Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 34 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo III

Woody Dewar reencontrou Joanne Rouzrokh depois de quatro anos.

Ninguém que conhecesse o pai dela acreditava de fato que ele houvesse tentado estuprar um a atriz iniciante no Hotel Ritz-Carlton. A m oça havia retirado a queixa. No entanto, essa era um a notícia sem graça e os j ornais não deram m uito destaque a ela. Consequentem ente, para os m oradores de Buffalo, Dave continuava sendo um estuprador. Assim , os pais de Joanne tinham se m udado para Palm Beach, e Woody perdera contato.

O reencontro aconteceu na Casa Branca.

Woody estava com o pai, o senador Gus Dewar, a cam inho de um a audiência com o presidente. Com o seu pai e Franklin D. Roosevelt eram am igos de longa data, Woody j á o havia encontrado em diversas ocasiões. Mas sem pre em eventos sociais, nos quais Roosevelt apertara sua m ão e perguntara com o iam os estudos. Aquela seria a prim eira vez que o rapaz participaria de um a reunião política de verdade com o presidente.

Pai e filho entraram pelo portão principal da West Wing – a ala oeste da Casa Branca –, passaram pelo saguão principal e chegaram a um a am pla sala de espera. E lá estava ela.

Woody a encarou, encantado. Joanne não tinha m udado quase nada. O rosto estreito e altivo e o nariz adunco ainda a faziam parecer a sum a sacerdotisa de algum a antiga religião. Com o de hábito, ela estava usando roupas sim ples que produziam um efeito m arcante: um terninho azul-escuro de tecido leve e um chapéu de palha de aba larga da m esm a cor. Woody ficou contente por ter posto um a cam isa branca lim pa e sua gravata listrada nova.

Ela pareceu alegre em vê-lo.

– Você está ótim o! – falou. – Trabalha aqui na capital agora?

– Estou apenas aj udando m eu pai durante o verão – respondeu ele. – Ainda não m e form ei em Harvard.

Ela se virou para Gus e o cum prim entou em tom respeitoso.

– Boa tarde, senador.

– Olá, Joanne.

Woody estava em polgado por ter encontrado com ela. Quis m anter a conversa.

– E você, o que está fazendo aqui? – indagou.

– Eu trabalho no Departam ento de Estado.

Woody assentiu. Aquilo explicava a deferência a seu pai. Ela havia ingressado num m undo em que as pessoas tratavam o senador Dewar com respeito.

– O que você faz? – perguntou ele.

– Sou assessora de um assessor. Meu chefe está com o presidente agora, m as m eu posto é hum ilde dem ais para que eu entre com ele.

– Você sem pre se interessou por política. Lem bro-m e de um a discussão sobre lincham ento.

– Tenho saudades de Buffalo. Com o nós nos divertíam os!

Woody se lem brou de quando os dois se beij aram no baile do Clube de Tênis e sentiu o rosto corar.

– Minhas lem branças a seu pai – disse Gus, dando a entender que precisavam ir.

Woody cogitou pedir o telefone dela, m as Joanne foi m ais rápida:

– Eu adoraria vê-lo outra vez, Woody .

Ele ficou encantado.

– Claro!

– Está livre hoj e à noite? Convidei alguns am igos para uns drinques.

– Ótim a ideia!

Ela lhe deu o endereço, um prédio residencial não m uito longe dali, e em seguida Gus o conduziu apressado por um a porta no outro lado do saguão.

– Não se m anifeste a m enos que o presidente fale diretam ente com você – instruiu Gus.

O rapaz tentou se concentrar no encontro im inente. Um terrem oto político havia atingido a Europa: contrariando todas as expectativas, a União Soviética assinara um pacto de não agressão com a Alem anha nazista. O pai de Woody era um dos principais integrantes do Com itê de Relações Exteriores do Senado e o presidente queria sua opinião.

Gus Dewar, por sua vez, tinha outro assunto a tratar. Queria convencer Roosevelt a ressuscitar a Liga das Nações.

Seria difícil vender essa ideia ao presidente. Os Estados Unidos nunca haviam feito parte da Liga, que não era m uito apreciada pelos am ericanos. A organização fracassara lam entavelm ente ao tentar contornar as crises dos anos 1930: as agressões j aponesas no Extrem o Oriente, o im perialism o italiano na África, as ocupações nazistas na Europa, o desm oronam ento da dem ocracia na Espanha. Apesar disso, Gus estava decidido a tentar. Woody sabia que aquele sem pre fora o sonho de seu pai: um conselho m undial para solucionar conflitos e evitar guerras.

Woody apoiava o pai com pletam ente. Chegara a fazer um discurso sobre isso num debate em Harvard. Quando duas nações entravam em conflito, a pior atitude possível era m atar pessoas do país adversário. Isso lhe parecia bastante óbvio.

– É claro que entendo por que isso acontece – dissera ele no debate. – Assim com o entendo por que bêbados arrum am confusão. Mas nem por isso essa atitude deixa de ser irracional.

Agora, porém , Woody estava achando difícil pensar na am eaça de guerra na Europa. Todos os antigos sentim entos que nutria por Joanne vieram à tona num a enxurrada. Pensou se ela tornaria a beij á-lo – quem sabe nessa m esm a noite. Sem pre gostara dele e ainda parecia gostar – caso contrário, por que o convidaria para a festa? Em 1935, ela não quisera sair com ele porque Woody tinha 15 anos e ela, 18. Era com preensível, em bora na época ele não pensasse assim . Agora, porém , am bos estavam quatro anos m ais velhos e a diferença de idade j á não pareceria tão grande – pareceria? Ele torceu para que não. Já tinha saído com outras m oças em Buffalo e em Harvard, m as nenhum a delas lhe despertara a m esm a paixão arrebatadora que sentira por Joanne.

– Estam os entendidos? – perguntou-lhe o pai.

Woody se sentiu bobo. Seu pai estava prestes a fazer ao presidente um a proposta que poderia resultar na paz m undial, e tudo em que ele conseguia pensar era beij ar Joanne.

– Claro – respondeu. – Não vou dizer nada a m enos que ele fale com igo prim eiro.

Um a m ulher alta e m agra de 40 e poucos anos entrou na sala, com a atitude relaxada e confiante de quem era dona do lugar. Woody reconheceu Marguerite LeHand, carinhosam ente cham ada de Missy, secretária de Roosevelt. Missy tinha um rosto com prido e m asculino, nariz grande e alguns fios brancos em m eio aos cabelos escuros. Ela recebeu Gus com um sorriso caloroso.

– Que prazer revê-lo, senador.

– Com o vai, Missy ? Lem bra-se do m eu filho Woodrow?

– Lem bro, sim . O presidente está esperando por vocês.

A devoção de Missy a Roosevelt era notória. Segundo as fofocas de Washington, o presidente gostava m ais dela do que convinha a um hom em casado. Graças a com entários velados, porém reveladores, que entreouvira num a conversa dos pais, Woody sabia que a paralisia de Roosevelt não com prom etia seus órgãos sexuais. No entanto, sua esposa, Eleanor, se recusava a dorm ir com ele desde que dera à luz o sexto filho do casal, m ais de vinte anos antes. Talvez o presidente tivesse direito a um a secretária afetuosa.

Missy os fez passar por outra porta e por um corredor estreito, e eles chegaram ao Salão Oval.

O presidente estava sentado em frente a um a m esa, de costas para um a bay window alta. As persianas fechadas filtravam o sol de agosto que entrava pelas vidraças orientadas para o sul. Roosevelt ocupava um a cadeira de escritório norm al, observou Woody, e não sua cadeira de rodas. Vestia terno branco e fum ava um cigarro preso a um a piteira.

Não chegava a ser um hom em atraente. Tinha entradas nos cabelos, queixo pontudo e usava um pincenê que fazia seus olhos parecerem excessivam ente próxim os. Apesar disso, exercia um a atração instantânea com seu sorriso cativante, a m ão estendida para um cum prim ento e o tom de voz sim pático.

– Que bom ver você, Gus, pode entrar.

– Sr. Presidente, lem bra-se de Woodrow, m eu filho m ais velho?

– É claro que m e lem bro. Com o está indo em Harvard, Woody ?

– Bem , presidente, obrigado. Faço parte do grupo de debates. – Ele sabia que os políticos m uitas vezes tinham o dom de parecer conhecer todo m undo intim am ente. Das duas, um a: ou tinham um a m em ória notável, ou suas secretárias eram m uito eficientes.

– Eu tam bém estudei em Harvard. Sentem -se, sentem -se. – Roosevelt retirou a guim ba do cigarro da piteira e a apagou em um cinzeiro j á lotado. – Gus, o que está acontecendo na Europa?

É claro que o presidente sabia o que estava acontecendo, pensou Woody. Dispunha de todo um Departam ento de Estado para m antê-lo inform ado. Mas ele queria ouvir a análise de Gus.

– Na m inha opinião, a Alem anha e a Rússia continuam sendo inim igas m ortais – disse o pai de Woody .

– É o que todos acham os. Mas então por que assinar o pacto?

– A curto prazo, é conveniente para am bos os lados. Stalin precisa de tem po. Ele quer reforçar o Exército Verm elho para conseguir derrotar os alem ães, se a situação chegar a esse ponto.

– E o outro?

– Hitler claram ente está a ponto de fazer algum a coisa na Polônia. A im prensa alem ã está cheia de m atérias ridículas sobre com o os poloneses andam m altratando a população de origem alem ã do país. Hitler não fom enta o ódio sem um obj etivo. Sej a lá o que for que estej a tram ando, ele não quer que os soviéticos atrapalhem . Daí o pacto.

– É m ais ou m enos o que Hull acha. – Cordell Hull era o secretário de Estado. – Mas ele não sabe o que vai acontecer agora. Stalin vai deixar Hitler fazer o que quiser?

– Meu palpite é que eles vão dividir a Polônia entre si nas próxim as sem anas.

– E depois?

– Há algum as horas os britânicos assinaram um novo tratado com os poloneses prom etendo aj udá-los caso eles sej am atacados.

– Mas o que eles podem fazer?

– Nada, presidente. A Marinha, a Força Aérea e o Exército britânicos não têm nenhum poder para im pedir a Alem anha de invadir a Polônia.

– O que você acha que nós devem os fazer, Gus? – indagou o presidente.

Woody sabia que aquela era a chance de seu pai. Por alguns m inutos, tinha toda a atenção do presidente. Um a rara oportunidade para fazer algo acontecer. Discretam ente, Woody cruzou os dedos.

Gus se inclinou para a frente.

– Nós não querem os que nossos filhos tenham que ir à guerra com o nós fom os. – Roosevelt tinha quatro filhos hom ens na casa dos 20 e dos 30 anos. Foi então que Woody percebeu por que estava ali: tinha sido levado àquela reunião para fazer o presidente pensar nos próprios filhos. – Não podem os m andar garotos am ericanos para serem m assacrados na Europa outra vez – disse Gus, com a voz calm a. – O m undo precisa de um a força policial.

– O que você tem em m ente? – perguntou Roosevelt, num tom de quem não estava se com prom etendo.

– A Liga das Nações não é um fracasso tão grande quanto as pessoas pensam . Na década de 1920, ela solucionou um a disputa de fronteira entre a Finlândia e a Suécia e outra entre a Turquia e o Iraque. – Gus foi contando os exem plos nos dedos. – Im pediu a Grécia e a Iugoslávia de invadirem a Albânia, e convenceu a Grécia a sair da Bulgária. Tam bém enviou um a força de paz para acabar com as hostilidades entre Colôm bia e Peru.

– Tudo isso é verdade. Mas nos anos 1930...

– A Liga não teve força suficiente para resistir à agressão fascista. Não é de espantar. Com o o Congresso se recusou a ratificar a carta de intenções, ela j á nasceu enfraquecida, de m odo que os Estados Unidos nem se tornaram m em bros. Nós precisam os de um a nova versão da Liga, um a versão am ericana, que tenha poder para agir. – Gus fez um a pausa. – Sr. Presidente, é cedo dem ais para desistirm os de um m undo pacífico.

Woody prendeu a respiração. Roosevelt assentiu, m as Woody sabia que ele sem pre fazia isso. Era raro o presidente discordar abertam ente de alguém . Ele detestava confrontos. Era preciso tom ar cuidado para não interpretar seu silêncio com o consentim ento, ouvira Gus dizer. Não se atreveu a olhar para o pai, m as pôde sentir a tensão no ar.

Por fim , o presidente falou:

– Acho que você tem razão.

Woody precisou se controlar para não gritar de alegria. O presidente tinha concordado! Olhou para o pai. Em geral im passível, Gus m al conseguia conter a própria surpresa. Fora um a vitória tão rápida!

O senador então prosseguiu depressa para consolidá-la:

– Nesse caso, posso sugerir que Cordell Hull e eu redij am os um a proposta para o senhor avaliar?

– Hull está m uito ocupado. Fale com Welles.

Sum ner Welles era o subsecretário de Estado. Era am bicioso e extravagante, e Woody sabia que essa não teria sido a prim eira escolha de seu pai. Mas Welles era um velho am igo da fam ília Roosevelt – tinha sido paj em no casam ento do presidente.

De toda form a, Gus não iria criar dificuldades naquele ponto.

– Naturalm ente – concordou.

– Algo m ais?

Era um a dispensa clara. Gus se levantou e Woody o im itou.

– E sua m ãe, presidente, a Sra. Roosevelt? – indagou Gus. – Ouvi dizer que ela estava na França.

– O navio dela zarpou ontem , graças a Deus.

– Fico contente em saber.

– Obrigado por ter vindo – disse Roosevelt. – Prezo m uito a sua am izade, Gus.

– Nada poderia m e dar m ais satisfação, presidente – respondeu o senador. Ele apertou a m ão de FDR e Woody fez o m esm o.

Então os dois saíram .

Woody tinha um a leve esperança de que Joanne ainda estivesse por lá, m as ela j á tinha ido em bora.

Quando estavam saindo da Casa Branca, Gus falou:

– Vam os tom ar um drinque para com em orar.

Woody olhou para o relógio. Eram cinco da tarde.

– Claro – respondeu.

Foram ao Old Ebbitt’s, na Rua F, perto da 15. O lugar tinha j anelas de vitral, veludo verde, lum inárias de bronze e troféus de caça. O bar estava apinhado de deputados, senadores e seus acom panhantes de praxe: assessores, lobistas, j ornalistas. Gus pediu um m artíni com raspa de lim ão para si e um a cervej a para Woody. O rapaz sorriu: talvez tivesse preferido um m artíni. Na verdade, não – para ele, aquele drinque tinha gosto de gim gelado –, m as gostaria de ter sido consultado. Apesar disso, ergueu o copo de cervej a e disse:

– Parabéns. Você conseguiu o que queria.

– É do que o m undo precisa.

– Sua argum entação foi brilhante.

– Roosevelt quase não precisou ser convencido. Apesar de liberal, ele é um hom em pragm ático. Sabe que não é possível fazer tudo, que é preciso escolher as batalhas que se pode ganhar. Sua prioridade é o New Deal: conseguir que os desem pregados voltem ao trabalho. Ele não vai fazer nada que interfira com essa m issão principal. Se o m eu plano se tornar polêm ico a ponto de incom odar seus partidários, ele vai desistir.

– Quer dizer que ainda não ganham os nada.

Gus sorriu.

– Dem os o prim eiro passo m uito im portante. Mas não, ainda não ganham os nada.

– Que pena que ele obrigou o senhor a engolir Welles.

– Não é de todo ruim . Sum ner apoia o proj eto. Ele é m ais próxim o do presidente do que eu. Mas é um hom em im previsível. Pode pegar o proj eto e dar a ele um rum o totalm ente diferente.

Woody passeou os olhos pelo bar e topou com um rosto conhecido.

– Olhe só quem está aqui. Eu deveria ter adivinhado.

Seu pai olhou na m esm a direção que ele.

– Em pé, no bar – disse Woody. – Com uns caras m ais velhos de chapéu e um a loura. Greg Peshkov. – Com o sem pre, apesar das roupas caras, Greg estava um trapo: gravata de seda torta, cam isa saindo para fora da calça crem e, suj a de cinza de cigarro. Mesm o assim , a loura o encarava com um ar de adoração.

– É m esm o – com entou Gus. – Você o vê com frequência em Harvard?

– Ele estuda física, m as não anda m uito com os cientistas... im agino que esse círculo deva ser m açante dem ais para ele. Nós sem pre nos vem os no Crimson. – O Harvard Crimson era o j ornal dos alunos. Woody contribuía com fotos e Greg escrevia m atérias. – Ele está estagiando no Departam ento de Estado durante o verão. É por isso que está aqui.

– Na assessoria de im prensa, suponho – disse Gus. – Os dois hom ens que estão com ele são j ornalistas. O de terno m arrom trabalha para o Tribune, de Chicago, e o que está fum ando cachim bo é do Plain Dealer, de Cleveland.

Woody notou que Greg conversava com os j ornalistas com o se fossem velhos am igos, segurando o braço de um deles enquanto se inclinava para a frente e dizia algum a coisa em voz baixa, e dando tapinhas nas costas do outro. Os dois pareciam gostar dele, pensou Woody ao vê-los rir alto de algo que Greg dissera. Invej ava esse talento. Era bem útil para um político, em bora talvez não fosse fundam ental: seu pai não possuía esse tipo de sim patia espontânea, m as era um dos estadistas m ais im portantes dos Estados Unidos.

– Fico im aginando o que a m eia-irm ã dele está achando da am eaça de guerra – com entou Woody . – Ela está em Londres. Casou-se com algum lorde inglês.

– Para ser m ais exato, ela se casou com o prim ogênito do conde Fitzherbert, que eu conhecia bem .

– Todas as m oças de Buffalo m orrem de invej a dela. O rei foi ao casam ento.

– Eu tam bém conhecia Maud, irm ã de Fitzherbert... um a m ulher m aravilhosa. Casou-se com um alem ão, Walter von Ulrich. Eu teria m e casado com ela se Walter não tivesse chegado prim eiro.

Woody arqueou as sobrancelhas. Não era do feitio de seu pai falar assim .

– Mas isso foi antes de eu m e apaixonar pela sua m ãe, claro.

– Claro. – Woody reprim iu um sorriso.

– Walter e Maud sum iram do m apa depois que Hitler baniu os social-dem ocratas. Espero que estej am bem . Se estourar um a guerra...

Woody viu que falar sobre a guerra havia despertado as lem branças do pai.

– Pelo m enos os Estados Unidos não estão envolvidos.

– Foi isso que pensam os da últim a vez. – Gus então m udou de assunto: – Tem notícias de seu irm ão?

Woody deu um suspiro.

– Ele não vai m udar de ideia, pai. Não vai para Harvard nem para nenhum a outra universidade.

Aquilo havia gerado um a crise fam iliar. Chuck anunciara que, assim que com pletasse 18 anos, entraria para a Marinha. Com o não tinha diplom a universitário, seria um sim ples recruta, sem qualquer perspectiva de um dia se tornar oficial. Isso era m otivo de horror para seus pais bem -sucedidos.

– Que droga, ele é inteligente o bastante para a universidade – disse Gus.

– Ele ganha de m im no xadrez.

– De m im tam bém . Qual é o problem a, então?

– Ele detesta estudar. E adora barcos. Velej ar é sua única paixão. – Woody olhou para o relógio.

– Você tem um a festa – com entou seu pai.

– Não há pressa...

– Claro que há. Ela é um a m oça m uito atraente. Dê o fora daqui.

Woody sorriu. Seu pai podia ser surpreendentem ente perspicaz.

– Obrigado, pai – disse e levantou-se.

Greg Peshkov estava saindo na m esm a hora e os dois passaram j untos pela porta.

– Oi, Woody, com o vão as coisas? – perguntou Greg, sim pático, virando-se na m esm a direção que ele.

Houvera um a época em que a vontade de Woody era dar um soco em Greg por causa de seu envolvim ento no golpe planej ado contra Dave Rouzrokh. No entanto, com o passar do tem po, seus ânim os se acalm aram , e na verdade o responsável fora Lev Peshkov, não seu filho, que na época só tinha 15 anos. Ainda assim , Woody m ostrou-se apenas educado.

– Estou gostando de Washington – respondeu, andando por um dos am plos bulevares em estilo parisiense da cidade. – E você?

– Tam bém gosto daqui. Eles logo se acostum aram com m eu sobrenom e. – Ao ver a expressão de incom preensão de Woody, Greg explicou: – O Departam ento de Estado só tem gente cham ada Sm ith, Faber, Jensen, McAllister. Ninguém se cham a Kozinsky, Cohen ou Papadopoulos.

Woody percebeu que era verdade. O governo era adm inistrado por um a elite étnica bastante exclusiva. Por que não percebera isso antes? Talvez porque na escola, na igrej a e em Harvard tam bém fosse assim .

– Mas eles não têm a m ente fechada – continuou Greg. – Estão dispostos a abrir um a exceção para alguém que fala russo fluentem ente e vem de um a fam ília rica.

Greg estava tentando parecer casual, m as no fundo sua voz tinha um tom de ressentim ento, e Woody viu que o outro rapaz tinha um sério recalque.

– Eles acham que m eu pai é um gângster – disse Greg. – Mas não se im portam m uito com isso. A m aioria dos ricos tem algum gângster entre seus antepassados.

– Pelo m odo com o fala, parece que você detesta Washington.

– Pelo contrário! Não gostaria de estar em nenhum outro lugar. É aqui que está o poder.

Woody teve a sensação de que as suas próprias m otivações eram m ais nobres.

– Eu estou aqui porque há coisas que desej o realizar, m udanças que quero fazer.

Greg sorriu.

– A m esm a coisa, na m inha opinião... poder.

– Hum m . – Woody nunca tinha pensado na questão dessa form a.

– Você acha que vai haver guerra na Europa? – perguntou Greg.

– Você deveria saber, j á que trabalha no Departam ento de Estado.

– Sim , m as sou da assessoria de im prensa. Só sei as historinhas que contam os aos j ornalistas. Não tenho a m enor ideia da verdade.

– Ora, eu tam bém não. Acabei de ver o presidente e acho que nem ele tem .

– Daisy , m inha irm ã, está lá.

O tom de Greg havia m udado. Estava claro que seu m edo era genuíno e Woody sentiu em patia por ele.

– Eu sei.

– Se houver bom bardeios, nem m esm o as m ulheres e as crianças estarão seguras. Você acha que os alem ães vão atacar Londres?

Só havia um a resposta honesta para essa pergunta:

– Im agino que sim .

– Queria que ela voltasse para casa.

– Pode ser que não haj a guerra. O prem ier britânico, Cham berlain, fez um acordo de últim a hora com Hitler no ano passado em relação à Tchecoslováquia...

– Um a capitulação de últim a hora, você quer dizer.

– É. Talvez ele faça a m esm a coisa em relação à Polônia... em bora o tem po estej a se esgotando.

Greg assentiu com o sem blante fechado, e m udou de assunto.

– Para onde você está indo?

– Para o apartam ento de Joanne Rouzrokh. Ela está dando um a festa.

– Ouvi dizer. Conheço um a das m oças que m oram com ela. Mas não fui convidado, com o você pode im aginar. O prédio dela é... m eu Deus! – Ele parou no m eio da frase.

Woody tam bém parou. Greg tinha os olhos fixos à frente. Ao seguir seu olhar, Woody viu que ele fitava um a negra atraente que cam inhava pela Rua E na sua direção. Tinha m ais ou m enos a m esm a idade que eles e era bonita, com um a boca larga de lábios castanho-rosados que fez Woody pensar em beij os. Usava um vestido preto sim ples que talvez fizesse parte de um uniform e de garçonete, m as um belo chapéu e sapatos da m oda lhe davam um visual elegante.

Ela viu os dois, seus olhos encontraram os de Greg e se desviaram para outro lado.

– Jacky ? – disse Greg. – Jacky Jakes?

A m oça o ignorou e continuou andando, m as, na opinião de Woody , parecia abalada.

– Jacky , sou eu, Greg Peshkov.

Jacky, se é que esse era m esm o o nom e dela, não respondeu, m as parecia prestes a cair em prantos.

– Jacky... seu nom e verdadeiro é Mabel. Você m e conhece! – Greg postou-se no m eio da calçada com os braços bem abertos, num gesto de súplica.

A m oça se desviou dele deliberadam ente, sem dizer nada nem encará-lo, e seguiu andando.

Greg se virou.

– Espere aí! – cham ou. – Você fugiu de m im há quatro anos... m e deve um a explicação!

Aquilo não era típico de Greg, pensou Woody. Ele sem pre fora m uito desenvolto com as garotas, tanto na escola quanto em Harvard. Agora parecia genuinam ente abalado: perplexo, m agoado, quase desesperado.

Quatro anos antes, refletiu Woody. Será que aquela era a m esm a garota do escândalo? Tudo acontecera ali m esm o, em Washington. A m oça sem dúvida devia m orar na cidade.

Greg correu atrás dela. Um táxi havia parado na esquina, e o passageiro, um hom em de sm oking, estava em pé j unto ao m eio-fio pagando o m otorista. Jacky se enfiou no táxi e bateu a porta.

Greg foi até a j anela e gritou diante do vidro fechado:

– Fale com igo, por favor!

– Pode ficar com o troco – falou o hom em do sm oking e em seguida se afastou.

O táxi foi em bora, e Greg ficou para trás, olhando.

Voltou lentam ente para onde Woody o aguardava intrigado.

– Não entendo – disse Greg.

– Ela parecia assustada – disse Woody .

– Assustada por quê? Eu nunca lhe fiz m al. Era louco por ela.

– Bem , ela estava com m edo de algum a coisa.

Greg pareceu sair de seu transe.

– Desculpe – falou. – De todo m odo, não é problem a seu. Mil desculpas.

– Não tem problem a.

Greg apontou para um edifício alguns passos adiante.

– Joanne m ora naquele prédio ali – falou. – Divirta-se. – Então foi em bora.

Meio confuso, Woody cam inhou até a portaria. No entanto, logo esqueceu a vida afetiva de Greg e com eçou a pensar na sua. Será que Joanne gostava m esm o dele? Talvez ela não o beij asse nesse dia, m as quem sabe ele poderia convidá-la para sair?

Aquele era um edifício m odesto, sem porteiro nem carregador. Um a lista na entrada inform ava que Rouzrokh dividia o apartam ento com Stewart e Fisher, provavelm ente duas outras m oças. Woody pegou o elevador. Deu-se conta de que estava de m ãos abanando: deveria ter levado um doce ou flores. Pensou em voltar para com prar algum a coisa, m as depois decidiu que isso seria exagerar nas boas m aneiras. Tocou a cam painha.

Um a m oça de 20 e poucos anos abriu a porta.

– Oi, m eu nom e é... – com eçou Woody .

– Pode entrar – disse ela, sem querer saber seu nom e. – As bebidas estão na cozinha e a com ida na m esa da sala, se é que sobrou algum a coisa. – Ela virou as costas, claram ente pensando que aquilo bastava com o boas-vindas.

O pequeno apartam ento estava cheio de pessoas bebendo, fum ando e gritando um as com as outras para se fazer ouvir acim a do som do fonógrafo. Joanne dissera “alguns am igos”, e Woody im aginara oito ou dez j ovens sentados em volta de um a m esa de centro conversando sobre a crise na Europa. Ficou decepcionado: aquela festa lotada não lhe daria m uita chance de provar a Joanne quanto ele havia am adurecido.

Correu os olhos pelo apartam ento, procurando por ela. Era m ais alto do que a m aioria das outras pessoas e podia ver por cim a das cabeças. Joanne não estava por perto. Foi abrindo cam inho por entre os convidados para tentar encontrá-la. Um a m oça de seios volum osos e belos olhos castanhos o encarou quando ele se esprem eu para passar por ela e disse:

– Olá, grandão. Eu sou Diana Taverner. E você?

– Estou procurando Joanne – respondeu ele.

Ela deu de om bros.

– Boa sorte, então. – E virou-lhe as costas.

Woody conseguiu chegar à cozinha. O barulho dim inuiu um pouco. Joanne não estava à vista, m as ele resolveu aproveitar que estava ali e pegar um a bebida. Um hom em de om bros largos e cerca de 30 anos sacudia um a coqueteleira. Bem -vestido com um terno m ostarda, um a cam isa azul-clara e um a gravata azul-escura, ele obviam ente não era barm an, m as estava se com portando com o um anfitrião.