Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 15 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IV

Woody Dewar inspecionou o iate Sprinter com im paciência, para verificar se os m eninos tinham deixado tudo im pecável. Era um barco de corrida de 48 pés, com prido e fino com o um a faca. Dave Rouzrokh o havia alugado para os Shipm ates, um clube do qual Woody era sócio e que levava os filhos dos desem pregados de Buffalo para passear de barco no lago Erie e lhes ensinava os rudim entos da vela. Woody ficou satisfeito ao ver que os cabos de am arração e as defensas estavam no lugar, as velas am arradas, as adriças presas e todos os outros cabos cuidadosam ente enrolados.

Seu irm ão Chuck, de 14 anos – um a m enos do que ele –, j á estava no píer, conversando anim adam ente com um par de m eninos negros. Chuck tinha um tem peram ento descontraído que lhe perm itia se dar bem com todo m undo. Woody, que queria ser político com o o pai, invej ava aquele charm e natural do irm ão.

Os m eninos estavam apenas de short e sandálias, e os três ali no píer pareciam um retrato da força e da vitalidade j uvenis. Se tivesse trazido a câm era, Woody teria tirado um a foto. Gostava m uito de fotografar e havia m ontado em casa um laboratório de revelação e am pliação.

Convencido de que o Sprinter estava exatam ente do m esm o j eito que eles o haviam pegado naquela m anhã, Woody pulou para o píer. O grupo de m ais ou m enos dez m eninos saiu da m arina ao m esm o tem po, todos bronzeados e com os cabelos desarrum ados pelo vento, agradavelm ente doloridos por causa do exercício e rindo ao recordar os erros, tom bos e brincadeiras do dia.

O abism o entre os dois irm ãos ricos e o grupo de m eninos pobres tinha desaparecido quando eles estavam velej ando, fazendo um esforço conj unto para controlar o barco, m as ressurgiu ali, no estacionam ento do Iate Clube de Buffalo. Dois carros estavam estacionados lado a lado: o Chry sler Airflow do senador Dewar, com um m otorista uniform izado ao volante à espera de Woody e Chuck; e um a picape Roadster da Chevrolet com bancos de m adeira na caçam ba, à espera dos outros. Woody ficou constrangido ao se despedir enquanto o m otorista segurava a porta para ele, m as os outros m eninos não pareceram ligar, agradecendo e dizendo:

– Até sábado que vem !

Quando estavam subindo a Delaware Avenue, Woody falou:

– Foi divertido, m as não sei exatam ente para que serve.

O com entário deixou Chuck surpreso.

– Com o assim ?

– Bem , não estam os aj udando os pais deles a arrum ar em prego, e isso é a única coisa que im porta.

– Talvez saber velej ar aj ude os filhos a ter trabalho daqui a alguns anos. – Buffalo era um a cidade portuária. Em circunstâncias norm ais, havia m ilhares de em pregos em navios m ercantes que singravam os Grandes Lagos e o canal de Erie, bem com o em barcos de passeio.

– Se o presidente conseguir fazer a econom ia andar outra vez.

Chuck deu de om bros.

– Vá trabalhar para Roosevelt, então.

– Por que não? Papai trabalhou para Woodrow Wilson.

– Eu vou ficar com a vela m esm o.

Woody olhou para o relógio de pulso.

– Ainda tem os tem po de nos trocar para o baile... vai ser apertado, m as dá. – Os dois tinham um j antar dançante no Clube de Tênis. A expectativa fez o coração de Woody bater m ais depressa. – Quero estar na com panhia de gente de pele m acia, voz aguda e vestidos cor-de-rosa.

– Argh – m urm urou Chuck com desdém . – Joanne Rouzrokh nunca usou rosa na vida.

Woody ficou espantado. Vinha sonhando com Joanne o dia inteiro e m etade da noite j á havia algum as sem anas, m as com o seu irm ão sabia disso?

– Por que você acha que...

– Ah, por favor – disse Chuck, zom beteiro. – Quando ela chegou à festa na praia usando aquele saiote de tênis você quase teve um troço. Todo m undo reparou que está louco por ela. Felizm ente, ela não pareceu notar.

– Por que “felizm ente”?

– Pelo am or de Deus... você tem 15 anos e ela, 18. É constrangedor! Ela está procurando um m arido, não um m oleque.

– Puxa, obrigado. Tinha esquecido que você é um especialista em m ulheres.

Chuck corou. Ele nunca tivera um a nam orada.

– Não é preciso ser especialista para ver o que está bem debaixo do nosso nariz.

Os dois viviam conversando assim . Não era por m aldade: sim plesm ente eram de um a franqueza brutal um com o outro. Eram irm ãos; não havia necessidade de dizer as coisas só para agradar.

Chegaram em casa, um a m ansão que im itava o estilo gótico construída por seu avô, o senador Cam Dewar. Entraram correndo e foram tom ar banho e trocar de roupa.

Woody tinha a m esm a altura do pai e vestiu um dos ternos form ais antigos de Gus. Estava m eio gasto, m as tudo bem . Os rapazes m ais j ovens estariam todos de terno escolar ou blazer, m as os universitários usariam sm oking e Woody queria parecer m ais velho. Nessa noite iria dançar com ela, pensou enquanto passava brilhantina nos cabelos. Poderia segurá-la nos braços. As palm as de suas m ãos sentiriam o calor da pele dela. Ele a olharia nos olhos quando ela sorrisse. Os seios dela roçariam seu paletó durante a dança.

Quando ele desceu, seus pais estavam esperando na sala de estar. O pai tom ava um drinque, a m ãe fum ava um cigarro. Seu pai era alto e m agro, e o sm oking de abotoam ento duplo que estava usando fazia com que ele parecesse um cabide. Sua m ãe era linda, apesar de ter apenas um olho e de o outro se m anter perm anentem ente fechado – ela nascera assim . Nessa noite, estava deslum brante, com um vestido de renda preta sobre seda verm elha que ia até o chão e um bolero curto de veludo preto.

A avó de Woody foi a últim a a chegar. Aos 68 anos, era um a m ulher de boa postura, elegante, tão m agra quanto o filho, só que m ignon. Exam inou o vestido da m ãe de Woody e disse:

– Rosa, querida, você está m aravilhosa. – Ela era sem pre gentil com a nora. Com todos os outros, era um a m egera.

Gus preparou um drinque para a m ãe sem que ela precisasse pedir. Woody disfarçou a im paciência enquanto a avó bebia sem pressa. Ela não era um a pessoa que se pudesse apressar. Para ela, nenhum evento social com eçaria antes de sua chegada: ela era a grande dame da sociedade de Buffalo, viúva de um senador e m ãe de outro, m atriarca de um a das fam ílias m ais antigas e distintas da cidade.

Woody perguntou a si m esm o quando tinha se apaixonado por Joanne. Os dois se conheciam praticam ente desde que eram bebês, m as ele sem pre havia considerado as m eninas espectadoras sem graça das em ocionantes aventuras dos m eninos – até dois ou três anos antes, quando elas de repente se tornaram m ais fascinantes que carros e lanchas. Nessa época, ele se interessava por m eninas da sua idade ou um pouco m ais novas. Joanne, por sua vez, sem pre o tratara feito criança – um m enino inteligente, com quem valia a pena conversar de vez em quando, m as com certeza não um candidato a nam orado. Nesse verão, porém , por nenhum m otivo que conseguisse identificar, ele de repente com eçara a achá-la a garota m ais atraente do m undo. Infelizm ente, os sentim entos dela por ele não tinham sofrido a m esm a transform ação.

Não ainda.

– Com o anda a escola, Chuck? – perguntou a avó a seu irm ão.

– Um horror, vovó, com o a senhora sabe m uito bem . Eu sou o burro da fam ília, um retrocesso a nossos antepassados chim panzés.

– Que eu saiba, burros não usam expressões com o “nossos antepassados chim panzés”. Tem certeza de que a preguiça não tem nada a ver com isso?

– Os professores de Chuck dizem que ele se dedica bastante na escola, m ãe – interveio Rosa.

– E ele ganha de m im no xadrez – acrescentou Gus.

– Então qual é o problem a? – insistiu a avó. – Se continuar assim , ele não vai entrar para Harvard.

– Eu leio devagar, só isso – disse Chuck.

– Que curioso – com entou ela. – Meu sogro, seu bisavô paterno, foi o banqueiro m ais bem -sucedido da sua geração, m as m al sabia ler e escrever.

– Eu não sabia disso – falou Chuck.

– É verdade – confirm ou ela. – Mas não vá usar isso com o desculpa. Estude m ais.

Gus olhou para o relógio.

– Se estiver pronta, m ãe, é m elhor irm os andando.

Por fim , eles entraram no carro e foram para o clube. Gus tinha reservado um a m esa para o j antar e convidado os Renshaw e seus filhos, Dot e George. Woody olhou em volta, m as, para sua decepção, não viu Joanne. Verificou o m apa de assentos, exposto em um cavalete no saguão, e ficou consternado ao ver que não havia um a m esa para a fam ília Rouzrokh. Será que eles não vinham ? Isso iria estragar sua noite.

Enquanto a lagosta e o filé eram saboreados, a conversa girou em torno dos acontecim entos na Alem anha. Philip Renshaw achava que Hitler estava fazendo um bom trabalho. Mas o pai de Woody falou:

– Segundo o Sentinel de hoj e, eles prenderam um padre católico por criticar os nazistas.

– Você é católico? – perguntou o Sr. Renshaw, surpreso.

– Não, sou anglicano.

– Não é um a questão de religião, Philip – disse Rosa, seca. – É a liberdade que está em j ogo. – A m ãe de Woody fora anarquista na j uventude e, no fundo, ainda era um a libertária.

Algum as pessoas pularam o j antar e foram chegando m ais tarde para o baile, e novos convivas apareceram enquanto a sobrem esa era servida na m esa dos Dewar. Woody se m anteve atento para ver se encontrava Joanne. No salão anexo, um a banda com eçou a tocar “The Continental”, um sucesso do ano anterior.

Não sabia dizer o que em Joanne o deixava tão fascinado. A m aioria das pessoas não a acharia um a grande beldade, em bora sem dúvida fosse atraente. Parecia um a rainha asteca: m alares proem inentes e os m esm os olhos do pai, Dave. Seus cabelos eram escuros e cheios, e sua pele tinha um tom m oreno, sem dúvida por causa da ascendência persa. Havia nela um a intensidade contida que fazia Woody ansiar por conhecê-la m elhor, fazê-la relaxar e ouvi-la m urm urar baixinho coisas sem im portância. Sentia que sua atitude im ponente devia significar um a capacidade de se apaixonar profundam ente. Então pensou: e agora, quem é que está fingindo ser especialista em m ulheres?

– Procurando alguém , Woody ? – perguntou sua avó, que não deixava passar quase nada.

Chuck deu um a risadinha cúm plice.

– Só estava m e perguntando quem viria ao baile – respondeu Woody, casual, m as não conseguiu evitar que suas faces corassem .

Ainda não a tinha visto quando sua m ãe se levantou e todos saíram da m esa. Desconsolado, entrou no salão de baile enquanto a banda tocava “Moonglow”, de Benny Goodm an. Então deu de cara com Joanne: ela devia ter entrado quando ele estava distraído. Ficou m ais anim ado.

Ela usava um vestido de seda cinza-prateado cuj o m odelo, sim ples m as elegante, tinha um decote em V profundo que realçava suas curvas. Já havia ficado sensacional com o saiote de tênis que deixava à m ostra suas pernas com pridas e m orenas, m as aquilo era ainda m ais excitante. Enquanto ela deslizava pelo salão, graciosa e segura, Woody sentiu a garganta seca.

Ele avançou na direção dela, m as o salão agora estava cheio e, de repente, para sua irritação, descobriu-se m uito popular: todos queriam falar com ele. Enquanto abria cam inho pela m ultidão, ficou surpreso ao ver o sem graça Charlie Farquharson dançando com a espevitada Daisy Peshkov. Não conseguia se lem brar de ter visto Charlie dançar com m ais ninguém , m uito m enos um a belezinha feito Daisy . O que ela teria feito para tirá-lo da concha?

Quando conseguiu chegar até Joanne, ela j á se encontrava na extrem idade do salão, no canto m ais distante da banda, e, para desgosto de Woody, estava m uito entretida num a conversa com um grupo de rapazes uns quatro ou cinco anos m ais velhos do que ele. Por sorte, Woody era m ais alto do que a m aioria dos outros e a diferença de idade não ficou tão evidente. Todos seguravam copos de Coca-Cola, m as Woody sentiu cheiro de uísque: um dos rapazes devia estar com um a garrafinha no bolso.

Quando se j untou a eles, ouviu Victor Dixon dizer:

– Ninguém é a favor de lincham entos, m as é preciso entender os problem as que eles têm lá no Sul.

Woody sabia que o senador Wagner tinha proposto um a lei para punir os xerifes que perm itissem lincham entos – m as o presidente Wilson se recusara a apoiar o proj eto.

Joanne estava indignada:

– Com o você pode dizer um a coisa dessas, Victor? Lincham ento é assassinato! Nós não precisam os entender os problem as deles, o que precisam os fazer é im pedir que pessoas sej am m ortas!

Woody ficou satisfeito em saber que Joanne com partilhava de seus valores políticos. No entanto, aquele claram ente não era um bom m om ento para convidá-la para dançar. O que era um a pena.

– Joanne, querida, você não está entendendo – disse Victor. – Aqueles negros lá do Sul não são civilizados.

Eu posso ser j ovem e inexperiente, pensou Woody, m as nunca com eteria o erro de falar com Joanne de form a tão condescendente.

– Não civilizado é quem com ete esses lincham entos, isso sim ! – exclam ou ela.

Woody decidiu que aquele era o m elhor m om ento para dar sua contribuição ao debate.

– Joanne tem razão – falou. Forçou a voz a ficar m ais grave, a fim de parecer m ais velho. – Houve um lincham ento na cidade dos nossos criados, Joe e Betty, que cuidam de m im e do m eu irm ão desde que éram os bebês. O prim o de Betty foi despido e queim ado com um m açarico enquanto um a m ultidão assistia. Depois foi enforcado. – Victor o encarou com ódio, ressentido por aquele pirralho estar roubando a atenção de Joanne. O restante do grupo, porém , o escutava com um a atenção horrorizada. – Pouco m e im porta qual foi o crim e dele – disse Woody. – Os brancos que fizeram isso são uns selvagens.

– Mas o seu am ado presidente Roosevelt não apoiou o proj eto de lei contra os lincham entos, não foi? – indagou Victor.

– Não, e foi um a grande decepção – adm itiu Woody. – Mas sei por que ele tom ou essa decisão: teve m edo de que os congressistas do Sul se zangassem e retaliassem boicotando o New Deal. De toda form a, eu gostaria que ele tivesse m andado todos eles para o inferno.

– O que você sabe sobre essas coisas? Você é só um garoto – provocou Victor. Ele sacou do bolso do paletó um a garrafinha e com pletou o próprio copo.

– As ideias políticas de Woody são m ais m aduras que as suas, Victor – disse Joanne.

O elogio deixou Woody radiante.

– A política é m eio que o ram o da m inha fam ília – falou.

Então foi im portunado por um puxão em seu cotovelo. Educado dem ais para ignorar o cham ado, virou-se e deu de cara com Charlie Farquharson, suando por causa das evoluções no salão.

– Posso conversar com você um instante? – pediu Charlie.

Woody resistiu à tentação de m andá-lo dar o fora. Charlie era um rapaz sim pático, que nunca fazia m al a ninguém . Ter um a m ãe com o a dele era de dar dó em qualquer um .

– Pois não, Charlie? – perguntou, com o m áxim o de solicitude que conseguiu expressar.

– É sobre Daisy .

– Vi você dançando com ela.

– Ela não é ótim a dançarina?

Woody não havia reparado, m as, para ser agradável, falou:

– Sim , é ótim a, m esm o!

– Ela é ótim a em tudo.

– Charlie, você e Daisy estão flertando? – indagou Woody, tentando reprim ir a incredulidade na voz.

Charlie pareceu encabulado.

– Fom os cavalgar no parque algum as vezes, essas coisas.

– Então estão flertando! – Woody estava surpreso. Aquele lhe parecia um casal im provável. Charlie era grandalhão e desengonçado, e Daisy tão m iúda e delicada.

– Ela não é igual às outras garotas – disse Charlie. – É tão fácil conversar com ela! E ela am a cachorros e cavalos. Mas as pessoas acham que o pai dela é um gângster.

– Acho que ele é m esm o um gângster, Charlie. Todo m undo com prava bebida dele durante a Lei Seca.

– É o que a m inha m ãe diz.

– Então ela não gosta de Daisy . – Woody não estranhou isso.

– Ela não tem nada contra Daisy . O problem a é com a fam ília dela.

Um a ideia ainda m ais surpreendente ocorreu a Woody .

– Você está pensando em se casar com Daisy ?

– Ah, por Deus, estou sim – respondeu Charlie. – E acho que, se eu pedisse, ela aceitaria.

Ora, ora, pensou Woody, Charlie tinha classe m as não tinha dinheiro, e Daisy era o contrário; talvez, no final das contas, os dois se com pletassem .

– Coisas m ais estranhas j á aconteceram neste m undo – disse ele. Aquilo era fascinante, m as ele queria se concentrar em sua própria vida afetiva. Olhou em volta para ver se Joanne ainda estava por perto. – Por que está m e contando isso? – perguntou a Charlie. Os dois não eram exatam ente grandes am igos.

– Minha m ãe talvez m ude de ideia se a Sra. Peshkov for convidada a entrar para a Sociedade de Senhoras de Buffalo.

Por essa Woody não esperava.

– Mas esse é o clube m ais esnobe da cidade!

– Justam ente. Se Olga Peshkov fosse sócia, com o m inha m ãe poderia se opor a Daisy ?

Woody não sabia se o plano iria funcionar ou não, m as não havia a m enor dúvida quanto à sinceridade e ao arrebatam ento de Charlie.

– Talvez você tenha razão – disse Woody .

– Você falaria com sua avó por m im ?

– Caram ba! Espere aí um instante. Vovó Dewar é um verdadeiro dragão. Eu não lhe pediria um favor nem para m im m esm o, que dirá para você.

– Woody, escute. Você sabe que quem m anda lá é ela. Se ela quiser alguém na sociedade, a pessoa será aceita... se não quiser, a pessoa estará fora.

Era verdade. A Sociedade tinha um a presidente, um a secretária e um a tesoureira, m as era Ursula Dewar quem m andava e desm andava no clube, com o se ele lhe pertencesse. Mesm o assim , Woody relutava em falar com a avó. Ela seria capaz de arrancar sua cabeça.

– Não sei, não – falou, em tom de quem se desculpa.

– Ah, Woody, por favor. Você não entende. – Charlie baixou a voz. – Não entende o que é am ar alguém tanto assim .

Entendo sim , pensou Woody, e isso o fez m udar de ideia. Se Charlie está se sentindo tão m al quanto eu, com o posso recusar o seu pedido? Espero que algum a outra pessoa faça o m esm o por m im , se isso significar um a chance com Joanne.

– Tudo bem , Charlie – cedeu. – Vou falar com ela.

– Obrigado! Me diga um a coisa... ela está aqui, não está? Será que você poderia falar hoj e?

– Meu Deus, hoj e não. Estou com outras coisas na cabeça.

– Claro, está bem ... m as então quando?

Woody deu de om bros.

– Am anhã eu falo.

– Você é dem ais!

– Não m e agradeça ainda. Ela provavelm ente vai dizer não.

Woody tornou a se virar para falar com Joanne, m as ela havia desaparecido.

Com eçou a procurá-la, em seguida se controlou. Não podia se m ostrar desesperado. Sabia que as m ulheres não se interessavam por hom ens carentes.

Cortês, dançou com várias m oças: Dot Renshaw, Daisy Peshkov e Eva, a am iga alem ã de Daisy . Pegou um a Coca-Cola e foi até o lado de fora, onde alguns dos rapazes fum avam . George Renshaw pôs um pouco de uísque na Coca de Woody, o que m elhorou o gosto, m as ele não queria ficar bêbado. Já fizera isso antes e não gostara m uito.

Woody achava que Joanne fosse querer um hom em que com partilhasse seus interesses intelectuais – e isso tirava Victor Dixon do páreo. Já a ouvira m encionar Karl Marx e Sigm und Freud. Na Biblioteca Pública, lera o Manifesto comunista, m as o texto lhe parecera apenas um a lenga-lenga politizada. Gostara m ais dos Estudos sobre a histeria, de Freud, que transform avam a doença m ental em um a espécie de história de detetive. Ansiava por contar a Joanne, de um j eito casual, que tinha lido esses livros.

Estava decidido a dançar com ela pelo m enos um a vez nessa noite e, depois de algum tem po, partiu à sua procura. Ela não estava no salão nem no bar. Será que ele perdera sua chance? Ao tentar não m ostrar desespero, teria sido passivo dem ais? Era insuportável pensar que o baile talvez term inasse sem que ele sequer tivesse tocado o om bro dela.

Tornou a sair. Apesar de estar escuro, viu-a quase im ediatam ente. Ela estava se afastando de Greg Peshkov com as faces levem ente coradas, com o se tivesse acabado de discutir com ele.

– Você talvez sej a o único aqui que não é um a droga de um conservador – disse ela a Woody . Sua voz soava um pouco em briagada.

Woody sorriu.

– Obrigado pelo elogio... eu acho.

– Está sabendo da passeata am anhã? – perguntou ela sem rodeios.

Ele sabia. Os grevistas da Metalúrgica de Buffalo estavam organizando um a passeata em protesto contra o espancam ento dos sindicalistas de Nova York. Woody im aginava que esse tivesse sido o tem a da desavença de Joanne com Greg: o pai dele era dono da fábrica.

– Pretendo ir – falou. – Talvez tire um as fotos.

– Que Deus o abençoe – disse ela, e então lhe deu um beij o.

Ele ficou tão espantado que quase não conseguiu reagir. Durante um segundo, ficou parado, sem fazer nada, enquanto ela pressionava a boca na dele, e sentiu gosto de uísque em seus lábios.

Mas então recuperou o controle. Envolveu-a com os braços e apertou o corpo dela contra o seu, sentindo o delicioso contato de seus seios e suas coxas. Teve um pouco de m edo de ela se ofender, em purrá-lo para longe e acusá-lo de estar lhe faltando com o respeito; m as um instinto m ais profundo lhe disse que estava pisando em terreno seguro.

Woody não era m uito experiente em beij ar garotas – e nunca beij ara m ulheres m aduras de 18 anos –, m as gostou tanto da textura m acia da boca de Joanne que com eçou a roçar seus lábios nos dela, dando leves m ordidinhas que lhe proporcionaram um prazer indizível, e foi recom pensado ao ouvi-la gem er de leve.