Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 57 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo VI

Macke abriu um arm ário e pegou três cassetetes com pridos e pesados, com o tacos de beisebol. Entregou um a cada auxiliar.

– Acabem com ele – falou, e retirou-se para deixar que cum prissem a ordem .

 

VI

O capitão Volody a Peshkov, chefe da seção berlinense da Inteligência do Exército Verm elho, encontrou-se com Werner Franck no Cem itério dos Inválidos, j unto ao canal de Berlim -Spandau.

Era um a boa escolha de local. Ao correr os olhos cuidadosam ente pelo cem itério, Volody a pôde confirm ar que ninguém havia seguido Werner nem ele. A única pessoa ali era um a senhora idosa de lenço preto na cabeça, que j á estava de saída.

O ponto de encontro era o túm ulo do general Von Scharnhorst, um a base enorm e com a estátua de um leão adorm ecido feita de canhões inim igos derretidos. Era um dia ensolarado de prim avera, e os dois j ovens espiões tiraram os paletós para cam inhar entre os túm ulos daqueles heróis germ ânicos.

Após o pacto entre Hitler e Stalin, quase dois anos antes, a espionagem soviética na Alem anha havia prosseguido, assim com o a vigilância dos funcionários da em baixada soviética por parte dos alem ães. Todos achavam que o tratado era tem porário, em bora ninguém soubesse quanto. Sendo assim , agentes de contrainteligência ainda seguiam Volody a por toda parte.

Eles deviam saber quando ele estava saindo para um a verdadeira m issão secreta, pensou, pois era nessas ocasiões que os despistava. Quando ia com prar um salsichão para o alm oço, deixava que o seguissem . Perguntou-se se eles seriam inteligentes o bastante para perceber isso.

– Você tem visto Lili Markgraf ultim am ente? – perguntou Werner.

Era um a m oça com quem os dois tinham saído em m om entos diferentes do passado. Volody a a havia recrutado com o agente, e ela aprendera a criar e a decifrar m ensagens usando o código da Inteligência do Exército Verm elho. Naturalm ente, Volody a não podia dizer isso a Werner.

– Faz algum tem po que não a vej o – m entiu. – E você?

Werner fez que não com a cabeça.

– Outra pessoa conquistou m eu coração. – Ele parecia encabulado. Talvez estivesse com vergonha por contradizer sua reputação de play boy . – Mas por que você queria m e ver?

– Recebem os inform ações devastadoras – disse Volody a. – Um a notícia que vai m udar o curso da História... se for verdade.

Werner assum iu um a expressão cética. Volody a prosseguiu:

– Um a fonte nos revelou que a Alem anha vai invadir a União Soviética em j unho. – Repetir essa frase o deixou eletrizado. A inform ação era um a vitória im ensa para a Inteligência do Exército Verm elho, e um a terrível am eaça para a União Soviética.

Werner afastou um cacho de cabelo dos olhos, num gesto que devia fazer o coração das m oças disparar.

– Um a fonte de confiança?

A fonte era um j ornalista de Tóquio – um com unista disfarçado – que tinha um a relação privilegiada com o em baixador alem ão na capital j aponesa. Tudo o que dissera até então se revelara verdadeiro. Mas Volody a não podia dizer isso a Werner.

– Sim , de confiança – respondeu.

– Então você acredita?

Volody a hesitou. Era esse o problem a. Stalin não acreditava. Segundo o líder soviético, isso era um a desinform ação dos Aliados com o obj etivo de sem ear a desconfiança entre ele e Hitler. Seu ceticism o em relação a esse furo de inteligência deixara os superiores de Volody a consternados, azedando sua alegria.

– Estam os buscando confirm ação – disse ele.

Werner olhou em volta para as árvores do cem itério, cuj as folhas com eçavam a brotar.

– Queira Deus que sej a verdade – falou, com súbita veem ência. – Vai ser o fim dos m alditos nazistas.

– É – concordou Volody a. – Se o Exército Verm elho estiver preparado.

Werner se espantou.

– Vocês não estão preparados?

Mais um a vez, Volody a não pôde dizer toda a verdade a Werner. Stalin achava que os alem ães não iriam atacar antes de terem derrotado os britânicos, por tem erem um a guerra em dois fronts. Enquanto a Grã-Bretanha resistisse à Alem anha, a União Soviética estaria segura: era o que ele achava. Consequentem ente, o Exército Verm elho não estava nem de longe preparado para um a invasão do Reich.

– Nós estaremos preparados – disse Volody a –, se você conseguir confirm ar para m im o plano de invasão.

Ele não pôde evitar se envaidecer por um breve instante. Seu espião talvez fosse a chave de tudo.

– Infelizm ente, não vou poder aj udá-los – disse Werner.

Volody a franziu o cenho.

– Com o assim ?

– Não posso confirm ar nem desm entir essa inform ação e tam pouco vou conseguir obter qualquer outra. Estou prestes a ser dem itido do m eu cargo no Ministério da Aeronáutica. Provavelm ente serei m andado para a França... ou, se a sua inteligência estiver correta, para a União Soviética.

Volody a ficou horrorizado. Werner era seu m elhor espião. Fora graças a suas inform ações que ele havia sido prom ovido a capitão. Ele m al conseguia respirar. Com esforço, disse:

– Que diabo aconteceu?

– Meu irm ão m orreu num a clínica para deficientes e o m esm o aconteceu com o afilhado da m inha nam orada. E nós andam os fazendo m ais perguntas do que devíam os.

– E por que isso faria você perder o em prego?

– Os nazistas estão m atando os deficientes, m as é um program a secreto.

Volody a se esqueceu da própria m issão por alguns instantes.

– Com o assim ? Sim plesm ente m atando e pronto?

– Parece que sim . Ainda não sabem os os detalhes. Mas, se não tivessem nada a esconder, não teriam m e punido por fazer perguntas... a m im e a outras pessoas.

– Quantos anos tinha o seu irm ão?

– Quinze.

– Meu Deus! Um a criança ainda!

– Eles não vão se safar dessa. Eu m e recuso a ficar calado.

Os dois pararam em frente ao túm ulo de Manfred von Richthofen, o ás da aviação. Era um a lápide im ensa, com 1,80m de altura e o dobro de largura. Sobre ela, esculpida em elegantes letras m aiúsculas, estava escrito apenas o nom e RICHTHOFEN. Volody a sem pre achava aquele despoj am ento com ovente.

Tentou recuperar o sangue-frio. Disse a si m esm o que, afinal de contas, a polícia secreta soviética tam bém assassinava pessoas, sobretudo os suspeitos de deslealdade. O chefe da NKVD, Lavrentiy Beria, era um torturador cuj o passatem po favorito, segundos os boatos, era m andar os capangas catarem um a ou duas m oças bonitas na rua para ele estuprar à noite, por diversão. Mas pensar que os com unistas podiam ser tão bestiais quanto os nazistas não era nenhum consolo. Um dia, lem brou a si m esm o, os soviéticos iriam se livrar de Beria e da sua laia, e então poderiam com eçar a construir o verdadeiro com unism o. Enquanto isso, a prioridade era derrotar os nazistas.

Chegaram à m ureta do canal e ficaram parados ali, observando um barco avançar lentam ente pela água, cuspindo um a fum aça preta oleosa. Volody a refletiu sobre a confissão alarm ante de Werner.

– O que aconteceria se você parasse de investigar essas m ortes de crianças deficientes? – indagou.

– Eu perderia a nam orada – respondeu Werner. – Ela está tão revoltada quanto eu com essa história.

Volody a teve o pensam ento assustador de que talvez Werner contasse a verdade à nam orada.

– Com certeza não poderia dizer a ela o verdadeiro m otivo para ter m udado de ideia – falou, enfático.

Werner adotou um a expressão infeliz, m as não discutiu.

Volody a percebeu que, se convencesse Werner a abandonar aquela cam panha, estaria aj udando os nazistas a ocultarem seus crim es. Afastou esse pensam ento desagradável.

– Mas, se você desistisse desse assunto, poderia m anter o cargo com o general Dorn?

– Sim . É o que eles querem . Mas não vou perm itir que abafem o assassinato do m eu irm ão. Eles podem até m e m andar para o front, m as não vou m e calar.

– O que acha que vão fazer com você quando perceberem toda a sua determ inação?

– Me j ogar em algum cam po.

– E de que isso vai adiantar?

– Não posso sim plesm ente baixar a cabeça.

Volody a tinha que fazer Werner voltar atrás, m as até agora não conseguira convencê-lo. O alem ão tinha resposta para tudo. Era um rapaz inteligente, por isso se tornara um espião tão valioso.

– E os outros? – perguntou Volody a.

– Que outros?

– Deve haver m ilhares de outros adultos e crianças deficientes. Os nazistas vão m atar todos eles?

– Provavelm ente.

– Você não poderá detê-los se estiver num cam po de prisioneiros.