Inverno do Mundo
Capítulo VI
Depois que os brindes foram feitos, quando os hom ens com eçaram a fum ar, Lev – que, na condição de pai da noiva, era quem pagaria a conta – correu os olhos pela m esa e disse:
– Bem , Fitz, espero que tenha gostado da com ida. Os vinhos estavam à altura do seu padrão?
– Estavam m uito bons, obrigado.
– Vou lhe dizer um a coisa: achei que foi um banquete da porra!
Bea deu um m uxoxo de reprovação audível. Os hom ens não deviam dizer “porra” na sua frente.
Lev virou-se para ela. Estava sorrindo, m as Daisy conhecia aquele seu olhar perigoso.
– O que foi, princesa? Eu a ofendi?
Bea não quis responder, m as ele continuou a fitá-la com um a expressão de quem aguarda, e não desviou os olhos. Por fim , ela respondeu:
– Prefiro não ouvir esse tipo de brutalidade.
Lev pegou sua charuteira e sacou um charuto. Não o acendeu de im ediato. Em vez disso, cheirou-o e ficou a girá-lo entre os dedos.
– Perm itam -m e que lhes conte um a história – disse ele, e correu os olhos de um lado a outro da m esa para ter certeza de que todos estavam ouvindo: Fitz, Olga, Boy, Daisy e Bea. – Quando eu era m enino, m eu pai foi acusado de deixar seus anim ais pastarem nas terras de outra pessoa. Nada de m ais, vocês podem pensar, m esm o que fosse verdade. Mas ele foi preso e o adm inistrador das terras construiu um cadafalso na cam pina norte. Os soldados foram até m inha casa, pegaram m eu irm ão, nossa m ãe e eu, e nos levaram até lá. Meu pai estava em cim a do cadafalso com um a corda em volta do pescoço. Então o dono das terras chegou.
Daisy nunca tinha escutado essa história. Olhou para a m ãe. Olga parecia igualm ente surpresa.
O pequeno grupo ao redor da m esa agora estava em com pleto silêncio.
– Fom os obrigados a assistir ao enforcam ento do m eu pai – disse Lev. Então se virou para Bea. – E sabe o que é m ais estranho? A irm ã do dono das terras tam bém estava lá. – Ele pôs o charuto na boca para m olhar a ponta com saliva, depois tornou a tirá-lo.
Daisy viu que Bea tinha ficado pálida. Será que aquela história tinha a ver com ela?
– Ela era princesa e, à época, tinha 19 anos – disse Lev, olhando para o charuto. Daisy ouviu Bea soltar um gritinho abafado e percebeu que a história era mesmo sobre ela. – A princesa ficou lá parada e assistiu ao enforcam ento, fria com o gelo – continuou Lev.
Então olhou direto para Bea.
– Para m im , isso sim é brutalidade – com pletou.
Houve um longo silêncio.
Lev então pôs o charuto de volta na boca e perguntou:
– Alguém tem fogo?
VI
Sentado à m esa da cozinha da casa de sua m ãe em Aldgate, Lloy d William s estudava um m apa, ansioso.
Era dom ingo, 4 de outubro de 1936, e nesse dia haveria um a passeata.
A antiga cidade rom ana de Londres, construída sobre um a colina j unto ao rio Tâm isa, era agora o bairro financeiro conhecido com o City. A oeste dessa colina ficavam os palacetes dos ricos, os teatros, as loj as e as catedrais por eles frequentados. A casa em que Lloy d estava ficava a leste da colina, perto das docas e dos barracos. Era ali que, durante m uitos séculos, haviam chegado as sucessivas ondas de im igrantes dispostos a trabalhar até as costas se vergarem para que um dia seus netos pudessem se m udar do East End, o lado leste da cidade, para o West End, o lado oeste.
O m apa que Lloy d exam inava com tanta atenção era um a edição especial do Daily Worker, o j ornal do Partido Com unista, e m ostrava o traj eto da passeata da União Britânica de Fascistas que aconteceria nesse dia. Os fascistas planej avam se reunir em frente à Torre de Londres, no lim ite entre a City e o East End, e depois seguir m archando rum o ao leste...
Bem na direção do bairro de Stepney , habitado principalm ente por j udeus.
A m enos que Lloy d e outros que pensavam com o ele conseguissem detê-los.
Segundo o j ornal, havia 300 m il j udeus na Grã-Bretanha, e m etade deles vivia no East End. Eram em sua m aioria refugiados da Rússia, da Polônia e da Alem anha, onde tinham vivido com o m edo constante de que a polícia, o Exército ou os cossacos entrassem na cidade para roubar as fam ílias, espancar os velhos e desonrar as m oças, enfileirando pais e irm ãos diante dos m uros para serem fuzilados.
Ali, nos barracos de Londres, esses j udeus haviam encontrado um lugar onde tinham tanto direito de viver quanto qualquer outra pessoa. Com o se sentiriam ao olhar pela j anela e ver, m archando por suas ruas, um a gangue de arruaceiros uniform izados que havia j urado exterm iná-los? Lloy d sentia que não podia deixar isso acontecer.
O Worker destacava que, da Torre, só havia duas rotas possíveis para a passeata. Um a delas passava por Gardiner’s Corner, um cruzam ento de cinco ruas conhecido com o o portão de entrada do East End; a outra seguia pela Roy al Mint Street e pela estreita Cable Street. Havia um a dúzia de outros cam inhos possíveis para alguém que usasse as ruas laterais, m as não para um a passeata. A St. George Street conduzia ao bairro católico de Wapping, não ao bairro j udeu de Stepney , e, por isso, não tinha serventia para os fascistas.
O Worker estava conclam ando um a parede hum ana para bloquear Gardiner’s Corner e a Cable Street, a fim de deter a passeata.
O j ornal m uitas vezes conclam ava para coisas que não aconteciam : greves, revoluções ou – m ais recentem ente – um a aliança de todos os partidos de esquerda para form ar um a frente popular. A parede hum ana talvez fosse apenas m ais um a utopia. Seria preciso m ilhares de pessoas para isolar o East End de m aneira eficaz. Lloy d não sabia se elas iriam aparecer em núm ero suficiente.
Tudo o que sabia com certeza era que haveria problem as.
Tam bém estavam à m esa com ele seus pais, Bernie e Ethel; sua irm ã, Millie; e Lenny Griffiths, de Aberowen, um rapaz de 16 anos vestido com seu terno de ir à m issa. Lenny fazia parte de um pequeno exército de m ineiros galeses que fora a Londres participar da oposição à passeata.
Bernie ergueu os olhos do j ornal e disse ao rapaz:
– Os fascistas estão dizendo que as passagens de trem para vocês galeses virem a Londres foram pagas por j udeus ricos.
Lenny engoliu um bocado de ovo frito.
– Não conheço nenhum j udeu rico – falou. – Conheço a Sra. Levy da loj a de doces, m as ela é gorda, não rica. De todo m odo, cheguei a Londres na traseira de um cam inhão j unto com sessenta cordeiros galeses a cam inho do m ercado de Sm ithfield.
– Ah, então o cheiro está explicado – com entou Millie.
– Millie, que grosseria! – ralhou Ethel.
Lenny estava dividindo o quarto com Lloy d, a quem confidenciara que, depois da passeata, não planej ava voltar para Aberowen. Ele e Dave William s iriam para a Espanha e se j untariam às Brigadas Internacionais form adas para lutar contra a insurreição fascista.
– Você conseguiu o passaporte? – perguntara Lloy d.
Tirar um passaporte não era difícil, m as o candidato tinha que apresentar a referência de um padre, um m édico, um advogado ou outra pessoa im portante, assim , não era fácil para um j ovem m anter segredo sobre isso.
– Não precisa – respondera Lenny. – Basta ir à Victoria Station e com prar um a passagem de ida e volta para Paris. É possível fazer isso sem passaporte.
Lloy d j á sabia vagam ente disso. Era um a brecha na lei que visava ao conforto da classe m édia próspera. Agora, os antifascistas a estavam aproveitando.
– Quanto custa essa passagem ? – perguntou Lloy d.
– Três libras e quinze xelins.
Lloy d arqueara as sobrancelhas. Era m ais dinheiro do que um m ineiro desem pregado supostam ente tinha.
– Mas o Partido Trabalhista Independente vai pagar m inha passagem – acrescentara Lenny –, e o Partido Com unista vai pagar a de Dave.
Os dois rapazes deviam ter m entido a idade.
– E depois de chegar a Paris, o que vocês vão fazer?
– Os com unistas franceses vão nos esperar na Gare du Nord. – Ele pronunciava o nom e da estação parisiense gardunó. Não falava um a palavra de francês. – De lá, serem os escoltados até a fronteira com a Espanha.
Lloy d adiara sua partida. Dizia às pessoas que era para tranquilizar os pais, m as a verdade era que não tinha desistido de Daisy. Ainda sonhava em vê-la term inar com Boy. Era um a esperança vã – ela nem sequer respondera às suas cartas –, m as ele não conseguia esquecê-la.
Enquanto isso, Grã-Bretanha, França e Estados Unidos haviam feito um acordo com Alem anha e Itália para que todos adotassem um a política de não intervenção na Espanha, o que significava que nenhum deles forneceria arm as a nenhum dos lados da disputa. Só isso j á deixava Lloy d furioso: as dem ocracias não deveriam apoiar o governo eleito? No entanto, o que era ainda pior, a Alem anha e a Itália violavam o acordo diariam ente, com o a m ãe de Lloy d e seu tio Billy haviam deixado bem claro em todas as reuniões públicas organizadas naquele outono para discutir a situação espanhola. O conde Fitzherbert, que era o m inistro-adj unto do governo responsável por esse tipo de decisão, defendia ferrenham ente sua política, afirm ando que o governo espanhol não deveria ser arm ado por causa do risco de se tornar com unista.
Aquilo era um a profecia fadada a se cum prir, com o dissera Ethel num discurso veem ente. A única nação disposta a apoiar o governo espanhol era a União Soviética, e era natural que os espanhóis se aproxim assem do único país no m undo que os havia aj udado.
A verdade, no entanto, era que, segundo os conservadores, a Espanha elegera pessoas perigosam ente de esquerda. Hom ens com o Fitzherbert não achariam ruim se o governo espanhol fosse derrubado pela violência e substituído por extrem istas de direita. Lloy d fervia de frustração.
Então surgira aquela chance de com bater o fascism o na sua própria cidade.
– Isso é ridículo – dissera Bernie um a sem ana antes, quando a passeata fora anunciada. – A polícia m etropolitana tem que obrigá-los a m udar de rota. É claro que eles têm o direito de fazer a passeata, m as não em Stepney .
A polícia, porém , afirm ava não ter o poder de interferir num a m anifestação totalm ente legal.
Bernie, Ethel e os prefeitos de oito dos distritos de Londres tinham form ado um a delegação para im plorar ao m inistro do Interior, Sir John Sim on, que proibisse a passeata ou pelo m enos m udasse sua rota, m as o secretário tam bém alegara não ter poderes para agir.
A questão do que fazer em seguida deixara o Partido Trabalhista, a com unidade j udaica e a fam ília William s divididos.
O Conselho do Povo Judeu contra o Fascism o e o Antissem itism o, criado por Bernie e outros com panheiros três m eses antes, convocara um a im ensa contrapasseata que m anteria os fascistas fora das ruas do bairro j udeu. Sua palavra de ordem era a expressão em espanhol No pasarán, ou sej a, “não passarão” – o grito daqueles que haviam defendido Madri dos fascistas. Apesar do nom e grande, o conselho era um a organização pequena. Ocupava duas salas no prim eiro andar de um prédio na Com m ercial Road e tinha um a copiadora Gestetner e um par de m áquinas de escrever j á antigas. Entretanto, gozava de am plo apoio no East End. Em 48 horas, o conselho havia recolhido o incrível núm ero de 100 m il nom es para um abaixo-assinado a favor da proibição da passeata. Mesm o assim , o governo continuou sem fazer nada.
Apenas um partido político im portante apoiava a contrapasseata: os com unistas. O protesto tam bém tinha o respaldo do m arginal Partido Trabalhista Independente, ao qual Lenny era filiado. Todos os outros eram contrários ao protesto.
– Estou vendo que o Jewish Chronicle aconselhou seus leitores a não saírem na rua hoj e – disse Ethel.
Para Lloy d, o problem a era j ustam ente esse. Muitas pessoas achavam que era m elhor ficar longe de confusão. Mas isso daria espaço aos fascistas para fazer o que quisessem .
Bernie, que apesar de ser j udeu não era praticante, disse à m ulher:
– Com o você pode citar o Jewish Chronicle para m im ? Esse j ornal diz que os j udeus não devem ser contra o fascism o, só contra o antissem itism o. Que sentido político há nisso?
– Ouvi dizer que o Conselho de Representantes dos Judeus Britânicos está recom endando o m esm o que o Chronicle – insistiu Ethel. – Parece que fizeram um anúncio ontem em todas as sinagogas.
– Esses supostos representantes são todos novos-ricos de Golders Green – disse Bernie com desprezo. – Nunca foram xingados na rua por arruaceiros fascistas.
– Você é m em bro do Partido Trabalhista – disse Ethel em tom de acusação. – Nossa política é não enfrentar os fascistas na rua. Onde está sua fidelidade partidária?
– E a fidelidade a m eus com panheiros j udeus? – rebateu Bernie.
– Você só é j udeu quando lhe convém . E ninguém nunca o xingou na rua.
– Mesm o assim , o Partido Trabalhista com eteu um erro político.
– Lem bre-se de que, se vocês deixarem os fascistas provocarem violência, a im prensa vai pôr a culpa na esquerda, independentem ente de quem tenha com eçado.
– Se os garotos do Mosley com eçarem um a briga, vão ter o que m erecem – disse Lenny, inflam ado.
Ethel suspirou.
– Pense um pouco, Lenny : neste país, quem tem a m aior quantidade de arm as, você, Lloy d e o Partido Trabalhista ou os conservadores, com o Exército e a polícia do seu lado?
– É – adm itiu Lenny . Estava claro que não havia pensado nisso.
– Com o você pode falar assim ? – perguntou Lloy d à m ãe, zangado. – Você estava em Berlim três anos atrás... viu com o eram as coisas lá. A esquerda alem ã tentou se opor ao fascism o de form a pacífica, e vej a o que aconteceu com ela.
– Os social-dem ocratas alem ães não conseguiram form ar um a frente popular com os com unistas – explicou Bernie. – Isso lhes perm itiu serem elim inados separadam ente. Juntos, talvez eles tivessem vencido. – Bernie ficara zangado quando o escritório local do Partido Trabalhista recusara um a oferta dos com unistas para form ar um a coalizão contra a passeata.
– Aliar-se aos com unistas é perigoso – disse Ethel.
Ela e Bernie discordavam nesse ponto. Na verdade, essa era a questão que dividia o Partido Trabalhista. Para Lloy d, Bernie estava certo e Ethel, errada.
– Tem os que usar todos os recursos à disposição para derrotar o fascism o – afirm ou seu padrasto. Então acrescentou, em tom diplom ático: – Mas sua m ãe tem razão: vai ser m elhor para nós se o dia de hoj e transcorrer sem violência.
– Vai ser m elhor se todos vocês ficarem em casa e se opuserem aos fascistas por m eio dos canais norm ais da política dem ocrática – disse Ethel.
– Vocês tentaram obter salários iguais para as m ulheres por m eio dos canais norm ais da política dem ocrática – disse Lloy d. – E não conseguiram . – Em abril desse m esm o ano, as deputadas trabalhistas haviam tentado aprovar um proj eto de lei garantindo às funcionárias públicas salários iguais por serviços iguais. O proj eto fora rej eitado pela Câm ara dos Com uns, m aj oritariam ente m asculina.
– Não se desiste da dem ocracia toda vez que se perde um a votação – disse Ethel, seca.
O problem a, Lloy d sabia, era que essas divisões podiam enfraquecer as forças antifascistas de m odo fatal, com o havia acontecido na Alem anha. Aquele dia seria um a prova de fogo. Os partidos políticos podiam tentar liderar, m as as pessoas decidiriam quem seguir. Será que ficariam em casa, com o instavam o tím ido Partido Trabalhista e o Jewish Chronicle? Ou sairiam às ruas aos m ilhares para dizer não ao fascism o? No fim do dia ele teria a resposta.
Alguém bateu na porta dos fundos, e seu vizinho Sean Dolan entrou usando o terno de ir à igrej a.
– Vou m e j untar a vocês depois da m issa – disse ele a Bernie. – Onde vai ser a concentração?
– Em Gardiner’s Corner, às duas da tarde – respondeu Bernie. – Esperam os ter gente suficiente para deter os fascistas ali.
– Todos os estivadores do East End estarão lá – disse Sean, entusiasm ado.
– Por quê? – perguntou Millie. – Os fascistas não odeiam os trabalhadores da estiva, odeiam ?
– Você é j ovem dem ais para se lem brar, querida, m as os j udeus sem pre nos apoiaram – explicou Sean. – Na greve dos estivadores de 1912, quando eu estava com apenas 9 anos, m eu pai não tinha com o nos dar com ida, e eu e m eu irm ão fom os recolhidos pela Sra. Isaacs, a m ulher do padeiro da New Road. Que Deus abençoe seu grande coração! Naquela época, centenas de filhos de estivadores foram recolhidos por fam ílias j udias. O m esm o aconteceu em 1926. Não vam os deixar esses m alditos fascistas andarem pelas nossas ruas... Perdoe o m eu linguaj ar, Sra. Leckwith.
Lloy d ficou m ais anim ado. Havia m ilhares de estivadores no East End: se eles com parecessem em m assa, o contingente aum entaria m uito.
O som de um alto-falante ecoou do lado de fora:
– Não deixem Mosley entrar em Stepney – dizia um a voz de hom em . – Concentração em Gardiner’s Corner às duas horas.
Lloy d term inou seu chá e se levantou. Sua tarefa nesse dia era bancar o espião: verificar a posição dos fascistas e passar inform ações atualizadas para o Conselho do Povo Judeu. Tinha os bolsos cheios de grandes m oedas m arrons de um penny para os telefones públicos.
– É m elhor eu ir andando – falou. – Os fascistas j á estão se concentrando.
Sua m ãe se levantou e o acom panhou até a porta.
– Não se m eta em briga – advertiu. – Lem bre-se do que aconteceu em Berlim .
– Vou tom ar cuidado – disse Lloy d.
Ela tentou im prim ir à voz um tom descontraído.
– Sua am ericana rica não vai gostar de você sem dentes.
– Ela j á não gosta de m im , m esm o.
– Não acredito. Que m oça seria capaz de resistir a você?
– Eu vou ficar bem , Mam – disse Lloy d. – Vou m esm o.
– Acho que eu deveria estar feliz por você não ir para a m aldita Espanha.
– Sim , pelo m enos por hoj e. – Lloy d se despediu da m ãe com um beij o e saiu.
A m anhã de outono estava clara e o sol, m ais quente que o norm al para a estação. No m eio da Nutley Street, um palanque im provisado havia sido m ontado por um grupo de hom ens, um dos quais falava num m egafone:
– População do East End, não tem os que ficar calados enquanto um bando de antissem itas m archa por nossas ruas nos insultando!
Lloy d reconheceu o orador: era o representante local do Movim ento Nacional de Trabalhadores Desem pregados. Por causa da Depressão, havia m ilhares de alfaiates j udeus desem pregados. Eles se apresentavam diariam ente na Central de Em pregos da Settle Street.
Lloy d m al havia percorrido dez m etros quando Bernie o alcançou para lhe entregar um saco de papel cheio de bolinhas de gude.
– Já participei de m uitas passeatas – disse ele. – Se a polícia m ontada atacar os m anifestantes, j ogue essas bolinhas sob os cascos dos cavalos.
Lloy d sorriu. Seu padrasto era pacifista, m as não era nenhum banana.
Ainda assim , Lloy d estava em dúvida quanto às bolinhas. Não tinha m uita experiência com cavalos, m as estes lhe davam a im pressão de ser anim ais pacientes e inofensivos, e não lhe agradava a ideia de derrubá-los.
Bernie entendeu a expressão em seu rosto e disse:
– Melhor um cavalo no chão do que m eu m enino ser pisoteado.
Lloy d guardou as bolinhas no bolso; aceitá-las não o obrigava a usá-las.
Ficou satisfeito ao constatar que j á havia m uitas pessoas na rua. Reparou em outros indícios encoraj adores. Para onde quer que olhasse, as palavras de “Não passarão” tinham sido escritas nas paredes com giz, em inglês e espanhol. Os com unistas, presentes em peso, distribuíam panfletos. Muitos peitoris de j anela ostentavam bandeiras verm elhas. Um grupo de hom ens usando m edalhas da Grande Guerra carregava um a faixa que dizia: “Associação de Ex-Com batentes Judeus”. Os fascistas detestavam ser lem brados de quantos j udeus haviam lutado pela Inglaterra. Cinco soldados j udeus tinham sido condecorados com a Cruz Vitória, a m ais im portante m edalha por bravura da Grã-Bretanha.
Lloy d com eçou a pensar que talvez fosse haver gente suficiente para conter a passeata.
Gardiner’s Corner era um cruzam ento largo de cinco ruas batizado em hom enagem à loj a de roupas escocesa cham ada Gardiner and Com pany, que ocupava um prédio de esquina encim ado por um a torre com um relógio. Ao chegar lá, Lloy d constatou que as autoridades previam problem as. Havia m uitos postos de atendim ento e centenas de voluntários da organização de prim eiros socorros St. John’s Am bulance. Havia am bulâncias estacionadas em todas as ruas laterais. Lloy d torceu para que não houvesse briga; m as era m elhor correr o risco da violência do que deixar os fascistas m archarem sem oposição, pensou.
Ele fez um desvio e se aproxim ou da Torre de Londres pelo noroeste, para não ser identificado com o m orador do East End. Poucos m inutos antes de chegar, j á podia ouvir as bandas de m etais.
A Torre era um palácio situado à m argem do rio e representava oito séculos de autoridade e repressão. Era rodeada por um m uro extenso e antigo de pedras claras cuj a cor parecia ter sido desbotada por séculos de chuvas londrinas. Do lado de fora dos m uros, do lado oposto ao do rio, ficava um parque cham ado Tower Gardens, os “j ardins da torre”, e era ali que os fascistas estavam se concentrando. Lloy d calculou que j á houvesse dois m il deles, form ando um a fila que se estendia rum o a oeste em direção ao bairro financeiro. De vez em quando, eles irrom piam num canto ritm ado:
Um, dois, três, quatro,
Vamos nos livrar dos judeus!
Os judeus! Os judeus!
Vamos nos livrar dos judeus!
Os fascistas carregavam Union Jacks, a bandeira do Reino Unido. Por que um a gente que desej ava destruir tudo o que o seu país sim bolizava era a prim eira a acenar com a bandeira nacional?, perguntou-se Lloy d.
Nas colunas que form avam sobre o gram ado, os m anifestantes, usando cintos largos de couro e cam isas pretas, tinham um aspecto m arcadam ente m ilitar. Os oficiais usavam uniform es distintos: j aqueta preta de corte m ilitar, calça de m ontaria cinza, botas de cano longo, um quepe preto de ponteira lustrosa e um a braçadeira verm elha e branca. Vários m otociclistas de uniform e faziam rugir os m otores de m odo ostensivo, bradando m ensagens com saudações fascistas. Não paravam de chegar m anifestantes, alguns em cam inhonetes blindadas com grades de m etal nas j anelas.
Aquilo não era um partido político. Era um exército.
O obj etivo daquela passeata era ostentar um a falsa autoridade, concluiu Lloy d. Os fascistas queriam dar a im pressão de que tinham o direito de interrom per reuniões políticas e evacuar prédios, de invadir casas e escritórios para prender pessoas, de arrastá-las para a prisão e cam pos para serem espancadas, interrogadas e torturadas, assim com o os cam isas-pardas faziam na Alem anha sob o regim e nazista tão adm irado por Mosley e pelo dono do Daily Mail, lorde Rotherm ere.
Aqueles hom ens iriam aterrorizar os m oradores do East End, pessoas cuj os pais e avós tinham fugido da repressão e dos pogrons na Irlanda, na Polônia e na Rússia.
Será que os m oradores do East End sairiam às ruas para com batê-los? Se não saíssem – se a passeata corresse conform e o planej ado –, o que os fascistas ousariam fazer no dia seguinte?
Ele deu a volta no parque, fingindo ser m ais um entre tantos observadores reunidos ali. Ruas laterais partiam daquele centro com o os raios de um a roda. Num a delas, Lloy d viu um conhecido Rolls-Roy ce preto e crem e se aproxim ar. O m otorista abriu a porta de trás e, para seu choque e sua consternação, Daisy Peshkov desceu do carro.
Não havia dúvida do m otivo pelo qual ela estava ali. Usava um a versão fem inina do uniform e, de corte perfeito, com um a saia cinza com prida no lugar da calça e os cachos louros escapando do quepe preto. Por m ais que detestasse aquela roupa, Lloy d não pôde evitar achá-la irresistivelm ente atraente.
Parou e ficou encarando a m oça. Não deveria ter se espantado. Ela lhe dissera que gostava de Boy Fitzherbert e seu posicionam ento político não m udava em nada esse fato. Mas vê-la ali, apoiando de form a aberta os fascistas em seu ataque aos j udeus londrinos, o fez entender quanto ela era diam etralm ente oposta a tudo o que ele valorizava na vida.
Devia apenas ter virado as costas, m as não conseguiu. Enquanto ela seguia apressada pela calçada, postou-se na sua frente.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou, brusco.
Ela perm aneceu calm a.
– Eu poderia lhe fazer a m esm a pergunta, Sr. William s – respondeu. – Não im agino que pretenda m archar conosco.
– Você não entende com o essas pessoas são? Elas interrom pem reuniões políticas pacíficas, intim idam j ornalistas, põem seus adversários políticos na prisão. Você é am ericana... com o pode ser contra a dem ocracia?
– A dem ocracia não é necessariam ente o sistem a político m ais adequado para todos os países em todos os m om entos.
Lloy d im aginou que ela estivesse citando a propaganda de Mosley .
– Mas essa gente tortura e m ata todo m undo que discorda de suas opiniões! – exclam ou ele. Pensou em Jörg. – Vi isso com m eus próprios olhos em Berlim . Passei alguns dias em um dos cam pos. Fui forçado a ver um hom em nu ser dilacerado até a m orte por cães fam intos. Esse é o tipo de coisa que seus am igos fascistas fazem .
Ela não se deixou intim idar:
– E quem exatam ente foi m orto pelos fascistas aqui na Inglaterra nos últim os tem pos?
– Os fascistas britânicos ainda não subiram ao poder... m as esse seu Mosley adm ira Hitler. Se tiverem oportunidade, vão fazer exatam ente a m esm a coisa que os nazistas.
– Acabar com o desem prego e dar orgulho e esperança às pessoas, você quer dizer?
Lloy d se sentia tão atraído por ela que ouvi-la dizer aquelas bobagens o deixava com o coração despedaçado.
– Você sabe o que os nazistas fizeram com a fam ília da sua am iga Eva.
– Ela se casou, sabia? – disse Daisy, com o tom decidido e alegre de quem tenta m udar o rum o de um a conversa ao redor da m esa para um assunto m ais agradável. – Com o sim pático Jim m y Murray . Ela agora é um a esposa inglesa.
– E os pais dela?
Daisy olhou para o outro lado.
– Eu não os conheço.
– Mas sabe o que os nazistas fizeram com eles. – Eva tinha contado tudo a Lloy d durante o baile do Trinity College. – O pai dela não pode m ais exercer a m edicina e agora trabalha com o assistente num a farm ácia. Não pode entrar em parques nem em bibliotecas públicas. Na cidade em que ele nasceu, o nom e do pai dele foi raspado do m onum ento aos m ortos na guerra! – Lloy d percebeu que havia levantado a voz. Prosseguiu em tom m ais baixo: – Com o você pode ficar do lado de pessoas que fazem esse tipo de coisa?
Ela pareceu abalada, m as não respondeu à pergunta. Em vez disso, falou:
– Já estou atrasada. Peço perdão, m as tenho que ir.
– Não há perdão para o que você está fazendo.
O m otorista interveio:
– Está bem , filho, agora chega.
Ele era um hom em pesado, de m eia-idade, que obviam ente se exercitava pouco, e Lloy d não ficou nem um pouco intim idado, m as não quis com eçar um a briga.
– Já estou indo – falou, em tom brando. – Mas não m e cham e de filho.
O m otorista o segurou pelo braço.
– É m elhor tirar a m ão de m im , senão o derrubarei antes de ir – disse Lloy d, encarando o m otorista.
O hom em hesitou. Lloy d retesou o corpo, preparando-se para reagir, atento aos sinais, com o ficaria num ringue de boxe. Se o m otorista tentasse acertá-lo, seria com um soco aberto e grosseiro, fácil de esquivar.
No entanto, ou o hom em pressentiu que Lloy d estava disposto a reagir, ou então sentiu os m úsculos do braço que estava segurando. Sej a com o for, recuou e soltou Lloy d dizendo:
– Não precisa m e am eaçar.
Daisy se afastou.
Lloy d ficou adm irando suas costas vestidas com o uniform e de corte perfeito enquanto ela seguia apressada em direção às fileiras de fascistas. Com um profundo suspiro de frustração, virou-se e com eçou a andar na outra direção.
Tentou se concentrar na tarefa que tinha pela frente. Que bobagem sua am eaçar o m otorista. Se tivesse entrado num a briga, provavelm ente teria sido preso e passado o dia inteiro em um a cela de prisão – em que isso aj udaria a com bater o fascism o?
Era m eio-dia e m eia. Ele saiu de Tower Hill, encontrou um a cabine telefônica, ligou para o Conselho do Povo Judeu e falou com Bernie. Depois de ouvir o relato de Lloy d sobre o que tinha visto, seu padrasto lhe pediu que estim asse o núm ero de policiais nas ruas entre a Torre de Londres e a Gardiner’s Corner.
Lloy d atravessou o parque até o lado leste e explorou as ruas secundárias que partiam dali. O que viu o deixou boquiaberto.
Esperava cerca de um a centena de policiais. Na verdade, havia m ilhares.
Agentes da polícia m argeavam as calçadas, aguardando dentro de dúzias de ônibus estacionados e m ontados em cavalos im ensos, form ando fileiras m uito precisas. Apenas um a estreita brecha perm itia às pessoas cam inharem pelas ruas. O núm ero de policiais era m aior que o de fascistas.
De dentro de um dos ônibus, um agente uniform izado o cum prim entou com a saudação nazista.
Lloy d ficou arrasado. Se todos aqueles policiais estivessem do lado dos fascistas, com o os contram anifestantes poderiam resistir?
Aquilo era pior do que um a passeata fascista: era um a passeata fascista com o apoio da polícia. Que tipo de m ensagem transm itia aos j udeus do East End?
Na Mansell Street, Lloy d viu um policial de bairro que conhecia, cham ado Henry Clark.
– Oi, Nobby – cum prim entou. Por algum m otivo, todos os Clark eram cham ados de Nobby. – Um policial acaba de m e fazer a saudação nazista.
– Eles não são daqui – disse Nobby em voz baixa, com o quem faz um a confidência. – Não convivem com os j udeus com o eu. Tentei dizer a eles que os j udeus são iguais a todo m undo, em sua m aioria pessoas decentes e cum pridoras da lei, e poucos bandidos e arruaceiros. Mas eles não acreditaram em m im .
– Mas a saudação nazista?
– Pode ter sido brincadeira.
Lloy d não achava que fosse.
Despediu-se de Nobby e seguiu em frente. Viu que a polícia estava form ando cordões no ponto em que as ruas laterais chegavam à área em volta da Gardiner’s Corner.
Entrou em um pub que tinha telefone – fizera um reconhecim ento de todos os telefones disponíveis na véspera – e disse a Bernie que havia pelo m enos cinco m il policiais nas redondezas.
– Não vam os conseguir resistir a tantos – falou, pessim ista.
– Não tenha tanta certeza – contrapôs Bernie. – Vá dar um a olhada na Gardiner’s Corner.
Lloy d deu um j eito de contornar o cordão policial e foi se reunir aos contram anifestantes. Só quando chegou ao m eio da rua em frente à loj a Gardiner’s pôde avaliar o verdadeiro tam anho da m ultidão.
Nunca vira tantas pessoas reunidas.
O cruzam ento de cinco ruas estava abarrotado, m as isso nem era o m ais im portante. A m ultidão se estendia rum o ao leste pela Whitechapel High Street até onde a vista alcançava. A Com m ercial Road, que seguia na direção sudeste, tam bém estava lotada. A Lem an Street, onde ficava a delegacia, estava intransitável.
Devia haver cerca de 100 m il pessoas ali, calculou Lloy d. Teve vontade de atirar o chapéu para o alto e com em orar. Os m oradores do East End tinham com parecido em peso para repelir os fascistas. Agora j á não podia haver m ais dúvidas quanto ao que sentiam .
Bem no m eio do cruzam ento, um bonde estava parado, abandonado pelo condutor e pelos passageiros.
Nada poderia passar por aquela m ultidão, percebeu Lloy d com um otim ism o crescente.
Viu seu vizinho Sean Dolan subir num poste de luz e prender um a bandeira verm elha no topo. A banda de m etais da Brigada de Jovens Judeus estava tocando – provavelm ente sem o conhecim ento dos respeitáveis e conservadores organizadores da associação. Um avião da polícia voava baixo no céu, um tipo de autogiro, pensou.
Perto da vitrine da Gardiner’s, ele esbarrou com a irm ã Millie e sua am iga Naom i Avery. Não queria que Millie se envolvesse em nada violento: pensar nisso fez seu coração gelar.
– Papai sabe que você está aqui? – perguntou, em tom de reprovação.
Ela não pareceu preocupada.
– Deixe de ser idiota – respondeu.
Lloy d estava espantado por vê-la ali.
– Você não costum a ligar m uito para política – falou. – Pensei que estivesse m ais interessada em ganhar dinheiro.
– E estou m esm o – disse ela. – Mas isto aqui hoj e é especial.
Lloy d pôde im aginar com o Bernie ficaria preocupado caso Millie se ferisse.
– Acho que você deveria ir para casa.
– Por quê?
Ele olhou em volta. A m ultidão parecia pacífica. A polícia estava um pouco m ais longe, e não dava para ver os fascistas. Um a coisa estava clara: não haveria passeata nesse dia. O pessoal de Mosley não conseguiria abrir cam inho em m eio a um a m ultidão de 100 m il pessoas determ inadas a detê-los, e a polícia seria louca se tentasse intervir. Millie provavelm ente estava segura.
Bem na hora em que ele pensava isso, tudo m udou.
Vários apitos soaram . Ao olhar na direção do barulho, Lloy d viu a polícia m ontada se aproxim ar num a coluna am eaçadora. Nervosos, os cavalos batiam com os cascos no chão e bufavam . A polícia havia sacado longos porretes em form a de espada.
Eles pareciam estar se preparando para atacar – m as não podia ser.
No instante seguinte, atacaram .
As pessoas com eçaram a gritar de raiva e m edo. Todos tropeçaram para sair da frente dos enorm es cavalos. A m ultidão abriu espaço, m as quem estava nas m argens caiu sob os cascos dos anim ais. A polícia golpeava a torto e a direito com os porretes com pridos. Lloy d foi em purrado para trás e não conseguiu resistir.
Ficou irado: o que a polícia achava que estava fazendo? Será que era burra o suficiente para crer que conseguiria abrir um cam inho para Mosley passar? Será que achava m esm o que dois ou três m il fascistas gritando insultos poderiam atravessar um a m ultidão de 100 m il de suas vítim as sem dar início a um m otim ? Será que a polícia era chefiada por im becis, ou estava fora de controle? Não soube dizer o que seria pior.
Os policiais recuaram , viraram os cavalos ofegantes e tornaram a se reunir, form ando um a coluna irregular. Então soou um apito e eles cutucaram os flancos dos anim ais com os calcanhares, im pelindo-os em m ais um ataque im placável.
Millie agora estava apavorada. Tinha apenas 16 anos e sua bravata havia desaparecido. Ela gritou de m edo enquanto era im prensada contra a vitrine da Gardiner and Com pany. Manequins vestidos com ternos e sobretudos baratos encaravam a m ultidão aterrorizada e a polícia m ontada, que lem brava um a cavalaria de guerra. O rugido de m ilhares de vozes gritando protestos apavorados fez Lloy d ensurdecer. Ele entrou na frente de Millie e em purrou as pessoas com toda a força, tentando protegê-la, m as foi em vão. Apesar de seus esforços, foi j ogado contra ela. Quarenta ou cinquenta pessoas aos berros estavam esprem idas de costas para a vitrine, e a pressão aum entava perigosam ente.
Furioso, Lloy d percebeu que a polícia estava decidida a abrir cam inho pelo m eio daquela gente a qualquer custo.
Instantes depois, ouviu-se um estrondo terrível de vidro se quebrando e a vitrine cedeu. Lloy d caiu por cim a de Millie, e Naom i caiu por cim a dele. Dezenas de pessoas gritaram de dor e pânico.
Lloy d se levantou com dificuldade. Por m ilagre, não estava ferido. Olhou em volta freneticam ante à procura da irm ã. Era m uito difícil distinguir as pessoas dos m anequins. Foi então que viu Millie caída em m eio a um a profusão de cacos de vidro. Segurou-a pelo braço e a fez levantar. Ela chorava.
– Minhas costas! – falou.
Ele a virou. Seu casaco estava todo rasgado e as costas, cobertas de sangue. Ele ficou tão angustiado que sentiu náuseas. Passou o braço em volta dos om bros da irm ã num gesto protetor.
– Tem um a am bulância bem ali na esquina – falou. – Você consegue andar?
Eles só haviam percorrido poucos m etros quando os apitos da polícia soaram outra vez. Lloy d ficou com m uito m edo de que ele e Millie fossem novam ente em purrados para cim a da vitrine da Gardiner’s. Então se lem brou do pacote que Bernie lhe dera. Tirou do bolso o saco de papel cheio de bolinhas de gude.
A polícia avançou para cim a deles.
Lloy d esticou o braço para trás e lançou o saco de papel por cim a da cabeça das outras pessoas, fazendo-o cair na frente dos cavalos. Não era o único equipado com aquelas bolinhas, e várias outras pessoas tam bém as j ogaram . Quando os cavalos avançaram para cim a deles, ouviu-se um barulho de fogos de artifício. Um dos anim ais escorregou nas bolinhas e caiu. Os outros, ao ouvir o estouro dos fogos, pararam e em pinaram . A investida da polícia virou um caos. Naom i Avery tinha dado um j eito de chegar até a frente da m ultidão e Lloy d a viu explodir um saco de papel cheio de pim enta no focinho de um cavalo, fazendo o anim al se esquivar enquanto sacudia a cabeça feito um louco.
A pressão dim inuiu, e Lloy d conduziu Millie até a esquina. Ela ainda sentia dor, m as havia parado de chorar.
Um a fila de pessoas esperava para ser atendida pelos voluntários da St. John’s Am bulance: um a m enina aos prantos cuj a m ão parecia ter sido esm agada; vários rapazes com a cabeça e o rosto sangrando; um a m ulher de m eia-idade sentada no chão segurando um j oelho inchado. Quando Lloy d e Millie chegaram , viram Sean Dolan se afastar com um a atadura na cabeça e entrar outra vez no m eio da m assa.
Um a enferm eira exam inou as costas de Millie.
– Isso está feio – disse ela. – A senhorita tem de ir para o Hospital de Londres. Vam os levá-la de am bulância. – Em seguida olhou para Lloy d. – Quer ir com ela?
Lloy d queria, m as devia telefonar para dar inform ações atualizadas, então hesitou.
Millie resolveu o dilem a por ele com a energia que lhe era peculiar.
– Não se atreva a vir com igo – falou. – Você não pode m e aj udar em nada e tem um trabalho im portante a fazer aqui.
Ela estava certa. Lloy d a aj udou a subir num a am bulância estacionada.
– Tem certeza...?
– Sim , tenho certeza. E tente não precisar ir para o hospital tam bém .
Ele concluiu que estava deixando a irm ã nas m elhores m ãos possíveis. Deu-lhe um beij o no rosto e voltou para o m eio da confusão.
A polícia havia m udado de tática. Continuava decidida a abrir cam inho em m eio à m ultidão, apesar de as pessoas terem conseguido repelir os ataques da cavalaria. Enquanto Lloy d tentava chegar até a frente, os policiais atacaram a pé, golpeando com os cassetetes. Os m anifestantes desarm ados recuavam para escapar deles com o um a pilha de folhas soprada pelo vento, depois tornavam a avançar num lugar diferente.
A polícia com eçou a prender pessoas, talvez na esperança de enfraquecer a determ inação da m ultidão levando em bora seus líderes. No East End, ser preso não era um a form alidade j urídica. Poucos voltavam da cadeia sem um olho roxo ou alguns dentes faltando. A delegacia da Lem an Street tinha um a reputação particularm ente ruim .
Lloy d foi parar atrás de um a j ovem que segurava um a bandeira verm elha e gritava. Reconheceu Olive Bishop, sua vizinha na Nutley Street. Um policial a golpeou na cabeça com o cassetete e berrou: “Puta j udia!” Olive não era j udia e com certeza não era puta. Na verdade, tocava piano na igrej a do Evangelho do Calvário. No entanto, pareceu ter esquecido a recom endação de Jesus de dar a outra face e arranhou a cara do policial, deixando a pele dele m arcada com linhas verm elhas paralelas. Dois outros policiais a pegaram pelos braços e a seguraram enquanto o que fora arranhado tornava a golpeá-la na cabeça.
Ver três hom ens fortes atacando um a j ovem sozinha deixou Lloy d enlouquecido. Ele deu um passo à frente e acertou o agressor de Olive com um gancho de direita no qual estava concentrada toda a sua raiva. O soco atingiu o policial na têm pora. Atordoado, ele cam baleou e caiu.
Mais policiais se envolveram na briga, golpeando a esm o com os cassetetes, acertando braços, pernas, cabeça e m ãos. Quatro hom ens seguraram Olive, cada um por um braço ou um a perna. Ela gritava e se contorcia, m as não conseguiu se soltar.
Os observadores, porém , não ficaram passivos. Atacaram os policiais que carregavam a m oça, tentando afastá-los dela. Os policiais se viraram contra esses agressores aos gritos de “Canalhas j udeus!”, apesar de nem todos os seus agressores serem j udeus e de um deles ser um m arinheiro som aliano de pele negra.
Os policiais largaram Olive no chão e com eçaram a se defender. Ela abriu cam inho pela m ultidão e sum iu. Os policiais bateram em retirada, acertando quem estivesse pela frente ao recuar.
Com um a ponta de triunfo, Lloy d viu que a estratégia da polícia não estava funcionando. Por m ais brutais que fossem , seus ataques haviam fracassado em abrir cam inho pela m ultidão. Outra investida com cassetetes com eçou, m as as pessoas enfurecidas avançaram de encontro aos policiais, agora ávidas pelo com bate.
Lloy d decidiu que estava na hora de m ais um a atualização. Voltou pelo m eio das pessoas até encontrar um telefone público.
– Pai, não acho que eles vão conseguir – disse a Bernie, anim ado. – Estão tentando abrir cam inho pelo m eio de nós, m as não está adiantando. Som os num erosos dem ais.
– Estam os redirecionando as pessoas para a Cable Street – disse Bernie. – Pode ser que a polícia estej a prestes a m udar seu ângulo de ataque, pensando que terá m ais chances lá, por isso vam os m andar reforços. Vá para a Cable Street, vej a o que está acontecendo e m e avise.
– Certo – disse Lloy d, desligando antes de se dar conta de que não havia contado ao padrasto que Millie fora levada para o hospital. Mas talvez fosse m elhor não deixá-lo preocupado agora.
Chegar à Cable Street não seria fácil. Da Gardiner’s Corner, a Lem an Street conduzia diretam ente para o sul até a extrem idade m ais próxim a da Cable Street – um a distância de m enos de 800 m etros, m as a rua estava apinhada de m anifestantes em conflito com a polícia. Lloy d tinha que seguir um cam inho m enos direto. Com esforço, foi andando para leste pelo m eio das pessoas até a Com m ercial Road. Ao chegar lá, não foi fácil continuar avançando. Não havia polícia, portanto não havia violência, m as a m ultidão estava quase tão com pacta quanto em Gardiner’s Corner. Era frustrante, m as Lloy d se consolou pensando que a polícia j am ais poderia forçar passagem com tanta gente reunida.
Perguntou-se o que Daisy Peshkov estaria fazendo. Era provável que estivesse sentada no carro, aguardando o início da passeata, batendo im pacientem ente com o bico do sapato caro no tapete do Rolls-Roy ce. Pensar que ele estava aj udando a frustrar os obj etivos dela lhe proporcionou um a satisfação estranham ente vingativa.
Com m uita persistência e um a atitude ligeiram ente truculenta com quem estivesse em seu cam inho, Lloy d conseguiu se esprem er pela m ultidão. A ferrovia que m argeava o lado norte da Cable Street o im pediu de prosseguir, e ele teve que andar um pouco antes de chegar a um a ruazinha lateral com um a passagem subterrânea. Atravessou por baixo da via férrea e chegou à Cable Street.
A aglom eração ali não estava tão densa, m as a rua era estreita e ainda era difícil se m over. Aquilo era um a coisa boa: seria m ais difícil ainda para a polícia. Mas então ele notou outro obstáculo. Havia um cam inhão atravessado na rua, tom bado de lado. Em am bas as extrem idades do veículo, bloqueando a rua inteira, havia um a barricada form ada com m esas e cadeiras velhas, pedaços de m adeira e outros entulhos em pilhados bem alto.
Um a barricada! Aquilo fez Lloy d pensar na Revolução Francesa. Só que ali não estava havendo nenhum a revolução. Os m oradores do East End não queriam derrubar o governo britânico. Pelo contrário: eles davam grande valor a suas eleições, seus conselhos distritais e seu Parlam ento. Gostavam tanto de seu sistem a de governo que estavam decididos a defendê-lo do fascism o, m esm o que o sistem a não defendesse a si próprio.
Lloy d havia em ergido à rua atrás da barricada e avançou para perto dela a fim de ver o que estava acontecendo. Subiu num m uro para enxergar m elhor. Deparou com um a cena interessante. Do outro lado, policiais tentavam desm ontar a barricada, retirando pedaços de m óveis e arrastando colchões velhos para longe. Mas não estava sendo fácil. Um a chuva de proj éteis se abatia sobre seus quepes, alguns lançados de trás da barricada, outros das j anelas dos andares superiores das casas nos dois lados da rua, bem coladas um as às outras. Eram pedras, garrafas de leite, vasos quebrados e tij olos que estavam sendo tirados de um depósito de m aterial de construção ali perto. Havia alguns rapazes m ais ousados de pé sobre a barricada, atacando os policiais com porretes, e de vez em quando um a briga com eçava quando a polícia tentava puxar um deles para baixo e chutá-lo. Com um susto, Lloy d reconheceu dois desses rapazes: um deles era seu prim o Dave William s e o outro era Lenny Griffiths, de Aberowen. Lado a lado, eles repeliam os policiais a golpes de pá.
No entanto, à m edida que os m inutos foram passando, Lloy d viu que a polícia estava vencendo. Agiam de form a sistem ática, recolhendo os com ponentes da barricada e levando-os para longe. Do lado em que Lloy d estava, algum as pessoas reforçavam a barreira, substituindo os obj etos rem ovidos pela polícia, m as eram m enos organizadas e não dispunham de um estoque infinito de m aterial. Lloy d teve a im pressão de que a polícia logo iria ganhar aquele j ogo. E, caso conseguisse liberar a Cable Street, faria os fascistas m archarem por ali, passando em frente a incontáveis loj as de j udeus.
Então olhou para trás e constatou que os organizadores da defesa da Cable Street j á estavam pensando à frente. Ao m esm o tem po que a polícia desm ontava a prim eira barricada, um a segunda ia sendo erguida algum as centenas de m etros adiante na rua.
Lloy d recuou e, em polgado, com eçou a aj udar na construção da segunda barricada. Estivadores com picaretas rem oviam pedras do calçam ento, donas de casa arrastavam sacos de lixo de seus quintais, e proprietários de loj a traziam caixotes e caixas vazios. Lloy d aj udou a carregar um banco de praça, depois rem oveu a placa afixada em frente a um prédio da prefeitura. Os construtores usaram a experiência com a prim eira barricada e dessa vez fizeram um trabalho m elhor, econom izando m ateriais e certificando-se de que a estrutura estava firm e.
Ao olhar para trás outra vez, Lloy d viu que um a terceira barricada subia m ais a leste.
As pessoas com eçaram a se afastar da prim eira barricada e a se reunir atrás da segunda. Alguns m inutos depois, a polícia finalm ente abriu um a brecha na prim eira barreira e com eçou a passar por ali. Os prim eiros policiais foram atrás dos j ovens rem anescentes, e Lloy d viu Dave e Lenny serem perseguidos por um beco. As casas de am bos os lados da rua foram fechadas depressa, com portas batendo e j anelas sendo baixadas.
Lloy d viu então que a polícia não sabia o que fazer em seguida. Havia conseguido furar a barricada apenas para deparar com outra, ainda m ais sólida. Os hom ens não pareciam ter energia para com eçar a desm anchar a segunda. Ficaram aglom erados no m eio da Cable Street, conversando desapontados, espiando ressentidos os m oradores que os observavam das j anelas dos andares superiores.
Era cedo dem ais para cantar vitória, m as, ainda assim , Lloy d não conseguiu reprim ir um a feliz sensação de sucesso. Estava com eçando a parecer que os antifascistas iriam ganhar o dia.
Ele perm aneceu onde estava por 15 m inutos, porém , com o a polícia não fez m ais nada, Lloy d saiu dali, encontrou um a cabine telefônica e ligou para Bernie.
Seu padrasto se m ostrou cauteloso.
– Não sabem os o que está acontecendo – disse ele. – As coisas parecem ter se acalm ado por toda parte, m as precisam os descobrir o que os fascistas têm em m ente. Você consegue voltar para a Torre?
Lloy d não tinha com o passar pelos policiais reunidos, m as talvez houvesse outro cam inho.
– Eu poderia tentar ir pela St. George Street – disse ele, em tom de dúvida.
– Faça o m elhor que puder. Quero saber qual vai ser o próxim o passo deles.
Lloy d se em brenhou por um labirinto de becos e seguiu rum o ao sul. Torceu para que estivesse certo em relação à St. George Street. A rua ficava fora da área prevista para a passeata, m as a m ultidão talvez tivesse transbordado.
Conform e esperava, porém , não havia tum ulto nenhum ali, em bora ele ainda pudesse ouvir a contram anifestação e os gritos e apitos da polícia. Algum as m ulheres conversavam de pé e um grupo de m eninas pulava corda no m eio da rua. Lloy d dobrou para oeste e apressou o passo até um trote acelerado, im aginando que fosse deparar com m anifestantes ou policiais a cada esquina. Cruzou com algum as pessoas que haviam se distanciado da confusão – dois hom ens com ataduras na cabeça, um a m ulher de sobretudo rasgado, um veterano de guerra com o braço pendurado num a tipoia –, m as nenhum a aglom eração. Correu até onde a rua term inava, j unto à Torre. Conseguiu entrar em Tower Gardens sem problem as.
Os fascistas ainda estavam lá.
Aquilo em si j á era um a vitória, pensou Lloy d. Já eram três e m eia da tarde: havia horas que os m anifestantes estavam ali, esperando, sem que a passeata com eçasse. Ele viu que a anim ação de antes tinha desaparecido. Ninguém m ais cantava hinos ou gritava palavras de ordem ; estavam todos calados e cabisbaixos, ainda enfileirados, m as j á não tão ordenadam ente, com as faixas caídas e as bandas de m etais agora silenciosas. Já pareciam derrotados.
Poucos m inutos depois, entretanto, houve um a m udança. Um carro aberto surgiu de um a rua lateral e com eçou a m argear as fileiras de fascistas. Houve com em orações. As fileiras se endireitaram , os oficiais ergueram as m ãos num a saudação e todos os fascistas adotaram um a postura de sentido. No banco de trás do carro estava seu líder, Sir Oswald Mosley, um hom em bonito, de bigode, vestido com um uniform e com pleto que incluía o quepe. Com as costas m uito retas, fazia repetidas saudações enquanto o carro ia passando bem devagar, com o um m onarca inspecionando as tropas.
Sua presença revigorou os m anifestantes e deixou Lloy d preocupado. Aquilo provavelm ente significava que eles iriam fazer a passeata conform e o planej ado – caso contrário, o que Mosley estaria fazendo ali? O carro foi m argeando a fileira de fascistas por um a rua lateral até entrar no bairro financeiro. Lloy d aguardou. Meia hora m ais tarde, Mosley voltou, dessa vez a pé, saudando e agradecendo as vibrações.
Quando chegou ao final da fila, deu m eia-volta e, acom panhado por um de seus oficiais, entrou num a rua secundária.
Lloy d foi atrás.
Mosley se aproxim ou de alguns hom ens m ais velhos reunidos na calçada. Lloy d ficou surpreso ao reconhecer o com issário de polícia Sir Philip Gam e, de gravata-borboleta e chapéu de feltro. Os dois entabularam um a conversa exaltada. Com certeza Sir Philip devia estar contando a Sir Oswald que a m ultidão de contram anifestantes era grande dem ais para ser dispersada. Mas qual seria então sua recom endação aos fascistas? Em bora estivesse louco para chegar m ais perto e entreouvir a conversa, Lloy d decidiu não se arriscar a ser preso e m anteve um a distância discreta.
O com issário de polícia foi quem m ais falou. O líder fascista aquiesceu bruscam ente várias vezes e fez algum as perguntas. Os dois então se cum prim entaram com um aperto de m ãos e Mosley se afastou.
Ele voltou ao parque e confabulou com seus oficiais. Entre eles, Lloy d reconheceu Boy Fitzherbert, que usava um uniform e igual ao de Mosley. Em Boy, no entanto, o traj e não caía tão bem : o elegante uniform e m ilitar não com binava com seu corpo fraco nem com a sensualidade preguiçosa de sua postura.
Mosley parecia estar dando instruções. Os outros hom ens fizeram saudações e se afastaram , sem dúvida para executar suas ordens. Quais seriam elas? A única alternativa sensata era desistir de tudo e ir para casa. No entanto, se eles fossem sensatos, não seriam fascistas.
Apitos soaram , ordens foram gritadas, as bandas puseram -se a tocar e os hom ens assum iram posição de sentido. Lloy d percebeu que iriam com eçar a passeata. A polícia devia ter lhes indicado um traj eto. Mas qual?
Então a m archa com eçou – e eles partiram na direção contrária. Em vez de seguir para o East End, foram para oeste rum o ao bairro financeiro, que, por ser dom ingo à tarde, estava deserto.
Lloy d m al pôde acreditar.
– Eles desistiram ! – falou em voz alta.
– Parece que sim , não é? – retrucou um hom em em pé ao seu lado.
Ainda ficou ali por cinco m inutos, observando as fileiras se afastarem devagar. Quando não restou m ais nenhum a dúvida quanto ao que estava acontecendo, correu até um a cabine telefônica e ligou para Bernie.
– Eles foram em bora m archando! – falou.
– Com o assim ? Para o East End?
– Não, para o outro lado! Estão indo para oeste, na direção da City . Nós vencem os!
– Meu Deus! – Bernie então se dirigiu às pessoas que estavam com ele: – Ei, pessoal! Os fascistas estão m archando para oeste. Eles desistiram !
Lloy d ouviu um a explosão de vivas do outro lado.
Após um m om ento, Bernie falou:
– Fique de olho neles e avise quando todos tiverem saído de Tower Gardens.
– Claro. – Lloy d desligou.
Deu a volta no parque tom ado por um a grande anim ação. A cada m inuto ficava m ais claro que os fascistas haviam sido derrotados. Suas bandas tocavam e eles m archavam no ritm o certo, m as faltava energia a seus passos, e eles j á não cantavam que iriam se livrar dos j udeus. Os j udeus é que tinham se livrado deles.
Ao passar pela By ward Street, Lloy d tornou a ver Daisy .
Ela se dirigia para o conhecido Rolls-Roy ce preto e crem e e teve que passar por Lloy d. Ele não resistiu à tentação de se gabar:
– A população do East End rej eitou vocês e suas ideias im undas.
Ela parou e o encarou, fria com o nunca.
– Fom os im pedidos de passar por um bando de arruaceiros – retrucou com desdém .
– Mesm o assim , agora estão m archando na outra direção.
– Perder um a batalha não é o m esm o que perder a guerra.
Podia até ser, pensou Lloy d, m as aquela tinha sido um a batalha im portante.
– Não vai m archar para casa com seu nam orado?
– Prefiro ir de carro – respondeu ela. – E ele não é m eu nam orado.
O coração de Lloy d se encheu de esperança. Então ela com pletou:
– É m eu m arido.
Lloy d a encarou. Jam ais acreditara que ela pudesse ser tão burra. Estava sem palavras.
– É verdade – disse ela, vendo a incredulidade em seu rosto. – Não viu nosso noivado anunciado nos j ornais?
– Não leio as colunas sociais.
Ela lhe m ostrou a m ão esquerda, com um anel de noivado de brilhante e um a aliança de ouro.
– O casam ento foi ontem . Adiam os a lua de m el para participar da passeata hoj e. Am anhã vam os para Deauville no avião de Boy .
Ela se aproxim ou do carro e o m otorista lhe abriu a porta.
– Para casa, por favor – pediu.
– Pois não, m ilady .
A raiva de Lloy d era tanta que ele estava com vontade de socar alguém .
Daisy olhou por cim a do om bro.
– Adeus, Sr. William s.
Ele recuperou a voz.
– Adeus, Srta. Peshkov.
– Ah, não – corrigiu ela. – Agora sou a viscondessa de Aberowen.
Lloy d pôde ver que ela adorou dizer aquilo. Agora era um a dam a com um título de nobreza e, para ela, essa era a coisa m ais im portante do m undo.
Daisy entrou no carro e o m otorista fechou a porta.
Lloy d deu as costas para o veículo. Sentiu vergonha ao constatar que estava com os olhos m arej ados.
– Que droga – falou em voz alta.
Fungou, reprim indo as lágrim as. Aprum ou os om bros e voltou para o East End a passos rápidos. O triunfo do dia fora arruinado. Ele sabia que era um idiota por se im portar com Daisy – ela obviam ente não dava a m ínim a para ele –, m as m esm o assim o fato de ela desperdiçar a vida com Boy Fitzherbert lhe partiu o coração.
Tentou tirá-la do pensam ento.
A polícia estava entrando nos ônibus para ir em bora. Lloy d não ficara surpreso com a sua brutalidade – tinha m orado a vida inteira no East End, um bairro violento –, m as o antissem itism o o chocara. Os policiais haviam xingado todas as m ulheres de putas j udias e todos os hom ens de canalhas j udeus. Na Alem anha, a polícia tinha apoiado os nazistas e tom ado o partido dos cam isas-pardas. Será que ali iria acontecer a m esm a coisa? Não podia ser!
A m ultidão reunida em Gardiner’s Corner j á tinha com eçado a com em orar. A banda da Brigada de Jovens Judeus tocava um j azz para que hom ens e m ulheres dançassem , e garrafas de uísque e de gim passavam de m ão em m ão. Lloy d decidiu ir ao Hospital de Londres ver com o Millie estava. Em seguida, o m elhor seria ir até a sede do Conselho do Povo Judeu e avisar a Bernie que Millie tinha se ferido.
Antes de conseguir se afastar m uito, esbarrou com Lenny Griffiths.
– Botam os os m alditos para correr! – exclam ou o rapaz, anim ado.
– Foi m esm o – concordou Lloy d, sorrindo.
Lenny baixou a voz:
– Derrotam os os fascistas aqui e vam os derrotá-los na Espanha tam bém .
– Quando vocês viaj am ?
– Am anhã. Eu e Dave vam os pegar o trem para Paris de m anhã.
Lloy d passou o braço em volta dos om bros de Lenny e disse:
– Irei com vocês.