Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 36 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

– Vam os para casa. Quando chegarm os lá eu conto. – As duas subiram nas bicicletas.

As ruas tinham um a atm osfera estranha, m as Carla estava preocupada dem ais com os próprios problem as para se perguntar o que estava acontecendo. Pessoas se aglom eravam em volta dos alto-falantes que às vezes transm itiam os discursos de Hitler na Ópera Kroll, o prédio que estava sendo usado em lugar do Reichstag incendiado. Ele provavelm ente estava prestes a discursar.

Quando as duas chegaram de volta à casa dos Von Ulrich, os pais de Carla ainda estavam na cozinha. Walter estava sentado j unto ao rádio, com o cenho franzido de concentração.

– Eles m e recusaram – disse Carla. – Independentem ente do que dizem as regras, não querem dar a bolsa para um a m ulher.

– Ah, Carla, eu sinto m uito – falou a m ãe.

– O que estão dizendo no rádio?

– Vocês não sabem ? – indagou Maud. – Nós invadim os a Polônia hoj e de m anhã. Estam os em guerra.

 

V

A tem porada londrina j á havia term inado, m as, por conta da crise, a m aioria das pessoas continuava na cidade. O Parlam ento, que em geral entrava em recesso nessa época do ano, fora excepcionalm ente convocado de volta. No entanto, não havia m ais festas, nem recepções reais ou bailes. Era com o estar num balneário à beira-m ar em pleno inverno, pensou Daisy. Era um sábado, e ela estava se aprontando para ir j antar na casa do sogro, o conde Fitzherbert. Poderia haver algo m ais m açante?

Daisy estava sentada diante da penteadeira, usando um vestido de noite de seda verde-água com decote em V e saia plissada. Tinha flores de seda nos cabelos e um a fortuna em diam antes em volta do pescoço.

Boy, seu m arido, estava se arrum ando em seu próprio quarto de vestir. Daisy sentia-se feliz por ele estar com ela. Boy passava m uitas noites fora. Em bora m orassem j untos ali em May fair, às vezes se passavam vários dias sem que os dois se cruzassem . Nessa noite, porém , ele estava em casa.

Ela segurava um a carta da m ãe, enviada de Buffalo. Olga adivinhara que a filha era infeliz no casam ento. As cartas que Daisy escrevera para casa deviam conter pistas. E sua m ãe tinha boa intuição. “Eu só quero que você sej a feliz”, escrevera ela. “Então preste atenção no que estou lhe dizendo: não desista assim tão cedo. Você um dia vai ser a condessa Fitzherbert, e o seu filho, se for hom em , vai ser o conde. Talvez se arrependa de j ogar tudo isso fora só porque seu m arido não foi atencioso o suficiente.”

Talvez Olga tivesse razão. As pessoas j á cham avam Daisy de m ilady havia quase três anos, m as m esm o assim o tratam ento continuava a lhe dar um choque de prazer, com o o trago num cigarro.

No entanto, o casam ento parecia não fazer grande diferença na vida de Boy . Saía à noite com os am igos, viaj ava pelo país para assistir a corridas de cavalos e raram ente com partilhava seus planos com a esposa. Daisy achava constrangedor ir a um a festa e ter a surpresa de encontrar o m arido lá. Se quisesse saber aonde ele iria, porém , precisava perguntar ao seu valete, e isso era hum ilhante dem ais.

Será que Boy iria am adurecer aos poucos e com eçar a se com portar com o um m arido de verdade, ou seria sem pre daquele j eito?

Ele enfiou a cabeça pela abertura da porta do quarto dela.

– Vam os, Daisy , estam os atrasados.

Ela guardou a carta da m ãe dentro de um a gaveta, trancou-a e saiu do quarto. Boy a esperava no hall, de sm oking. Fitz finalm ente sucum bira à m oda e agora aceitava traj es curtos m ais inform ais para os j antares de fam ília em casa.

Poderiam ter ido a pé até a residência de Fitz, m as chovia tanto que Boy m andou buscar o carro. Era um sedã Bentley Airline crem e com pneus de risca branca. Seu m arido herdara do pai a paixão por carros bonitos.

Boy foi dirigindo. Daisy torceu para que ele a deixasse assum ir o volante na volta. Ela gostava de dirigir e, de toda form a, ele não era um m otorista m uito confiável depois do j antar, sobretudo se as ruas estivessem m olhadas.

Londres estava se preparando para a guerra. Balões de barragem flutuavam a sessenta m etros do solo para im pedir a aproxim ação de bom bardeiros. Para o caso de não serem suficientes, sacos de areia tinham sido em pilhados diante dos edifícios im portantes. Um em cada dois m eios-fios fora pintado de branco para orientar os m otoristas durante o blecaute iniciado na véspera. Faixas brancas tam bém tinham sido pintadas nas árvores m aiores, nas estátuas e em outros obstáculos capazes de causar acidentes.

A princesa Bea recebeu o filho e a nora. Apesar de seus 50 e poucos anos e de estar bastante gorda, ela ainda se vestia com o um a m enina. Nessa noite, estava com um vestido cor-de-rosa bordado de contas e paetês. Ela j am ais se referia à história que o pai de Daisy contara na festa de casam ento, m as havia parado de sugerir que a nora era socialm ente inferior e agora sem pre se dirigia a ela com cortesia, quando não com afeto. Daisy, por sua vez, se m ostrava sim pática, m as com cautela, e tratava a sogra com o um a tia que estivesse com eçando a ficar esclerosada.

Andy, irm ão caçula de Boy, tam bém estava presente. Ele e May agora tinham dois filhos e, aos olhos desconfiados de Daisy , May parecia estar esperando um terceiro.

É claro que Boy queria um filho para herdar o título e a fortuna dos Fitzherbert, m as até agora Daisy não conseguira engravidar. Aquilo era m otivo de tensão, e a fecundidade tão evidente de Andy e May apenas piorava a situação. As chances de Daisy aum entariam se Boy passasse m ais noites em casa.

Ela ficou feliz ao ver que sua am iga Eva Murray tam bém fora convidada para o j antar, em bora não estivesse com o m arido. Jim m y Murray, agora capitão, estava com a sua unidade e não pudera se ausentar, pois a m aioria dos soldados j á se encontrava aquartelada, e seus oficiais os estavam acom panhando. Eva agora era da fam ília, visto que Jim m y era irm ão de May, esposa de Andy. Dessa form a, Boy havia sido obrigado a superar seu preconceito contra os j udeus e a ser educado com Eva.

A am iga tinha tanta adoração por Jim m y quanto três anos antes, quando os dois haviam se casado. Eles tam bém tiveram dois filhos em três anos. Entretanto, nessa noite Eva parecia preocupada, e Daisy podia adivinhar por quê.

– Com o vão seus pais? – perguntou ela.

– Não podem sair da Alem anha – respondeu Eva, triste. – O governo se recusa a lhes conceder vistos de saída.

– Fitz não pode aj udar?

– Ele tentou.

– O que eles fizeram para m erecer isso?

– Não são só eles. Milhares de j udeus alem ães estão na m esm a situação. São poucos os que conseguem os vistos.

– Sinto m uito.

Daisy estava m ais do que sentida. Chegava a se contorcer de tanta vergonha ao se lem brar de com o ela e Boy haviam apoiado os fascistas nos prim eiros tem pos. Suas reservas em relação ao regim e tinham aum entado rapidam ente à m edida que a brutalidade do fascism o na Grã-Bretanha e no exterior se tornara cada vez m ais óbvia. No final das contas, ela ficara aliviada quando Fitz havia reclam ado que eles o estavam constrangendo e suplicara que deixassem o partido de Mosley . Agora Daisy se achava um a boba por ter se filiado.

Boy, por sua vez, não se m ostrava tão arrependido. Continuava achando que os europeus brancos de classe alta form avam um a raça superior, escolhida por Deus para governar a Terra. No entanto, não acreditava m ais que isso fosse um a filosofia política prática. Muitas vezes se enfurecia com a dem ocracia britânica, m as não defendia que esta fosse abolida.

A fam ília se sentou cedo à m esa.

– Neville vai fazer um pronunciam ento na Câm ara dos Com uns às sete e m eia – disse Fitz. Neville Cham berlain era o prim eiro-m inistro britânico. – Quero assistir. Vou m e sentar na Galeria dos Pares. Talvez tenha que deixá-los antes da sobrem esa.

– O que você acha que vai acontecer, pai? – perguntou Andy .

– Não sei m esm o – respondeu Fitz, levem ente irritado. – É claro que todos nós gostaríam os de evitar um a guerra, m as é im portante não dar a im pressão de que estam os indecisos.

Daisy ficou surpresa: Fitz acreditava na lealdade e raram ente criticava os colegas do governo, m esm o de form a tão oblíqua quanto aquela.

– Se houver um a guerra, vou m e m udar para Tŷ Gwy n – disse a princesa Bea.

Fitz fez que não com a cabeça.

– Se houver um a guerra, o governo vai pedir aos proprietários que coloquem suas grandes residências rurais à disposição das Forças Arm adas enquanto durar o conflito. Com o integrante do governo, tenho que dar o exem plo. Terei que em prestar Tŷ Gwy n ao regim ento dos Fuzileiros Galeses para que a propriedade sej a usada com o um centro de treinam ento ou talvez um hospital.

– Mas é a m inha casa de cam po! – protestou Bea, indignada.

– Podem os separar um a pequena parte da casa para uso particular.

– Não quero um a pequena parte da casa... Sou um a princesa!

– Talvez sej a aconchegante. Podem os usar a despensa do m ordom o com o cozinha, e a sala íntim a com o sala de j antar, m ais três ou quatro quartos m enores.

– Aconchegante! – Bea tinha um ar de repulsa, com o se algo noj ento houvesse sido posto na sua frente, porém não disse m ais nada.

– Com certeza Boy e eu vam os ter que nos j untar aos Fuzileiros Galeses – disse Andy .

May em itiu um ruído que parecia um soluço.

– Eu vou para a Força Aérea – disse Boy .

A declaração deixou Fitz chocado.

– Você não pode fazer isso! O visconde de Aberowen sem pre fez parte dos Fuzileiros Galeses.

– Eles não têm aviões. A próxim a guerra vai ser travada no ar. A Real Força Aérea britânica precisará desesperadam ente de pilotos. E venho pilotando há anos.

Fitz estava prestes a seguir argum entando, m as o m ordom o entrou e anunciou:

– O carro está pronto, m ilorde.

Fitz olhou para o relógio acim a da lareira.

– Droga, tenho que ir. Obrigado, Grout. – Ele olhou para Boy. – Não tom e um a decisão antes de conversarm os m ais. Isso não está certo.

– Está bem , pai.

Fitz olhou para Bea.

– Querida, m e perdoe por sair no m eio do j antar.

– Não tem problem a – disse ela.

Fitz se levantou da m esa e foi até a porta. Daisy reparou em seu andar m anco, triste recordação da últim a guerra.

O restante do j antar foi som brio. Todos se perguntavam se o prim eiro-m inistro iria declarar guerra.

Quando as m ulheres se levantaram para sair da sala, May sugeriu a Andy que lhe desse o braço. Ele pediu licença aos dois hom ens ainda sentados à m esa dizendo:

– Minha esposa encontra-se num estado delicado. – Aquele era o eufem ism o habitual para gravidez.

– Quisera eu que a m inha esposa ficasse delicada com tanta facilidade assim – com entou Boy .

Foi um golpe baixo e Daisy sentiu o rosto corar. Reprim iu um a resposta, m as então se perguntou por que deveria ficar calada.

– Bem , querido, você sabe o que se diz no futebol – retrucou em voz alta. – Quem não chuta não faz gol.

Foi a vez de Boy enrubescer.

– Que ousadia! – protestou ele, furioso.

Andy riu.

– Você pediu, irm ão.

– Parem com isso, vocês dois – disse Bea. – Espero que m eus filhos aguardem até as senhoras não poderem m ais ouvi-los antes de se perm itirem conversas tão repulsivas. – Ela saiu da sala com um andar m aj estoso.

Daisy saiu atrás da sogra, m as ainda estava zangada e queria ficar sozinha, por isso se despediu das outras m ulheres no patam ar da escada. Com o Boy podia ter dito um a coisa daquelas? Será que ele acreditava m esm o que era culpa dela não ter engravidado? Podia m uito bem ser culpa dele! Talvez ele soubesse disso e estivesse tentando culpá-la por m edo de as pessoas acharem que ele era infértil. Provavelm ente era essa a verdade, m as isso não desculpava um a ofensa pública.

Ela foi até o antigo quarto do m arido. Depois de se casarem , os dois haviam m orado ali por três m eses, enquanto a casa deles estava sendo redecorada. Tinham usado o antigo quarto de Boy e o côm odo ao lado, em bora nessa época dorm issem j untos todas as noites.

Ela entrou e acendeu a luz. Para sua surpresa, viu que Boy parecia não ter se m udado dali com pletam ente. Havia um a navalha na pia e um exem plar da revista de aviação Flight sobre a m esinha de cabeceira. Ela abriu um a gaveta e encontrou um a lata do rem édio para o fígado Leonard’s Liver-Aid, que ele tom ava todos os dias antes do café da m anhã. Será que seu m arido dorm ia ali quando estava bêbado dem ais para encarar a esposa?

A gaveta de baixo estava trancada, m as ela sabia que Boy guardava a chave dentro de um vaso no consolo da lareira. Não tinha pudor nenhum em bisbilhotar: na sua opinião, um m arido não devia ter nenhum segredo para a esposa. Abriu a gaveta.

A prim eira coisa que encontrou foi um livro de fotografias de m ulheres nuas. Nas pinturas e fotos artísticas, as m ulheres em geral tentavam ocultar parcialm ente as partes íntim as, m as aquelas garotas estavam fazendo j ustam ente o contrário: pernas escancaradas, nádegas arreganhadas e até m esm o os lábios da vagina abertos para expor a parte interna. Se alguém a surpreendesse, Daisy fingiria estar chocada, m as a verdade é que aquelas im agens a deixaram fascinada. Ela folheou o livro inteiro com grande interesse, com parando aquelas m ulheres consigo m esm a: tam anho e form ato dos seios, quantidade de pelos pubianos, órgãos sexuais. Que variedade incrível existia no corpo das m ulheres!

Algum as das garotas estavam se estim ulando, ou fingindo fazê-lo, e outras haviam sido fotografadas em dupla, tocando um a a outra. Daisy não estranhava que os hom ens gostassem daquele tipo de coisa.

Sentia-se um a intrusa. Estar ali a fez lem brar aquela vez que havia entrado no quarto de Boy em Tŷ Gwy n, antes de eles se casarem . Na época, ela estava louca para descobrir m ais coisas a respeito dele, para conhecer m ais intim am ente o hom em que am ava, para encontrar um j eito de torná-lo seu. Mas e agora, o que estava fazendo? Espionando um m arido que não parecia m ais am á-la e tentando entender onde ela havia fracassado.

Debaixo do livro havia um saco de papel m arrom e, dentro dele, vários pequenos envelopes quadrados tam bém de papel, estam pados com letras verm elhas na frente.

“Prentif” Marca Registrada

SERVISPAK

AVISO

Não deixar o envelope

ou seu conteúdo em locais públicos,

pois podem ser ofensivos

BORRACHA DE LÁTEX

fabricada na Grã-Bretanha

Resistente a qualquer clima

 

Nada daquilo fazia sentido. Em lugar algum estava escrito o que o envelope continha. Assim , ela abriu um .

Lá dentro encontrou um pedaço de borracha enrolado. Desenrolou-o. Tinha o form ato de um tubo, fechado em um a das pontas. Daisy levou alguns segundos para entender o que era.

Nunca tinha visto aquilo, m as ouvira outras pessoas com entarem a respeito. Os am ericanos cham avam aquele pedacinho de borracha de Troj an, e os britânicos, de rubber johnny. O nom e correto era preservativo e servia para evitar gravidez.

Por que seu m arido tinha um pacote daquelas coisas? Havia apenas um a resposta possível: para usar com outra m ulher.

Daisy sentiu vontade de chorar. Tinha dado a Boy tudo o que ele queria. Nunca lhe dissera que estava cansada dem ais para fazer am or – m esm o quando estava –, tam pouco recusara qualquer sugestão dele na cam a. Se ele houvesse pedido, teria até posado com o as m ulheres do livro de fotografias.

O que ela tinha feito de errado?

Decidiu perguntar a Boy .

A tristeza se transform ou em raiva. Ela se levantou. Levaria os envelopes de papel até a sala de j antar e confrontaria o m arido. Por que deveria protegê-lo?

Mas nesse m om ento ele entrou no quarto.

– Vi a luz lá do corredor – disse ele. – O que está fazendo aqui? – Então viu as gavetas abertas da m esinha de cabeceira. – Com o se atreve a m e espionar?

– Eu j á desconfiava que você fosse infiel – disse ela, erguendo o preservativo. – E estava certa.

– Que ousadia m exer nas m inhas coisas!

– Que ousadia m e trair!

Ele ergueu a m ão.

– Eu deveria é dar uns tabefes em você, com o um m arido da era vitoriana.

Ela pegou um castiçal pesado no consolo da lareira.

– Se tentar, vou acertar você, com o um a esposa do século XX!

– Que situação ridícula. – Com um ar derrotado, ele se deixou cair sobre um a cadeira j unto à porta.

A evidente infelicidade do m arido fez a raiva de Daisy sum ir, e tudo o que ela sentiu foi tristeza. Sentou-se na cam a. No entanto, não havia perdido a curiosidade.

– Quem é ela?

Ele balançou a cabeça.

– Não im porta.

– Eu quero saber!

Ele se rem exeu, pouco à vontade.

– Faz diferença?

– Claro que faz. – Ela sabia que acabaria por fazê-lo contar.

Boy não conseguia encará-la.

– Ninguém que você conheça, nem que vá conhecer.

– Um a prostituta?

A sugestão o deixou ofendido.

– Não!

– Você dá dinheiro a ela? – insistiu Daisy .

– Não. Sim . – Ele obviam ente estava envergonhado o bastante para querer negar. – Bom , um a m esada. Não é a m esm a coisa.

– Por que dar dinheiro se ela não é prostituta?

– Para elas não precisarem ver m ais nenhum outro.

– Elas? Então você tem várias am antes?

– Não! Várias não, só duas. Elas m oram em Aldgate. São m ãe e filha.

– O quê? Você não pode estar falando sério.

– Bem , um dia Joanie estava... Elle avait les fleurs, com o dizem os franceses.

– As m oças am ericanas dizem “estar incom odada”.

– Então Pearl sugeriu...

– Ser a substituta? Mas essa é a coisa m ais sórdida do m undo! Quer dizer que você vai para a cam a com as duas?

– Vou.

Ela pensou no livro de fotografias e um a possibilidade chocante lhe ocorreu. Teve que perguntar:

– Ao m esm o tem po?

– Às vezes.

– Que noj o!

– Você não precisa se preocupar com doenças. – Ele apontou para o preservativo em sua m ão. – Esses negócios evitam infecções.

– Fico tocada com a sua atenção.

– A m aioria dos hom ens faz isso, sabe? Pelo m enos os da nossa classe social.

– Não faz, nada! – disse ela, m as pensou no próprio pai, que tinha um a esposa, um a am ante de longa data e, m esm o assim , sentia necessidade de sair com Glady s Angelus.

– Meu pai não é um m arido fiel. Tem filhos bastardos por toda parte.

– Não acredito em você. Acho que ele am a a sua m ãe.

– Pelo m enos um bastardo ele tem com certeza.

– Onde?

– Não sei.

– Então não pode ter certeza.

– Eu o ouvi dizer algum a coisa para Bing Westham pton um a vez. Você sabe com o é o Bing.

– Sei, sim – disse Daisy. Aquele parecia um bom m om ento para dizer a verdade, por isso acrescentou: – Ele apalpa m eu traseiro sem pre que tem oportunidade.

– Velho safado. Enfim , um dia estávam os todos m eio bêbados e Bing falou: “A m aioria de nós tem um ou dois filhos bastardos escondidos por aí, não é?”, e papai retrucou: “Eu tenho certeza de que só tenho um .” Então pareceu se dar conta do que tinha dito, tossiu e fez cara de bobo, depois m udou de assunto.

– Pouco m e im porta quantos filhos bastardos seu pai tem . Sou um a m ulher am ericana m oderna e não vou viver com um m arido infiel.

– O que vai fazer?

– Deixar você. – Ela adotou um a expressão desafiadora, m as a dor que sentiu foi com o se ele a tivesse apunhalado.

– E voltar para Buffalo com o rabo entre as pernas?

– Talvez. Ou então eu poderia fazer algum a outra coisa. Dinheiro não m e falta. – Na época do casam ento, os advogados do pai dela tinham garantido que Boy não pudesse pôr a m ão na fortuna dos Vy alov-Peshkov. – Poderia ir para a Califórnia. Atuar num dos film es do m eu pai. Virar um a estrela de cinem a. Aposto que conseguiria. – Aquilo era tudo fachada. Ela queria m esm o era chorar.

– Pois fique à vontade – disse ele. – Por m im , você pode ir para o inferno.

Ela se perguntou se aquilo era m esm o verdade. Ao observar a expressão dele, concluiu que não.

Eles ouviram um carro. Daisy afastou a cortina de blecaute alguns centím etros e viu o Rolls-Roy ce preto e crem e de Fitz em frente à casa, com os faróis parcialm ente tam pados por protetores que desviavam a luz para o chão.

– Seu pai chegou – disse ela. – Será que estam os em guerra?

– É m elhor descerm os.

– Vá na frente. Vou em seguida.

Boy saiu e Daisy se olhou no espelho. Ficou surpresa ao constatar que não estava nada diferente da m ulher que havia entrado naquele quarto m eia hora antes. Sua vida tinha virado de cabeça para baixo, m as não havia nada em seu rosto que denunciasse isso. Sentia um a pena horrível de si m esm a e tinha vontade de chorar, m as reprim iu esse im pulso. Reunindo todas as forças de que dispunha, desceu.

Fitz estava na sala de j antar, com o sm oking m olhado por gotas de chuva nos om bros. Com o o patrão havia pulado a sobrem esa, Grout lhe trouxe queij o e frutas. Reunida em volta da m esa, a fam ília viu o m ordom o servir a Fitz um a taça de vinho tinto. Depois de alguns goles, ele disse:

– Foi um horror.

– O que aconteceu, afinal? – perguntou Andy .

Fitz com eu a ponta de um queij o cheddar antes de responder.

– Neville discursou por quatro m inutos. Foi o pior desem penho de um prim eiro-m inistro que j á vi. Ficou balbuciando e se esquivando do assunto, e disse que a Alem anha talvez saia da Polônia, algo em que ninguém acredita. Não falou um a palavra sequer sobre a guerra, nem m esm o sobre um ultim ato.

– Mas por quê? – indagou Andy .

– Em conversas particulares, Neville diz que está esperando os franceses pararem de hesitar e declararem guerra ao m esm o tem po que nós. Mas várias pessoas desconfiam que isso sej a apenas um a desculpa covarde.

Fitz tom ou um gole de vinho.

– Arthur Greenwood pediu a palavra em seguida. – Greenwood era o vice-líder do Partido Trabalhista no Parlam ento. – Quando ele se levantou, Leo Am ery, que com o vocês sabem é um deputado conservador, gritou: “Fale em nom e da Inglaterra, Arthur!” Pensar que um m aldito socialista pudesse falar pela Inglaterra quando um prim eiro-m inistro conservador não conseguiu! Neville parecia um cachorro que acabara de levar um chute.

Grout tornou a encher a taça de Fitz.

– Greenwood foi bastante m oderado, m as chegou a dizer: “Fico m e perguntando por quanto tem po estam os preparados para vacilar”, e ao ouvir isso os deputados de am bos os lados do plenário aplaudiram estrondosam ente. Acho que Neville queria que um buraco se abrisse no chão para que ele pudesse sum ir. – Fitz pegou um pêssego e com eçou a fatiá-lo com garfo e faca.

– E em que pé ficaram as coisas? – quis saber Andy .

– Nada está resolvido! Neville voltou para sua residência na Downing Street. Mas a m aior parte do Gabinete está reunida na sala de Sim on na Câm ara dos Com uns. – Sir John Sim on era o m inistro da Fazenda. – Estão dizendo que só sairão de lá quando Neville enviar um ultim ato aos alem ães. Enquanto isso, o Com itê Executivo Nacional do Partido Trabalhista tam bém está reunido, e os outros deputados insatisfeitos que não têm função m inisterial vão se reunir no apartam ento de Winston.

Daisy nunca gostara de política, m as, desde que entrara para a fam ília de Fitz e passara a ver tudo de perto, com eçara a se interessar pelo assunto e estava achando aquela situação toda fascinante e assustadora.

– Então o prim eiro-m inistro tem que agir! – exclam ou.

– Ah, não há dúvida – concordou Fitz. – Antes da próxim a sessão do Parlam ento, que deve acontecer ao m eio-dia de am anhã, Neville tem que declarar guerra ou então renunciar.

O telefone tocou no corredor e Grout foi atender. Um m inuto depois, tornou a entrar na sala e disse:

– Era do Ministério das Relações Exteriores, m ilorde. O cavalheiro não quis esperar que o senhor atendesse, m as insistiu em deixar recado. – O velho m ordom o parecia desconcertado, com o se tivessem lhe falado com algum a rispidez. – O prim eiro-m inistro convocou um a reunião im ediata do Gabinete.

– Ação! – exclam ou Fitz. – Ótim o.

Grout prosseguiu:

– O m inistro das Relações Exteriores gostaria que o senhor com parecesse, se possível. – Fitz não fazia parte do Gabinete, m as às vezes m inistros-adj untos eram convidados a assistir a reuniões que tivessem a ver com sua pasta, e ficavam sentados na lateral da sala, e não ao redor da m esa central, para poderem esclarecer algum detalhe.

Bea olhou para o relógio.

– São quase onze horas. Acho que você tem que ir.

– Sim , tenho m esm o. A expressão “se possível” é m era form alidade. – Ele enxugou a boca com um guardanapo branco feito neve e tornou a se retirar, m ancando.

– Grout, faça m ais um pouco de café e leve até a sala de estar – pediu a princesa Bea. – Talvez fiquem os acordados até tarde.

– Sim , alteza.

Todos voltaram para a sala de estar conversando anim adam ente. Eva era a favor da guerra: queria ver o regim e nazista aniquilado. É claro que ficaria preocupada com Jim m y , m as havia se casado com um soldado e sem pre soubera que ele teria de arriscar a vida em com bate. Bea tam bém era a favor da guerra, agora que os alem ães haviam se aliado aos bolcheviques, que ela tanto odiava. May tem ia pela vida de Andy, e não conseguia parar de chorar. Boy não entendia por que duas grandes nações com o a Inglaterra e a Alem anha entrariam em guerra por causa de um a terra sem ibárbara com o a Polônia.

Assim que pôde, Daisy cham ou Eva para acom panhá-la até outro côm odo, a fim de conversarem a sós.

– Boy tem um a am ante – disse ela sem rodeios. Mostrou os preservativos para a am iga. – Encontrei isto aqui.

– Ah, Daisy , eu sinto m uito – com entou Eva.

Daisy pensou em lhe contar os detalhes sórdidos, pois as duas em geral diziam tudo um a à outra, m as dessa vez estava se sentindo hum ilhada dem ais, por isso disse apenas:

– Eu o pressionei e ele confessou.

– Está arrependido?

– Não m uito. Segundo ele, todos os hom ens de sua classe social fazem isso, inclusive o pai dele.

– Jim m y não – disse Eva, enfática.

– Não, tenho certeza de que você tem razão.

– E o que você vai fazer?

– Vou deixá-lo. Podem os nos divorciar, e então outra m ulher pode ser a viscondessa.

– Mas você não pode fazer isso se houver um a guerra!

– Por que não?

– Vai ser cruel dem ais se ele estiver no front.

– Ele deveria ter pensado nisso antes de dorm ir com duas prostitutas de Aldgate.

– Mas seria um a covardia. Você não pode abandonar um hom em que está arriscando a vida para protegê-la.

Em bora relutante, Daisy entendeu o que Eva estava dizendo. A guerra iria transform ar Boy de um adúltero desprezível que m erecia ser rej eitado em um herói que estava defendendo a m ulher, a m ãe e a pátria do terror de um a invasão e de um a conquista. O problem a não era apenas o fato de que todo m undo em Londres e em Buffalo veria Daisy com o um a covarde por tê-lo deixado. Ela m esm a se sentiria assim . Se um a guerra estourasse, teria de ser coraj osa, em bora não soubesse m uito bem o que isso significava.

– Tem razão – falou, de m á vontade. – Se houver guerra, não poderei deixá-lo.

Houve um a trovoada lá fora. Daisy olhou para o relógio: m eia-noite. O barulho da chuva se m odificou quando esta se transform ou em tem poral.

Daisy e Eva voltaram para a sala. Bea havia pegado no sono num sofá. Andy envolvia May com os braços. Ela ainda fungava. Boy fum ava um charuto e bebia um conhaque. Daisy decidiu que com certeza iria dirigir na volta.

Fitz chegou em casa à m eia-noite e m eia, com o sm oking encharcado.

– Acabou a hesitação – inform ou. – Neville vai enviar um ultim ato aos alem ães pela m anhã. Se eles não com eçarem a retirar as tropas da Polônia ao m eio-dia, ou sej a, às onze horas daqui, entrarem os em guerra.

Todos se levantaram e se prepararam para ir em bora. No hall, Daisy falou:

– Eu dirij o.

Boy não discutiu. Os dois entraram no Bentley crem e e Daisy deu a partida. Grout fechou a porta da casa de Fitz. Daisy ligou os lim padores de para-brisa, m as não saiu com o carro.

– Boy – disse ela –, vam os tentar outra vez.