Inverno do Mundo
Capítulo VI
– Reginald Sidney Blenkinsop, cinco m il quatrocentos e vinte e sete...
Quando o núm ero de votos de Lloy d foi cantado, todos os trabalhistas em volta de Daisy explodiram em com em orações. Ela levou alguns instantes para entender o que isso significava: ele tinha vencido. Então viu sua expressão solene se transform ar num largo sorriso. Com eçou a bater palm as e a gritar m ais alto do que todos os outros. Ele tinha ganhado! E ela não precisava deixá-lo! Teve a sensação de que sua vida acabara de ser salva.
– Declaro, portanto, que o novo m em bro do Parlam ento eleito pelo distrito de Hoxton é Lloy d William s.
Lloy d era deputado. Quando ele deu um passo à frente para fazer o discurso de posse, Daisy assistiu, orgulhosa. Notou que havia um a fórm ula para esses discursos e ouviu o noivo agradecer de form a tediosa ao supervisor eleitoral e sua equipe, depois aos opositores derrotados em um a luta j usta. Estava im paciente para abraçá-lo. Ele term inou dizendo algum as frases sobre a tarefa que tinha pela frente: reconstruir a Grã-Bretanha dilacerada pela guerra e criar um a sociedade m ais j usta. Ao fim do discurso, novos aplausos ecoaram .
Ao descer do palanque, ele foi direto até Daisy para lhe dar um abraço e um beij o.
– Parabéns, m eu am or – disse ela, antes de se dar conta de que estava sem palavras.
Depois de algum tem po, os dois saíram e pegaram um ônibus até a sede do Partido Trabalhista, na Transport House. Lá souberam que os trabalhistas j á tinham conquistado 106 assentos no Parlam ento.
Era um a vitória avassaladora.
Todas as apostas estavam equivocadas, e as expectativas de todos foram contrariadas. Quando os resultados foram divulgados, o Partido Trabalhista havia conquistado 393 assentos, e o Partido Conservador, 210. Os liberais tinham 12 assentos e os com unistas, apenas um – o distrito de Stepney . A m aioria trabalhista era acachapante.
Às sete da noite, Winston Churchill, o grande líder da Grã-Bretanha durante a guerra, foi ao Palácio de Buckingham e renunciou ao cargo de prim eiro-m inistro.
Daisy pensou nas piadas que Churchill fizera sobre Attlee. O hom em que ele considerava insignificante acabara de lhe dar um a surra.
Às sete e m eia, Clem ent Attlee foi ao palácio de Buckingham em seu próprio carro conduzido por sua m ulher, Violet, e o rei Jorge VI lhe pediu que se tornasse prim eiro-m inistro.
Na casa da Nutley Street, depois de todos escutarem a notícia no rádio, Lloy d virou-se para Daisy e perguntou:
– Bem , é isso. Podem os nos casar agora?
– Sim – respondeu Daisy . – Quando você quiser.
VI
A recepção do casam ento de Volody a e Zoy a foi realizada num dos salões de banquete m enores do Krem lin.
A guerra contra a Alem anha havia term inado, m as a União Soviética continuava destruída e em pobrecida, e um a celebração suntuosa teria sido vista com reprovação. Zoy a usou um vestido novo, m as Volody a se casou de uniform e. A com ida foi farta, e vodca foi servida à vontade para todos os convidados.
Entre os presentes estavam os sobrinhos de Volody a, o casal de gêm eos de sua irm ã Any a e de seu desagradável m arido, Ily a Dvorkin. Ainda não haviam com pletado 6 anos. Dim ka, o m enino de cabelos escuros, ficou sentado quietinho lendo um livro, enquanto Tania, de olhos azuis, corria pelo salão trom bando com as m esas e im portunando os convidados: um a inversão do com portam ento esperado de m eninos e m eninas.
Zoy a estava tão sexy com seu vestido cor-de-rosa que a vontade de Volody a era ir em bora dali im ediatam ente e levá-la para a cam a. É claro que isso estava fora de cogitação. O círculo de am igos de seu pai incluía alguns dos m ais im portantes generais e políticos do país, e m uitos tinham ido brindar à felicidade do casal. Grigori dava indiretas de que um convidado extrem am ente distinto talvez aparecesse m ais tarde. Volody a torceu para que não fosse Beria, o depravado chefe da NKVD.
Apesar de sua felicidade, não conseguia esquecer por com pleto os horrores que tinha testem unhado e as profundas dúvidas que passara a ter em relação ao com unism o soviético. A indizível brutalidade da polícia secreta, os erros de Stalin que haviam custado m ilhares de vidas, a propaganda que incentivara o Exército Verm elho a se com portar com o anim ais enfurecidos na Alem anha – tudo isso o levara a duvidar das coisas nas quais fora criado para acreditar. Preocupado, ele se perguntava em que tipo de país Dim ka e Tania iriam crescer. Mas aquele não era um dia para pensar nisso.
A elite soviética estava de bom hum or. O país tinha vencido a guerra e derrotado a Alem anha. O Japão, seu velho inim igo, estava sendo com batido pelos Estados Unidos. O código de honra insano dos líderes j aponeses tornava difícil um a rendição, m as isso era apenas um a questão de tem po. Tragicam ente, enquanto eles se aferrassem à sua honra, m ais soldados j aponeses e am ericanos iriam m orrer, e m ais m ulheres e crianças j aponesas teriam que deixar suas casas bom bardeadas. O resultado, porém , seria o m esm o. Por m ais triste que fosse, não parecia haver nada que os am ericanos pudessem fazer para acelerar esse processo e evitar m ortes desnecessárias.
Em briagado e feliz, o pai de Volody a fez um discurso:
– O Exército Verm elho ocupou a Polônia. Esse país nunca m ais será usado com o plataform a para um a invasão alem ã à Rússia.
Todos os velhos cam aradas deram vivas e bateram nas m esas. Ele prosseguiu:
– Na Europa Ocidental, os partidos com unistas estão apoiados pelas m assas com o nunca antes. Nas eleições m unicipais de Paris, em m arço, o Partido Com unista obteve o m aior núm ero de votos. Parabéns aos nossos cam aradas franceses!
Houve m ais com em orações.
– Quando olho para o m undo hoj e, vej o que a Revolução Russa, na qual tantos hom ens de fibra lutaram e m orreram ... – Grigori se calou, e lágrim as em briagadas lhe subiram aos olhos. Um silêncio pairou no salão. Ele se recom pôs. – Vej o que a Revolução nunca esteve tão firm e quanto hoj e!
Todos ergueram os copos para brindar.
– À Revolução! À Revolução!
Enquanto todos bebiam , as portas se abriram de repente, e o cam arada Stalin entrou no salão.
Todos os convidados se levantaram .
Stalin tinha os cabelos grisalhos e parecia cansado. Estava com 65 anos e ficara doente recentem ente: segundo os boatos, tivera um a série de derram es ou pequenos infartos. Mas nesse dia ele estava m uito anim ado.
– Vim dar um beij o na noiva! – falou.
Ele foi até Zoy a e levou as m ãos a seus om bros. Ela era quase dez centím etros m ais alta que ele, m as conseguiu se abaixar discretam ente. Ele a beij ou nas faces, fazendo o bigode grisalho se dem orar apenas o suficiente para deixar Volody a encium ado. Então se afastou dela e disse:
– Que tal um a bebida para m im ?
Várias pessoas se apressaram em lhe buscar um copo de vodca. Grigori insistiu em ceder a Stalin seu lugar no centro da m esa principal. O burburinho das conversas voltou, em bora num tom m ais abaixo: todos estavam em polgados com a presença do líder, m as precisavam prestar atenção em cada palavra e em cada m ovim ento. Aquele hom em podia m andar m atar alguém com um sim ples estalar dos dedos – coisa que j á fizera m uitas vezes.
Mais vodca foi servida, e a banda com eçou a tocar m úsicas folclóricas russas. Aos poucos, os convidados relaxaram . Volody a, Zoy a, Grigori e Katerina fizeram um a dança de dois pares cham ada kadril, cuj a intenção era ser côm ica e que sem pre fazia as pessoas rirem . Depois disso, outros casais dançaram , e os hom ens com eçaram a fazer a barynya, na qual tinham que se agachar e dar chutes, e m uitos caíram no chão. Assim com o todas as outras pessoas presentes no salão, Volody a não parava de observar Stalin pelo canto do olho, e este parecia estar se divertindo, batendo com o copo na m esa ao ritm o das balalaikas.
Zoy a e Katerina dançavam um a troika com Vasili, o chefe da noiva, renom ado físico que trabalhava no proj eto da bom ba, e Volody a estava sentado descansando quando a atm osfera m udou.
Um assessor usando um terno de civil entrou no salão, m argeou o recinto com passo apressado e foi direto até Stalin. Sem a m enor cerim ônia, inclinou-se por cim a do om bro do líder e falou-lhe em voz baixa, porém urgente.
No início, Stalin pareceu não entender. Em seguida, fez um a pergunta incisiva, depois outra. Então sua expressão m udou. Ele em palideceu e pareceu olhar para os dançarinos sem vê-los.
– O que pode ter acontecido? – perguntou Volody a entredentes.
Os dançarinos ainda não tinham percebido, m as os convidados sentados às m esas pareciam assustados.
Alguns instantes depois, Stalin se levantou. Por respeito, os que estavam à sua volta fizeram o m esm o. Volody a viu que seu pai continuava dançando. Pessoas j á tinham sido fuziladas por m enos que isso.
Mas Stalin não estava prestando atenção nos convidados. Ladeado pelo assessor, ele se afastou da m esa. Atravessou a pista de dança em direção à porta. Convidados aterrorizados pularam para não atrapalhar seu cam inho. Um casal caiu no chão. Mas Stalin não pareceu notar. A banda parou de tocar. Então, sem dizer nada nem olhar para ninguém , o líder soviético saiu do salão.
Com ar assustado, alguns dos generais foram atrás dele.
Outro assessor apareceu, depois m ais dois. Cada um deles se encam inhou até seus superiores.