Inverno do Mundo
Capítulo III
O m agrelo apontou um dedo para Lloy d. Com sotaque carregado, falou em inglês:
– Você interferiu em questões que não lhe dizem respeito!
Lloy d aj udou Heinz a se levantar. O alem ão estava coberto de sangue e gem ia de dor.
– Vocês não podem sim plesm ente aparecer e com eçar a espancar pessoas! – disse Lloy d ao m agrelo. – Que autoridade têm para fazer isso?
– Esse alem ão é um espião trotskista-fascista! – guinchou o russo.
– Cale a boca, Ily a – ordenou Volody a.
Ily a não lhe deu ouvidos.
– Ele fotografa docum entos! – continuou.
– Onde estão as suas provas? – indagou Lloy d, calm o.
Estava óbvio que Ily a não sabia da existência de provas e nem se im portava com isso. Volody a, porém , suspirou e disse:
– Exam inem a bolsa dele.
Lloy d m eneou a cabeça para o cabo Marco Rivera.
– Vá verificar – ordenou.
O cabo Rivera correu até a garagem de barcos e desapareceu lá dentro.
Mas Lloy d teve um terrível pressentim ento de que Volody a estava dizendo a verdade.
– Mesm o que você tenha razão, Ily a, poderia se com portar com um m ínim o de cortesia.
– Cortesia? – repetiu Ily a. – Isto aqui é um a guerra, não um chá inglês.
– Talvez assim evite entrar em brigas desnecessárias.
Ily a fez algum com entário desdenhoso em russo.
Rivera saiu da garagem de barcos trazendo um a pequena câm era de aspecto caro e um m aço de docum entos oficiais. Mostrou tudo para Lloy d. O prim eiro docum ento da pilha era a ordem geral em itida na véspera para o deslocam ento de soldados antes do ataque im inente. O papel exibia um a m ancha de vinho de form ato conhecido, e Lloy d percebeu, com um choque, que era sua própria cópia e devia ter sido roubada de seu escritório.
Olhou para Heinz, que se em pertigou, fez a saudação fascista e disse:
– Heil Hitler!
Ily a exibiu um a expressão de triunfo.
– Ily a, você acaba de destruir o valor do prisioneiro com o agente duplo – disse Volody a. – Mais um ponto para a NKVD. Meus parabéns. – Então se afastou.
III
Lloy d partiu para a batalha pela prim eira vez na terça-feira, 24 de agosto.
Seu lado, o governo eleito, contava com 80 m il hom ens. Os rebeldes antidem ocratas tinham m enos da m etade desse efetivo. O governo tam bém dispunha de 200 aviões, contra 15 dos rebeldes.
Para explorar ao m áxim o essa superioridade num érica, o governo avançava num a frente am pla, um a linha de quase cem quilôm etros disposta no sentido norte-sul, para im pedir que os rebeldes concentrassem seus hom ens.
Era um bom plano. Mas então por que não estava funcionando?, perguntou-se Lloy d dois dias depois.
Tudo com eçara razoavelm ente bem . No prim eiro dia, os governistas tinham ocupado duas aldeias ao norte de Zaragoza e outras duas ao sul. O grupo de Lloy d, que com batia no sul, vencera um a forte resistência para tom ar um a aldeia cham ada Codo. O único fracasso era o avanço pelo centro, que subia o vale do rio: essa linha de com bate havia estacionado num lugar cham ado Fuentes de Ebro.
Antes da batalha, Lloy d ficara com m edo e passara a noite em claro, im aginando o que estaria por vir, com o às vezes fazia antes de um a luta de boxe. No entanto, um a vez iniciada a batalha, ficou ocupado dem ais para se preocupar. O pior m om ento foi ter que avançar pelo terreno estéril, sem nenhum a proteção a não ser os arbustos m irrados, enquanto os defensores atiravam do interior de construções de pedra. Mesm o então, o que ele sentira não fora m edo, m as um a espécie de astúcia desesperada enquanto corria em zigue-zague, rastej ava e rolava para longe quando as balas chegavam perto dem ais, depois se levantava e tornava a correr por m ais alguns m etros com o corpo curvado. O m aior problem a era a escassez de m unição: eles precisavam tirar o m áxim o proveito de cada tiro. Tom aram Codo pelo sim ples fato de serem m ais num erosos, e Lloy d, Lenny e Dave term inaram o dia sãos e salvos.
Os rebeldes eram resistentes e coraj osos – m as as forças do governo tam bém eram . As brigadas estrangeiras eram form adas por voluntários idealistas, que tinham ido à Espanha sabendo que talvez precisassem entregar a própria vida. Por sua reputação de coragem , eles m uitas vezes decidiam encabeçar os ataques.
A investida com eçou a dar errado no segundo dia. As forças do norte haviam m antido a posição, relutando em avançar por causa da falta de inform ações sobre as forças rebeldes – um a desculpa esfarrapada, na opinião de Lloy d. Apesar dos reforços que chegaram no terceiro dia, o grupo central continuou sem conseguir ocupar Fuentes de Ebro, e Lloy d ficou consternado ao saber que haviam perdido quase todos os tanques para um intenso fogo defensivo. No sul, o grupo de Lloy d, em vez de avançar, foi instruído a fazer um m ovim ento lateral, em direção ao vilarej o ribeirinho de Quinto. Mais um a vez, tiveram que enfrentar defensores determ inados num com bate que ia de casa em casa. Quando o inim igo se rendeu, o grupo fez m il prisioneiros.
Agora, sob a luz do crepúsculo, Lloy d estava sentado em frente a um a igrej a devastada pela artilharia, cercado por ruínas fum egantes de casas e pelos corpos estranham ente im óveis dos m ortos recentes. Um grupo de hom ens exaustos reunia-se à sua volta: Lenny, Dave, Joe Eli, o cabo Rivera e um galês cham ado Muggsy Morgan. Havia tantos galeses na Espanha que alguém inventara um verso satírico com a sem elhança de seus nom es.
Era uma vez um sujeito chamado Price
E outro sujeito chamado Price
E um sujeito chamado Roberts
E um sujeito chamado Roberts
E mais um sujeito chamado Price.
Os hom ens fum avam , aguardando em silêncio para ver se haveria j antar, cansados dem ais até para m exer com Teresa, que, por incrível que parecesse, continuava entre eles, j á que o transporte que deveria tê-la levado para a retaguarda não tinha aparecido. De vez em quando, saraivadas de tiros ecoavam enquanto soldados passavam um pente fino na área, a algum as ruas dali.
– O que nós conseguim os? – indagou Lloy d a Dave. – Usam os um a m unição escassa, perdem os m uitos hom ens e não avançam os nada. E o que é pior: dem os tem po para os fascistas cham arem reforços.
– Vou lhe dizer por que isso aconteceu – falou Dave, com seu forte sotaque do East End. Sua alm a havia endurecido ainda m ais que seu corpo, e ele se tornara cínico e desdenhoso. – Os nossos oficiais têm m ais m edo de seus agentes do que da porra do inim igo. Por um pretexto qualquer, podem ser acusados de serem espiões trotskistas-fascistas e torturados até a m orte, então se borram de m edo de se com prom eter. Preferem ficar parados a avançar, não fazem nada por iniciativa própria e nunca correm nenhum risco. Aposto que nem cagam sem um a ordem por escrito.
Lloy d pensou se a análise desdenhosa de Dave poderia estar correta. Os com unistas não paravam de repetir que era preciso ter um exército disciplinado, com um a cadeia de com ando precisa. Com isso queriam dizer um exército que obedecesse aos russos, m as, apesar de tudo, Lloy d entendia a lógica de seu raciocínio. No entanto, um a disciplina exagerada poderia sufocar o pensam ento. Será que era isso que estava dando errado?
Lloy d não queria acreditar nisso. Com certeza social-dem ocratas, com unistas e anarquistas eram capazes de lutar por um a causa com um sem que um grupo tiranizasse os outros. Todos odiavam o fascism o e acreditavam num a sociedade futura que fosse m ais j usta com todo m undo.
Perguntou-se o que Lenny achava, m as o rapaz estava sentado ao lado de Teresa, com quem conversava em voz baixa. Ela riu de algo que ele disse, e Lloy d supôs que o am igo devia estar progredindo. Fazer um a garota rir era um bom sinal. Ela então tocou o braço de Lenny, disse algum as palavras e se levantou.
– Volte logo – disse Lenny .
Teresa sorriu por cim a do om bro.
Que sortudo, pensou Lloy d, sem nenhum a ponta de invej a. Rom ances passageiros não tinham atrativo nenhum para ele: não via sentido nisso. Im aginava que fosse um adepto do tudo ou nada. A única m oça que realm ente desej ara na vida fora Daisy. E agora ela era esposa de Boy Fitzherbert. Lloy d ainda não havia conhecido um a garota capaz de ocupar esse espaço em seu coração. Estava certo de que um dia iria conhecer, enquanto isso, porém , não se sentia m uito atraído por substitutas tem porárias, ainda que fossem tão bonitas quanto Teresa.
– Lá vêm os russos – disse alguém .
Era a voz de Jasper Johnson, um negro de Chicago que trabalhava com o eletricista. Lloy d ergueu os olhos e viu uns dez consultores m ilitares percorrendo o vilarej o com o se fossem conquistadores. Era possível reconhecer os russos por suas j aquetas de couro e seus coldres com botão.
– Que estranho, eu não os vi enquanto estávam os lutando – continuou Jasper com sarcasm o. – Im agino que devessem estar em outra parte do cam po de batalha.
Lloy d olhou em volta para se certificar de que não havia nenhum com issário político por perto para ouvir aquela conversa subversiva.
Quando os russos estavam passando pelo cem itério da igrej a em ruínas, Lloy d identificou Ily a Dvorkin, o agente da polícia secreta com cara de rato com o qual se desentendera na sem ana anterior. O russo cruzou com Teresa e se deteve para falar com ela. Lloy d o ouviu dizer algo sobre um j antar em espanhol precário.
Ela respondeu, ele tornou a falar, e ela fez que não com a cabeça, num a recusa evidente. Virou-se para se afastar, m as ele a segurou pelo braço para im pedi-la.
Lloy d viu Lenny se sentar m ais ereto e observar a cena com um ar alerta, duas silhuetas em olduradas por um a entrada em arco que j á não conduzia a lugar algum .
– Ai, m erda – disse Lloy d.
Teresa tentou se afastar outra vez e Ily a pareceu apertar m ais seu braço.
Lenny fez m enção de se levantar, m as Lloy d encostou a m ão em seu om bro e o em purrou para baixo.
– Deixe que eu cuido disso – falou.
– Cuidado, cara... ele é da NKVD – balbuciou Dave entre os dentes. – É m elhor não se m eter com esses filhos da puta.
Lloy d foi até onde estavam Teresa e Ily a.
– Dê o fora daqui – disse o russo em espanhol quando o viu.
– Oi, Teresa – falou Lloy d.
– Posso cuidar disso sozinha, não se preocupe – disse ela.
Ily a exam inou Lloy d m ais de perto.
– Conheço você – falou. – Foi você quem tentou im pedir a prisão de um perigoso espião trotskista-fascista na sem ana passada.
– E esta m oça por acaso tam bém é um a perigosa espiã trotskista-fascista? – indagou Lloy d. – Acho que acabei de ouvir você convidá-la para j antar.
Berezovsky , com parsa de Ily a, apareceu e postou-se agressivam ente perto de Lloy d.
Pelo canto do olho, Lloy d viu Dave sacar a Luger do cinto.
Aquilo estava fugindo ao controle.
– Vim lhe dizer, señorita, que o coronel Bobrov desej a vê-la em seu quartel-general im ediatam ente. Por favor, queira m e acom panhar que a levarei até ele. – Bobrov era um “consultor” m ilitar russo graduado. Ele não havia cham ado Teresa, m as a história era plausível e Ily a não tinha com o saber que era m entira.
Por um segundo que pareceu durar um a eternidade, Lloy d não soube dizer com o aquilo iria term inar. Ouviu-se então o estam pido de um tiro ali perto, talvez na rua ao lado. O barulho pareceu cham ar os russos de volta à realidade. Teresa tornou a se afastar de Ily a e dessa vez ele a deixou ir.
Ily a apontou para a cara de Lloy d, agressivo:
– Vam os nos ver de novo – falou e fez um a saída de efeito, com Berezovsky o seguindo feito um cachorrinho.
– Babaca im becil – disse Dave.
Ily a fingiu não escutar.
Todos se sentaram e Dave com entou:
– Você arrum ou um inim igo e tanto, Lloy d.
– Não tive m uita escolha.
– Mesm o assim , fique alerta daqui em diante.
– Foi um a discussão por causa de um a garota – disse Lloy d, sem dar im portância. – Acontece m il vezes por dia.
Quando a noite caiu, um a sineta m anual ecoou, convocando todos à cozinha de cam panha. Lloy d recebeu um a tigela de ensopado ralo, um naco de pão duro e um a caneca grande de vinho tinto tão rascante que im aginou a bebida corroendo o esm alte de seus dentes. Molhou o pão no vinho, m elhorando o sabor de am bos.
Term inada a refeição, ele ainda estava com fom e, com o sem pre.
– Vam os tom ar um a boa xícara de chá?
– Boa ideia – disse Lenny . – Dois torrões de açúcar, por favor.
Todos desenrolaram seus cobertores finos e se prepararam para dorm ir. Lloy d foi procurar um a latrina e, com o não encontrou, fez suas necessidades no m eio de um pequeno pom ar nos lim ites do vilarej o. A lua estava quase cheia e ele podia ver as folhas suj as de terra das oliveiras que haviam sobrevivido às bom bas.
Quando estava abotoando a braguilha, ouviu passos. Virou-se devagar – devagar dem ais. Quando viu o rosto de Ily a, o porrete j á estava descendo sobre sua cabeça. Sentiu um a dor lancinante e caiu no chão. Atordoado, olhou para cim a. Berezovsky segurava um revólver de cano curto apontado para sua cabeça. Ao seu lado, Ily a disse:
– Parado, senão você m orre.
Lloy d estava apavorado. Em desespero, balançou a cabeça para tentar clarear os pensam entos. Aquilo era um a loucura.
– Senão eu m orro? – indagou, incrédulo. – E com o você vai explicar o assassinato de um tenente?
– Assassinato? – repetiu Ily a, com um sorriso. – Isto aqui é a frente de batalha. Um a bala perdida atingiu você. – Então com pletou, em inglês: – Trem enda falta de sorte.
Lloy d se deu conta de que Ily a tinha razão e seu desespero aum entou. Quando seu corpo fosse encontrado, iria parecer que ele m orrera em batalha.
Que j eito de m orrer!
– Acabe com ele – disse Ily a a Berezovsky .
Um tiro ecoou.
Lloy d não sentiu nada. Seria aquilo a m orte? Então Berezovsky se curvou e caiu no chão. No m esm o instante, Lloy d percebeu que o tiro viera de trás dele. Virou-se para olhar, incrédulo. À luz do luar, viu Dave segurando a Luger roubada. O alívio o invadiu com o um a onda. Ele estava vivo!
Ily a tam bém vira Dave e com eçara a correr feito um coelho assustado.
Dave o seguiu com a pistola por vários segundos e Lloy d desej ou que ele atirasse, m as Ily a se esquivou freneticam ente por entre as oliveiras, com o um rato dentro de um labirinto, e então desapareceu na noite.
Dave baixou a arm a.
Lloy d olhou para Berezovsky . O russo não estava respirando.
– Obrigado, Dave – falou.
– Eu disse para você ficar alerta.