Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 141 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

– A Europa está enfrentando um a crise grave. Com as pessoas m orrendo de fom e, esse plano vai fracassar. A m elhor proteção contra o com unism o é a prosperidade. Stalin sabe disso... provavelm ente é por isso que quer m anter a Alem anha pobre.

– Concordo.

– Sendo assim , tem os que reconstruí-la. Mas não podem os fazer isso com nossas próprias m ãos. Precisam os de tratores, tornos m ecânicos, escavadeiras, equipam ento ferroviário... e não tem os dinheiro para com prar nada disso.

Marshall viu aonde ele estava querendo chegar.

– Os am ericanos não estão dispostos a dar m ais dinheiro aos europeus.

– É j usto. Mas deve haver um j eito de os Estados Unidos nos em prestarem o dinheiro necessário para com prarm os equipam entos de vocês.

Houve silêncio.

Marshall não era hom em de desperdiçar palavras, m as aquela pausa foi longa dem ais até m esm o para seus padrões.

Por fim , ele disse:

– Faz sentido. Vou ver o que posso fazer.

A conferência durou seis sem anas e, quando todos voltaram para casa, nada tinha sido acertado.

 

V

Eva William s estava com 1 ano quando seus m olares com eçaram a nascer. Os outros dentes tinham brotado com relativa facilidade, m as esses doeram . Não havia m uita coisa que Lloy d e Daisy pudessem fazer pela m enina. Ela ficou exausta, não conseguia dorm ir e não deixava os pais dorm irem , e eles tam bém ficaram exaustos.

Ainda que Daisy tivesse m uito dinheiro, a fam ília vivia sem ostentações. Tinham com prado um a agradável casa gem inada em Hoxton, onde eram vizinhos de um loj ista e de um em preiteiro. Com praram tam bém um pequeno carro fam iliar, um Morris Eight m odelo novo, com velocidade m áxim a de quase 100km /h. Daisy ainda adquiria roupas bonitas, m as Lloy d tinha apenas três ternos: um a casaca, um risca de giz para a Câm ara dos Com uns e um terceiro, de tweed, para percorrer seu distrito eleitoral durante os fins de sem ana.

Certa noite, Lloy d estava de pij am a, tentando ninar a chorosa Evie e fazê-la dorm ir ao m esm o tem po que folheava a revista Life. Reparou num a bela fotografia tirada em Moscou. Mostrava um a velha russa de lenço na cabeça, com o sobretudo am arrado por um barbante, feito um em brulho, e o rosto vincado de rugas, retirando neve da rua com um a pá. Algo na form a com o a luz incidia sobre a m ulher lhe dava um aspecto atem poral, com o se ela estivesse ali havia m il anos. Procurou o crédito do fotógrafo e viu que a foto era de Woody Dewar, que tinha conhecido durante a conferência.

O telefone tocou. Lloy d atendeu e ouviu a voz de Ernie Bevin:

– Ligue o rádio – disse o m inistro. – Marshall fez um discurso. – Então desligou sem esperar resposta.

Ainda com Evie no colo, Lloy d desceu até a sala e ligou o rádio. O program a se cham ava Comentário Americano. O correspondente da BBC em Washington, Leonard Miall, narrava um a reportagem gravada na Universidade Harvard, em Cam bridge, Massachusetts.

– O secretário de Estado disse aos alunos que a reconstrução da Europa vai levar m ais tem po e exigirá m ais esforço do que o previsto originalm ente – afirm ou ele.

Que prom issor, pensou Lloy d, anim ado.

– Shh, Evie, por favor – pediu à filha, e, por incrível que pareça, a m enina se calou.

Então Lloy d ouviu a voz grave e sensata de George Marshall:

– Nos próxim os três ou quatro anos, as necessidades da Europa em m atéria de alim entos e outros produtos essenciais de países estrangeiros, sobretudo dos Estados Unidos, serão tão m aiores que a sua atual capacidade de pagar que ela vai precisar de um a aj uda extra significativa... ou terá que enfrentar um a deterioração econôm ica, social e política m uito grave.

Lloy d ficou m uito em polgado. “Aj uda extra significativa” era j ustam ente o que Bevin tinha pedido.

– A solução é rom per o círculo vicioso e restaurar a confiança do povo europeu no futuro econôm ico – prosseguiu Marshall. – Os Estados Unidos devem fazer todo o possível para aj udar a recuperar a saúde econôm ica do m undo.

– Pronto, está feito! – exclam ou Lloy d, triunfante, para sua filhinha incapaz de entender. – Ele disse aos Estados Unidos que eles precisam nos aj udar! Mas com quanto? E com o? E quando?

A voz no rádio m udou, e o repórter disse:

– O secretário de Estado não expôs um plano detalhado de aj uda para a Europa, m as disse que cabia aos europeus redigirem um a proposta.

– Quer dizer então que tem os carta branca? – perguntou Lloy d a Evie, ansioso.

A voz de Marshall voltou para dizer:

– Acho que a iniciativa deve partir da Europa.

A reportagem term inou, e o telefone tornou a tocar.

– Você ouviu? – perguntou Bevin.

– O que isso quer dizer?

– Não m e pergunte! – respondeu Bevin. – Se fizer perguntas, vai ouvir respostas que não quer escutar.

– Tudo bem – disse Lloy d, sem entender.

– Pouco im porta o que ele quis dizer. A questão é o que nós vam os fazer. Ele disse que a iniciativa deve partir da Europa. Isso significa eu e você.

– O que posso fazer?

– Sua m ala – respondeu Bevin. – Vam os para Paris.