Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 49 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IV

– O pronto-socorro fica nos fundos.

– Pode deixar que eu encontro.

Ela entrou no carro. O m otor ainda estava ligado.

– Qual é o seu nom e? – gritou o voluntário.

– Daisy Fitzherbert. E o seu?

– Nobby Clarke. Cuidado com a m inha am bulância.

O carro tinha um câm bio m anual padrão. Daisy engatou a prim eira e partiu.

Os aviões continuavam a rugir no céu e as bom bas caíam sem piedade. Daisy estava desesperada para levar as duas feridas até o hospital. Em bora o St. Bart’s ficasse a m enos de dois quilôm etros dali, o traj eto foi m uito difícil. Ela passou pela Leadenhall Street, Poultry e Cheapside, m as várias vezes encontrou as ruas fechadas e teve que dar ré e seguir por outro cam inho. Parecia haver pelo m enos um a casa destruída em cada rua. Por toda parte viam -se fum aça e destroços, pessoas feridas e chorando.

Com grande alívio, ela chegou ao hospital e seguiu outra am bulância até a entrada do pronto-socorro. A atividade ali era frenética: um a dezena de veículos entregava pacientes m utilados e queim ados a carregadores apressados usando aventais suj os de sangue. Talvez eu tenha salvado a m ãe dessas m eninas, pensou Daisy. Não sou totalm ente inútil, m esm o que m eu m arido não m e queira.

A m enina sem cabelos continuava com a irm ãzinha no colo. Daisy aj udou as duas a descer da am bulância.

Um a enferm eira auxiliou Daisy a erguer a m ãe desacordada e levá-la para dentro, m as dava para ver que a m ulher tinha parado de respirar.

– Aquelas duas são filhas dela! – disse à enferm eira. Detectou um leve tom de histeria na própria voz. – O que vai acontecer agora?

– Deixe que eu cuido disso – respondeu a enferm eira depressa. – Você tem que voltar lá.

– Tenho? – indagou Daisy .

– É m elhor se recom por – disse a enferm eira. – Haverá m uitos outros m ortos e feridos até o fim da noite.

– Está bem – disse Daisy .

Então sentou-se outra vez ao volante da am bulância e foi em bora do hospital.

 

IV

Num a tarde quente do m ês de outubro, Lloy d William s chegou à ensolarada cidade francesa de Perpignan, a pouco m ais de trinta quilôm etros da fronteira espanhola.

Passara todo o m ês de setem bro na região de Bordeaux, colhendo uvas para a fabricação do vinho, com o fizera no terrível ano de 1937. Agora tinha dinheiro para tom ar ônibus e bondes, e podia com er em restaurantes baratos, em vez de sobreviver à custa de legum es e verduras ainda verdes desenterrados de hortas alheias ou de ovos crus roubados de galinheiros. Estava voltando pelo m esm o cam inho que usara para sair da Espanha três anos antes. Descera de Bordeaux rum o ao sul, passando por Toulouse e Béziers, às vezes a bordo de trens de carga, m as na m aior parte do tem po de carona com cam inhoneiros.

Estava num café de beira de estrada na principal via que seguia para sudoeste, de Perpignan até a fronteira com a Espanha. Ainda vestido com o m acacão azul e a boina de Maurice, levava um a pequena bolsa de lona contendo um a colher de pedreiro enferruj ada e um nível suj o de cim ento, provas de que era um pedreiro espanhol voltando para casa. Que Deus não perm itisse que alguém lhe oferecesse trabalho: ele não tinha a m enor ideia de com o se erguia um a parede.

Estava preocupado pensando em com o iria encontrar o cam inho pelas m ontanhas. Três m eses antes, na Picardia, acreditara levianam ente que conseguiria achar a rota dos Pireneus pela qual seus guias o haviam conduzido em 1936, a cam inho da Espanha. Um ano depois, havia percorrido partes da m esm a rota no sentido contrário. No entanto, à m edida que os picos roxos e desfiladeiros verdej antes iam surgindo no horizonte distante, isso lhe parecia m ais com plicado. Im aginava que cada passo da viagem fosse estar gravado em sua m em ória, m as, quando tentava se lem brar de cam inhos, pontes ou encruzilhadas específicas, constatava, furioso, que as im agens eram difusas e os detalhes lhe escapavam .

Term inou de alm oçar – um ensopado de peixe picante –, e então abordou em voz baixa um grupo de m otoristas sentado à m esa ao seu lado.

– Preciso de um a carona até Cerbère. – Esse era o últim o vilarej o antes da fronteira com a Espanha. – Algum de vocês está indo para lá?

Provavelm ente todos seguiam naquela direção: era o único m otivo para estarem ali, naquela estrada para sudoeste. Apesar disso, os hom ens hesitaram . Aquilo era a França de Vichy, tecnicam ente um a área independente, m as que, na prática, era subm etida ao j ugo dos nazistas que ocupavam a m etade norte do país. Ninguém estava m uito ansioso para aj udar um viaj ante desconhecido com sotaque estrangeiro.

– Eu sou pedreiro – disse ele, erguendo a bolsa de lona. – Estou voltando para casa, na Espanha. Meu nom e é Leandro.

Um gordo de cam iseta falou:

– Posso levá-lo até a m etade do cam inho.

– Obrigado.

– Está pronto?

– Claro.

Os dois saíram do restaurante e em barcaram num a cam inhonete Renault m uito suj a com o nom e de um a loj a de m aterial elétrico escrito na lateral. Quando estavam indo em bora, o m otorista perguntou a Lloy d se ele era casado. Seguiu-se um interrogatório desagradável, de cunho pessoal, e Lloy d percebeu que o condutor tinha fascínio pela vida sexual dos outros. Sem dúvida era por isso que aceitara dar carona a Lloy d: a viagem lhe proporcionava um a oportunidade para fazer perguntas invasivas. Vários dos hom ens com quem Lloy d pegara carona tinham algum m otivo escuso desse tipo.

– Eu sou virgem – disse-lhe Lloy d, o que era verdade.

No entanto isso só lhe rendeu m ais um a série de perguntas sobre carícias trocadas com m eninas no colégio. Nessa área Lloy d tinha um a experiência considerável, m as não iria com partilhá-la. Tentando não ser grosseiro, recusou-se a dar detalhes, e o m otorista acabou desistindo.

– Vou ter que virar aqui – disse ele, parando o veículo.

Lloy d lhe agradeceu a carona e seguiu a pé.

Havia aprendido a não m archar com o um soldado, e desenvolvera o que pensava ser um andar arrastado de cam ponês razoavelm ente convincente. Nunca levava um j ornal ou um livro. Seus cabelos tinham enfim sido cortados por um barbeiro incom petente no bairro m ais pobre de Toulouse. Ele se barbeava cerca de um a vez por sem ana, então quase sem pre exibia um a barba por fazer, algo espantosam ente eficaz para lhe dar o aspecto de um zé-ninguém . Parara de tom ar banho e havia adquirido um cheiro forte que fazia as pessoas relutarem em falar com ele.

Fosse na França ou na Espanha, quase ninguém da classe trabalhadora tinha relógio de pulso, de m odo que precisara se desfazer do relógio de aço com m ostrador quadrado que Bernie lhe dera de presente de form atura. Não pudera dá-lo de presente a nenhum dos m uitos franceses que o haviam aj udado, pois um relógio britânico tam bém os teria com prom etido. Por fim , com grande pesar, o j ogara num lago.

Seu principal ponto fraco era não ter docum entos de identidade.

Tentara com prar os docum entos de um hom em vagam ente parecido com ele e planej ara roubar outros dois, m as as pessoas andavam cautelosas em relação a isso nos últim os tem pos, o que não era de espantar. Sua estratégia, portanto, era evitar situações em que fosse obrigado a se identificar. Tentava passar despercebido. Sem pre que podia, andava pelos cam pos em vez de usar as estradas, e nunca viaj ava em trens de passageiros, pois m uitas vezes havia postos de controle nas estações. Até agora, tivera sorte. O policial de um vilarej o tinha lhe pedido os docum entos, m as, quando ele explicara que havia sido roubado depois de tom ar um porre e apagar num bar de Marselha, o policial acreditara na história e o m andara seguir seu cam inho.

Nesse dia, porém , a sorte o abandonou.

Ele atravessava um a região agrícola pobre. Estava no sopé dos Pireneus, perto do m ar Mediterrâneo, e o terreno era arenoso. A estrada poeirenta passava por aldeias de casas m iseráveis. A paisagem era pouco povoada. À sua esquerda, em m eio às colinas, despontavam pedacinhos azuis do m ar distante.

A últim a coisa que ele esperava era o Citroën verde que encostou ao seu lado com três gendarm es dentro.

Tudo aconteceu m uito de repente. Ele ouviu o carro se aproxim ar – o único que ouvira desde que o m otorista o m andara descer. Continuou arrastando os pés, com o um trabalhador cansado a cam inho de casa. A estrada era ladeada por cam pos secos, cobertos por um a vegetação esparsa e árvores finas. Quando o carro parou, por um segundo ele cogitou tentar sair correndo pelos cam pos. Desistiu ao ver as pistolas no coldre dos dois policiais que saltaram . Eles provavelm ente atiravam m al, m as poderiam ter sorte. Lloy d tinha m ais chances de conseguir se safar na conversa. Aqueles eram policiais da zona rural, m ais sim páticos do que os irredutíveis gendarm es urbanos franceses.

– Docum entos – pediu o policial que estava m ais próxim o dele.

Lloy d abriu os braços, num gesto de im potência.

– Monsieur, infelizm ente m eus docum entos foram roubados em Marselha. Meu nom e é Leandro, sou um pedreiro espanhol e estou voltando para...

– Entre no carro.

Lloy d hesitou, m as era inútil. Suas chances de escapar eram m enores do que nunca.

Um dos policiais o segurou com força pelo braço, em purrou-o para o banco traseiro e entrou no carro ao seu lado.

Lloy d ficou desconsolado quando o Citroën com eçou a andar.

O gendarm e ao seu lado perguntou:

– Você é inglês ou o quê?

– Sou um pedreiro espanhol. Meu nom e é...

O policial fez um gesto casual com a m ão e disse:

– Nem precisa se dar o trabalho.

Lloy d viu que tinha sido extrem am ente otim ista. Um estrangeiro sem docum entos a cam inho da fronteira espanhola: eles apenas partiam do princípio de que ele era um soldado britânico foragido. Se ainda tivessem algum a dúvida, encontrariam a prova se o m andassem tirar a roupa, pois veriam a plaquinha de identificação em volta de seu pescoço. Ele não a tinha j ogado fora porque, sem ela, seria autom aticam ente fuzilado com o espião.

E agora estava preso num carro com três hom ens arm ados, e a probabilidade de encontrar um j eito de escapar era nula.

Foram em frente, na m esm a direção em que ele seguia, enquanto o sol descia sobre as m ontanhas à sua direita. Não havia nenhum a cidade grande dali até a fronteira, então ele im aginou que os policiais pretendiam levá-lo para passar a noite na cadeia de algum vilarej o. Talvez ele conseguisse fugir de lá. Caso contrário, seria levado de volta a Perpignan no dia seguinte e entregue à polícia da cidade. E depois? Será que ele seria interrogado? Essa perspectiva o fez gelar de m edo. A polícia francesa iria espancá-lo, os alem ães iriam torturá-lo. Se ele sobrevivesse, acabaria indo parar num cam po de prisioneiros de guerra, onde ficaria até o final do conflito ou até m orrer de desnutrição. E estava a apenas alguns quilôm etros da fronteira!

Chegaram a um a cidadezinha. Será que ele conseguiria escapar entre o carro e a cadeia? Não foi capaz de bolar nenhum plano: não conhecia o terreno. Não havia nada que pudesse fazer a não ser perm anecer alerta e aproveitar qualquer oportunidade que surgisse.

Saíram da rua principal e entraram num beco atrás de um a fileira de loj as. Será que iriam m atá-lo a tiros e deixar seu corpo ali?

O carro parou nos fundos de um restaurante. O quintal estava coalhado de caixas e latas gigantescas. Por um a j anelinha, Lloy d pôde ver um a cozinha bem -ilum inada.

O policial que estava no banco do carona desceu do carro, em seguida abriu a porta de Lloy d, do lado m ais próxim o ao restaurante. Seria aquela a sua chance? Teria que dar a volta no carro e sair correndo do beco. Já estava m eio escuro: depois dos prim eiros m etros, não seria m ais um alvo fácil.

O policial estendeu a m ão para dentro do carro, segurou o braço de Lloy d e não o soltou enquanto ele descia e ficava de pé. Seu colega saltou im ediatam ente depois de Lloy d. A oportunidade não fora boa o suficiente.

Mas por que eles o haviam levado até lá?

Foi conduzido para dentro da cozinha do restaurante. Um chef batia ovos num a tigela, enquanto um adolescente lavava louça num a pia grande. Um dos policiais falou:

– Ele é inglês. Disse que se cham a Leandro.

Sem parar o que estava fazendo, o chef levantou a cabeça e gritou:

– Teresa! Venha cá!

Lloy d se lem brou de outra Teresa, um a linda anarquista espanhola que ensinava os soldados a ler e escrever.

A porta da cozinha se abriu de par em par, e a própria adentrou a cozinha.

Atônito, Lloy d ficou encarando a m ulher. Não havia nenhum a dúvida: apesar de ela estar usando touca e avental brancos de garçonete, ele nunca esqueceria aqueles olhos grandes e aqueles cabelos pretos e cheios.

No início, Teresa não olhou para ele. Pôs um a pilha de pratos sobre a bancada j unto ao j ovem que lavava louça, depois virou-se para os policiais com um sorriso e beij ou cada um deles nas bochechas, dizendo:

– Pierre! Michel! Com o vão? – Então virou-se para Lloy d, encarou-o e falou em espanhol: – Não... não é possível! Lloy d... É você m esm o?

Tudo o que ele conseguiu fazer foi m enear a cabeça com o um bobo.

Ela o abraçou, apertando-o com força, e o beij ou nas bochechas.

– Pronto – disse um dos policiais. – Tudo certo. Tem os que ir. Boa sorte! – Ele entregou a Lloy d sua bolsa de lona e os dois foram em bora.

Lloy d finalm ente recuperou a fala.

– O que está acontecendo? – perguntou a Teresa em espanhol. – Pensei que estivessem m e levando para a cadeia!

– Eles odeiam os nazistas, por isso nos aj udam – disse ela.

– Nos aj udam ?

– Depois eu explico. Venha com igo. – Ela abriu um a porta que dava para um a escada e o conduziu até o andar de cim a, onde havia um quarto parcam ente m obiliado. – Espere aqui. Vou trazer algum a coisa para você com er.

Lloy d se deitou na cam a e ficou pensando na sua sorte extraordinária. Cinco m inutos antes, im aginava que fosse enfrentar a tortura e a m orte. Agora esperava que um a linda m ulher lhe trouxesse o j antar.

E tudo poderia m udar de novo a qualquer instante, pensou.

Teresa voltou m eia hora depois, com um a om elete e batatas fritas num prato rústico.

– Tivem os m uito m ovim ento, m as vam os fechar daqui a pouco – disse ela. – Volto em alguns m inutos.

Ele com eu depressa.

A noite caiu. Lloy d ouviu o burburinho dos clientes indo em bora e os ruídos das panelas sendo guardadas. Então Teresa tornou a aparecer com um a garrafa de vinho tinto e dois copos.

Lloy d lhe perguntou o que a fizera deixar a Espanha.

– Nosso povo está sendo assassinado em m assa – respondeu ela. – Para aqueles que os franquistas não m atam , existe a Lei de Responsabilidade Política, que torna crim inoso qualquer um que tenha apoiado o governo. Mesm o quem apenas se opôs a Franco por um a “passividade circunspecta” pode perder todos os bens. Só é inocente quem conseguir provar que o apoiou.

Lloy d pensou com am argura na garantia que Cham berlain dera à Câm ara dos Com uns, em m arço, de que Franco havia cessado as represálias políticas. Que m entiroso cruel era Cham berlain.

– Muitos dos nossos cam aradas ainda estão detidos em terríveis cam pos de prisioneiros – continuou Teresa.

– Você tem algum a ideia do que aconteceu com m eu am igo, o sargento Lenny Griffiths?

Teresa fez que não com a cabeça.

– Nunca m ais o vi depois de Belchite.

– E você...?

– Fugi dos franquistas, vim para cá, arrum ei este em prego de garçonete... e descobri que havia outro trabalho que podia fazer.

– Qual?

– Estou aj udando soldados a fugir pelas m ontanhas. Foi por isso que os policiais trouxeram você até m im .

Lloy d ficou m ais anim ado. Vinha planej ando atravessar as m ontanhas sozinho, e não tinha certeza se encontraria o cam inho. Agora talvez fosse ter um a guia.

– Já tenho dois outros esperando – continuou ela. – Um artilheiro britânico e um piloto canadense. Estão num a fazenda nas m ontanhas.

– E quando pretendem fazer a travessia?

– Hoj e à noite – respondeu ela. – Não exagere no vinho.

Teresa saiu e voltou m eia hora m ais tarde, trazendo um sobretudo m arrom velho e rasgado para ele vestir.

– Faz frio no lugar aonde vam os – explicou.

Os dois saíram de fininho pela porta da cozinha e atravessaram a pequena cidade sob a luz do luar. Deixaram as casas para trás e com eçaram a seguir um a trilha de terra batida que subia a colina num aclive regular. Um a hora depois, chegaram a um pequeno grupo de construções de pedra. Teresa assobiou, depois abriu a porta de um celeiro, e dois hom ens saíram lá de dentro.

– Nós sem pre usam os nom es falsos – disse ela, em inglês. – O m eu é Maria, e estes são Fred e Tom . Nosso novo am igo se cham a Leandro. – Os hom ens se cum prim entaram com apertos de m ãos. – É proibido falar, é proibido fum ar, e quem ficar para trás será deixado – prosseguiu ela. – Todos prontos?

A partir dali, o cam inho ficou m ais íngrem e. Lloy d viu-se escorregando em pedras. De vez em quando, agarrava-se a algum arbusto de urze franzino ao lado da trilha e usava-o para facilitar a subida. A pequenina Teresa não dem orou a im por um ritm o que deixou os três hom ens ofegantes. Ela carregava um a lanterna, m as não quis usá-la enquanto as estrelas estivessem brilhando, dizendo que precisava poupar a pilha.

O ar esfriou. Eles atravessaram um riacho gelado, e depois disso os pés de Lloy d não voltaram m ais a se aquecer.

Um a hora m ais tarde, Teresa disse:

– Tenham o cuidado de se m anter no m eio da trilha neste trecho.

Lloy d olhou para baixo e percebeu que estava andando sobre um cum e entre duas encostas íngrem es. Ao ver de que altura poderia cair, ficou tonto, e im ediatam ente ergueu os olhos e fixou-os à frente, em Teresa, cuj a silhueta se m ovia depressa. Em circunstâncias norm ais, teria saboreado cada instante daquela cam inhada atrás de um corpo com o o dela, m as agora estava tão cansado que não tinha energia nem para devorá-la com os olhos.

As m ontanhas não eram totalm ente desabitadas. Em determ inado m om ento, um cão ladrou; em outro, ouviram um distante tilintar de sinetas que deixou os hom ens assustados, até Teresa lhes explicar que os pastores penduravam sinetas nas ovelhas para encontrar seus rebanhos.

Lloy d pensou em Daisy. Será que ela ainda estava em Tŷ Gwy n? Ou teria voltado para o m arido? Torceu para que ela não tivesse ido para Londres. Segundo os j ornais franceses, a capital britânica estava sendo bom bardeada todas as noites. Será que ela estava viva ou m orta? Será que algum dia tornaria a vê-la? E, se visse, o que ela sentiria por ele?

O grupo parava a cada duas horas para descansar, beber água e tom ar alguns goles de um a garrafa de vinho que Teresa trouxera.

Por volta do raiar do dia, com eçou a chover. Assim que ficou m olhada, a terra sob seus pés tornou-se traiçoeira e todos passaram a tropeçar e a escorregar, m as Teresa não dim inuiu o ritm o.

– Agradeçam por não estar nevando – disse ela.

A luz do dia revelou um a paisagem de vegetação esparsa, na qual as pedras despontavam com o lápides. Ainda chovia, e um a névoa fria escondia o horizonte.

Depois de algum tem po, Lloy d sentiu que estavam descendo.

– Já estam os na Espanha – anunciou Teresa na parada seguinte.

Lloy d deveria ficar aliviado, m as tudo o que conseguia sentir era exaustão.

Aos poucos, a paisagem foi ficando m ais suave, e as pedras deram lugar a capim grosso e arbustos.

De repente, Teresa se j ogou no chão e ficou deitada.

Os três hom ens a im itaram im ediatam ente, sem precisar de aviso. Lloy d acom panhou o olhar de Teresa e viu dois hom ens de uniform e verde e chapéus esquisitos: deviam ser guardas de fronteira espanhóis. Percebeu que estar na Espanha não significava ficar livre de apuros. Se fosse pego tentando entrar no país de form a ilegal, poderia sim plesm ente ser m andado de volta. Ou pior: poderia desaparecer num dos cam pos de prisioneiros de Franco.

Os guardas de fronteira seguiam por um a trilha na m ontanha que vinha na direção dos fugitivos. Lloy d se preparou para um confronto. Teria que agir depressa para dom iná-los antes que eles conseguissem sacar as arm as. Perguntou-se se os dois outros fugitivos seriam bons de briga.

Mas a sua ansiedade foi em vão. Os dois guardas chegaram a um lim ite não dem arcado e deram m eia-volta. Teresa agiu com o se soubesse que aquilo iria acontecer. Quando os guardas sum iram de vista, ela se levantou, e os quatro seguiram em frente.

Logo depois, a névoa se dissipou. Lloy d viu um a aldeia de pescadores situada ao redor de um a baía arenosa. Já estivera ali antes, em 1936, quando chegara à Espanha. Lem brava-se até de que a aldeia tinha um a estação de trem .

Entraram no povoado. Era um lugar m odorrento, sem sinal de presença oficial: não havia policiais, prefeitura, soldados nem postos de controle. Sem dúvida devia ser por isso que Teresa escolhera aquele lugar.

Foram até a estação e Teresa com prou as passagens, flertando com o vendedor com o se os dois fossem velhos am igos.

Lloy d foi se sentar num banco à som bra da plataform a, com os pés doloridos, exausto, agradecido e feliz.

Um a hora m ais tarde, pegaram um trem para Barcelona.