entre uma e três da tarde.

De repente, Greg m al podia esperar para se livrar de Rita.

– A que horas você tem que estar em casa? – perguntou, sem m uita sutileza.

Ela olhou para o relógio.

– Meu Deus, seria bom eu voltar antes de m inha m ãe com eçar a m e procurar. – Ela dissera aos pais que passaria a noite na casa de um a am iga.

Os dois se vestiram j untos e saíram em táxis diferentes.

Greg im aginou que o telefone devia ser do trabalho de Jacky, e que ela estaria ocupada entre um a e três da tarde. Ligaria m ais ou m enos no m eio da m anhã.

Perguntou-se por que aquela anim ação toda. Afinal, estava apenas curioso. Em bora Rita Lawrence fosse linda e m uito sexy, ele j am ais conseguira – nem com ela nem com nenhum a outra – reproduzir o arrebatam ento daquele prim eiro caso de am or com Jacky. Sem dúvida porque nunca m ais voltaria a ter 15 anos.

Chegou ao Antigo Edifício do Gabinete Executivo e deu início à sua principal tarefa do dia: redigir um com unicado à im prensa sobre conselhos aos am ericanos que m oravam no norte da África, onde britânicos, italianos e alem ães estavam em guerra, sobretudo num a faixa costeira de três m il quilôm etros de extensão por 65 de largura.

Às dez e m eia, ligou para o núm ero escrito no recado.

– Clube Universitário Fem inino – atendeu um a voz de m ulher.

Greg nunca estivera lá: hom ens só podiam entrar com o convidados das sócias.

– Jacky Jakes está? – perguntou.

– Sim , ela está esperando um a ligação. Um instante, por favor.

Provavelm ente ela precisava de perm issão especial para receber um telefonem a no trabalho, pensou ele.

Alguns instantes depois, ouviu sua voz:

– Jacky Jakes falando, quem é?

– Greg Peshkov.

– Eu j á im aginava. Com o conseguiu m eu endereço?

– Contratei um detetive particular. Podem os nos encontrar?

– Acho que não tenho escolha. Mas com um a condição.

– Qual?

– Você tem que j urar por tudo o que é m ais sagrado que não vai contar ao seu pai. Nunca.

– Por quê?

– Depois eu explico.

– Tudo bem – concordou ele.

– Jura?

– Claro.

– Então diga que j ura – insistiu ela.

– Eu j uro, está bem ?

– Ótim o. Você pode m e pagar o alm oço.

Greg estranhou aquilo.

– Algum restaurante aqui no bairro aceita servir um branco e um a negra j untos?

– Só conheço um ... o Electric Diner.

– Sei onde fica. – Ele havia reparado no nom e, m as nunca entrara lá: era um a lanchonete barata, de balcão, frequentada por zeladores e m ensageiros. – A que horas?

– Onze e m eia.

– Tão cedo assim ?

– A que horas você acha que as garçonetes alm oçam ... à um a da tarde?

Ele sorriu.

– Você continua atrevida.

Então ela desligou.

Greg term inou de redigir o com unicado à im prensa e levou as folhas datilografadas até a sala do chefe. Deixou o rascunho dentro da bandej a de docum entos a tratar e perguntou:

– Mike, será que eu poderia alm oçar m ais cedo hoj e? Por volta de onze e m eia?

Mike estava lendo a página de opinião do The New York Times.

– Sim , claro, sem problem as – respondeu, sem erguer os olhos.

Sob o sol forte, Greg passou em frente à Casa Branca e chegou à lanchonete às onze e vinte. O lugar estava deserto, com exceção de um as poucas pessoas fazendo um a pausa no trabalho. Acom odou-se num a m esa afastada do balcão e pediu um café.

Perguntou-se o que Jacky teria para lhe dizer. Estava ansioso para saber a resposta de um enigm a que o intrigava havia seis anos.

Ela chegou às 11h35, usando um vestido preto e sapatos baixos – o uniform e de garçonete sem o avental, ele supôs. Ficava bem de preto, e ele se lem brou nitidam ente do prazer que sentia ao adm irá-la: a boca em form a de arco de Cupido, os grandes olhos castanhos. Ela se sentou na sua frente e pediu um a salada e um a Coca-Cola. Greg pediu m ais café: estava tenso dem ais para com er.

O rosto de Jacky havia perdido o aspecto rechonchudo e infantil de que ele se lem brava. Ela estava com 16 anos quando os dois se conheceram . Agora tinha 22. Na época, eram duas crianças brincando de ser adultos. Agora eram adultos de verdade. Em seu rosto, Greg leu um a história que, anos antes, não estava escrita ali: decepção, sofrim ento, dificuldade.

– Trabalho no turno do dia – disse ela. – Chego às nove, ponho as m esas, preparo o salão. Sirvo durante o alm oço, lim po tudo e vou em bora às cinco.

– A m aioria das garçonetes trabalha à noite.

– Gosto de ter as noites e os fins de sem ana livres.

– Continua gostando de festas!

– Não... em geral fico em casa ouvindo rádio.

– Im agino que tenha vários nam orados.

– Todos os que eu quero.

Ele levou alguns instantes para entender que aquilo podia significar qualquer coisa.

O alm oço de Jacky chegou. Ela bebeu a Coca e quase não tocou na salada.

– E então, por que você fugiu de m im em 1935? – perguntou Greg.

Ela deu um suspiro.

– Não quero contar, porque você não vai gostar.

– Eu preciso saber.

– Recebi um a visita do seu pai.

Greg assentiu.

– Im aginei que ele tivesse algo a ver com isso.

– Ele levou um capanga... Joe não sei o quê.

– Joe Brekhunov. Ele é um brutam ontes. – Greg com eçou a ficar com raiva. – Ele m achucou você?

– Não precisou, Greg. Só de olhar para ele j á fiquei m orrendo de m edo. Aceitei fazer o que seu pai queria.

Greg reprim iu a ira.

– E o que ele queria?

– Ele disse que eu tinha que ir em bora im ediatam ente. Podia deixar um recado para você, m as ele iria ler. Eu tinha que voltar para cá, para Washington. Fiquei tão triste por deixá-lo...

Greg se lem brou da angústia que ele próprio sentira.

– Eu tam bém – falou.

Sentiu-se tentado a estender a m ão por cim a da m esa e segurar a de Jacky, m as não teve certeza se ela iria gostar disso.

– Ele disse que m e daria um a quantia em dinheiro todas as sem anas só para m e m anter afastada de você – prosseguiu ela. – Continua m e pagando até hoj e. São só uns trocados, m as dão conta do aluguel. Eu prom eti... m as, não sei com o, consegui reunir coragem para im por um a condição.

– Qual?

– Ele nunca poderia dar em cim a de m im . Se fizesse isso, eu contaria tudo a você.

– E ele concordou?

– Concordou.

– Não é m uita gente que consegue am eaçar m eu pai e se safar.

Ela em purrou o prato para longe.

– Então ele disse que, se eu faltasse com a m inha palavra, Joe iria cortar m inha cara. Joe m e m ostrou a navalha.

Tudo fez sentido.

– É por isso que você continua assustada.

A pele escura dela estava pálida de m edo.

– Mas é claro, droga.

A voz de Greg se transform ou num sussurro:

– Jacky , eu sinto m uito.

Ela forçou um sorriso.

– Tem certeza de que seu pai estava tão errado assim ? Você só tinha 15 anos. Não é um a boa idade para se casar.

– Se ele tivesse m e dito isso, talvez a história fosse outra. Mas ele decide o que vai acontecer e sim plesm ente executa, com o se ninguém m ais tivesse direito a um a opinião.

– Mesm o assim , nós tivem os bons m om entos.

– Com certeza.

– Eu fui o seu presente.

Ele riu.

– O m elhor que j á ganhei.

– Mas o que você tem feito ultim am ente?

– Estou passando o verão trabalhando na assessoria de im prensa do Departam ento de Estado.

Ela fez um a careta.

– Parece bem chato.

– Pelo contrário! É incrível ver hom ens poderosos sentados diante de suas m esas tom ando decisões que vão influenciar o m undo inteiro. Eles governam o m undo!

Apesar do ar cético, ela com entou:

– Bem , deve ser m elhor do que servir m esas.

Ele com eçou a ver com o os dois haviam se afastado.

– Em setem bro, volto para Harvard para m eu últim o ano.

– Aposto que você é o terror das universitárias.

– Há m uitos alunos hom ens, e poucas m ulheres.

– Aindo assim você se vira direitinho, não é?

– Não posso m entir para você.

Ele se perguntou se Em ily Hardcastle teria cum prido sua prom essa e providenciado um m étodo anticoncepcional.

– Vai se casar com um a delas, ter lindos filhos e m orar em um a casa à beira de um lago.

– Eu gostaria de ser político, quem sabe secretário de Estado, ou talvez senador, com o o pai de Woody Dewar.

Ela olhou para o outro lado.

Greg pensou na tal casa à beira do lago. Aquele devia ser o sonho de Jacky. Ficou triste por ela.

– Você vai conseguir – disse ela. – Eu sei. Tem um a aura à sua volta. Mesm o aos 15 anos, j á havia. Você é igual ao seu pai.

– Com o assim ? Pare com isso!

Ela deu de om bros.

– Pense um pouco, Greg. Você sabia que eu não queria vê-lo. E m esm o assim pôs um detetive particular atrás de m im . Ele decide o que vai acontecer e simplesmente executa, como se ninguém mais tivesse direito a uma opinião. Foi o que disse sobre o seu pai um m inuto atrás.

Greg ficou consternado.

– Espero não ser totalm ente igual a ele.

Jacky o olhou de cim a a baixo.

– Os j urados ainda não chegaram a um veredicto.

A garçonete tirou seu prato.

– Aceitam um a sobrem esa? – perguntou. – A torta de pêssego está ótim a.

Nenhum dos dois quis sobrem esa, e a garçonete entregou a conta a Greg.

– Espero ter m atado a sua curiosidade – disse Jacky .

– Obrigado, fico-lhe grato.

– Da próxim a vez que m e vir na rua, passe direto.

– Se você prefere assim .

Ela se levantou.

– Vam os sair separados. Eu ficaria m ais à vontade.

– Com o quiser.

– Boa sorte, Greg.

– Para você tam bém .

– Deixe gorj eta para a garçonete – disse ela, e foi em bora.