Inverno do Mundo
Capítulo VI
– Ah, não! – exclam ou ele.
Leu a m atéria sem conseguir acreditar. Dizia que os m anifestantes haviam tentado invadir a fábrica e tinham sido coraj osam ente repelidos pelos seguranças, vários dos quais tinham sofrido ferim entos leves. Declarações do prefeito, do chefe de polícia e de Lev Peshkov condenavam o com portam ento dos operários. No fim da m atéria, com o se não tivesse a m enor im portância, o líder sindicalista Brian Hall era citado, negando a história e culpando os seguranças pela violência.
Woody pôs o j ornal na frente da m ãe.
– Eu disse a Hoy le que foram os seguranças que com eçaram a confusão... e dei a ele as fotos que provavam isso! – falou, zangado. – Por que ele publicou no j ornal o contrário da verdade?
– Porque ele é um conservador – respondeu ela.
– Mas os j ornais deveriam dizer a verdade! – protestou Woody, erguendo a voz com um a indignação furiosa. – Não podem sim plesm ente inventar m entiras!
– Podem , sim – disse a m ãe.
– Mas não é j usto!
– Bem -vindo ao m undo real.
VI
Greg Peshkov e o pai estavam no lobby do Hotel Ritz-Carlton, em Washington, D.C., quando esbarraram com Dave Rouzrokh.
Dave usava terno branco e chapéu de palha. Olhou para eles com ódio. Lev o cum prim entou, m as ele virou as costas com desprezo e não respondeu.
Greg sabia por quê. Dave vinha perdendo dinheiro o verão todo porque a Roseroque Cinem as não estava recebendo os lançam entos de sucesso. E Dave devia ter adivinhado que Lev de algum a form a era o responsável por isso.
Na sem ana anterior, Lev tinha oferecido a Dave quatro m ilhões de dólares pela cadeia – m etade da oferta original –, m as ele tornara a recusar.
– O preço está caindo, Dave – alertara Lev.
Ali no hotel, Greg perguntou:
– O que será que ele está fazendo aqui?
– Veio se encontrar com Sol Starr. Vai perguntar por que Sol não está lhe passando os film es bons. – Estava claro que Lev sabia tudo a respeito.
– E o que o Sr. Starr vai fazer?
– Enrolar Dave.
Greg ficou m aravilhado com a capacidade do pai de saber tudo e ser sem pre capaz de se antecipar a um a situação instável. Lev estava sem pre à frente de todo m undo.
Os dois subiram no elevador. Era a prim eira vez que Greg visitava os aposentos perm anentes do pai no hotel. Sua m ãe, Marga, nunca estivera ali.
Com o o governo vivia tentando interferir no m ercado cinem atográfico, Lev passava m uito tem po em Washington. Hom ens que se consideravam bastiões da m oralidade ficavam m uito agitados com o que era m ostrado na tela e pressionavam o governo para censurar alguns film es. Lev considerava aquilo um a negociação – para ele, a vida era um a negociação –, e seu obj etivo constante era evitar a censura form al aderindo a um código voluntário, estratégia apoiada por Sol Starr e pela m aioria dos figurões de Holly wood.
Os dois entraram num a sala de estar extrem am ente elegante, m uito m ais que o espaçoso apartam ento de Buffalo onde Greg e a m ãe m oravam e que o rapaz sem pre considerara luxuoso. Aquele côm odo tinha m óveis de pés finos que Greg supôs serem franceses, refinadas cortinas de veludo m arrom nas j anelas e um fonógrafo grande.
Ficou espantado ao ver a estrela de cinem a Glady s Angelus sentada em um sofá de seda am arelo no m eio da sala.
As pessoas diziam que ela era a m ulher m ais linda do m undo.
Greg logo viu por quê. Glady s irradiava sensualidade, dos convidativos olhos azul-escuros às longas pernas cruzadas sob a saia fina. Quando ela estendeu a m ão para cum prim entá-lo, seus lábios verm elhos sorriram e seus seios redondos se balançaram sedutoram ente dentro do suéter fino.
Ele hesitou um a fração de segundo antes de apertar sua m ão. Sentiu-se desleal com a m ãe. Marga nunca havia pronunciado o nom e de Glady s Angelus, sinal de que sabia o que as pessoas com entavam em relação à atriz e Lev. Greg teve a sensação de estar com pactuando com a inim iga da m ãe. Se Marga ficasse sabendo, iria chorar, pensou.
Mas ele fora pego de surpresa. Se tivesse sido avisado, se houvesse tido tem po de refletir sobre a própria reação, talvez pudesse ter preparado e ensaiado um a recusa educada. Mas assim , de im proviso, não conseguiu se forçar a ser grosseiro com aquela m ulher tão form osa.
Por isso, aceitou a m ão que ela lhe oferecia, encarou aqueles olhos incríveis e abriu um sorriso sem graça.
Glady s continuou a segurar sua m ão enquanto dizia:
– Estou tão feliz por finalm ente conhecer você. Seu pai m e falou tanto a seu respeito... só não disse com o você era bonito!
Havia nesse com entário algo desagradavelm ente possessivo, com o se ela fosse um m em bro da fam ília, e não um a puta que havia usurpado sua m ãe. Mesm o assim , ele se pegou caindo no seu feitiço.
– Adoro seus film es – falou, atrapalhado.
– Ah, deixe disso, não precisa falar assim – disse a m ulher, m as Greg pôde ver que ela havia gostado do elogio. – Venha se sentar aqui com igo – prosseguiu ela. – Quero conhecer você m elhor.
Ele fez o que ela m andava. Não conseguiu resistir. Glady s lhe perguntou em que escola ele estudava e, enquanto ele respondia, o telefone tocou. Escutou vagam ente o pai dizer:
– Era para ser am anhã... tudo bem , se for preciso podem os apressar as coisas... pode deixar, eu cuidarei disso.
Lev desligou e interrom peu Glady s.
– Greg, seu quarto fica m ais adiante neste m esm o corredor – disse ele, entregando-lhe a chave. – E vai encontrar um presente m eu lá. Acom ode-se e aproveite. Nos vem os às sete para j antar.
A dispensa foi bem abrupta e Glady s pareceu desapontada, m as Lev às vezes podia ser perem ptório, e o m elhor a fazer era sim plesm ente obedecer. Greg pegou a chave e saiu.
No corredor havia um hom em de om bros largos usando um terno barato. Fez Greg pensar em Joe Brekhunov, chefe dos seguranças da Metalúrgica de Buffalo. Greg m eneou a cabeça, e o hom em disse:
– Boa tarde, senhor. – Com certeza devia ser um funcionário do hotel.
Greg entrou no quarto. Era um a suíte bastante agradável, em bora não tão luxuosa quanto a do pai. Não viu o presente que o pai havia m encionado, m as sua m ala estava ali, e ele com eçou a desfazê-la enquanto pensava em Glady s. Teria sido desleal com a m ãe por apertar a m ão da am ante do pai? Glady s, é claro, só estava fazendo o m esm o que a própria Marga havia feito: dorm indo com um hom em casado. Ainda assim , ele estava se sentindo m uito desconfortável. Será que deveria contar à m ãe que havia conhecido Glady s? Caram ba, é claro que não.
Quando estava pendurando as cam isas no arm ário, ouviu um a batida. Vinha de um a porta que parecia conduzir ao quarto contíguo. No instante seguinte, a porta se abriu e um a garota entrou.
Era m ais velha que Greg, m as não m uito. Tinha a pele cor de chocolate escuro, estava usando um vestido de bolinhas e segurava um a bolsa tipo carteira. Abriu um sorriso largo, exibindo dentes m uito brancos, e disse:
– Olá. Estou no quarto ao lado.
– Isso eu j á entendi – disse ele. – Quem é você?
– Jacky Jakes. – Ela estendeu a m ão. – Sou atriz.
Greg apertou a m ão da segunda linda atriz que conhecia em m enos de um a hora. Jacky tinha um ar brincalhão que Greg achou m ais atraente do que o m agnetism o intenso de Glady s. Sua boca tinha o form ato de um arco de Cupido rosa-escuro.
– Meu pai m e disse que iria m e dar um presente... É você?
Ela deu um a risadinha.
– Acho que sou eu. Ele disse que eu iria gostar de você. Seu pai vai m e fazer trabalhar no cinem a.
Greg entendeu tudo. O pai previra que ele talvez se sentisse m al por ter sido sim pático com Glady s. Jacky era a sua recom pensa por não ter feito um a cena. Pensou que provavelm ente deveria rej eitar um suborno daqueles, m as não pôde resistir.
– Você é um lindo presente – falou.
– Seu pai é m uito bom com você.
– Ele é m aravilhoso – respondeu Greg. – E você tam bém .
– Ah, que gracinha! – Ela pousou a bolsa em cim a da côm oda, chegou m ais perto de Greg, ficou na ponta dos pés e lhe deu um beij o na boca. Tinha lábios quentes e m acios. – Gostei de você – falou. Então acariciou seus om bros. – Você é forte.
– Eu j ogo hóquei no gelo.
– Isso faz um a garota se sentir segura. – Ela segurou seu rosto com as m ãos e tornou a beij á-lo, dessa vez por m ais tem po. Então deu um suspiro. – Ah, rapaz, eu acho que nós vam os nos divertir.
– Vam os, é? – Washington era um a cidade do Sul, em grande parte ainda segregada. Em Buffalo, brancos e negros quase sem pre podiam com er nos m esm os restaurantes e beber nos m esm os bares, m as ali era diferente. Greg não sabia ao certo quais eram as regras na cidade, m as teve certeza de que, na prática, um hom em branco e um a m ulher negra j untos iriam causar problem as. Era surpreendente que Jacky estivesse hospedada em um quarto daquele hotel. Aquilo devia ser coisa de Lev. Mas com certeza estava fora de cogitação que Greg e Jacky desfilassem pela cidade com Lev e Glady s. Nesse caso, com o Jacky achava que eles fossem se divertir? A ideia im provável de que ela talvez estivesse disposta a ir para a cam a com ele lhe passou pela cabeça.
Ele levou as m ãos à sua cintura de m odo a puxá-la para m ais um beij o, m as ela recuou.
– Preciso tom ar um a ducha – falou. – Me dê só alguns m inutos. – Então se virou e desapareceu pela porta que ligava os dois quartos, que se fechou atrás dela.
Greg se sentou na cam a, tentando assim ilar tudo aquilo. Jacky queria ser atriz de cinem a e parecia disposta a usar o sexo para progredir na carreira. Com certeza não era a prim eira atriz, branca ou negra, a usar essa estratégia. Glady s estava fazendo a m esm a coisa ao dorm ir com Lev. Greg e seu pai eram apenas os sortudos beneficiários.
Viu que ela havia deixado sua bolsa para trás. Pegou-a e tentou abrir a porta. Não estava trancada. Entrou no quarto.
Ela estava ao telefone, vestida com um roupão de banho cor-de-rosa.
– Sim , perfeito, sem problem as. – Sua voz soava diferente, m ais m adura. Greg entendeu que, com ele, Jacky havia usado um tom de m enininha sexy que não era natural. Então ela o viu, deu um sorriso e tornou a falar ao telefone, agora com a voz m ais infantil: – Por favor, não passe nenhum a ligação. Não quero ser incom odada. Obrigada. Tchau.
– Você esqueceu isto – disse Greg, entregando-lhe a bolsa.
– Ah, você só queria m e ver de roupão – disse ela, coquete. A frente do roupão não tapava com pletam ente seus seios e ele pôde ver um a sedutora curva de pele m orena lisinha.
– Não, m as estou contente por ter visto.
– Volte para o seu quarto. Tenho que tom ar um a ducha. Talvez depois eu deixe você ver m ais.
– Ai, m eu Deus – disse ele.
Voltou para o seu quarto. Aquilo era espantoso.
– Talvez depois eu deixe você ver m ais – repetiu para si m esm o, em voz alta. Que coisa para um a garota dizer!
Sentiu que estava com um a ereção, m as não queria se m asturbar quando o ato em si parecia tão próxim o. Para se distrair, continuou a desfazer a m ala. Tinha um kit de barbear bem caro, com posto por navalha e pincel de cabo de m adrepérola, que ganhara de presente da m ãe. Arrum ou os obj etos no banheiro, se perguntando se iriam im pressionar Jacky caso ela os visse.
As paredes do hotel eram finas, e ele ouviu o som de água correndo no quarto ao lado. A im agem do corpo dela, nu e m olhado, o dom inou por com pleto. Ele tentou se concentrar em arrum ar a roupa de baixo e as m eias num a gaveta.
Então a ouviu gritar.
Congelou onde estava. Durante alguns segundos, ficou surpreso dem ais para se m exer. O que significava aquilo? Por que ela iria gritar daquele j eito? Um segundo grito funcionou com o um choque, obrigando-o a agir. Com um safanão, abriu a porta que separava os dois quartos e entrou no dela.
Jacky estava nua. Ele nunca tinha visto um a m ulher nua ao vivo. Seus seios eram pontudos, com m am ilos m arrom -escuros. Entre as pernas erguia-se um em aranhado de pelos pretos e crespos. Ela estava encolhida contra a parede, tentando sem sucesso usar as m ãos para ocultar a própria nudez.
Em pé na sua frente estava Dave Rouzrokh, com dois arranhões paralelos em sua bochecha aristocrática, sem dúvida provocados pelas unhas cor-de-rosa de Jacky. A larga lapela de seu paletó branco de abotoam ento duplo estava suj a de sangue.
– Tire ele de cim a de m im ! – gritou Jacky .
Greg desferiu um soco. Dave era três centím etros m ais alto que ele, m as era um velho e Greg, um adolescente atlético. Mais por sorte do que por cálculo, o soco acertou o queixo de Dave, que cam baleou para trás antes de cair no chão.
A porta do quarto se abriu.
O funcionário de om bros largos do hotel que Greg tinha visto antes entrou. Ele devia ter um a chave m estra, pensou Greg.
– Meu nom e é Tom Cranm er, sou detetive do hotel – disse o hom em . – O que está acontecendo aqui?
– Eu a ouvi gritar e, quando entrei, encontrei este senhor aqui – disse Greg.
– Ele tentou m e estuprar! – acusou Jacky .
Dave se levantou com esforço.
– Não é verdade – disse ele. – Fui cham ado a este quarto para um a reunião com Sol Starr.
Jacky com eçou a soluçar.
– Ah, sim , agora ele vai negar tudo!
– Senhorita, por favor, vá se vestir – pediu Cranm er.
Jacky vestiu o roupão cor-de-rosa.
O detetive pegou o telefone do quarto, discou um núm ero e disse:
– Na esquina do hotel costum a haver um policial. Peça que ele venha ao lobby, im ediatam ente.
Dave encarava Greg.
– Você é o filho bastardo de Peshkov, não é?
Greg quase lhe deu outro soco.
– Ah, m eu Deus, isto aqui é um a arm adilha – disse Dave.
Greg ficou espantado com aquela acusação. Intuitivam ente, sentiu que era verdade. Baixou o punho. Percebeu que a cena toda devia ter sido planej ada por Lev. Dave Rouzrokh não era nenhum estuprador. Jacky estava fingindo. E o próprio Greg não passava de um ator naquele film e. Chegou a ficar tonto.
– Por favor, senhor, venha com igo – pediu Cranm er, segurando Dave com firm eza pelo braço. – Vocês dois tam bém .
– O senhor não pode m e prender – disse Dave.
– Sim , senhor, eu posso – rebateu Cranm er. – E vou entregá-lo a um policial.
– Você quer se vestir? – perguntou Greg a Jacky .
Ela fez que não com a cabeça, um m ovim ento rápido e decidido. Greg entendeu que fazia parte do plano ela aparecer de roupão.
Segurou Jacky pelo braço e os dois seguiram Cranm er e Dave pelo corredor e entraram no elevador. Um policial aguardava no lobby. Ele e o detetive do hotel tam bém deviam fazer parte da farsa, supôs Greg.