Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 92 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

Por fim , Ferm i ordenou que as barras fossem recolocadas.

O barulho dos m edidores voltou a se transform ar num a série de cliques que, aos poucos, foram dim inuindo de ritm o até pararem .

Greg tornou a respirar norm alm ente.

McHugh estava eufórico.

– Conseguim os, está provado! A reação em cadeia existe!

– E o que é m ais im portante: é possível controlá-la – disse Greg.

– É, im agino que isso sej a o m ais im portante, de um ponto de vista prático.

Greg sorriu. Havia estudado em Harvard e sabia que os cientistas eram assim m esm o: para eles, teoria era realidade e o m undo não passava de um m odelo inexato.

Alguém apareceu com um a garrafa de vinho italiano e alguns copos de papel dentro de um a cesta de palha. Cada cientista tom ou um golinho. Aquele era m ais um m otivo para Greg não ser cientista: eles não entendiam nada sobre com o se divertir.

Alguém pediu a Ferm i que autografasse a cesta. Ele acatou o pedido, e então todos os outros assinaram tam bém .

Os técnicos desligaram os m onitores. Todos com eçaram a sair. Greg ficou no estádio, observando. Depois de algum tem po, percebeu que estava sozinho na galeria com Ferm i e Szilard. Viu os dois gênios se cum prim entarem com um aperto de m ãos. Szilard era grandão e tinha um rosto redondo; Ferm i parecia um duende. Em bora esse pensam ento não fosse condizente com a situação, Greg se lem brou de o Gordo e o Magro.

Então ouviu Szilard dizer:

– Meu am igo, acho que esta data ficará m arcada com o um dia negro na história da hum anidade.

O que será que ele quer dizer com isso?, pensou Greg.

 

V

Greg queria que seus pais aceitassem Georgy .

Não seria fácil. Com certeza tanto o pai quanto a m ãe achariam estranho saber que tinham um neto cuj a existência fora escondida deles durante seis anos. Talvez se zangassem . Além do m ais, poderiam dem onstrar desprezo por Jacky. Mas nenhum dos dois tinha o direito de assum ir um a postura m oralista, pensou Greg com ironia. Afinal, haviam gerado um filho ilegítm o – ele próprio. Mas as pessoas não são racionais.

Não sabia ao certo que diferença faria o fato de Georgy ser negro. Os pais de Greg eram tranquilos em relação à questão racial e nunca se referiam com m aldade a crioulos ou j udeuzinhos, com o faziam algum as pessoas da sua geração. Mas talvez m udassem de ideia ao saber que havia um negro na fam ília.

Deduziu que seu pai seria o m ais difícil. Por isso falou prim eiro com a m ãe.

Conseguiu alguns dias de folga no Natal e foi visitar Marga em Buffalo. Ela m orava num grande apartam ento no m elhor prédio da cidade. Passava a m aior parte do tem po sozinha, m as tinha um a cozinheira, duas criadas e um m otorista. Tinha tam bém um cofre recheado de j oias e um closet do tam anho de um a garagem para dois carros, repleto de roupas. Só lhe faltava um m arido.

Lev tam bém estava em Buffalo, m as, por tradição, sem pre saía com Olga na véspera do Natal. Continuava casado com ela, em bora fizesse m uitos anos que não passava um a noite sequer em sua casa. Até onde Greg sabia, Olga e Lev se detestavam ; m as, por algum m otivo, encontravam -se um a vez por ano.

Nessa noite Greg e a m ãe j antaram j untos no apartam ento. Para agradá-la, ele vestiu um sm oking. “Adoro quando m eus hom ens se vestem bem ”, costum ava dizer Marga. Tom aram sopa de peixe e com eram frango assado; a sobrem esa foi a favorita de Greg na infância: torta de pêssego.

– Tenho novidades, m ãe – disse ele, nervoso, enquanto a criada servia o café.

Estava com m edo de que ela se zangasse. Não tem ia por si m esm o, m as por Georgy, e im aginou que ser pai era isso: preocupar-se m ais com outra pessoa do que consigo m esm o.

– Novidades boas? – indagou ela.

Em bora houvesse engordado com o tem po, aos 46 anos Marga continuava glam ourosa. Se havia algum fio grisalho em seus cabelos, era cuidadosam ente cam uflado pelo cabeleireiro. Nessa noite, usava um vestido preto sim ples e um a gargantilha de brilhantes.

– Muito boas, m as um pouco surpreendentes, acho. Então, por favor, não se exalte.

Ela arqueou um a das sobrancelhas, m as não disse nada.

Greg levou a m ão ao bolso do paletó e pegou um a fotografia. A im agem m ostrava Georgy m ontado num a bicicleta verm elha com um a fita em volta do guidom . A roda traseira da bicicleta era equipada com rodinhas, para dar estabilidade. A expressão no rosto do m enino era de puro êxtase. Greg estava aj oelhado a seu lado, com ar orgulhoso.

Entregou a foto à m ãe.

Marga estudou-a com atenção. Um m inuto depois, falou:

– Im agino que você tenha dado um a bicicleta de Natal para esse m enininho.

– Isso m esm o.

Ela ergueu os olhos.

– Está m e dizendo que tem um filho?

Greg assentiu.

– O nom e dele é Georgy .

– Você está casado?

– Não.

Ela j ogou a foto sobre a m esa.

– Pelo am or de Deus! – exclam ou, zangada. – Qual é o problem a com os hom ens da fam ília Peshkov?

Greg ficou arrasado.

– Não sei do que você está falando!

– Mais um filho ilegítim o! Mais um a m ulher criando um a criança sozinha!

Greg entendeu que ela via Jacky com o um a versão m ais j ovem de si m esm a.

– Mãe, eu tinha 15 anos...

– Por que você não pode ser norm al? – vociferou ela. – Pelo am or de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que há de errado em ter um a fam ília com o as outras?

Greg baixou os olhos.

– Nada.

Estava envergonhado. Até aquele m om ento, acreditava ter um papel passivo naquela história, ou até m esm o de vítim a. Tudo o que havia acontecido fora responsabilidade do pai e de Jacky. Sua m ãe, porém , não via as coisas desse j eito, e Greg agora entendia que ela estava certa. Não pensara duas vezes antes de ir para a cam a com Jacky ; não a questionara quando ela afirm ara, sem dar m uita im portância ao fato, que ele não precisava se preocupar com m étodos anticoncepcionais; e não enfrentara o pai quando Jacky desaparecera. Era m uito j ovem , sim . No entanto, se tinha idade suficiente para trepar com ela, tam bém tinha idade suficiente para arcar com as consequências.

Sua m ãe continuava irada:

– Você não se lem bra de com o reclam ava? “Cadê m eu pai? Por que ele não dorm e aqui? Por que não podem os ir com ele à casa de Daisy ?” E depois as brigas que tinha na escola quando os outros m eninos cham avam você de bastardo. E com o ficou zangado quando não o deixaram ser sócio daquele m aldito Iate Clube.

– É claro que m e lem bro.

Com sua m ão cheia de anéis, ela deu um soco na m esa, fazendo os copos de cristal balançarem .

– Então com o pode fazer outro m enino passar pela m esm a tortura?

– Até dois m eses atrás eu nem sabia que ele existia. Meu pai am eaçou a m ãe dele e a fez ir em bora.

– Quem é ela?

– Jacky Jakes. Ela é garçonete – disse Greg, pegando outra foto.

Marga suspirou.

– Que negra bonita.

Estava com eçando a se acalm ar.

– Ela queria ser atriz, m as acho que desistiu quando Georgy nasceu.

Marga assentiu.

– Um bebê faz m ais estragos na carreira do que pegar gonorreia.

Greg notou que a m ãe acreditava que atrizes tinham que ir para a cam a com as pessoas certas a fim de progredir na carreira. Com o ela sabia de um a coisa dessas? Pensando bem , no entanto, Marga era cantora de boate quando seu pai a conhecera...

Mas ele não queria enveredar por essa seara.

– O que você deu para ela de Natal? – perguntou Marga.

– Um seguro-saúde.

– Bom presente. Melhor do que um ursinho de pelúcia.

Greg ouviu passos no hall. Seu pai havia chegado. Às pressas, falou:

– Mãe, você aceita conhecer Jacky ? Vai reconhecer Georgy com o seu neto?

Marga levou a m ão à boca.

– Meu Deus, eu sou avó! – Não sabia se ficava chocada ou feliz.

Greg se inclinou para a frente.

– Não quero que m eu pai rej eite o m enino. Por favor!

Antes que Marga pudesse responder, Lev entrou na sala.

– Oi, querido. Com o foi sua noite? – indagou ela.

Lev sentou-se à m esa com um ar m al-hum orado.

– Bem , ouvi explicações detalhadas sobre os m eus defeitos, então acho que m e diverti bastante.

– Coitadinho de você. Com eu bem ? Posso m andar fazer um om elete num instante.

– A com ida estava boa.

As duas fotos continuavam em cim a da m esa, m as Lev ainda não havia reparado nelas.

A em pregada entrou e disse:

– Aceita um café, Sr. Peshkov?

– Não, obrigado.

– Traga a vodca, para o caso de o Sr. Peshkov querer um drinque m ais tarde – pediu Marga.

– Sim , senhora.

Greg notou com o Marga era solícita em relação ao conforto e ao prazer de Lev. Im aginou que esse fosse o m otivo pelo qual o pai estava ali naquela noite, e não na casa de Olga.

A em pregada trouxe um a bandej a com um a garrafa e três copinhos. Lev ainda bebia vodca à m oda russa: quente e pura.

– Pai, você conhece Jacky Jakes... – com eçou Greg.

– Ela outra vez? – interrom peu Lev, irritado.

– Sim , porque há um a coisa sobre ela que você não sabe.

Isso cham ou sua atenção. Lev detestava im aginar que os outros soubessem coisas que ele desconhecia.

– O quê?

– Ela tem um filho. – Greg em purrou as fotografias pela m esa encerada.

– Um filho seu?

– O m enino tem 6 anos. O que você acha?

– Ela soube ficar de bico calado.

– Estava com m edo de você.

– O que ela achou que eu fosse fazer? Cozinhar o bebê e com er?

– Sei lá, pai... Você é especialista em assustar os outros.

Lev lançou-lhe um olhar duro.

– E você está aprendendo depressa.

Ele estava se referindo à cena da navalha. Talvez isso sej a verdade, pensou Greg.

– Por que está m e m ostrando essas fotos? – perguntou Lev.

– Achei que você fosse gostar de saber que tem um neto.

– Com um a atriz de quinta categoria que esperava arrum ar um hom em rico!

– Querido! – interrom peu Marga. – Não se esqueça, por favor, que eu era um a cantora de quinta categoria querendo arrum ar um hom em rico.

A expressão de Lev tornou-se furiosa. Encarou Marga por alguns instantes, com raiva. Então seu sem blante m udou.

– Sabem do que m ais? Vocês têm razão. Quem sou eu para j ulgar Jacky Jakes?

Greg e Marga o fitaram , estupefatos com aquela súbita dem onstração de hum ildade.

– Sou igualzinho a ela. Antes de m e casar com Olga Vy alov, filha do m eu patrão, eu era um vagabundo saído dos barracos de São Petersburgo.

Greg olhou para a m ãe, e Marga reagiu com um dar de om bros quase im perceptível que dizia apenas: A vida é uma caixinha de surpresas.

Lev tornou a olhar para a foto.

– Tirando a cor, o m oleque é igualzinho ao m eu irm ão, Grigori. Isto, sim , é um a surpresa. Até agora, eu achava que esses pretinhos fossem todos iguais.

Greg m al conseguia respirar.

– Você aceita ver o m enino, pai? Aceita vir com igo conhecer seu neto?

– Caram ba, sim .

Lev abriu a garrafa, serviu vodca nos três copinhos e entregou dois deles ao filho e à m ulher.

– Qual é o nom e dele?

– Georgy .

Lev ergueu o copo.

– A Georgy , então.

Todos beberam .