Inverno do Mundo
Capítulo IV
– Ano que vem haverá eleições. Ele quer ser reeleito.
– E daí?
– Os am ericanos não votarão em Roosevelt se acharem que ele os fez participar desnecessariam ente da guerra na Europa. Sendo assim , ele quer apresentar a questão com o parte de um plano global pela paz m undial. Se assinarm os o pacto para m ostrar que estam os falando sério em relação às Nações Unidas, é m ais provável que os eleitores am ericanos aceitem a invasão da França com o um passo no cam inho para um m undo m ais pacífico.
– Incrível – com entou Volody a. – Roosevelt é o presidente, m as ainda assim ele precisa ficar o tem po todo inventando j ustificativas para suas ações!
– Mais ou m enos isso – concordou Woody . – É o que cham am os de dem ocracia.
Volody a teve a leve desconfiança de que aquela história incrível pudesse m esm o ser verdade.
– O pacto é necessário para convencer os eleitores am ericanos a apoiarem a invasão da Europa.
– Exato.
– Então por que precisam os da China?
Stalin desdenhava particularm ente a insistência dos Aliados para incluir a China no pacto.
– A China é um aliado fraco.
– Então vam os sim plesm ente ignorá-la.
– Se os chineses ficarem de fora, vão desanim ar, e talvez lutem com m enos entusiasm o contra os j aponeses.
– E daí?
– E daí que precisarem os aum entar nosso contingente no Pacífico, e isso vai dim inuir nossas forças na Europa.
Aquilo deixou Volody a alarm ado. A União Soviética não queria que as forças Aliadas se desviassem da Europa para o Pacífico.
– Quer dizer que vocês estão fazendo um gesto de am izade em relação à China sim plesm ente para poder utilizar m ais forças na invasão da Europa?
– Isso.
– Você faz tudo parecer tão sim ples.
– E é – respondeu Woody .
IV
Nas prim eiras horas da m anhã de 1o de novem bro, Chuck e Eddie com eram bife no café da m anhã com a 3a Divisão de Fuzileiros Navais da Marinha am ericana perto da ilha Bougainville, no m ar do Sul.
A ilha tinha m ais ou m enos 200 quilôm etros de extensão. Abrigava duas bases aéreas da Marinha j aponesa – um a no norte, outra no sul. Os fuzileiros navais am ericanos estavam se preparando para desem barcar no m eio da costa ocidental, que tinha defesas leves. Seu obj etivo era abrir um a cabeça de ponte na praia e ganhar território suficiente para construir um a pista de pouso da qual pudessem lançar ataques às bases j aponesas.
Chuck estava no convés quando, às 7h26, m ontes de fuzileiros de capacete e m ochila com eçaram a descer pelas redes de corda penduradas nas laterais do navio e a pular em barcaças de desem barque de bordas bem altas. Levavam consigo alguns cães da raça doberm ann, que eram sentinelas incansáveis.
Quando as barcaças se aproxim aram da praia, Chuck pôde ver um prim eiro erro no m apa que havia elaborado. Ondas altas quebravam num a praia íngrem e. Bem diante de seus olhos, um a das barcaças foi atingida de lado pelas ondas e virou. Os fuzileiros tiveram que nadar até a praia.
– Tem os que indicar a condição das ondas – disse Chuck a Eddie, que estava em pé a seu lado no convés.
– E com o vam os descobrir isso?
– Aviões de reconhecim ento terão que sobrevoar o m ar a um a altitude baixa o suficiente para que as ondas apareçam nas fotos.
– Eles não podem se arriscar a voar tão baixo assim com bases inim igas por perto.
Eddie estava certo. Mas tinha de haver um a solução. Chuck arquivou a inform ação: era a prim eira questão a ser considerada com o resultado daquela m issão.
Para o desem barque desse dia, eles dispunham de m ais inform ações que o norm al. Além dos m apas em geral pouco confiáveis e das fotografias aéreas difíceis de interpretar, tinham o parecer de um a equipe de reconhecim ento que chegara à ilha de subm arino, seis sem anas antes. A equipe identificara 12 praias adequadas para desem barque num trecho de costa de 6,5 quilôm etros. No entanto, não dera nenhum alerta sobre as ondas. Talvez o m ar não estivesse tão agitado no dia do reconhecim ento.
Nos outros aspectos, o m apa de Chuck estava certo, pelo m enos até ali. Havia um a praia com cerca de cem m etros de largura, seguida por um em aranhado de palm eiras e outros tipos de vegetação. Logo depois dessa faixa, segundo o m apa, devia haver um pântano.
O litoral não era com pletam ente desprovido de defesas. Chuck ouviu um rugido de artilharia, e um proj étil aterrissou na água rasa. Não causou nenhum dano, m as a m ira do artilheiro iria m elhorar. Com urgência renovada, os fuzileiros saltaram das barcaças para a praia e correram em direção às palm eiras.
Chuck estava contente por ter decidido participar daquele com bate. Nunca fora descuidado ou negligente em relação a seus m apas, m as era bom ver em prim eira m ão com o um m apeam ento correto podia salvar a vida dos soldados e com o os erros m ais insignificantes podiam ser fatais. Mesm o antes de em barcarem , ele e Eddie haviam se tornado bem m ais exigentes. Pediam que fotos borradas fossem tiradas outra vez, interrogavam equipes de reconhecim ento pelo telefone e disparavam m ensagens de cabo para o m undo inteiro em busca de cartas náuticas de m elhor qualidade.
Mas a sua satisfação tinha tam bém outro m otivo. Ele estava no m ar, algo que am ava. Estava a bordo de um navio com outros 700 fuzileiros, e adorava a cam aradagem , as brincadeiras, as canções e a intim idade dos aloj am entos apinhados e dos chuveiros coletivos.
– É com o ser hétero num colégio interno só de m eninas – disse a Eddie certa noite.
– Só que isso que você falou nunca acontece, e isto aqui é real – respondeu Eddie.
Ele sentia a m esm a coisa que Chuck. Os dois se am avam , m as não gostavam m enos de ver m arinheiros sem roupa.
Agora, todos os 700 fuzileiros navais estavam deixando o navio e desem barcando o m ais rápido possível. O m esm o acontecia em outros oito pontos daquele trecho de costa. Assim que um a barcaça se esvaziava, não perdia tem po: dava m eia-volta e retornava para buscar m ais hom ens. Mesm o assim , o processo todo continuava parecendo extrem am ente lento.
Por fim , o artilheiro j aponês escondido em algum lugar da selva acertou a m ira e, para assom bro de Chuck, um proj étil acertou em cheio o alvo e explodiu um grupo de fuzileiros, fazendo hom ens, fuzis e partes de corpos voarem , m anchando a areia de verm elho.
Chuck encarava o m assacre com ar horrorizado quando ouviu o rugido de um avião. Ao erguer os olhos, viu um Zero j aponês voando baixo, m argeando a costa. Os sóis verm elhos pintados nas asas foram com o um a punhalada de m edo em seu coração. A últim a vez que os vira fora na batalha de Midway .
O Zero m etralhou a praia. Os fuzileiros que estavam desem barcando foram pegos de surpresa, indefesos. Alguns se deitaram na água rasa, outros tentaram se esconder atrás do casco da barcaça, e houve ainda quem corresse em direção à selva. Por alguns segundos, sangue esguichou e hom ens caíram .
Então o Zero sum iu, deixando a praia coalhada de am ericanos m ortos.
Instantes depois, Chuck o ouviu abrir fogo para m etralhar a praia seguinte.
O avião iria voltar.
Supostam ente, ali tam bém deveria haver aviões am ericanos, m as ele não via nenhum . O apoio aéreo nunca estava onde você queria que estivesse, ou sej a, bem acim a de sua cabeça.
Quando todos os fuzileiros estavam em terra, vivos ou m ortos, as barcaças transportaram equipes m édicas e m aqueiros até a praia. Então com eçaram a desem barcar suprim entos: m unição, água potável, com ida, rem édios e ataduras. Na volta, conduziam os feridos para o navio.
Chuck e Eddie, que faziam parte do contingente não essencial, seguiram com os suprim entos.
A essa altura, os m arinheiros que m anobravam as barcaças j á tinham se acostum ado com o m ar agitado: a em barcação foi m antida num a posição estável, com a plataform a estendida até a areia e as ondas batendo na popa. Enquanto as caixas eram retiradas, Chuck e Eddie pularam para o m eio das ondas e avançaram chapinhando até a praia.
Os dois chegaram à areia ao m esm o tem po.
Bem nessa hora, um a m etralhadora com eçou a disparar.
Os tiros pareciam vir da selva, uns quatrocentos m etros adiante. Será que o artilheiro estivera ali desde o início, só esperando o m om ento de abrir fogo? Ou acabara de ser transferido de outro ponto? Eddie e Chuck se abaixaram e saíram correndo em direção à linha de palm eiras.
Um m arinheiro com um a caixa de m unição no om bro deu um grito de dor, soltou a caixa e caiu.
Então Eddie tam bém gritou. Chuck ainda correu dois passos antes de conseguir se deter. Quando se virou, viu Eddie rolando na areia, segurando o j oelho, praguej ando aos gritos. Voltou e se abaixou ao seu lado.
– Está tudo bem , estou aqui! – berrou.
Eddie tinha os olhos fechados, m as estava vivo, e Chuck não conseguiu detectar nenhum outro ferim ento a não ser no j oelho.
Ergueu os olhos. A barcaça que os levara até lá continuava bem perto da praia, sendo descarregada. Poderia levar Eddie de volta ao navio em m inutos. Mas a m etralhadora continuava a disparar.