Inverno do Mundo
Capítulo V
– Detesto esses cam isas-pardas filhos da puta – disse Werner para Volody a. – Acho que talvez m e j unte a vocês, com unistas.
Volody a o encarou de m odo severo com seus intensos olhos azuis e falou, em voz baixa:
– Se quiser m esm o com bater os nazistas, talvez haj a algo m ais eficaz que possa fazer.
Lloy d ficou se perguntando o que Volody a queria dizer.
Nessa hora, Maud e Ethel entraram correndo no auditório, falando ao m esm o tem po, chorando e rindo aliviadas. Então Lloy d esqueceu as palavras de Volody a e não tornou a pensar no assunto.
V
Quatro dias depois, Erik von Ulrich chegou em casa vestido com o uniform e da Juventude Hitlerista.
Sentia-se um príncipe.
Estava com um a cam isa parda igual à das tropas de assalto, com vários escudos e um a braçadeira com a suástica. Usava tam bém a gravata e o short pretos que com pletavam o uniform e. Era um soldado patriota dedicado a servir ao seu país. Finalm ente havia entrado para a turm a.
Aquilo era ainda m elhor do que torcer pelo Hertha, o tim e de futebol m ais popular entre os berlinenses. Em alguns sábados, quando não tinha nenhum a reunião política, o pai de Erik o levava aos j ogos. Aquilo lhe dava a sensação de pertencer a um a grande torcida, um a m ultidão de pessoas sentindo a m esm a em oção.
Mas o Hertha às vezes perdia e o m enino voltava para casa inconsolável.
Os nazistas eram vencedores.
Ele estava apavorado com o que o pai iria dizer.
Seus pais o irritavam com aquela insistência em andar fora da linha. Todos os outros m eninos estavam entrando para a Juventude Hitlerista. Praticavam esportes, entoavam canções e viviam aventuras nos cam pos e florestas dos arredores da cidade. Eram inteligentes, atléticos, leais e eficientes.
Pensar que um dia talvez precisasse lutar num a batalha – assim com o o pai e o avô haviam feito – deixava Erik profundam ente preocupado, e ele queria estar pronto para isso, treinado e aguerrido, disciplinado e agressivo.
Os nazistas odiavam os com unistas, de quem seus pais tam bém não gostavam . E daí que os nazistas odiavam os j udeus? Os Von Ulrich não eram j udeus. Por que deveriam se preocupar com isso? Mas seus pais se recusavam a entrar para o partido. Bom , Erik não aguentava m ais ficar de fora e decidira enfrentá-los.
Estava apavorado.
Com o de hábito, nem a m ãe nem o pai estavam em casa quando ele e Carla chegaram da escola. Ao servir-lhes o chá, Ada franziu os lábios com ar de reprovação, m as disse apenas:
– Hoj e vocês vão ter que tirar a m esa sozinhos... estou com um a dor horrível nas costas. Vou m e deitar.
– Por isso você foi ao m édico? – perguntou Carla, com ar de preocupação.
Ada hesitou antes de responder:
– Sim , foi por isso m esm o.
Era óbvio que ela estava escondendo algum a coisa. A ideia de Ada estar doente – e m entir sobre isso – deixou Erik perturbado. Ele nunca chegaria tão longe quanto Carla a ponto de dizer que am ava Ada, m as a criada tinha sido um a presença agradável durante toda a sua vida e ele nutria m ais afeto por ela do que gostava de adm itir.
Carla, que estava tão apreensiva quanto o irm ão, falou:
– Espero que você m elhore.
Ultim am ente, para espanto do irm ão, Carla havia ficado m ais m adura. Em bora fosse dois anos m ais velho, ele ainda se sentia um garoto, m as a irm ã agia com o adulta durante a m aior parte do tem po.
– Vou ficar boa depois que descansar – disse Ada num tom reconfortante.
Erik m ordeu um pedaço de pão. Quando Ada saiu da sala, ele engoliu e disse:
– Estou só na divisão j uvenil, m as assim que fizer 14 anos posso subir de grupo.
– Você está louco? Papai vai ficar um a fera! – disse Carla.
– Herr Lippm ann disse que papai vai se encrencar se m e obrigar a sair.
– Ah, que ótim o! – Carla havia desenvolvido um tipo de sarcasm o cruel que às vezes deixava Erik m ordido. – Quer dizer que você vai fazer papai brigar com os nazistas? – perguntou com desdém . – Que ideia m aravilhosa! Vai ser ótim o para a fam ília toda.
Erik ficou espantado. Não tinha pensado no assunto por esse ângulo.
– Mas todos os m eninos da m inha turm a entraram – retrucou, indignado. – Menos o francesinho Fontaine e Rothm ann, aquele j udeu.
Carla espalhou patê de peixe sobre o pão.
– Por que você tem que ser igual aos outros? – indagou a irm ã. – A m aioria desses m eninos é burra. Você m e disse que Rudi Rothm ann era o m ais inteligente da turm a.
– Eu não quero ficar com o francesinho e com Rudi! – esbravej ou Erik e, para sua própria consternação, sentiu lágrim as lhe subirem aos olhos. – Por que eu deveria ser obrigado a andar com os garotos de que ninguém gosta? – Fora isso que lhe dera coragem de desafiar o pai: ele não aguentava m ais sair da escola com os j udeus e estrangeiros enquanto os m eninos alem ães m archavam pelo pátio de uniform e.
Am bos escutaram um grito.
– O que foi isso? – perguntou Erik, olhando para Carla.
Ela franziu o cenho.
– Acho que foi Ada.
Então ouviram com m ais clareza alguém cham ar:
– Socorro!
Erik se levantou, m as Carla j á havia tom ado a frente. Ele seguiu a irm ã. O quarto de Ada ficava no porão. Eles desceram a escada correndo e entraram no côm odo exíguo.
Havia um a cam a de solteiro estreita encostada na parede. Ada estava deitada ali, com o rosto contorcido de dor. Tinha a saia m olhada e havia um a poça no chão. Erik m al pôde acreditar no que estava vendo. Ada tinha feito xixi na calça? Que coisa m ais assustadora. Não havia outro adulto em casa. Ele não soube o que fazer.
Carla tam bém ficou assustada – Erik viu isso na sua expressão –, m as não entrou em pânico.
– Ada, o que houve? – perguntou ela. Sua voz soou estranham ente calm a.
– Minha bolsa estourou – respondeu Ada.
Erik não fazia a m enor ideia do que isso significava.
Nem Carla.
– Não estou entendendo – disse a m enina.
– O bebê vai nascer.
– Você está grávida? – perguntou Carla, atônita.
– Mas você não é casada! – falou Erik.
– Cale a boca, Erik... será que você não entende nada? – retrucou Carla, furiosa.
É claro que ele sabia que as m ulheres podiam ter bebês m esm o não sendo casadas – m as não Ada!
– Então é por isso que você foi ao m édico na sem ana passada – disse Carla à criada.
Ada assentiu com a cabeça.
Erik estava tentando se acostum ar com aquela ideia.
– Você acha que m am ãe e papai sabem ? – perguntou.
– É claro que eles sabem . Só não nos contaram . Vá pegar um a toalha – ordenou Carla.
– Onde?
– No arm ário j unto ao topo da escada.
– Um a toalha lim pa?
– É claro!
Erik subiu a escada correndo, pegou um a pequena toalha branca no arm ário e tornou a descer às pressas.
– Não vai adiantar m uito – disse Carla, m as m esm o assim pegou a toalha e secou as pernas de Ada.
– O bebê vai nascer logo, estou sentindo – falou Ada. – Mas não sei o que fazer. – Ela com eçou a chorar.
Erik observava a irm ã. Carla agora estava no com ando. Não im portava que ele fosse o m ais velho: era na irm ã que buscava liderança. A m enina estava se m ostrando prática e m antendo a calm a, m as ele sabia que estava aterrorizada e que seu equilíbrio era frágil. Ela poderia desm oronar a qualquer m om ento, pensou.
Carla tornou a se virar para Erik:
– Vá cham ar o Dr. Rothm ann – falou. – Você sabe onde fica o consultório dele.
Erik ficou m uito aliviado por receber um a tarefa que era capaz de cum prir. Então pensou que poderia haver um contratem po.
– E se ele tiver saído?
– Então pergunte a Frau Rothm ann o que fazer, seu idiota! – disse Carla. – Vá logo... rápido!
Erik ficou feliz por sair do quarto. O que estava acontecendo lá dentro era m isterioso e assustador. Ele subiu os degraus de três em três e saiu correndo pela porta da frente. Correr pelo m enos era um a coisa que sabia fazer.
O consultório do m édico ficava a m enos de um quilôm etro de distância. Ele dim inuiu o ritm o para um trote rápido. Enquanto corria, pensava em Ada. Quem seria o pai do bebê? Lem brou-se de que ela tinha ido ao cinem a com Paul Huber algum as vezes no verão passado. Será que eles haviam tido relações sexuais? Provavelm ente! Erik e os am igos falavam m uito sobre sexo, m as na verdade não sabiam nada a respeito. Onde será que Ada e Paul tinham feito aquilo? Não podia ter sido no cinem a, é claro! Não era preciso estar deitado? Ele não conseguia entender.
O Dr. Rothm ann m orava num a rua m ais pobre. Erik ouvira a m ãe dizer que ele era um bom m édico, que tratava m uita gente da classe operária que não podia pagar preços altos. A casa do m édico tinha um consultório e um a sala de espera no térreo, e a fam ília m orava no andar de cim a.
Do lado de fora estava estacionado um Opel 4 verde, um carrinho feio de dois lugares que ganhara o apelido debochado de sapinho.
A porta da frente da casa estava destrancada. Erik entrou, ofegante, e chegou à sala de espera. Havia um velho tossindo em um canto e um a j ovem com um bebê no colo.
– Olá! – disse Erik. – O Dr. Rothm ann?
A esposa do m édico saiu do consultório. Hannelore Rothm ann era um a m ulher alta e loura, de traços m arcantes. Ela fuzilou Erik com o olhar.
– Com o se atreve a entrar nesta casa com esse uniform e? – perguntou ela.
Erik ficou petrificado. Frau Rothm ann não era j udia, m as seu m arido, sim : de tão aflito, Erik se esquecera disso.
– Nossa criada está tendo um bebê! – falou.
– Então vocês querem aj uda de um m édico j udeu?
Erik foi pego totalm ente de surpresa. Nunca lhe ocorrera que os ataques dos nazistas pudessem provocar retaliações dos j udeus. De repente, porém , viu que a atitude de Frau Rothm ann fazia todo o sentido. Os cam isas-pardas andavam por aí gritando: “Morte aos j udeus!” Por que um m édico j udeu deveria aj udar pessoas assim ?
Agora ele não sabia o que fazer. Havia outros m édicos, é claro, vários deles, m as Erik não sabia onde, nem se iriam se deslocar para aj udar um a desconhecida.
– Minha irm ã m e m andou vir aqui – disse ele, com voz débil.
– Carla tem m uito m ais j uízo que você.
– Ada disse que a bolsa estourou. – Erik não sabia ao certo o que isso significava, m as parecia im portante.
Com um a expressão de noj o, Frau Rothm ann tornou a entrar no consultório.
O velho que estava no canto com eçou a resm ungar:
– Som os todos uns j udeus im undos até o dia em que vocês precisam da nossa aj uda! Aí é: “Por favor, Dr. Rothm ann, venha nos aj udar”, “Qual é a sua opinião de advogado, Dr. Koch?”, “Em preste-m e 100 m arcos, Herr Goldm an” ou então... – Ele foi acom etido por um acesso de tosse.
Um a m enina de cerca de 15 anos surgiu do corredor. Erik im aginou que fosse a filha dos Rothm ann, Eva. Fazia anos que não a via. Ela agora tinha seios, m as continuava feia e gorducha.
– Seu pai deixou você entrar para a Juventude Hitlerista? – perguntou ela.
– Ele não sabe – respondeu Erik.
– Caram ba, m enino – com entou Eva. – Você está m esm o encrencado.
Ele tirou os olhos dela e os pousou na porta do consultório.
– Acha que o seu pai vai vir? – perguntou. – Sua m ãe ficou m uito zangada com igo.
– É claro que ele vai – respondeu Eva. – Quando as pessoas estão doentes, ele as aj uda. – Sua voz assum iu um tom de desdém . – Não verifica prim eiro sua raça nem sua filiação política. Nós não som os nazistas. – Ela tornou a sair.
Erik estava pasm o. Não im aginava que seu uniform e fosse lhe causar tantos problem as. Na escola, todos achavam aquele uniform e um a m aravilha.
Instantes depois, o Dr. Rothm ann apareceu e falou aos dois pacientes que aguardavam :
– Voltarei assim que puder. Desculpem , m as um bebê não espera para nascer. – Então olhou para Erik. – Vam os, rapaz. É m elhor vir no carro com igo, apesar desse uniform e.
Erik o seguiu para fora da casa e se acom odou no banco do carona do Opel verde. Adorava carros e não via a hora de ter idade suficiente para dirigir. Norm alm ente, gostava de andar em qualquer veículo, observar os m ostradores e estudar a técnica do m otorista. Mas nesse dia teve a sensação de que estava exposto, sentado com sua cam isa parda ao lado de um m édico j udeu. E se Herr Lippm ann o visse? A viagem foi um a agonia.
Felizm ente, foi rápida: em poucos m inutos eles chegaram à casa dos Von Ulrich.
– Qual é o nom e da m oça? – quis saber Rothm ann.
– Ada Hem pel.
– Ah, sim , ela foi ao m eu consultório na sem ana passada. O bebê está adiantado. Muito bem , leve-m e até ela.
Erik entrou na frente. Ouviu um choro de criança. O bebê j á havia nascido! Desceu correndo até o porão, com o m édico atrás dele.
Ada estava deitada de costas. A cam a encontrava-se ensopada de sangue e algum a outra coisa. Carla segurava no colo um bebê m uito pequeno, coberto de sebo. Um a coisa parecida com um barbante grosso saía do bebê e subia por dentro da saia de Ada. Carla tinha os olhos arregalados de pavor.
– O que devo fazer? – perguntou ela.
– Você está fazendo exatam ente a coisa certa – garantiu-lhe o Dr. Rothm ann. – Apenas segure o bebê por m ais um instantinho. – Ele se sentou j unto a Ada, auscultou seu coração e depois tom ou seu pulso. – Com o está se sentindo, querida?
– Muito cansada – respondeu ela.
O Dr. Rothm ann aquiesceu, satisfeito. Tornou a se levantar e olhou para o bebê no colo de Carla.
– Um m enininho – falou.
Com um m isto de fascínio e repulsa, Erik ficou olhando o m édico abrir a m aleta, pegar um barbante e am arrá-lo no cordão um bilical, dando dois nós. Enquanto fazia isso, falou com Carla em voz baixa:
– Por que está chorando? Você fez um trabalho incrível! Fez o parto de um bebê sozinha. Quase não precisou de m im ! Acho bom você virar m édica quando crescer.
Carla ficou m ais calm a. Então sussurrou:
– Olhe a cabecinha dele. – O m édico teve que se inclinar na sua direção para ouvi-la. – Acho que tem algo errado com ele.
– Eu sei. – O m édico pegou um a tesoura afiada e cortou o cordão entre os dois nós. Depois pegou o bebê do colo de Carla e o segurou com o braço esticado, exam inando-o. Erik não conseguiu ver nada de errado, m as o bebê estava tão verm elho, enrugado e ensebado que era difícil de dizer. Depois de pensar por alguns instantes, porém , o m édico tornou a falar: – Ai, m eu Deus!