Inverno do Mundo
Capítulo V
Teve a vaga consciência de que, se algum a pessoa m ais velha passasse por ali, acharia aquela cena constrangedora, m as estava excitado dem ais para se im portar com isso.
A boca de Joanne se abriu e ele sentiu o contato de sua língua. Aquilo era novidade: as poucas m eninas que ele havia beij ado nunca fizeram isso. Mas im aginou que ela soubesse o que estava fazendo e gostou m uito. Im itou os m ovim entos da língua dela com a sua. Aquilo era extrem am ente íntim o e m uito excitante. Deve ter sido a coisa certa a fazer, porque ela deu outro gem ido.
Juntando toda a coragem que tinha, Woody levou a m ão direita ao seio de Joanne, que lhe pareceu deliciosam ente m acio e pesado sob a seda do vestido. Ao acariciá-lo, sentiu um a pequena protuberância e pensou, com um arrepio de prazer, que devia ser o m am ilo dela. Esfregou-o com o polegar.
Ela se afastou dele abruptam ente.
– Meu Deus! – exclam ou. – O que estou fazendo?
– Me beij ando – disse Woody, todo feliz. Pousou as m ãos nos quadris arredondados de Joanne. Podia sentir o calor de sua pele através do vestido de seda. – Vam os fazer m ais um pouco disso.
Ela afastou as m ãos dele.
– Eu devo estar fora de m im . Pelo am or de Deus, isto aqui é o Clube de Tênis!
Woody percebeu que o feitiço havia se quebrado e, infelizm ente, não haveria m ais beij os nessa noite. Olhou em volta.
– Não se preocupe – falou. – Ninguém viu. – Teve a agradável sensação de ser um conspirador.
– É m elhor eu ir para casa antes que com eta um a burrice ainda m aior.
Ele tentou não se ofender:
– Posso acom panhá-la até seu carro?
– Está louco? Se entrarm os j untos no salão, todo m undo vai adivinhar o que estávam os fazendo... principalm ente com esse sorrisinho idiota na sua cara.
Woody tentou parar de sorrir.
– Então por que você não entra e eu espero aqui um m inuto?
– Boa ideia. – Ela se afastou.
– Até am anhã – disse ele para suas costas.
Joanne não olhou para trás.
V
Ursula Dewar tinha um a ala de côm odos só para ela na velha m ansão vitoriana da Delaware Avenue. Havia um quarto de dorm ir, um banheiro e um quarto de vestir e, depois da m orte do m arido, ela transform ara o quarto de vestir dele num a saleta. Na m aior parte do tem po, tinha a casa inteira só para si: Gus e Rosa passavam m uito tem po em Washington, e Woody e Chuck estudavam num colégio interno. No entanto, quando eles estavam todos em casa, ela passava boa parte do dia em seus aposentos.
Woody foi falar com a avó no dom ingo de m anhã. Ainda estava nas nuvens por causa do beij o de Joanne, em bora tivesse passado m etade da noite tentando entender o que ele significava. Poderia ser qualquer coisa, de am or verdadeiro a um sim ples pileque. Tudo o que sabia era que m al podia esperar para vê-la de novo.
Entrou no quarto da avó atrás da criada, Betty, que foi levar a bandej a do café da m anhã. Agradava-lhe o fato de Joanne ter se zangado com a form a com o o prim o sulista de Betty tinha sido tratado. Na sua opinião, a argum entação ponderada era supervalorizada no m eio político. As pessoas deveriam se zangar com a crueldade e a inj ustiça.
Sua avó j á estava sentada na cam a, usando um xale de renda por cim a de um a cam isola de seda bege.
– Bom dia, Woodrow! – falou, espantada.
– Queria tom ar um café com a senhora, vovó, se for possível. – Ele j á tinha pedido a Betty que levasse duas xícaras.
– Será um a honra – respondeu Ursula.
Betty era um a m ulher grisalha de 50 e poucos anos, com o tipo de estrutura física que alguns cham avam de generosa. Pousou a bandej a na frente de Ursula, e Woody serviu café em duas xícaras de porcelana Meissen.
Tinha pensado um pouco no que dizer, preparando seus argum entos. A Lei Seca não existia m ais e Lev Peshkov era agora um hom em de negócios dentro da lei. Além do m ais, não era j usto punir Daisy por seu pai ter sido um crim inoso – sobretudo se a m aioria das fam ílias respeitáveis de Buffalo tinha com prado sua bebida ilegal.
– A senhora conhece Charlie Farquharson? – com eçou.
– Conheço.
É claro que sim . Ela conhecia todas as fam ílias da alta sociedade de Buffalo.
– Quer um pedaço de torrada? – ofereceu ela.
– Não, obrigado, j á com i.
– Rapazes da sua idade nunca com em o suficiente. – Ela olhou para ele com um a expressão sagaz. – A m enos que estej am apaixonados.
Sua avó estava afiadíssim a nessa m anhã.
– A m ãe de Charlie o m antém sob rédeas curtas – disse Woody .
– Ela tratava o m arido assim tam bém – retrucou Ursula, seca. – Morrer foi a única form a que ele encontrou de se libertar. – Ela bebeu um gole de café e com eçou a com er sua grapefruit com um garfo.
– Charlie veio falar com igo ontem à noite e perguntou se eu podia pedir um favor à senhora.
Ela arqueou um a das sobrancelhas, m as não disse nada.
Woody tom ou fôlego antes de falar.
– Ele gostaria que a senhora convidasse a Sra. Peshkov para fazer parte da Sociedade das Senhoras de Buffalo.
Ursula deixou cair o garfo e um tilintar de prata sobre porcelana fina ecoou pelo quarto. Com o para esconder o espanto, ela pediu:
– Sirva-m e m ais um pouco de café, Woody , por favor.
Ele obedeceu, sem dizer nada. Não se lem brava de ter visto a avó desconcertada antes.
Ela tom ou um gole de café e perguntou:
– Por que Charles Farquharson, ou qualquer outra pessoa, iria querer Olga Peshkov na Sociedade?
– Ele quer se casar com Daisy .
– Ah, é?
– E está com m edo de que a m ãe se oponha.
– Nisso ele tem razão.
– Mas acha que talvez consiga convencê-la...
– Se eu aceitar Olga na Sociedade.
– Assim talvez as pessoas esqueçam que o pai dela foi gângster.
– Gângster?
– Bem , contrabandista de bebidas, no m ínim o.
– Ah, isso – disse Ursula, sem dar im portância. – Não é esse o m otivo.
– Ah, não? – Foi a vez de Woody ficar surpreso. – Qual é o m otivo, então?
Ursula pareceu pensativa. Passou tanto tem po em silêncio que Woody se perguntou se ela teria esquecido que ele estava ali. Então sua avó disse:
– Seu pai foi apaixonado por Olga Peshkov.
– Jesus!
– Não diga o nom e do Senhor em vão.
– Desculpe, vovó. É que a senhora m e surpreendeu.
– Eles foram noivos.
– Noivos? – repetiu Woody, pasm o. Pensou por um m inuto e depois disse: – Acho que devo ser a única pessoa de Buffalo que não sabia dessa história.
Ela sorriu para o neto.
– Existe um a m istura toda especial de sabedoria e inocência que só os adolescentes têm . Lem bro-m e perfeitam ente disso no seu pai, e vej o a m esm a coisa em você. Sim , todo m undo em Buffalo sabe, em bora a sua geração sem dúvida considere essa um a história antiga e sem graça.
– Bem , m as o que aconteceu? – indagou Woody . – Quer dizer, quem rom peu o noivado?
– Ela, quando engravidou.
A boca de Woody se escancarou.
– Do papai?
– Não, do m otorista dela... Lev Peshkov.
– Ele era m otorista dela? – Era um choque atrás do outro. Woody ficou calado, tentando assim ilar aquilo tudo. – Caram ba, papai deve ter se sentido um idiota.
– Seu pai nunca foi idiota – disse Ursula, incisiva. – A única coisa idiota que ele fez na vida foi pedir Olga em casam ento.
Woody se lem brou de sua m issão.
– Mesm o assim , vovó, tudo isso foi há m uito tem po atrás.
– Ou há ou atrás. Não precisa usar os dois. Mas seu argum ento é m elhor do que sua gram ática. Já faz mesmo m uito tem po.
Isso lhe deu esperanças.
– Então a senhora vai aj udar?
– Com o você acha que seu pai se sentiria?
Woody pensou um pouco. Não podia tentar enrolar Ursula: ela iria desm ascará-lo na m esm a hora.
– Se ele iria se im portar? Im agino que talvez ficasse constrangido se Olga vivesse por perto, com o um lem brete perm anente de um episódio hum ilhante de sua j uventude.
– Exatam ente.
– Por outro lado, ele é m uito apegado à ideia de se com portar de form a j usta com as pessoas à sua volta. Detesta inj ustiça. Não iria querer punir Daisy por um a coisa que a m ãe dela fez. E m uito m enos Charlie. Papai tem um grande coração.
– Maior do que o m eu, você quer dizer – disse Ursula.
– Não foi isso que eu quis dizer, vovó. Mas aposto que, se a senhora perguntasse, ele não iria se opor à entrada de Olga na Sociedade.
Ursula assentiu.
– Concordo. Mas fico m e perguntando se você j á entendeu quem realm ente está por trás desse pedido.
Woody viu aonde ela estava tentando chegar.
– Ah, a senhora quer dizer que foi Daisy quem convenceu Charlie a fazer isso? Não m e espantaria. Faz algum a diferença para os prós e contras da situação?
– Acho que não.
– Então a senhora vai aj udar?
– Fico satisfeita por ter um neto de bom coração... m esm o desconfiando que ele estej a sendo usado por um a garota esperta e am biciosa.
Woody sorriu.
– Isso é um sim , vovó?
– Você sabe que não posso garantir nada. Vou fazer a sugestão ao com itê.
As sugestões de Ursula eram consideradas por todas as outras sócias ordens de um a rainha, m as Woody não disse isso.
– Obrigado. A senhora é m uito gentil.
– Agora m e dê um beij o e vá se trocar para ir à igrej a.
Woody saiu do quarto.
Logo se esqueceu de Charlie e Daisy. Sentado na Catedral de São Paulo, na Shelton Square, ignorou o serm ão – sobre Noé e o Dilúvio – e pensou em Joanne Rouzrokh. Os pais dela estavam na m issa, m as ela não. Será que iria m esm o aparecer na passeata? Se aparecesse, ele iria convidá-la para sair. Mas será que ela aceitaria?
Joanne era inteligente dem ais para se im portar com a diferença de idade, pensou. Devia saber que tinha m ais coisas em com um com Woody do que com rapazes estúpidos com o Victor Dixon. E aquele beij o! Ele ainda estava todo arrepiado. Aquilo que ela fizera com a língua – será que as outras m eninas faziam a m esm a coisa? Ele queria experim entar outra vez assim que possível.
Planej ando o futuro, pensou: se ela aceitasse sair com ele, o que iria acontecer em setem bro? Sabia que ela estava m atriculada no Vassar College, na cidade de Poughkeepsie. Ele, por sua vez, voltaria para a escola e só tornaria a vê-la no Natal. Vassar era um a instituição só para m ulheres, m as certam ente haveria hom ens em Poughkeepsie. Será que ela iria sair com outros rapazes? Woody j á estava com ciúm es.
Em frente à igrej a, disse aos pais que não alm oçaria em casa, pois iria à passeata de protesto contra a m etalúrgica.
– Muito bem – com entou sua m ãe. Quando j ovem , ela havia sido editora do j ornal radical Buffalo Anarchist. Virou-se para o m arido: – Você tam bém deveria ir, Gus.
– O sindicato deu queixa na polícia – respondeu o pai de Woody. – Você sabe que não posso influenciar o resultado de um caso no tribunal.
A m ãe tornou a falar com Woody :
– Tom e cuidado com os capangas de Lev Peshkov.
Woody pegou a câm era na m ala do carro do pai. Era um a Leica III, tão pequena que ele podia carregá-la em um a correia em volta do pescoço, m as tinha velocidades de exposição de até 1/500 de segundo.
Cam inhou alguns quarteirões até a Niagara Square, ponto de partida da m anifestação. Lev Peshkov tentara convencer a prefeitura a proibir passeatas sob o pretexto de que elas geravam violência, m as o sindicato insistira que a m anifestação seria pacífica. Os sindicalistas pareciam ter ganhado a queda de braço, pois várias centenas de pessoas j á estavam reunidas em volta da prefeitura. Muitas carregavam faixas cuidadosam ente bordadas, bandeiras verm elhas e cartazes com os dizeres “Não aos capangas dos patrões”. Woody olhou em volta à procura de Joanne, m as não a viu.
O tem po estava bom e o clim a, alegre. Woody tirou algum as fotos: operários com suas roupas de dom ingo e chapéus; um carro enfeitado com faixas; um j ovem policial roendo as unhas. Ainda não havia nem sinal de Joanne e ele com eçou a achar que ela não iria aparecer. Talvez estivesse com dor de cabeça, pensou.
O início da passeata estava m arcado para o m eio-dia. Acabou com eçando alguns m inutos depois da um a da tarde. A presença policial ao longo do traj eto era forte. Woody acabou indo parar no m eio do cortej o.
Quando estavam seguindo a Washington Street em direção ao sul, a cam inho do coração industrial da cidade, ele viu Joanne se j untar ao grupo alguns m etros à sua frente, e seu coração deu um pulo. Ela usava um a calça feita sob m edida que realçava suas curvas. Woody se apressou para alcançá-la.
– Boa tarde! – disse, todo feliz.
– Puxa, com o você está bem -disposto – com entou ela.
Aquilo era um eufem ism o. Ele estava delirando de felicidade.
– E você, está de ressaca?
– Ou isso, ou fui contam inada com a peste bubônica. O que você acha?
– Se estiver com erupções na pele, é peste bubônica. Apareceu algum a pintinha verm elha no seu corpo? – Woody m al sabia o que estava falando. – Não sou m édico, m as, se você quiser, seria um prazer exam iná-la.
– Pare de ter resposta para tudo. Sei que é charm oso, m as não estou com disposição para isso.
Woody tentou se acalm ar.
– Sentim os sua falta na igrej a – falou. – O serm ão foi sobre Noé.
Para sua consternação, ela soltou um a gargalhada.
– Ai, Woody . Gosto m uito quando você é engraçado, m as, por favor, não m e faça rir hoj e.
Ele achou que o com entário fosse positivo, m as não teve certeza.
Viu um a m ercearia aberta em um a rua lateral.
– Você precisa se hidratar – falou. – Já volto.
Correu até a loj a e com prou duas garrafas de Coca-Cola bem geladas. Pediu que o vendedor as abrisse e então voltou para a passeata. Quando entregou um a das garrafas a Joanne, ela disse:
– Ah, você salvou a m inha vida. – Levou a garrafa aos lábios e tom ou um grande gole.
Woody teve a sensação de que até o m om ento estava dom inando a situação.
Apesar do sinistro incidente contra o qual estavam protestando, os m anifestantes se m ostravam bem -hum orados. Um grupo de hom ens m ais velhos entoava hinos políticos e canções tradicionais. Havia até algum as fam ílias com crianças. E nenhum a nuvem no céu.
– Você j á leu Estudos sobre a histeria? – perguntou Woody enquanto cam inhavam .
– Nunca ouvi falar.
– Ah! É de Sigm und Freud. Pensei que você fosse fã dele.
– As ideias dele m e interessam . Mas nunca li nenhum de seus livros.
– Pois deveria ler. Estudos sobre a histeria é incrível.
Ela o fitou, curiosa.
– O que fez você ler um livro desses? Aposto que na sua escola cara e antiquada vocês não têm aula de psicologia.
– Ah, sei lá. Acho que ouvi você falar sobre psicanálise e o assunto m e pareceu extraordinário. E é, m esm o.
– Com o assim ?
Woody teve a sensação de que ela o estava testando, para ver se ele entendera m esm o o livro ou se estava apenas fingindo.
– A ideia de que um ato de loucura, com o por exem plo derram ar tinta obsessivam ente em cim a de um a toalha de m esa, pode ter um a espécie de lógica oculta.
Ela assentiu.
– É – concordou. – É isso.
Woody soube instintivam ente que ela não sabia do que ele estava falando. Ele j á havia superado o conhecim ento dela sobre Freud, m as Joanne estava com vergonha de adm itir isso.
– O que você m ais gosta de fazer? – perguntou a ela. – Ir ao teatro? Ouvir m úsica clássica? Im agino que ir ao cinem a não sej a nada de m ais para alguém cuj o pai tem um a centena de salas.
– Por que a pergunta?
– Bem ... – Ele decidiu ser sincero. – Quero cham ar você para sair e gostaria de atraí-la com algo de que você goste m uito. Pode escolher o que quer fazer.
Ela sorriu para ele, m as não era o sorriso que ele esperava. Apesar de sim pático, tinha um quê de piedade, e ele soube que estava prestes a receber um a notícia ruim .
– Woody , eu bem que gostaria, m as você tem 15 anos.
– Com o você m esm a disse ontem à noite, sou m ais m aduro do que Victor Dixon.
– Eu tam bém não aceitaria sair com ele.
Woody sentiu a garganta se contrair e sua voz saiu rouca.
– Você está m e dispensando?
– Estou, sim , com m uita firm eza. Não quero sair com um garoto três anos m ais novo que eu.
– Posso convidar você de novo daqui a três anos? Aí vam os ter a m esm a idade.
Ela riu e falou:
– Pare de ser espirituoso, está m e dando dor de cabeça.
Woody decidiu não esconder a dor que estava sentindo. O que tinha a perder? Muito angustiado, perguntou:
– Então o que foi aquele beij o?
– Não foi nada.
Ele balançou a cabeça, arrasado.
– Para m im , foi. Foi o m elhor beij o que j á experim entei.
– Ai, m eu Deus, eu sabia que tinha sido um erro. Olhe, foi só um pouco de diversão. Sim , eu gostei... pode se gabar, tem todo o direito. Woody, você é um a graça de m enino, e m uito inteligente, m as um beij o não é um a declaração de am or, por m ais que tenha sido bom .
Eles estavam quase na frente da m ultidão, e Woody viu m ais adiante o destino final da passeata: os altos m uros da Metalúrgica de Buffalo. O portão estava fechado e vigiado por um a dúzia ou m ais de seguranças, hom ens de aspecto violento usando cam isas azul-claras que im itavam uniform es da polícia.
– Além do m ais, eu estava bêbada – acrescentou Joanne.
– É, eu tam bém estava – disse Woody .
Foi um a tentativa patética de salvar sua dignidade, m as Joanne teve a elegância de fingir acreditar.
– Nesse caso, nós dois fizem os um a coisa m eio boba e o m elhor é esquecer e pronto – disse ela.
– É – disse Woody , olhando para outro lado.
Estavam agora em frente à fábrica. Os m anifestantes na frente do cortej o pararam diante do portão e alguém com eçou a fazer um discurso com um m egafone. Quando olhou m ais de perto, Woody viu que o orador era um sindicalista de Buffalo cham ado Brian Hall. Seu pai o conhecia e gostava dele. Em algum m om ento do passado os dois haviam trabalhado j untos para solucionar um a greve.
As pessoas que estavam m ais para trás do cortej o continuaram a avançar, e um a m ultidão com pacta ocupou toda a largura da rua. Em bora os portões estivessem fechados, os seguranças não deixavam as pessoas se aproxim arem da entrada. Woody então viu que estavam arm ados com cassetetes sem elhantes aos de policiais. Um deles gritava:
– Fiquem longe do portão! Isto aqui é propriedade particular! – Woody ergueu a câm era e tirou um a foto.
As pessoas da frente estavam sendo em purradas pelas de trás. Woody pegou Joanne pelo braço e tentou levá-la para longe do foco de tensão. Foi difícil, porém : todo m undo agora estava im prensado e ninguém queria abrir passagem . Contra a própria vontade, Woody se pegou chegando cada vez m ais perto do portão da fábrica e dos seguranças com seus cassetetes.
– Esta situação não está nada boa – falou para Joanne.
Mas ela estava corada de anim ação.
– Esses desgraçados não podem nos deter! – gritou.
Um hom em ao seu lado concordou, tam bém aos gritos:
– É isso aí! Você está certa!
A m ultidão ainda estava a uns dez m etros ou m ais do portão, m as m esm o assim os seguranças com eçaram a em purrar desnecessariam ente os m anifestantes. Woody tirou outra foto.
Brian Hall estivera gritando no m egafone sobre capangas dos patrões e apontando um dedo acusador para os seguranças da fábrica. Mas então m udou de tom e com eçou a pedir calm a:
– Com panheiros, por favor, afastem -se dos portões. Vam os recuar, sem violência.
Woody viu um a m ulher ser em purrada por um segurança com força suficiente para fazê-la cam balear. Ela não caiu, m as gritou, e o hom em que estava com ela disse ao segurança:
– Calm a lá, am igo!
– Por acaso está tentando arrum ar confusão? – retrucou o segurança, desafiador.
– Pare de em purrar! – berrou a m ulher.
– Para trás, para trás! – gritou o segurança. Ele ergueu o cassetete. A m ulher gritou.
O cassetete desceu e Woody tirou um a foto.
– O filho da m ãe bateu naquela m ulher! – disse Joanne, dando um passo à frente.
Mas a m aior parte da m ultidão com eçou a se m over na direção oposta, para longe da fábrica. Quando as pessoas se viraram , os seguranças foram atrás, em purrando, chutando e golpeando com os cassetetes.
– Não há necessidade de violência! – disse Brian Hall. – Seguranças, cheguem para trás! Não usem os cassetetes! – Então o m egafone foi derrubado de sua m ão por um dos guardas.
Alguns dos hom ens m ais j ovens revidavam . Meia dúzia de policiais se m isturou à m ultidão. Não fizeram nada para conter os seguranças da fábrica, m as com eçaram a prender qualquer m anifestante que revidasse.
O segurança que dera início à confusão caiu no chão e dois dos m anifestantes com eçaram a chutá-lo.
Woody tirou outra foto.
Joanne gritava, enfurecida. Partiu para cim a do segurança e arranhou seu rosto com as unhas. Ele ergueu um a das m ãos para afastá-la. Por acidente ou não, a base de sua m ão acertou em cheio o nariz dela. Joanne cam baleou para trás, com sangue escorrendo das narinas. O segurança ergueu o cassetete. Woody a agarrou pela cintura e a puxou para trás. O cassetete errou o alvo.
– Vam os! – gritou Woody para ela. – Tem os que sair daqui!
A pancada no rosto havia refreado a fúria de Joanne, que não resistiu quando ele m eio que a puxou, m eio que a carregou para longe dos portões o m ais depressa que pôde, com a câm era fotográfica balançando na correia em volta de seu pescoço. A m ultidão agora estava em pânico: na ânsia de fugir, pessoas caíam e eram pisoteadas.
Woody era m ais alto do que a m aioria e conseguiu se m anter em pé e ainda sustentar Joanne. Eles foram abrindo cam inho pelo m ar de gente, m antendo-se um pouco à frente dos cassetetes. Por fim , a m ultidão ficou m ais espaçada. Joanne se afastou do abraço de Woody e os dois com eçaram a correr.
O barulho da confusão foi sum indo atrás deles. Depois de dobrar um a ou duas esquinas, viram que haviam chegado a um a rua deserta de fábricas e arm azéns, todos fechados porque era dom ingo. Pararam de correr e com eçaram a andar, recuperando o fôlego. Joanne desatou a rir.
– Foi tão em ocionante! – exclam ou.
Mas Woody não conseguiu com partilhar seu entusiasm o.
– Foi horrível, isso sim – disse ele. – E poderia ter sido pior. – Ele a havia resgatado e de certa form a torcia para que isso a fizesse m udar de ideia com relação a seu convite para saírem j untos.
Mas Joanne não achava que lhe devesse nada.
– Ah, por favor – disse ela, em tom de desdém . – Ninguém m orreu.
– Aqueles seguranças provocaram um a briga de propósito!
– É claro que provocaram ! Peshkov quer prej udicar a reputação dos sindicalistas.
– Bem , nós sabem os a verdade. – Woody bateu de leve na câm era. – E posso provar.
Cam inharam quase um quilôm entro, então Woody viu um táxi e fez sinal. Deu ao m otorista o endereço da casa dos Rouzrokh.
Sentado no banco de trás do táxi, puxou um lenço do bolso.
– Não quero levar você para a casa do seu pai desse j eito – falou. Desdobrou o quadradinho de algodão branco e o encostou delicadam ente no lábio superior de Joanne, suj o de sangue.
Era um gesto íntim o e ele achou aquilo sexy, m as ela não o deixou aproveitar m uito. No instante seguinte, falou:
– Pode deixar. – Pegou o lenço da m ão dele e lim pou a própria boca. – Que tal?
– Faltou um pedacinho – m entiu ele. Tornou a pegar o lenço. Joanne tinha a boca larga, dentes brancos perfeitos e sedutores lábios carnudos. Ele fingiu que havia algum a suj eira sob seu lábio inferior. Lim pou o local com cuidado e então disse: – Pronto, assim está m elhor.
– Obrigada. – Ela o encarou com um a expressão estranha, m eio afetuosa, m eio irritada.
Woody achou que ela percebera que ele havia m entido em relação ao sangue em seu queixo e que não sabia m uito bem se deveria ficar zangada ou não.
O táxi parou em frente à casa dos Rouzrokh.
– Não entre – disse ela. – Vou m entir para m eus pais sobre onde estive e não quero que você dê nenhum furo.
Woody pensou que ele provavelm ente era o m ais discreto dos dois, m as disse apenas:
– Ligo para você m ais tarde.
– Está bem . – Ela desceu do táxi, deu um aceno casual para ele e subiu o acesso até a casa.
– Que bonequinha – com entou o taxista. – Mas ela é m eio velha para você, não é?
– Leve-m e para a Delaware Avenue – disse Woody, sem responder. Deu ao m otorista o núm ero e a altura da rua. Não ia conversar sobre Joanne com um m aldito taxista.
Ficou pensando no fora que havia levado. Não deveria ter se surpreendido: todo m undo, de seu irm ão ao m otorista do táxi, dizia que ele era j ovem dem ais para Joanne. Mesm o assim estava m agoado. Tinha a sensação de que não sabia m ais o que fazer de sua vida. Com o conseguiria chegar ao final do dia?
Em casa, os pais estavam tirando seu cochilo habitual de dom ingo à tarde. Chuck achava que era nessa hora que eles faziam sexo. Segundo Betty, Chuck saíra para nadar com um grupo de am igos.
Woody entrou no laboratório para revelar o film e de sua câm era. Pôs água m orna dentro da bandej a para deixar os produtos quím icos na tem peratura ideal, depois colocou o negativo dentro de um saco preto de m odo a transferi-lo para o tanque de revelação.
A revelação era um processo dem orado, que exigia paciência, m as Woody ficou contente em sentar no escuro e pensar em Joanne. O fato de estarem j untos durante um a m anifestação não a fizera se apaixonar por ele, m as com certeza os deixara m ais próxim os. Tinha certeza de que ela estava com eçando a gostar m ais dele. Talvez a rej eição não fosse definitiva. Talvez ele devesse continuar tentando. Certam ente não tinha interesse em qualquer outra m oça.
Quando o tim er soou, ele transferiu o film e para um banho destinado a interrom per a reação quím ica, em seguida para um banho de fixador cuj a finalidade era estabilizar as im agens im pressas no negativo. Por fim , lavou o negativo com água, secou-o e exam inou as fotografias em preto e branco sobre a m esa de luz.
Achou que estavam m uito boas.
Cortou o negativo em quadros, em seguida posicionou o prim eiro deles no am pliador. Pôs um a folha de papel fotográfico de 25x20cm sobre a bandej a, acendeu a luz e expôs o papel ao negativo enquanto ia contando os segundos. Depois colocou o papel dentro de um a bandej a destam pada cheia de revelador.
Aquela era a m elhor parte do processo. Aos poucos, o papel com eçava a exibir m anchas acinzentadas e a im agem ia surgindo. Aquele processo sem pre lhe parecia um m ilagre. A prim eira foto m ostrava dois hom ens, um negro e um branco, am bos de roupa de dom ingo e chapéu, segurando um a faixa na qual se lia “Irm andade” em letras grandes. Quando a im agem ficou nítida, ele passou o papel para um banho de fixador, em seguida lavou-o com água e o secou.
Am pliou todas as fotos que havia tirado, levou-as para um lugar ilum inado e as dispôs sobre a m esa da sala de j antar. Ficou satisfeito: eram im agens vívidas, cheias de ação, que m ostravam claram ente um a sequência de acontecim entos. Quando ouviu passos dos pais no andar de cim a, cham ou a m ãe. Rosa tinha sido j ornalista antes de se casar e ainda escrevia livros e artigos para revistas.
– O que acha? – perguntou a ela.
Sua m ãe estudou as fotografias cuidadosam ente com seu único olho. Depois de algum tem po, falou:
– Acho que estão boas. Você deveria oferecê-las a um j ornal.
– Sério? – espantou-se ele. Com eçou a ficar anim ado. – Que j ornal?
– Infelizm ente, esta cidade só tem j ornais conservadores. Quem sabe o Buffalo Sentinel? O editor de lá se cham a Peter Hoy le... ele trabalha no j ornal desde o início dos tem pos. Com o conhece bem o seu pai, provavelm ente vai recebê-lo.
– Quando eu devo levar as fotos?
– Agora. A passeata é um a notícia fresca. Vai sair em todos os j ornais de am anhã. Eles precisam das fotos hoj e à noite.
Woody sentiu-se cheio de energia.
– Está bem – falou. Recolheu as folhas de papel brilhante e form ou com elas um a pilha bem certinha. Sua m ãe foi pegar um a pasta de papelão no escritório do pai. Woody lhe deu um beij o e saiu.
Pegou um ônibus até o centro da cidade.
A entrada principal da redação do Sentinel estava fechada, e ele se sentiu m om entaneam ente desanim ado, m as concluiu que os repórteres deviam ter um j eito de entrar e sair do j ornal no dom ingo se quisessem publicar um a m atéria na segunda de m anhã e encontrou um a entrada lateral.
– Trouxe um as fotos para o Sr. Hoy le – disse ele a um hom em sentado lá dentro j unto à porta, que o instruiu a subir até o prim eiro andar.
Woody achou a sala do editor, um a secretária anotou seu nom e e, no m inuto seguinte, ele j á estava apertando a m ão de Peter Hoy le. Era um hom em alto, im ponente, com cabelos brancos e um bigode preto. Parecia estar term inando um a reunião com um colega m ais j ovem . Falava m uito alto, com o se quisesse se fazer ouvir acim a do barulho de um a rotativa.
– A m atéria sobre os atropeladores que fugiram está boa, Jack, m as o lide está péssim o – disse ele, pousando um a das m ãos no om bro do rapaz para dispensá-lo e o guiando em direção à porta. – Escreva um a abertura nova. Transfira a fala do prefeito para depois e com ece com as crianças aleij adas. – Jack saiu da sala e Hoy le virou-se para Woody : – O que tem aí, rapaz? – perguntou ele, sem rodeios.
– Eu fui à passeata hoj e.
– À confusão, você quer dizer.
– Só virou um a confusão porque os seguranças da fábrica com eçaram a bater em m ulheres com os cassetetes.
– Ouvi dizer que os m anifestantes tentaram invadir a fábrica e os seguranças im pediram .
– Não é verdade, senhor, e m inhas fotos provam isso.
– Deixe-m e ver.
Woody havia ordenado as im agens durante o traj eto de ônibus. Pôs a prim eira delas sobre a m esa do editor.
– Tudo com eçou de form a pacífica.
Hoy le em purrou a foto para o lado e disse:
– Isso não vale nada.
Woody sacou um a fotografia tirada na fábrica.
– Os seguranças estavam esperando no portão. Dá para ver os cassetetes. – A foto seguinte fora tirada no início do em purra-em purra. – Os m anifestantes estavam a pelo m enos dez m etros do portão. Não havia por que os seguranças tentarem afastá-los. Foi um a provocação deliberada.
– Certo – disse Hoy le, e dessa vez não em purrou as im agens para o lado.
Woody tirou da pasta sua m elhor im agem : um segurança usando um cassetete para bater num a m ulher.
– Eu vi esse incidente todo – falou. – Tudo o que a m ulher fez foi pedir que ele parasse de em purrá-la, e ele bateu nela m esm o assim .
– Boa foto – com entou Hoy le. – Tem m ais algum a?
– Só m ais um a – respondeu Woody. – A m aioria dos m anifestantes saiu correndo assim que a briga com eçou, m as alguns revidaram . – Ele m ostrou a Hoy le a foto de dois m anifestantes chutando um segurança caído no chão. – Esses hom ens reagiram ao segurança que bateu na m ulher.
– Você fez um bom trabalho, m eu j ovem Dewar – disse Hoy le. Sentou-se à m esa e pegou um form ulário dentro de um a bandej a. – Vinte pratas está bom ?
– Quer dizer que o senhor vai publicar m inhas fotos?
– Im agino que tenha sido para isso que você as trouxe aqui.
– Foi sim , senhor, obrigado. Vinte dólares está bom , quer dizer, está ótim o. É m ais do que suficiente.
Hoy le anotou algum a coisa no form ulário e assinou.
– Leve isto aqui até o caixa. Minha secretária vai lhe dizer onde é.
O telefone sobre a m esa tocou. O editor atendeu e bradou:
– Hoy le. – Woody concluiu que estava dispensado e se retirou.
Estava nas nuvens. Ter recebido dinheiro era incrível, m as o que o deixava m ais em polgado era que o j ornal iria usar suas fotos. Seguiu as indicações da secretária para chegar a um a salinha onde havia um balcão e um guichê. Lá recebeu seus 20 dólares. Depois pegou um táxi para casa.
Os pais ficaram encantados com seu sucesso, e até m esm o Chuck pareceu satisfeito. Durante o j antar, sua avó disse:
– Contanto que você não considere o j ornalism o um a carreira... Não seria condizente com a sua condição.
Na verdade, Woody vinha pensando que talvez pudesse abraçar o fotoj ornalism o em vez da política e ficou surpreso ao descobrir que a avó não aprovava.
Sua m ãe sorriu e disse:
– Mas, Ursula, querida, eu j á fui j ornalista.
– É diferente. Você é m ulher – retrucou a sogra. – Woodrow precisa se tornar um hom em distinto, com o o pai e o avô.
Sua m ãe não pareceu se ofender com o com entário. Ela gostava da sogra e escutava com um a tolerância bem -hum orada aqueles pronunciam entos ortodoxos.
Mas Chuck se ressentiu daquela prim azia tradicional dada ao filho m ais velho.
– E eu, devo virar o quê? – perguntou ele. – O cocô do cavalo do bandido?
– Não sej a vulgar, Charles – disse Ursula, dando a últim a palavra, com o sem pre.
Nessa noite, Woody passou um tem pão acordado. Mal podia esperar para ver suas fotos no j ornal. Parecia que era véspera de Natal e ele tinha voltado a ser criança: de tanto ansiar pela m anhã, não conseguia pregar o olho.
Ficou pensando em Joanne. Ela estava errada por considerá-lo j ovem dem ais. Ele era o hom em certo para ela. Joanne gostava dele, os dois tinham m uito em com um e o seu beij o a havia agradado. Woody ainda achava que conseguiria conquistá-la.
Finalm ente conseguiu pegar no sono e, quando acordou, j á era dia. Pôs um roupão por cim a do pij am a e desceu a escada correndo. Joe, o m ordom o, sem pre saía cedo para com prar os j ornais, que j á estavam arrum ados sobre a m esinha lateral da sala onde a fam ília tom ava café da m anhã. Os pais de Woody estavam lá: seu pai com ia ovos m exidos, sua m ãe bebericava um café.
Woody pegou o Sentinel. Seu trabalho estava na prim eira página.
Mas não era o que ele esperava.
O j ornal só havia usado um a de suas im agens – a últim a. Nela, um dos seguranças da fábrica estava caído no chão e dois operários o chutavam . A m anchete dizia: “Rebelião de m etalúrgicos em greve”.