Inverno do Mundo
Capítulo V
Depois de algum tem po, Woody falou:
– Seu chá deve ter esfriado.
Ela riu.
– Eu am o você, Woody .
– Am a m esm o?
– Espero que não fique assustado por eu dizer isso.
– Não. – Ele sorriu. – Fico m uito feliz.
– Eu sei que as m oças não devem dizer isso assim , de form a tão direta. Mas não consigo fingir que estou em dúvida. Não quando j á tom ei um a decisão.
– É – falou Woody . – Eu j á tinha percebido.
V
Greg Peshkov estava m orando nos aposentos perm anentes que seu pai m antinha no Ritz-Carlton. Lev aparecia de vez em quando, nos deslocam entos entre Buffalo e Los Angeles, e passava alguns dias no hotel. Atualm ente, porém , Greg tinha o apartam ento só para si – e para Rita Lawrence, a curvilínea filha do congressista, que tinha passado a noite lá e agora estava adoravelm ente despenteada usando um roupão de seda verm elha m asculino.
Um garçom lhes trouxe o café da m anhã, os j ornais e um envelope com um recado.
A declaração conj unta de Roosevelt e Churchill tivera m ais efeito do que Greg previra. Mais de um a sem ana depois, ainda era a principal notícia dos j ornais. A im prensa a havia batizado de Carta do Atlântico. Para Greg, a declaração não passava de expressões cautelosas e com prom issos vagos, m as o m undo não pensava assim . Ela foi recebida com o um prenúncio de liberdade, dem ocracia e com ércio m undial. Diziam que Hitler estava furioso e afirm ava que aquilo equivalia a um a declaração de guerra dos Estados Unidos à Alem anha.
Até os países que não tinham participado da conferência queriam assinar a carta, e Bexforth Ross sugerira que os signatários fossem cham ados de Nações Unidas.
Enquanto isso, os alem ães seguiam derrotando a União Soviética. Ao norte, aproxim avam -se de Leningrado. Ao sul, os russos em retirada tinham explodido a barragem do Dnieper, m aior com plexo hidrelétrico do m undo e sua m enina dos olhos, só para não deixá-lo cair nas m ãos dos invasores alem ães – um sacrifício de partir o coração.
– O Exército Verm elho conseguiu refrear um pouco a velocidade da invasão – disse Greg a Rita, com os olhos pregados no Washington Post. – Mas os alem ães continuam avançando oito quilôm etros por dia. E afirm am ter m atado três m ilhões e m eio de soviéticos. Será possível?
– Você tem algum parente na Rússia?
– Tenho, sim . Um dia, quando estava m eio bêbado, m eu pai m e contou que deixou um a garota grávida lá.
Rita fez um a careta de reprovação.
– Infelizm ente, ele é assim – disse Greg. – É um grande hom em , e grandes hom ens não obedecem às regras.
Ela não disse nada, m as ele entendeu sua expressão: Rita não concordava com sua opinião, m as não queria discutir por isso.
– Enfim , tenho um m eio-irm ão russo, ilegítim o com o eu – continuou Greg. – O nom e dele é Vladim ir. Não sei m ais nada a seu respeito. Talvez a esta altura j á estej a m orto. Ele tem idade para lutar. Deve estar entre esses três m ilhões e m eio.
Ele virou a página do j ornal.
Ao term inar as notícias, leu o recado que o garçom havia trazido.
Era de Jacky Jakes. Nele, estavam escritos um núm ero de telefone e as palavras Não entre uma e três da tarde.
De repente, Greg m al podia esperar para se livrar de Rita.
– A que horas você tem que estar em casa? – perguntou, sem m uita sutileza.
Ela olhou para o relógio.
– Meu Deus, seria bom eu voltar antes de m inha m ãe com eçar a m e procurar. – Ela dissera aos pais que passaria a noite na casa de um a am iga.
Os dois se vestiram j untos e saíram em táxis diferentes.
Greg im aginou que o telefone devia ser do trabalho de Jacky, e que ela estaria ocupada entre um a e três da tarde. Ligaria m ais ou m enos no m eio da m anhã.
Perguntou-se por que aquela anim ação toda. Afinal, estava apenas curioso. Em bora Rita Lawrence fosse linda e m uito sexy, ele j am ais conseguira – nem com ela nem com nenhum a outra – reproduzir o arrebatam ento daquele prim eiro caso de am or com Jacky. Sem dúvida porque nunca m ais voltaria a ter 15 anos.
Chegou ao Antigo Edifício do Gabinete Executivo e deu início à sua principal tarefa do dia: redigir um com unicado à im prensa sobre conselhos aos am ericanos que m oravam no norte da África, onde britânicos, italianos e alem ães estavam em guerra, sobretudo num a faixa costeira de três m il quilôm etros de extensão por 65 de largura.
Às dez e m eia, ligou para o núm ero escrito no recado.
– Clube Universitário Fem inino – atendeu um a voz de m ulher.
Greg nunca estivera lá: hom ens só podiam entrar com o convidados das sócias.
– Jacky Jakes está? – perguntou.
– Sim , ela está esperando um a ligação. Um instante, por favor.
Provavelm ente ela precisava de perm issão especial para receber um telefonem a no trabalho, pensou ele.
Alguns instantes depois, ouviu sua voz:
– Jacky Jakes falando, quem é?
– Greg Peshkov.
– Eu j á im aginava. Com o conseguiu m eu endereço?
– Contratei um detetive particular. Podem os nos encontrar?
– Acho que não tenho escolha. Mas com um a condição.
– Qual?
– Você tem que j urar por tudo o que é m ais sagrado que não vai contar ao seu pai. Nunca.
– Por quê?
– Depois eu explico.
– Tudo bem – concordou ele.
– Jura?
– Claro.
– Então diga que j ura – insistiu ela.
– Eu j uro, está bem ?
– Ótim o. Você pode m e pagar o alm oço.
Greg estranhou aquilo.
– Algum restaurante aqui no bairro aceita servir um branco e um a negra j untos?
– Só conheço um ... o Electric Diner.
– Sei onde fica. – Ele havia reparado no nom e, m as nunca entrara lá: era um a lanchonete barata, de balcão, frequentada por zeladores e m ensageiros. – A que horas?
– Onze e m eia.
– Tão cedo assim ?
– A que horas você acha que as garçonetes alm oçam ... à um a da tarde?
Ele sorriu.
– Você continua atrevida.
Então ela desligou.
Greg term inou de redigir o com unicado à im prensa e levou as folhas datilografadas até a sala do chefe. Deixou o rascunho dentro da bandej a de docum entos a tratar e perguntou:
– Mike, será que eu poderia alm oçar m ais cedo hoj e? Por volta de onze e m eia?
Mike estava lendo a página de opinião do The New York Times.
– Sim , claro, sem problem as – respondeu, sem erguer os olhos.
Sob o sol forte, Greg passou em frente à Casa Branca e chegou à lanchonete às onze e vinte. O lugar estava deserto, com exceção de um as poucas pessoas fazendo um a pausa no trabalho. Acom odou-se num a m esa afastada do balcão e pediu um café.
Perguntou-se o que Jacky teria para lhe dizer. Estava ansioso para saber a resposta de um enigm a que o intrigava havia seis anos.
Ela chegou às 11h35, usando um vestido preto e sapatos baixos – o uniform e de garçonete sem o avental, ele supôs. Ficava bem de preto, e ele se lem brou nitidam ente do prazer que sentia ao adm irá-la: a boca em form a de arco de Cupido, os grandes olhos castanhos. Ela se sentou na sua frente e pediu um a salada e um a Coca-Cola. Greg pediu m ais café: estava tenso dem ais para com er.
O rosto de Jacky havia perdido o aspecto rechonchudo e infantil de que ele se lem brava. Ela estava com 16 anos quando os dois se conheceram . Agora tinha 22. Na época, eram duas crianças brincando de ser adultos. Agora eram adultos de verdade. Em seu rosto, Greg leu um a história que, anos antes, não estava escrita ali: decepção, sofrim ento, dificuldade.
– Trabalho no turno do dia – disse ela. – Chego às nove, ponho as m esas, preparo o salão. Sirvo durante o alm oço, lim po tudo e vou em bora às cinco.
– A m aioria das garçonetes trabalha à noite.
– Gosto de ter as noites e os fins de sem ana livres.
– Continua gostando de festas!
– Não... em geral fico em casa ouvindo rádio.
– Im agino que tenha vários nam orados.
– Todos os que eu quero.
Ele levou alguns instantes para entender que aquilo podia significar qualquer coisa.
O alm oço de Jacky chegou. Ela bebeu a Coca e quase não tocou na salada.
– E então, por que você fugiu de m im em 1935? – perguntou Greg.
Ela deu um suspiro.
– Não quero contar, porque você não vai gostar.
– Eu preciso saber.
– Recebi um a visita do seu pai.
Greg assentiu.
– Im aginei que ele tivesse algo a ver com isso.
– Ele levou um capanga... Joe não sei o quê.
– Joe Brekhunov. Ele é um brutam ontes. – Greg com eçou a ficar com raiva. – Ele m achucou você?
– Não precisou, Greg. Só de olhar para ele j á fiquei m orrendo de m edo. Aceitei fazer o que seu pai queria.
Greg reprim iu a ira.
– E o que ele queria?
– Ele disse que eu tinha que ir em bora im ediatam ente. Podia deixar um recado para você, m as ele iria ler. Eu tinha que voltar para cá, para Washington. Fiquei tão triste por deixá-lo...
Greg se lem brou da angústia que ele próprio sentira.
– Eu tam bém – falou.
Sentiu-se tentado a estender a m ão por cim a da m esa e segurar a de Jacky, m as não teve certeza se ela iria gostar disso.
– Ele disse que m e daria um a quantia em dinheiro todas as sem anas só para m e m anter afastada de você – prosseguiu ela. – Continua m e pagando até hoj e. São só uns trocados, m as dão conta do aluguel. Eu prom eti... m as, não sei com o, consegui reunir coragem para im por um a condição.
– Qual?
– Ele nunca poderia dar em cim a de m im . Se fizesse isso, eu contaria tudo a você.
– E ele concordou?
– Concordou.
– Não é m uita gente que consegue am eaçar m eu pai e se safar.
Ela em purrou o prato para longe.
– Então ele disse que, se eu faltasse com a m inha palavra, Joe iria cortar m inha cara. Joe m e m ostrou a navalha.
Tudo fez sentido.
– É por isso que você continua assustada.
A pele escura dela estava pálida de m edo.
– Mas é claro, droga.
A voz de Greg se transform ou num sussurro:
– Jacky , eu sinto m uito.
Ela forçou um sorriso.
– Tem certeza de que seu pai estava tão errado assim ? Você só tinha 15 anos. Não é um a boa idade para se casar.
– Se ele tivesse m e dito isso, talvez a história fosse outra. Mas ele decide o que vai acontecer e sim plesm ente executa, com o se ninguém m ais tivesse direito a um a opinião.
– Mesm o assim , nós tivem os bons m om entos.
– Com certeza.
– Eu fui o seu presente.
Ele riu.
– O m elhor que j á ganhei.
– Mas o que você tem feito ultim am ente?
– Estou passando o verão trabalhando na assessoria de im prensa do Departam ento de Estado.
Ela fez um a careta.
– Parece bem chato.
– Pelo contrário! É incrível ver hom ens poderosos sentados diante de suas m esas tom ando decisões que vão influenciar o m undo inteiro. Eles governam o m undo!
Apesar do ar cético, ela com entou:
– Bem , deve ser m elhor do que servir m esas.
Ele com eçou a ver com o os dois haviam se afastado.
– Em setem bro, volto para Harvard para m eu últim o ano.
– Aposto que você é o terror das universitárias.
– Há m uitos alunos hom ens, e poucas m ulheres.
– Aindo assim você se vira direitinho, não é?
– Não posso m entir para você.
Ele se perguntou se Em ily Hardcastle teria cum prido sua prom essa e providenciado um m étodo anticoncepcional.
– Vai se casar com um a delas, ter lindos filhos e m orar em um a casa à beira de um lago.
– Eu gostaria de ser político, quem sabe secretário de Estado, ou talvez senador, com o o pai de Woody Dewar.
Ela olhou para o outro lado.
Greg pensou na tal casa à beira do lago. Aquele devia ser o sonho de Jacky. Ficou triste por ela.
– Você vai conseguir – disse ela. – Eu sei. Tem um a aura à sua volta. Mesm o aos 15 anos, j á havia. Você é igual ao seu pai.
– Com o assim ? Pare com isso!
Ela deu de om bros.
– Pense um pouco, Greg. Você sabia que eu não queria vê-lo. E m esm o assim pôs um detetive particular atrás de m im . Ele decide o que vai acontecer e simplesmente executa, como se ninguém mais tivesse direito a uma opinião. Foi o que disse sobre o seu pai um m inuto atrás.
Greg ficou consternado.
– Espero não ser totalm ente igual a ele.
Jacky o olhou de cim a a baixo.
– Os j urados ainda não chegaram a um veredicto.
A garçonete tirou seu prato.
– Aceitam um a sobrem esa? – perguntou. – A torta de pêssego está ótim a.
Nenhum dos dois quis sobrem esa, e a garçonete entregou a conta a Greg.
– Espero ter m atado a sua curiosidade – disse Jacky .
– Obrigado, fico-lhe grato.
– Da próxim a vez que m e vir na rua, passe direto.
– Se você prefere assim .
Ela se levantou.
– Vam os sair separados. Eu ficaria m ais à vontade.
– Com o quiser.
– Boa sorte, Greg.
– Para você tam bém .
– Deixe gorj eta para a garçonete – disse ela, e foi em bora.