Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 108 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

Chuck se agachou.

– Vai doer – avisou. – Pode gritar quanto quiser.

Passou o braço direito por baixo do om bro de Eddie e o esquerdo sob suas coxas. Sustentou o peso e se levantou. Quando a perna estraçalhada ficou pendurada, Eddie urrou de dor.

– Aguente firm e, cara – disse Chuck. Então se virou em direção à água.

De repente, sentiu um a dor insuportável nas pernas, nas costas e na cabeça. Na fração de segundo seguinte, pensou que não podia deixar Eddie cair. Um m om ento depois, soube que iria deixar. Um clarão de luz o cegou.

E então o m undo se acabou.

 

V

Em seu dia de folga, Carla foi trabalhar no Hospital Judaico.

O Dr. Rothm ann a convencera a fazer isso. Tinha sido liberado do cam po – ninguém sabia por quê, só os nazistas, e estes não davam inform ações a ninguém . Apesar de ter perdido um olho e de agora m ancar, ele estava vivo e ainda era capaz de exercer a m edicina.

O hospital ficava em Wedding, bairro de classe operária ao norte do centro da cidade, no entanto não havia nada de proletário em sua arquitetura. Fora construído antes da Prim eira Guerra Mundial, quando os j udeus de Berlim ainda eram prósperos e orgulhosos. Era form ado por sete prédios elegantes situados em m eio a um vasto j ardim . Os diferentes setores eram interligados por túneis, para que os pacientes e funcionários pudessem transitar entre eles sem ter que enfrentar o clim a.

Era um verdadeiro m ilagre ainda haver um Hospital Judaico. Restavam pouquíssim os j udeus em Berlim . Milhares deles haviam sido presos e deportados em trens especiais. Ninguém sabia para onde tinham ido nem qual fora seu fim . Circulavam boatos espantosos sobre cam pos de exterm ínio.

Quando ficavam doentes, os poucos j udeus que continuavam em Berlim não podiam ser tratados por m édicos e enferm eiras arianos. Assim , pela lógica deturpada dos nazistas, o hospital pôde continuar em funcionam ento. A m aior parte de sua equipe era com posta por j udeus e outros desafortunados que não eram considerados propriam ente arianos: eslavos do Leste Europeu, pessoas de origem m estiça ou casadas com j udeus. No entanto, não havia enferm eiras suficientes, por isso Carla ia aj udar.

O hospital vivia sendo im portunado pela Gestapo. Faltava m aterial, sobretudo rem édios. Havia poucos funcionários e quase nenhum dinheiro.

Carla estava burlando a lei ao m edir a tem peratura de um m enino de 11 anos cuj o pé fora esm agado durante um bom bardeio. Tam bém era crim e contrabandear rem édios do hospital em que trabalhava e levá-los para lá. Mas ela queria provar, ainda que só para si m esm a, que nem todo m undo havia se rendido aos nazistas.

Quando estava term inando sua ronda na enferm aria, viu Werner do lado de fora, usando seu uniform e da Força Aérea.

Ele e Carla haviam passado vários dias atorm entados pelo m edo, im aginando se alguém sobrevivera ao bom bardeio da escola e iria aparecer para acusá-lo; m as a essa altura estava claro que todos tinham m orrido e ninguém m ais sabia das suspeitas de Macke. Eles haviam conseguido se safar m ais um a vez.

Werner tinha se recuperado depressa do ferim ento.

Os dois agora estavam j untos. Werner se m udara para a casa grande e quase vazia dos Von Ulrich e passava todas as noites com Carla. Seus pais não haviam protestado: todos sentiam que poderiam m orrer a qualquer m om ento, e as pessoas deviam aproveitar toda a alegria que pudessem ter naquela vida de privações e sofrim ento.

Mas Werner parecia m ais solene do que o norm al quando acenou para Carla pela pequena j anela de vidro na porta da enferm aria. Ela acenou de volta, m andando-o entrar, e o recebeu com um beij o.

– Eu te am o – falou. Nunca se cansava de repetir isso.

E ele sem pre ficava feliz em responder:

– Eu tam bém te am o.

– O que está fazendo aqui? – perguntou ela. – Queria um beij o?

– Tenho m ás notícias. Fui transferido para o front oriental.

– Ah, não!

Os olhos de Carla se encheram de lágrim as.

– Na verdade, é um m ilagre que eu tenha conseguido evitar isso até agora. Mas o general Dorn não pode m ais m e m anter longe da frente de batalha. Metade do nosso Exército agora é com posta por velhos e colegiais, e eu sou um oficial de 24 anos em condições de lutar.

– Por favor, não m orra – sussurrou ela.

– Vou fazer o possível.

– Mas o que vai acontecer com a rede? – perguntou ela, sussurrando. – É você que sabe de tudo. Quem m ais poderia com andá-la?

Ele a fitou sem dizer nada.

Carla entendeu o que ele tinha em m ente.

– Ah, não... eu não!

– Você é a m elhor pessoa. Frieda é um a seguidora, não um a líder. Você dem onstrou capacidade para recrutar pessoas novas e m otivá-las. Nunca teve problem as com a polícia, e não tem registro de atividades políticas. Ninguém sabe o papel que teve na oposição ao Aktion T4. No que diz respeito às autoridades, você é um a enferm eira inocente.

– Mas, Werner, tenho m edo!

– Não precisa fazer isso, se não quiser. Só que ninguém m ais pode.

Bem nessa hora, eles ouviram um a confusão.

A enferm aria vizinha era reservada aos pacientes com problem as m entais e não era raro ouvir gritarias, m as aquilo parecia diferente. Um a voz soou alta, zangada. Então ouviram um a segunda voz, dessa vez com sotaque de Berlim e no tom insistente e intim idador que os forasteiros diziam ser típico da capital.

Carla saiu para o corredor e Werner a seguiu.

Com um a estrela am arela costurada no paletó, o Dr. Rothm ann discutia com um suj eito com uniform e da SS. Atrás deles, a porta dupla que conduzia à ala psiquiátrica – que em geral perm anecia trancada – estava escancarada. Os pacientes saíam da enferm aria. Dois outros oficiais da SS e um a dupla de enferm eiras conduziam um a fila irregular de hom ens e m ulheres, a m aioria de pij am a, alguns cam inhando eretos e aparentem ente norm ais, outros cam baleando e balbuciando sons incoerentes enquanto andavam uns atrás dos outros pela escada.

Im ediatam ente Carla se lem brou de Kurt e Axel, o filho de Ada e o irm ão de Werner, e do suposto hospital de Akelberg. Não sabia para onde aqueles pacientes estavam indo, m as tinha quase certeza de que seriam m ortos.

Indignado, o Dr. Rothm ann protestava:

– Essas pessoas estão doentes! Precisam ser tratadas!

E o oficial da SS retrucava:

– Elas não estão doentes. São doidas, e nós vam os levá-las para onde os doidos devem ficar.

– Para um hospital?

– O senhor será inform ado no devido m om ento.

– Essa resposta não é suficiente.

Carla sabia que não deveria intervir. Se descobrissem que ela não era j udia, estaria em sérios apuros. Com cabelos escuros e olhos verdes, ela não tinha um a aparência especialm ente ariana ou não ariana. Se ficasse calada, não iriam incom odá-la. No entanto, se reclam asse do que a SS estava fazendo, seria presa e interrogada, e então descobririam que ela estava trabalhando ilegalm ente. Dessa form a, ela m ordeu a língua e se controlou.

O oficial elevou a voz:

– Rápido... Ponham esses m alditos dentro do ônibus.

Rothm ann continuou a insistir:

– Preciso saber para onde eles vão. São m eus pacientes.

Na verdade, aqueles pacientes não eram seus – ele não era psiquiatra.

– Se está tão preocupado assim , pode ir com eles – disse o oficial da SS.

O Dr. Rothm ann ficou pálido. Era quase certo que estaria indo para a m orte.

Carla pensou em Hannelore, esposa do m édico; em Rudi, seu filho; e em Eva, a filha que m orava na Inglaterra. Seu estôm ago se revirou de m edo.

O oficial abriu um sorriso e zom bou:

– Perdeu a confiança de repente?

Rothm ann se em pertigou.

– Pelo contrário – disse. – Vou aceitar sua proposta. Muitos anos atrás, prestei um j uram ento: fazer tudo o que pudesse para aj udar os doentes. Não é agora que vou faltar com m inha palavra. Espero m orrer com a consciência tranquila. – Ele desceu a escada m ancando.

Um a velha passou vestida apenas com um roupão aberto na frente, expondo sua nudez.

Carla não conseguiu m ais ficar calada.

– É novem bro! – gritou – Eles não têm roupas de frio!

O oficial a encarou com um olhar duro.

– Vão ficar bem dentro do ônibus.

– Vou pegar algum as roupas quentes. – Carla virou-se para Werner. – Venha m e aj udar. Pegue cobertores em qualquer lugar.

Os dois com eçaram a correr pela enferm aria psiquiátrica vazia, arrancando cobertores das cam as e de dentro dos arm ários. Depois, cada um segurando um a pilha nos braços, desceram depressa a escada.