Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 56 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

– Onde todas deveriam receber o m esm o tratam ento especial?

Willrich sorriu.

– Mais um a vez, não fui inform ado, de m odo que não posso lhe dizer.

– Sim plesm ente acatou...

– As instruções que recebi, sim .

Ochs sorriu.

– O senhor é um hom em prudente. Escolhe as palavras com cuidado. As crianças tinham idades variadas?

– No início, o program a se lim itava às crianças com m enos de 3 anos, m as depois foi am pliado para atender a todas as idades.

Carla reparou na m enção a um “program a”. Aquilo não tinha sido adm itido antes. Com eçou a perceber que Ochs era m ais esperto do que parecia à prim eira vista.

O pastor pronunciou a frase seguinte com o se estivesse confirm ando algo que j á havia sido dito:

– E todas as crianças deficientes j udias foram incluídas, independentem ente da deficiência específica que tivessem .

Seguiram -se alguns instantes de silêncio. Willrich pareceu chocado. Carla se perguntou com o Ochs sabia sobre as crianças j udias. Talvez não soubesse e estivesse apenas dando um palpite.

Após um a pausa, o pastor acrescentou:

– Crianças j udias e de raça m ista, m elhor dizendo.

Willrich não falou nada, m as assentiu de leve.

– Nos dias de hoj e – prosseguiu Ochs –, é raro crianças j udias terem preferência... não é?

Willrich desviou os olhos.

O pastor se levantou e, quando tornou a falar, sua voz ecoou de tanta raiva:

– Então, o senhor está m e dizendo que dez crianças portadoras de doenças variadas, que não poderiam de form a algum a receber o m esm o tratam ento, foram transferidas para um hospital especial do qual j am ais voltaram , e que as crianças j udias tiveram prioridade. O que achou que fosse acontecer com essas crianças, Herr Professor Doutor Willrich? Pelo am or de Deus, o que o senhor achou?

Willrich parecia que iria chorar.

– O senhor pode não responder, é claro – disse Ochs, em voz m ais baixa. – Mas um dia um a autoridade superior vai lhe fazer a m esm a pergunta. Na verdade, a m aior autoridade de todas. – Ele esticou o braço e apontou um dedo acusador. – E nesse dia, m eu filho, você vai responder.

Então o pastor virou as costas e saiu da sala.

Carla e Walter foram atrás.

 

V

O inspetor Thom as Macke sorriu. Às vezes, os inim igos do Estado faziam seu trabalho por ele. Em vez de operar em segredo e de se esconder em lugares onde fosse difícil encontrá-los, vinham até ele, identificavam -se e forneciam generosam ente provas irrefutáveis de seus crim es. Eram com o peixes que não precisavam de isca nem de anzol – sim plesm ente pulavam do rio para dentro da cesta do pescador e im ploravam para serem fritos.

O pastor Ochs era um desses peixes.

Macke tornou a ler a carta escrita pelo pastor, endereçada ao m inistro da Justiça, Franz Gürtner.

Prezado Senhor Ministro,

O governo está matando crianças deficientes? Faço essa pergunta assim, sem rodeios,

porque preciso de uma resposta clara.

Que idiota! Se a resposta fosse não, aquilo era um a calúnia crim inosa. Se fosse sim , Ochs era culpado de revelar segredos de Estado. Será que ele não conseguia entender isso por conta própria?

Depois que se tornou impossível ignorar os boatos que vinham circulando na minha

congregação, fiz uma visita ao Sanatório Infantil Wannsee e conversei com o diretor da

instituição, professor Willrich. Suas respostas foram tão insatisfatórias que fiquei convencido de

que algo terrível está acontecendo, algo que provavelmente é um crime e, sem dúvida, um

pecado.

Aquele hom em tinha a ousadia de escrever sobre crim es! Por acaso não lhe ocorria a ideia de que acusar agências governam entais de atos ilegais era, por si só, um ato ilegal? Ele por acaso achava que vivia num a dem ocracia liberal degenerada?

Macke sabia do que Ochs estava falando. O program a se cham ava Aktion T4, em referência a seu endereço, o núm ero 4 da Tiergartenstrasse. Oficialm ente, o lugar se cham ava Fundação Beneficente para a Cura e o Cuidado Institucional, em bora fosse supervisionada pelo escritório particular de Hitler, a Chancelaria do Führer. Sua tarefa era providenciar a m orte indolor dos deficientes que não pudessem sobreviver sem cuidados dispendiosos. A agência vinha fazendo um trabalho exem plar nos últim os anos e j á tinha se livrado de dezenas de m ilhares de pessoas inúteis.

O problem a era que a opinião pública alem ã ainda não possuía sofisticação suficiente para entender a necessidade dessas m ortes, por isso o program a precisava ser m antido em sigilo.

Macke estava a par do segredo. Tinha sido prom ovido a inspetor e finalm ente aceito na elite param ilitar do Partido Nazista, a Schutzstaffel, ou SS. Fora inform ado sobre o Aktion T4 ao ser encarregado do caso Ochs. Não cabia em si de orgulho: agora estava de fato por dentro das coisas.

Infelizm ente, algum as pessoas haviam sido descuidadas, e existia o risco de que inform ações sobre o Aktion T4 vazassem .

A tarefa de Macke era cobrir esse furo.

Investigações prelim inares logo revelaram que três hom ens precisavam ser silenciados: o pastor Ochs, Walter von Ulrich e Werner Franck.

Franck era o filho m ais velho de um fabricante de rádios que fora um im portante partidário do nazism o nos prim eiros tem pos. O próprio industrial, Ludwig Franck, exigira, furioso, inform ações sobre a m orte de seu filho caçula, que era deficiente. No entanto, após um a am eaça de fecham ento de suas fábricas, se calara. Já o j ovem Werner, oficial em rápida ascensão no Ministério da Aeronáutica, insistira em fazer perguntas constrangedoras e tentara envolver seu influente superior, o general Dorn.

O Ministério da Aeronáutica, que diziam ser o m aior prédio de escritórios da Europa, era um edifício ultram oderno que ocupava um quarteirão inteiro da Wilhelm strasse, bem perto do quartel-general da Gestapo, na Prinz-Albrecht-Strasse. Macke foi a pé até lá.

Vestido com seu uniform e da SS, pôde ignorar os sentinelas. Diante da m esa da recepção, bradou:

– Leve-m e até o tenente Werner Franck im ediatam ente.

A recepcionista o conduziu de elevador até um dos andares superiores, depois o guiou por um corredor até a porta aberta de um a pequena sala. No início, o rapaz sentado à m esa não ergueu os olhos dos papéis à sua frente. Ao observá-lo, Macke calculou que tivesse 22 anos. Por que não estava no front bom bardeando a Inglaterra? O pai decerto m exera alguns pauzinhos, pensou Macke, ressentido. Werner tinha o aspecto de um filho da classe privilegiada: uniform e feito sob m edida, anéis de ouro e cabelos m uito com pridos, visivelm ente não m ilitares. Macke j á o desprezava.

Werner fez um a anotação a lápis e depois ergueu os olhos. A expressão afável de seu rosto logo se apagou ao ver o uniform e da SS, e Macke observou com interesse um lam pej o de m edo. O rapaz tentou disfarçar com um a dem onstração de sim patia excessiva, levantando-se em atitude respeitosa e dando um sorriso de boas-vindas, m as o inspetor não se deixou enganar.

– Boa tarde, inspetor – disse Werner. – Sente-se, por favor.

– Heil Hitler! – saudou Macke.

– Heil Hitler! Em que posso aj udá-lo?

– Sente-se e cale a boca, garoto idiota – cuspiu Macke.

Werner se esforçou para esconder o m edo.

– O que fiz para causar tam anha ira?

– Não se atreva a m e questionar. Só fale quando for solicitado.

– Com o quiser.

– A partir de agora, você não vai fazer m ais nenhum a pergunta sobre seu irm ão Axel.

Macke ficou surpreso ao ver um a expressão m om entânea de alívio cruzar o rosto de Werner. Que curioso! Será que ele tivera m edo de outra coisa, algo m ais assustador que um a sim ples ordem para não fazer m ais perguntas sobre o irm ão? Será que Werner estava envolvido em outras atividades subversivas?

Provavelm ente não, pensou Macke após refletir um pouco. O m ais provável era que estivesse aliviado por não ser preso e levado para os porões da Prinz-Albrecht-Strasse.

Mas Werner ainda não estava com pletam ente acovardado. Reuniu coragem para perguntar:

– Por que não devo investigar a m orte de m eu irm ão?

– Já falei para não m e questionar. Saiba que você só está sendo tratado de form a branda porque seu pai tem sido um am igo valioso do Partido Nazista. Se não fosse por isso, seria você que estaria na minha sala. – Essa era um a am eaça que qualquer um entendia.

– Fico grato pela sua indulgência – disse Werner, esforçando-se para m anter um fiapo de dignidade. – Mas quero saber quem m atou m eu irm ão, e por quê.

– Não im porta o que faça, não vai saber de m ais nada. E qualquer nova investigação será considerada alta traição.

– Depois desta visita, não preciso investigar m ais nada. Agora está claro que as m inhas piores suspeitas são verdadeiras.

– Exij o que pare im ediatam ente com essa cam panha sediciosa.

Werner o encarou com ar desafiador, m as não disse nada.

– Se não parar, o general Dorn será inform ado de que a sua lealdade está sendo questionada – disse Macke.

Werner não tinha dúvidas do que ele estava querendo dizer. Iria perder o em prego em Berlim e seria despachado para um a caserna em algum a pista de pouso no norte da França.

Sua expressão se fez m enos desafiadora e m ais pensativa.

Macke se levantou. Já havia passado m uito tem po ali.

– Parece que o general Dorn o considera um assessor capaz e inteligente – disse. – Se fizer a coisa certa, talvez continue assim .

Macke saiu da sala, m as estava nervoso, insatisfeito. Não tinha certeza se havia conseguido dobrar Werner. Sentira que o rapaz tinha um ar desafiador que perm anecera intocado.

Voltou os pensam entos para o pastor Ochs. Com o religioso seria necessário um a abordagem diferente. Macke voltou ao quartel-general da Gestapo e reuniu um a pequena equipe: Reinhold Wagner, Klaus Richter e Günther Schneider. Os quatro pegaram um Mercedes 260D preto, o carro preferido da polícia secreta, que passava despercebido por ser do m esm o m odelo e da m esm a cor de m uitos táxis berlinenses. Nos prim eiros tem pos, a Gestapo fora incentivada a m anter grande visibilidade e deixar a população ver a form a brutal com o lidava com a oposição. No entanto, a tarefa de aterrorizar o povo alem ão j á fora com pletada m uito tem po antes e a violência aberta j á não era m ais necessária. Hoj e em dia, a Gestapo agia com discrição, sem pre sob o m anto da legalidade.

Os quatro foram até a casa de Ochs, ao lado da grande igrej a protestante de Mitte, o bairro central de Berlim . Assim com o Werner talvez achasse que tinha a proteção do pai, Ochs devia im aginar que a Igrej a garantia sua segurança. Estava prestes a descobrir que não era bem assim .

Macke tocou a cam painha. Antigam ente, teriam derrubado a porta, só para im pressionar.

Um a criada veio abrir e ele adentrou um hall am plo e bem -ilum inado, com piso de tábuas enceradas e tapetes pesados. Os outros três agentes entraram atrás.

– Onde está seu patrão? – perguntou Macke à em pregada, em tom educado.

Apesar de ele não a ter am eaçado, ainda assim ela estava com m edo.

– No escritório, senhor – falou, apontando para um a porta.

– Reúna as m ulheres e as crianças na sala ao lado.

Ochs abriu a porta do escritório e espiou para o hall, com o cenho franzido.

– O que está havendo aqui? – perguntou, indignado.

Macke cam inhou direto para cim a dele, forçando-o a dar um passo atrás e a entrar no escritório. Era um côm odo pequeno, bem -equipado, com um a escrivaninha de tam po de couro e várias estantes tom adas por volum es contendo com entários sobre os textos bíblicos.

– Feche a porta – ordenou Macke.

Com relutância, Ochs obedeceu.

– É m elhor o senhor ter um a explicação m uito boa para esta intrusão – falou em seguida.

– Sente-se e cale a boca – bradou Macke.

Ochs ficou pasm o. Provavelm ente ninguém o m andava calar a boca desde que ele era m enino. Insultos ao clero não eram com uns, nem m esm o vindos da polícia. Mas os nazistas ignoravam essas convenções enfraquecedoras.

– Mas isto é um ultraj e! – conseguiu dizer Ochs, por fim . Então sentou-se.

Do lado de fora do escritório, um a voz de m ulher se ergueu em protesto: a esposa, decerto. Ochs em palideceu ao ouvir aquilo e se levantou da cadeira.

Macke o em purrou para fazê-lo sentar outra vez.

– Fique aí.

O pastor era um hom em pesado e m ais alto do que Macke, m as não resistiu.

O inspetor adorava ver suj eitinhos pom posos com o ele encolhidos de m edo.

– Quem é o senhor? – perguntou Ochs.

Macke nunca respondia a essa pergunta. É claro que eles podiam adivinhar, porém era m ais assustador se não tivessem certeza. Depois, se alguém por acaso questionasse a operação, toda a equipe j uraria ter com eçado se identificando com o agentes da polícia e m ostrando os distintivos.

Ele saiu do escritório. Seus hom ens estavam em purrando várias crianças para a sala de visitas. Macke m andou que Reinhold Wagner fosse até o escritório e m antivesse Ochs lá dentro. Então entrou na outra sala atrás das crianças.

Havia cortinas floridas, fotos de fam ília no consolo da lareira e um conj unto de confortáveis poltronas estofadas com tecido xadrez. Um a bela casa, um a bela fam ília. Por que não podiam ser leais ao Reich e cuidar da própria vida?

A criada estava j unto à j anela, com a m ão na boca, com o se tentasse im pedir a si m esm a de gritar. Quatro filhos se aglom eravam ao redor da esposa de Ochs, um a m ulher feia, de seios fartos, na casa dos 30 anos. Ela segurava no colo um a quinta criança, um a m enina de 2 anos com a cabeça cheia de cachinhos louros.

Macke afagou a cabeça da m enina.

– Qual é o nom e desta pequenina aqui? – indagou.

Frau Ochs estava apavorada.

– Lieselotte – sussurrou em resposta. – O que o senhor quer conosco?

– Venha com o tio Thom as, pequena Lieselotte – disse Macke, estendendo os braços.

– Não! – gritou Frau Ochs, segurando a m enina com m ais força e virando-se para o outro lado.

Lieselotte com eçou a chorar bem alto.

Macke m eneou a cabeça para Klaus Richter.

Richter segurou Frau Ochs por trás, puxando seus braços para j unto das costas e forçando-a a soltar a filha. Macke segurou Lieselotte antes que ela caísse. A m enina se contorceu com o um peixe, m as ele sim plesm ente a segurou com m ais força, com o teria feito com um gato. Ela chorou ainda m ais alto.

Um m enino de seus 12 anos partiu para cim a de Macke, desferindo golpes inofensivos com os punhos pequenos. Já estava na hora de ele aprender a respeitar um a autoridade, decidiu o inspetor. Apoiando Lieselotte no quadril esquerdo, agarrou o m enino pela frente da cam isa, levantou-o do chão e o j ogou do outro lado da sala, certificando-se de que ele aterrissasse sobre um a das poltronas. O garoto berrou de m edo, e Frau Ochs tam bém gritou. A poltrona caiu para trás e o m enino se estatelou no chão. Não chegou a se m achucar, m as abriu o berreiro.

Macke levou Lieselotte para o hall. A m enina gritava a plenos pulm ões, cham ando a m ãe. Macke a pôs no chão. Ela correu até a porta da sala de visitas e com eçou a bater, guinchando de terror. Ainda não aprendera a girar m açanetas, constatou Macke.

Deixando a m enina no hall, o inspetor tornou a entrar no escritório. Wagner estava j unto à porta, vigiando-a. Ochs encontrava-se de pé no m eio do côm odo, pálido de m edo.

– O que está fazendo com m eus filhos? – indagou. – Por que Lieselotte está gritando?

– O senhor vai escrever um a carta – disse Macke.

– Sim , sim , qualquer coisa – respondeu Ochs, dirigindo-se à escrivaninha com tam po de couro.

– Agora não, m ais tarde.

– Está bem .

Macke estava gostando daquilo. Ao contrário de Werner, Ochs rendera-se com pletam ente.

– Um a carta para o m inistro da Justiça – prosseguiu ele.

– Então é disso que se trata.

– Vai dizer que agora percebe que não havia verdade nenhum a nas alegações feitas em sua prim eira carta. Com unistas clandestinos o levaram a se enganar. Vai pedir desculpas ao m inistro pelos problem as causados por suas ações im pensadas e garantir que nunca m ais tocará no assunto com ninguém .

– Sim , vou escrever. O que estão fazendo com m inha m ulher?

– Nada. Ela está gritando por causa do que vai acontecer com ela caso o senhor não escreva a carta.

– Quero vê-la.

– Vai ser pior para ela se o senhor m e incom odar com pedidos idiotas.

– É claro, sinto m uito, peço que m e desculpe.

Os oponentes do nazism o eram tão fracos!

– Escreva a carta hoj e à noite e ponha no correio am anhã.

– Sim . Devo lhe m andar um a cópia?

– Ela vai chegar a m im de qualquer m aneira, seu im becil. Por acaso acha que o m inistro lê pessoalm ente os seus rabiscos sem sentido?

– Não, é claro que não, eu entendo.

Macke foi até a porta.

– E fique longe de pessoas com o Walter von Ulrich.

– Ficarei. Prom eto.

Macke saiu e acenou para que Wagner o seguisse. Sentada no chão, Lieselotte gritava descontroladam ente. Macke abriu a porta da sala de visitas e cham ou Richter e Schneider.

Os quatro saíram da casa.

– Às vezes a violência é realm ente desnecessária – com entou Macke, pensativo, enquanto entravam no carro.

Wagner assum iu o volante, e Macke lhe deu o endereço da casa dos Von Ulrich.

– Mas, em outros casos, é o j eito m ais sim ples – acrescentou.

Von Ulrich m orava no m esm o bairro da igrej a, num antigo im óvel espaçoso que ele obviam ente não tinha dinheiro para m anter. A tinta estava descascando, havia ferrugem por toda a grade e um a vidraça quebrada fora tapada com papelão. Não era algo raro de se ver: a austeridade da guerra estava prej udicando a m anutenção de m uitas casas.

A porta foi aberta por um a criada. Macke deduziu que devia ser a m ulher cuj o filho deficiente causara todo aquele problem a, m as não se deu o trabalho de perguntar. Prender m oças era perda de tem po.

Walter von Ulrich entrou no hall vindo de um côm odo lateral.

Macke se lem brava dele. Era o prim o de Robert von Ulrich, cuj o restaurante ele e o irm ão haviam com prado oito anos antes. Na época, era orgulhoso e arrogante. Agora vestia um terno gasto, m as m antinha a atitude atrevida.

– O que o senhor desej a? – perguntou Walter, com o se ainda tivesse poder para exigir explicações.

Macke não pretendia perder m uito tem po ali.

– Algem em este hom em – ordenou.

Wagner deu um passo à frente com as algem as.

Um a m ulher alta e atraente apareceu e se postou na frente de Von Ulrich.

– Digam -m e quem são e o que querem – exigiu ela.

Só podia ser a esposa. Tinha sotaque estrangeiro. Isso não era nenhum a surpresa.

Wagner lhe deu um tapa no rosto, e ela cam baleou para trás.

– Vire-se e j unte os pulsos – ordenou Wagner a Walter. – Ou então a farei engolir os próprios dentes.

Von Ulrich obedeceu.

Um a j ovem bonita de uniform e de enferm eira desceu a escada correndo.

– Pai! – exclam ou. – O que está acontecendo?

Macke se perguntou quantas outras pessoas poderia haver na casa. Sentiu um a pontada de ansiedade. Um a fam ília norm al não seria capaz de subj ugar agentes de polícia treinados, m as, se fosse num erosa, seria capaz de criar um a confusão que perm itisse a Von Ulrich fugir.

Mas o próprio Walter não queria briga.

– Não os enfrente! – ordenou à filha em tom urgente. – Fique onde está!

A enferm eira adotou um a expressão aterrorizada e obedeceu.

– Ponham -no dentro do carro – disse Macke.

Wagner saiu pela porta conduzindo Von Ulrich.

A esposa com eçou a soluçar.

– Para onde o estão levando? – perguntou a enferm eira.

Macke foi até a porta. Olhou para as três m ulheres: a criada, a esposa e a filha.

– Toda essa confusão por causa de um débil m ental de 8 anos – falou. – Nunca vou entender essa gente.

Então saiu da casa e entrou no carro.

Eles fizeram o curto traj eto até a Prinz-Albrecht-Strasse. Wagner estacionou nos fundos do prédio da sede da Gestapo, ao lado de uns dez carros idênticos. Todos saltaram .

Von Ulrich foi conduzido por um a porta nos fundos e pela escada até o subsolo, e posto dentro de um côm odo com paredes de ladrilhos brancos.