Inverno do Mundo
Capítulo III
– Lloy d! – exclam ou Ethel. – Onde você estava? Fiquei m orta de preocupação!
– Eu entrei lá – respondeu ele.
– O quê? Com o?
– Ninguém m e im pediu. Está tudo um caos, um a confusão só.
Sua m ãe lançou as m ãos para o alto.
– Ele não tem a m enor noção do perigo – disse ela.
– Encontrei Adolf Hitler.
– Ele disse algum a coisa? – perguntou Walter.
– Está pondo a culpa do incêndio nos com unistas. Haverá um expurgo.
– Que Deus nos aj ude! – exclam ou Walter.
III
Thom as Macke continuava ofendido com o sarcasm o de Robert von Ulrich. “Seu irm ão quer subir na vida, assim com o o senhor subiu”, dissera ele.
Macke desej ava ter tido presença de espírito suficiente para responder: “E por que não deveríam os querer isso? Valem os tanto quanto você, seu vaidoso arrogante.” Agora ansiava por vingança. Durante alguns dias, porém , ficou ocupado dem ais para tom ar qualquer providência.
O quartel-general da polícia secreta prussiana ficava em um prédio grande e elegante, de arquitetura clássica, no núm ero 8 da Prinz-Albrecht-Strasse, no bairro governam ental. Macke sentia orgulho toda vez que cruzava aquela porta.
A situação estava caótica. Quatro m il com unistas haviam sido presos nas 24 horas seguintes ao incêndio no Reichstag e m ais deles eram detidos a cada hora. Um a praga estava sendo erradicada da Alem anha e, para Macke, o ar de Berlim j á estava m ais puro.
Mas os arquivos da polícia não estavam atualizados. Pessoas tinham se m udado, eleições haviam sido perdidas e ganhas, velhos m orreram e j ovens assum iram seu lugar. Macke estava encarregado de um grupo que trabalhava na atualização dos registros, procurando novos nom es e endereços.
Era bom nisso. Gostava de registros, diretórios, m apas de ruas, recortes de im prensa e qualquer tipo de lista. Seu talento não tinha sido devidam ente reconhecido na delegacia de Kreuzberg, onde o serviço de inteligência consistia apenas em espancar os suspeitos até eles citarem alguns nom es. Esperava ser m ais valorizado ali.
Não que tivesse algum problem a em espancar suspeitos. Em sua sala, nos fundos do prédio, podia ouvir os gritos de hom ens e m ulheres sendo torturados no subsolo, m as isso não o incom odava. Aquelas pessoas eram traidoras, subversivas, revolucionárias. Haviam arruinado a Alem anha com suas greves e fariam coisas ainda piores se tivessem oportunidade. Ele não nutria nenhum a sim patia por elas. Tudo o que desej ava era que Robert von Ulrich estivesse lá tam bém , gem endo de dor e im plorando m isericórdia.
Eram oito da noite de quinta-feira, 2 de m arço, quando finalm ente teve um a chance de verificar os antecedentes de Robert.
Dispensou sua equipe e foi ao andar de cim a levando um a pilha de listas atualizadas para a sala de seu chefe, o inspetor de polícia Kringelein. Então voltou a seus arquivos.
Não tinha pressa de voltar para casa. Morava sozinho. A esposa, um a m ulher indisciplinada, havia fugido com um garçom do restaurante de seu irm ão dizendo que queria ser livre. Os dois não tinham filhos.
Com eçou a exam inar os arquivos.
Já descobrira que Robert von Ulrich havia entrado para o Partido Nazista em 1923 e saíra dois anos depois. Isso não significava m uita coisa. Macke precisava de m ais.
O sistem a de arquivam ento não era tão lógico quanto ele gostaria. De m odo geral, estava decepcionado com a polícia prussiana. Segundo os boatos, Göring tam bém não estava m uito bem -im pressionado e planej ava separar os departam entos político e de inteligência da força policial regular para criar um a polícia secreta nova e m ais eficiente. Macke achava isso um a boa ideia.
Por enquanto, porém , não conseguiu encontrar Robert von Ulrich em nenhum dos arquivos regulares. Talvez isso não fosse apenas um sinal de ineficiência. O hom em podia ser m esm o inocente. Um conde austríaco tinha poucas probabilidades de ser com unista ou j udeu. Aparentem ente, o pior que se podia dizer a seu respeito era que tinha um prim o social-dem ocrata, Walter. E ser social-dem ocrata não era crim e – ainda.
Macke então se deu conta de que deveria ter feito aquela pesquisa antes de abordar Robert. Em vez disso, fora até lá sem dispor de todas as inform ações. Deveria ter percebido que isso era um erro. Consequentem ente, fora forçado a se subm eter à condescendência e ao sarcasm o. Tinha sido hum ilhado, m as iria se vingar.
Com eçou a vasculhar diversos papéis guardados num arm ário em poeirado no fundo da sala.
O nom e de Von Ulrich tam bém não aparecia ali, m as havia um docum ento faltando.
Segundo a lista presa com tachinhas na parte interna da porta do arm ário, devia haver um arquivo de 117 páginas intitulado “Polícia de Costum es – Estabelecim entos”. Pelo nom e, devia ser um inventário das casas noturnas de Berlim . Macke podia adivinhar por que estava faltando. A pasta devia ter sido usada recentem ente: todos os estabelecim entos m ais decadentes tinham sido fechados quando Hitler se tornara chanceler.
Macke voltou ao andar de cim a. Kringelein estava instruindo policiais de uniform e encarregados de fazer buscas nos endereços de com unistas e seus aliados fornecidos por Macke.
Ele não hesitou em interrom per o chefe. Kringelein não era nazista e teria m edo de repreender um m em bro da tropa de assalto.
– Estou procurando o arquivo de estabelecim entos da polícia de costum es – falou.
Em bora parecesse contrariado, Kringelein não protestou.
– Está na m esa do canto. Fique à vontade – respondeu.
Macke pegou a pasta e voltou para sua sala.
O levantam ento fora feito cinco anos antes e listava as casas noturnas em funcionam ento na época, descrevendo as atividades que ocorriam em cada um a delas: j ogo, exposições indecentes, prostituição, venda de drogas, hom ossexualism o e outras depravações. A lista citava donos e investidores, sócios e funcionários das casas. Macke leu todos os registros com paciênca: talvez Robert von Ulrich fosse viciado em drogas ou gostasse de putas.
Berlim era fam osa por suas casas noturnas hom ossexuais. Macke leu a lam entável descrição da Pink Slipper, onde hom ens dançavam com hom ens e havia shows de cantores travestis. Às vezes seu trabalho era um noj o, pensou.