Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 4 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo um

 

1933

 

C arla sabia que os pais estavam prestes a brigar. Assim que entrou na cozinha, pôde sentir a hostilidade no ar, com o o vento frio que varre as ruas de Berlim antes de um a nevasca de fevereiro – penetrante, de gelar os ossos. Quase deu m eia-volta e tornou a sair.

Eles não brigavam com frequência. Na m aior parte do tem po, eram afetuosos um com o outro – às vezes até dem ais. Carla ficava com vergonha sem pre que os dois se beij avam em público. Seus am igos achavam aquilo estranho: os pais deles não se com portavam daquele j eito. Certa vez Carla dissera isso à m ãe. A m ulher rira com satisfação e respondera: “No dia seguinte ao nosso casam ento, seu pai e eu fom os separados pela Grande Guerra.” A m ãe era inglesa, em bora isso quase não transparecesse em seu sotaque. “Eu fiquei em Londres. Ele veio para a Alem anha e entrou para o Exército.” Carla j á tinha ouvido essa história m uitas vezes, m as sua m ãe nunca se cansava de contá-la. “Acham os que a guerra iria durar três m eses, m as passaram -se cinco anos até que eu tornasse a ver seu pai. Passei todo esse tem po ansiando tocá-lo. Agora nunca m e canso de fazer isso.”

Com o pai as coisas não eram m uito m elhores. “Sua m ãe é a m ulher m ais inteligente que eu j á conheci na vida”, tinha dito ele bem ali na cozinha, poucos dias antes. “Foi por isso que m e casei com ela. Não teve nada a ver com ...” A frase ficara pela m etade, e ele e a m ãe com eçaram a rir feito conspiradores, com o se Carla, aos 11 anos, não soubesse nada sobre sexo. Que constrangedor!

Mas de vez em quando eles discutiam . Carla conhecia os sinais. E um a nova briga ia estourar.

O casal estava sentado em lados opostos da m esa da cozinha. O pai usava um a roupa sóbria: terno cinza-escuro, cam isa branca engom ada, gravata preta de cetim . Estava elegante, com o sem pre, apesar das entradas no cabelo e do colete um pouco apertado sob a corrente de ouro do relógio de bolso. Tinha o rosto congelado num a expressão de calm a que não era verdadeira. Carla conhecia aquela expressão. O pai a adotava sem pre que alguém da fam ília fazia algo que o deixava zangado.

Ele estava segurando um exem plar da revista sem anal para a qual a m ãe trabalhava, cham ada O Democrata. Ela escrevia um a coluna de fofocas políticas e diplom áticas sob o pseudônim o de Lady Maud. O pai com eçou a ler em voz alta:

– Nosso novo chanceler, Herr Adolf Hitler, fez seu début na sociedade diplom ática durante a recepção do presidente Hindenburg.

Carla sabia que o presidente era o chefe de Estado. Apesar de eleito, ficava acim a das disputas m esquinhas do dia a dia político, agindo com o um árbitro. O prem ier era o chanceler. Em bora Hitler tivesse sido nom eado para o cargo, o Partido Nazista, ao qual era filiado, não tinha a m aioria absoluta no Reichstag, o Parlam ento alem ão. Assim , por ora os outros partidos ainda conseguiam restringir os excessos nazistas.

O pai falava com desagrado, com o se estivesse sendo forçado a se referir a algo repulsivo, com o esgoto.

– Parecia pouco à vontade de casaca.

A m ãe tom ou um gole de café e olhou pela j anela para a rua lá fora, com o se tivesse interesse nas pessoas que seguiam apressadas para o trabalho de luvas e cachecol. Ela tam bém fingia calm a, m as Carla sabia que estava só esperando a hora de se m anifestar.

Ada, a criada da fam ília, fatiava um queij o diante da bancada. Pôs um prato na frente do pai de Carla, m as ele ignorou a com ida.

– Herr Hitler ficou visivelm ente encantado com a esposa do em baixador italiano, a culta Elisabeth Cerruti, que usava um vestido de veludo rosa-claro debruado de zibelina.

A m ãe sem pre escrevia sobre o que as pessoas usavam . Dizia que isso aj udava os leitores a visualizá-las. Ela própria tinha roupas finas, m as os tem pos andavam difíceis e fazia m uitos anos que não com prava nenhum a peça nova. Nessa m anhã, estava esguia e elegante num vestido de caxem ira azul-m arinho que devia ter a m esm a idade de Carla.

– A Signora Cerruti, j udia, é tam bém um a fascista fervorosa, e os dois passaram vários m inutos conversando. Será que ela im plorou a Hitler que pare de fom entar o ódio aos j udeus?

O pai largou a revista sobre a m esa, fazendo barulho.

Lá vem , pensou a m enina.

– Você sabe que isso vai deixar os nazistas furiosos – disse ele.

– Espero que deixe m esm o – respondeu a m ãe, calm a. – No dia em que eles gostarem do que escrevo, largo o j ornalism o.

– Eles se tornam perigosos quando são provocados.

Os olhos da m ãe faiscaram de raiva.

– Walter, não se atreva a m e tratar com o criança. Eu sei que eles são perigosos... e é j ustam ente por isso que m e oponho a eles.

– É que não vej o sentido em enfurecê-los, só isso.

– Você os ataca no Reichstag.

O pai era deputado eleito pelo Partido Social-Dem ocrata.

– Eu participo de um debate racional.

Típico, pensou Carla. O pai era um hom em lógico, cauteloso, respeitador das leis. A m ãe tinha estilo e bom hum or. Ele conseguia o que queria graças a um a persistência silenciosa; ela, graças ao charm e e ao atrevim ento. Os dois nunca iriam concordar.

– Eu não deixo os nazistas loucos de raiva – acrescentou o pai.

– Vai ver é por isso que não os atinge m uito.

A sagacidade da resposta deixou o pai irritado e o fez levantar a voz:

– E você acha que os atinge com piadas?

– Eu zom bo deles.

– A zom baria é com o você substitui a discussão?

– Acho que as duas coisas são necessárias.

Seu pai ficou ainda m ais bravo.

– Mas, Maud, será que você não percebe que está pondo a si m esm a e a sua fam ília em risco?

– Muito pelo contrário. O verdadeiro perigo é não zom bar dos nazistas. Que vida nossos filhos teriam se a Alem anha virasse um Estado fascista?

Esse tipo de conversa deixava Carla incom odada. Ela não suportava ouvir que a fam ília estava correndo perigo. A vida precisava prosseguir com o sem pre havia sido. Queria poder se sentar naquela cozinha por um a infinidade de m anhãs, com os pais em lados opostos da m esa de pinho, Ada j unto à pia, e seu irm ão, Erik, fazendo barulho no andar de cim a, atrasado m ais um a vez. Por que algum a coisa tinha que m udar?

Durante toda a sua vida Carla escutara conversas sobre política durante o café da m anhã e achava que entendia o que os pais faziam e com o planej avam transform ar a Alem anha num lugar m elhor para todos. Ultim am ente, porém , os dois haviam com eçado a falar de um j eito diferente. Pareciam crer que um perigo terrível os am eaçava, m as Carla não conseguia im aginar que perigo era esse.

– Só Deus sabe com o estou fazendo tudo o que posso para conter Hitler e sua laia – falou o pai.

– Eu tam bém estou. Só que, quando você faz isso, acha que está agindo de form a sensata. – A expressão da m ãe ficou m ais dura, ressentida. – E, quando sou eu, você m e acusa de pôr a fam ília em risco.

– E com razão – rebateu o pai.

A discussão estava só com eçando, m as nesse m om ento Erik desceu as escadas fazendo o m esm o estardalhaço de um cavalo e irrom peu na cozinha com a bolsa da escola pendurada no om bro. Tinha 13 anos, dois a m ais que Carla. Pelos pretos horrorosos brotavam acim a de seu lábio superior. Quando eram pequenos, Carla e Erik brincavam j untos o tem po todo, m as isso agora era parte do passado e desde que ele ficara alto daquele j eito fingia pensar que a irm ã era tola e infantil. Na verdade, ela era m ais esperta do que ele e sabia m uitas coisas sobre as quais ele nem desconfiava, com o, por exem plo, os ciclos m ensais fem ininos.

– Qual era aquela últim a m úsica que você estava tocando? – perguntou ele à m ãe.

Muitas vezes o piano os acordava de m anhã. Era um Steinway de cauda – herdado dos avós paternos j unto com a casa. A m ãe costum ava tocar a essa hora, porque, segundo ela, passava o restante do dia ocupada dem ais e, à noite, estava um caco. Nessa m anhã, havia tocado um a sonata de Mozart e depois um j azz.

– Cham a-se “Tiger Rag” – respondeu ela a Erik. – Quer um pouco de queij o?

– O j azz é um a m úsica decadente – com entou o filho.

– Não sej a bobo.

Ada serviu a Erik um prato de queij o e salsichão fatiado. Ele com eçou a com er em grandes bocados. Carla achava que o irm ão não tinha m odos.

Seu pai assum iu um ar severo.

– Erik, quem tem lhe ensinado essas bobagens?

– Herm ann Braun diz que j azz não é m úsica, só crioulos fazendo barulho.

Herm ann era o m elhor am igo de Erik e seu pai era do Partido Nazista.

– Herm ann deveria tentar tocar j azz – sugeriu o pai. Em seguida olhou para a m ãe e a expressão em seu rosto se suavizou. – Sua m ãe tentou m e ensinar o ragtim e há m uitos anos, m as eu não consegui aprender o ritm o.

A m ãe riu.

– Foi com o tentar ensinar um a girafa a andar de patins.

Aliviada, Carla viu que a briga havia term inado. Com eçou a se sentir m elhor. Pegou um pedaço de pão preto e m olhou no leite.

Mas agora era Erik que queria brigar.

– Os crioulos são um a raça inferior – afirm ou ele, desafiador.

– Duvido m uito – retrucou o pai, paciente. – Se um negro fosse criado num a casa boa, cheia de livros e quadros, e estudasse num a escola cara, com bons professores, talvez se tornasse m ais inteligente que você.

– Isso é ridículo! – protestou Erik.

A m ãe interveio:

– Não cham e seu pai de ridículo, m oleque. – Seu tom foi brando, pois ela havia esgotado toda a raiva com o m arido. Agora, só parecia decepcionada e cansada. – Você não sabe do que está falando. Nem você, nem Herm ann Braun.

– Mas a raça ariana com certeza é superior... nós dom inam os o m undo! – disse Erik.

– Os seus am igos nazistas não sabem nada de história – falou o pai. – Os antigos egípcios construíram as pirâm ides quando os alem ães ainda viviam em cavernas. Na Idade Média, os árabes dom inavam o m undo... os m uçulm anos j á sabiam álgebra quando os príncipes alem ães não conseguiam nem escrever o próprio nom e. Isso não tem nada a ver com raça.

Carla franziu o cenho e perguntou:

– Então tem a ver com o quê?

O pai olhou para ela com ar afetuoso.

– Essa é um a ótim a pergunta. Você se m ostra um a m enina m uito inteligente por fazê-la. – O rosto da filha se acendeu com esse elogio. – As civilizações ascendem e caem ... chineses, astecas, rom anos... m as ninguém sabe m uito bem o m otivo.

– Com am , vocês dois. E vistam seus casacos – disse a m ãe. – Está ficando tarde.

O pai puxou o relógio do bolso do colete e o consultou com as sobrancelhas arqueadas.

– Não está tarde.

– Tenho que levar Carla à casa dos Franck – esclareceu a m ãe. – A escola das m eninas está fechada hoj e... para consertar o sistem a de calefação, parece. Então Carla vai passar o dia com Frieda.

Frieda Franck era a m elhor am iga de Carla. Suas m ães tam bém eram grandes am igas. Na verdade, Monika, m ãe de Frieda, fora apaixonada pelo pai de Carla na j uventude – um fato hilário que a avó de Frieda deixara escapar certo dia depois de ter exagerado no espum ante.

– Por que Ada não pode ficar com Carla?

– Ada tem consulta m arcada no m édico.

– Ah.

Carla esperou o pai perguntar o que havia de errado com Ada, m as ele apenas assentiu, com o se j á soubesse, e guardou o relógio no bolso. Carla queria saber o que era, m as algo lhe disse que não deveria indagar. Pensou que não podia se esquecer de perguntar à m ãe m ais tarde. No instante seguinte, porém , j á nem se lem brava m ais do assunto.

O pai foi o prim eiro a sair de casa, com um sobretudo preto por cim a do terno. Em seguida Erik pôs a boina da escola, posicionando-a o m ais para trás possível na cabeça sem que ela caísse – com o era a m oda entre seus am igos –, e seguiu o pai porta afora.

Carla e a m ãe aj udaram Ada a tirar a m esa. A m enina am ava Ada quase tanto quanto a própria m ãe. Quando ela era pequena, antes de ter idade para ir à escola, Ada cuidava dela em tem po integral, pois a m ãe sem pre trabalhara fora. A criada ainda era solteira. Tinha 29 anos e um a aparência m eio sem graça, m as um sorriso bonito e bondoso. No verão anterior tivera um rom ance com um policial cham ado Paul Huber, m as a história não havia durado.

Carla e a m ãe postaram -se em frente ao espelho do hall para pôr o chapéu. A m ãe se arrum ou sem pressa. Escolheu um chapéu de feltro azul-escuro, de copa redonda e aba estreita, do tipo que todas as m ulheres estavam usando. No entanto, inclinou-o sobre a cabeça num ângulo diferente, dando-lhe um aspecto chique. Enquanto vestia o gorro de tricô, Carla se perguntou se algum dia teria o talento de sua m ãe para o estilo. Maud parecia um a deusa da guerra: pescoço com prido, queixo e m alares que pareciam esculpidos em m árm ore branco. Sem dúvida era um a m ulher linda, m as não de um a beleza convencional. Carla tinha os m esm os cabelos escuros e olhos verdes da m ãe, porém parecia m ais um a boneca rechonchuda do que um a estátua. Certa vez, ouvira por acaso a avó dizer à m ãe: “Seu patinho feio vai crescer e virar um cisne, você vai ver.” Carla ainda estava esperando isso acontecer.

Quando a m ãe ficou pronta, as duas saíram . A casa, situada no bairro de Mitte, o antigo centro da cidade, fazia parte de um conj unto de im óveis residenciais altos e graciosos construídos para m inistros e oficiais m ilitares de alto escalão que trabalhavam nos prédios do governo ali perto, com o o avô de Carla.

Ela e a m ãe pegaram um bonde que seguiu pela Unter den Linden. Depois em barcaram no trem rápido da Friedrichstrasse até a estação Zoo. Os Franck m oravam no subúrbio de Schöneberg, a sudoeste da cidade.

Carla estava torcendo para encontrar Werner, o irm ão de Frieda, que tinha 14 anos. Gostava dele. Às vezes, Carla e Frieda se im aginavam casadas com o irm ão um a da outra, vizinhas de porta e com filhos que eram m elhores am igos. Para Frieda aquilo não passava de um a brincadeira, m as Carla, no fundo, levava a fantasia a sério. Werner era bonito, m ais velho e nem um pouco bobo com o Erik. Na casa de bonecas do quarto de Carla, a m ãe e o pai que dorm iam lado a lado na pequena cam a de casal se cham avam Carla e Werner, m as ninguém sabia disso, nem m esm o Frieda.

Frieda tinha outro irm ão, Axel, de 7 anos, que nascera com espinha bífida e exigia cuidados m édicos constantes. Ele m orava num hospital especial nos arredores de Berlim .

Durante o traj eto, a m ãe de Carla se m ostrou preocupada.

– Espero que fique tudo bem – m urm urou ela, m eio para si m esm a, enquanto as duas desciam do vagão.

– É claro que vai ficar – retrucou Carla. – Vou m e divertir m uito com Frieda.

– Não é disso que estou falando. Eu m e referia ao que escrevi sobre Hitler.

– Nós estam os correndo perigo? Papai tinha razão?

– Seu pai quase sem pre tem razão.

– O que vai acontecer conosco se tiverm os chateado os nazistas?

A m ãe passou vários instantes olhando para a filha com um a expressão estranha, e então disse:

– Meu Deus, que m undo é este em que eu fui pôr você? – Depois não falou m ais nada.

As duas cam inharam por dez m inutos e chegaram a um casarão im ponente situado num grande j ardim . Os Franck eram um a fam ília rica: Ludwig, pai de Frieda, tinha um a fábrica de rádios. Dois carros estavam parados em frente à casa. O m aior deles, preto e lustroso, pertencia a Herr Franck. O m otor estava ligado e um a nuvem de fum aça azulada saía do cano de descarga. Ritter, o m otorista, estava de pé, pronto para abrir a porta. Usava a calça do uniform e enfiada para dentro das botas de cano longo e segurava seu quepe. Inclinando o corpo para a frente, ele falou:

– Bom dia, Frau Von Ulrich.

O segundo carro era pequeno, de apenas dois lugares, e verde. Um hom em baixo de barba grisalha saiu da casa com um a pasta de couro na m ão e tocou no chapéu para cum prim entar a m ãe de Carla enquanto entrava no carro m enor.

– O que será que o Dr. Rothm ann está fazendo aqui tão cedo? – perguntou a m ãe, preocupada.

As duas não dem oraram a descobrir. Monika, m ãe de Frieda, um a m ulher alta com um a basta cabeleira ruiva, apareceu na porta da casa. Seu rosto pálido tinha um a expressão aflita. Em vez de convidar Carla e sua m ãe a entrar, ficou parada na soleira da porta com o se quisesse im pedir que passassem .

– Frieda está com catapora! – exclam ou.

– Ah, eu sinto m uito! – disse a m ãe de Carla. – Com o ela está?

– Péssim a, com febre e tosse. O Dr. Rothm ann disse que ela vai ficar boa, m as está de quarentena.

– Claro. Você j á teve catapora?

– Já... quando era pequena.

– E Werner tam bém ... lem bro que ele ficou todo em polado. Mas e o seu m arido?

– Ludi tam bém teve quando era criança.

As duas m ulheres olharam para Carla. Ela nunca tivera catapora. A m enina logo entendeu que isso significava que não poderia passar o dia com Frieda.

Carla ficou decepcionada, m as sua m ãe ficou bastante abalada.

– A edição desta sem ana é sobre as eleições... eu não posso faltar ao trabalho. – Ela parecia desnorteada. Todos os adultos estavam apreensivos com a eleição geral que aconteceria no dom ingo seguinte. Tanto a m ãe quanto o pai de Carla tem iam que os nazistas se saíssem bem o suficiente para assum ir o controle total do governo. – Além disso, m inha grande am iga veio de Londres m e visitar. Será que consigo convencer Walter a tirar um dia de folga para ficar com Carla?

– Por que não telefona para ele? – sugeriu Monika.

Poucas eram as fam ílias com telefone em casa, m as os Franck tinham , e Carla e a m ãe entraram no hall. O aparelho ficava em cim a de um a m esinha de pernas finas j unto à porta. A m ãe pegou-o e disse para a telefonista o núm ero do escritório do pai no Reichstag, sede do Parlam ento alem ão. Quando a ligação foi com pletada, ela explicou a situação ao m arido. Passou um m inuto ouvindo, então fez um a cara zangada.

– Minha revista vai incentivar 100 m il leitores a fazerem cam panha para o Partido Social-Dem ocrata – disse ela. – Você tem m esm o algum com prom isso m ais im portante do que esse para hoj e?

Carla podia prever com o aquela discussão iria term inar. Sabia que o pai a am ava m uito, m as em seus 11 anos de vida ele nunca tinha cuidado dela um dia inteiro. Os pais de todas as suas am igas tam bém eram assim . Hom em nenhum fazia esse tipo de coisa. Mas a m ãe de Carla às vezes fingia desconhecer as regras segundo as quais as m ulheres viviam .

– Nesse caso, vou ter que levá-la com igo para o escritório – disse a m ãe ao telefone. – Não quero nem pensar no que Jochm ann vai dizer. – Herr Jochm ann era o chefe dela. – Mesm o nos dias bons, ele não é lá m uito fem inista. – Ela pôs o fone no gancho sem se despedir.

Carla odiava quando os pais brigavam e aquela era a segunda vez no m esm o dia. As brigas faziam seu m undo parecer instável. Tinha m uito m ais m edo delas do que dos nazistas.

– Então vam os – disse-lhe a m ãe, e Carla se dirigiu para a porta.

Não vou nem ver Werner, pensou a m enina, desanim ada.

Nesse m om ento o pai de Frieda apareceu no hall. Era um hom em enérgico e anim ado, de rosto corado e bigodinho preto. Com sim patia, cum prim entou a m ãe de Carla, que conversou educadam ente com ele enquanto Monika o aj udava a vestir um sobretudo preto com gola de pele.

Ele foi até o pé da escada.

– Werner! – gritou. – Vou em bora sem você! – Ele aj eitou um chapéu de feltro cinza na cabeça e saiu.

– Estou pronto, estou pronto!

Werner desceu a escada correndo, com a graça de um bailarino. Era tão alto quanto o pai, só que m ais bonito, e usava os cabelos ruivo-claros um pouco m ais com pridos que o norm al. Trazia debaixo do braço um a bolsa de couro que parecia estar cheia de livros e, na outra m ão, segurava um par de patins de gelo e um taco de hóquei. Apesar da pressa, deteve-se para falar com elas, m uito educado.

– Bom dia, Frau Von Ulrich. – Então acrescentou em tom m ais inform al: – Oi, Carla. Minha irm ã está com catapora.

A m enina sentiu o rosto corar, sem m otivo algum .

– Eu sei – respondeu. Tentou pensar em algum a coisa sim pática e divertida para dizer, m as nada lhe ocorreu. – Nunca tive catapora, então não poderei ficar com ela.

– Eu tive quando era criança – disse ele, com o se isso tivesse sido m uito tem po antes. – Preciso correr – acrescentou, em tom de quem pede desculpas.

Carla não queria perdê-lo de vista assim tão depressa. Seguiu-o até o lado de fora. Ritter segurava a porta traseira do carro aberta.

– Que carro é esse? – perguntou Carla. Meninos sem pre sabiam a m arca dos carros.

– Um a lim usine W10 da Mercedes-Benz.

– Parece bem confortável. – Viu de relance a expressão da m ãe, m eio surpresa, m eio achando graça.

– Querem um a carona? – perguntou Werner.

– Seria m aravilhoso.

– Vou pedir ao m eu pai. – Werner pôs a cabeça dentro do carro e disse algum a coisa.

Carla ouviu Herr Franck responder:

– Está bem , m as andem logo!

Virou-se para a m ãe, anim ada:

– Podem os ir no carro!

A m ãe hesitou, m as só por um m om ento. Não gostava do posicionam ento político de Herr Franck – ele dava dinheiro aos nazistas –, m as não iria recusar um a carona num carro quentinho naquela m anhã fria.

– Quanta gentileza, Ludwig – falou a m ãe.

Elas entraram . Havia lugar para quatro pessoas no banco de trás. Ritter saiu com o carro sem dar nenhum solavanco.

– Im agino que estej a indo para a Kochstrasse? – perguntou Herr Franck.

Muitos j ornais e editoras tinham escritório nessa rua, no bairro de Kreuzberg.

– Por favor, não se desvie do seu cam inho. A Leipziger Strasse j á está bom .

– Eu a levaria até a porta com prazer... m as im agino que você não queira que seus colegas de esquerda a vej am sair do carro de um plutocrata gordo. – Seu tom ficava entre o bom hum or e a hostilidade.

A m ãe de Carla lançou um sorriso encantador para ele.

– Ora, Ludi, você não é gordo... só um pouco cheinho. – Ela deu alguns tapinhas na frente do sobretudo dele.

Herr Franck riu.

– Tudo bem , eu m ereci.

A tensão se dissipou. Herr Franck pegou o fone interno e deu instruções a Ritter.

Carla estava em polgada por andar de carro com Werner. Queria tirar todo o proveito possível da situação e conversar com ele, m as no início não conseguiu pensar em nenhum assunto. Na verdade, queria dizer: “Quando você for m ais velho, acha que poderia se casar com um a m oça de cabelos escuros e olhos verdes, inteligente e uns três anos m ais nova que você?” Acabou apontando para os patins e perguntando:

– Você tem j ogo hoj e?

– Não, só um treino depois da escola.

– Em que posição você j oga? – Ela não entendia nada de hóquei no gelo, m as os j ogos de equipe sem pre tinham posições.

– Ala direita.

– Não é um esporte m eio perigoso?

– Não se você for rápido.

– Você deve patinar m uito bem .

– Eu m e viro – disse ele, m odesto.

Mais um a vez, Carla surpreendeu a m ãe a observando com um sorrisinho enigm ático. Será que ela havia adivinhado os sentim entos que a filha nutria por Werner? Sentiu-se corar outra vez.

Então o carro parou em frente ao prédio de um a escola e Werner desceu.

– Tchau, todo m undo! – falou, antes de entrar correndo no pátio.

Ritter voltou a dirigir, seguindo a m argem sul do canal de Landwehr. Carla olhou para as barcaças sobre a água, com seus carregam entos de carvão encim ados de neve, parecendo m ontanhas. Estava um tanto desapontada. Conseguira m ais tem po com Werner insinuando-se para aquela carona, m as depois o desperdiçara falando sobre hóquei no gelo.

Mas sobre o que gostaria de conversar com ele? Não sabia dizer.

Herr Franck estava falando com sua m ãe:

– Li sua coluna na revista O Democrata.

– Espero que tenha gostado.

– Lam entei seu tom desrespeitoso ao escrever sobre nosso chanceler.

– Você acha que os j ornalistas deveriam escrever respeitosam ente sobre políticos? – retrucou a m ãe, anim ada. – Que opinião m ais radical! Nesse caso, a im prensa nazista teria de ser educada em relação ao m eu m arido! Aposto que eles não iriam gostar.

– Não todos os políticos, é claro – respondeu Franck, irritado.

Eles passaram pelo m ovim entado cruzam ento da Potsdam erplatz. Carros e bondes disputavam lugar com carroças puxadas a cavalo e pedestres, form ando um a confusão caótica.

– Não é m elhor que a im prensa possa criticar todo m undo sem diferença? – perguntou a m ãe a Franck.

– Em teoria, é um a ideia m aravilhosa – respondeu ele. – Mas vocês, socialistas, vivem num m undo de fantasia. Nós, hom ens práticos, sabem os que a Alem anha não pode viver de ideais. As pessoas precisam de pão, sapatos e carvão.

– Concordo – retrucou a m ãe. – Eu m esm a precisaria de m ais carvão. Mas quero que Carla e Erik cresçam cidadãos de um país livre.

– Você superestim a a liberdade. Ser livre não faz ninguém feliz. As pessoas preferem ser guiadas. Eu quero que Werner, Frieda e o pobre Axel cresçam em um país orgulhoso, disciplinado e unido.

– E para que sej am os unidos precisam os de j ovens brutam ontes de cam isa m arrom espancando velhos com erciantes j udeus?

– A política é um a coisa violenta. Não há nada que se possa fazer sobre isso.

– Pelo contrário. Você e eu som os líderes, Ludwig, cada um a seu m odo. É responsabilidade nossa tornar a política m enos violenta: m ais honesta, m ais racional, m enos bruta. Se não fizerm os isso, estarem os falhando em nosso dever patriótico.

Herr Franck pareceu ofendido.

Carla não sabia m uita coisa sobre os hom ens, m as podia perceber que eles não gostavam de ouvir serm ões das m ulheres a respeito dos seus deveres. Sua m ãe devia ter esquecido de acionar o botão do charm e naquela m anhã. Mas a verdade era que todos estavam tensos. A eleição estava se aproxim ando e os deixando nervosos.

O carro chegou à Leipziger Platz.

– Onde posso deixá-las? – perguntou Herr Franck, frio.

– Aqui m esm o está bom – respondeu a m ãe de Carla.

Franck deu um a batidinha na divisória de vidro. Ritter parou o carro e correu para abrir a porta.

– Espero que Frieda fique boa logo – disse a m ãe antes de saltar.

– Obrigado.

As duas desceram e Ritter fechou a porta.

O escritório da revista ficava a vários m inutos de cam inhada dali, m as obviam ente sua m ãe não quisera passar m ais tem po no carro. Carla torceu para que ela não com eçasse a brigar o tem po todo com Herr Franck. Isso poderia dificultar seus encontros com Frieda e Werner, e ela detestaria isso.

As duas saíram andando a passos rápidos.

– Tente não atrapalhar ninguém lá na revista – instruiu a m ãe.

O tom de súplica em sua voz deixou Carla com ovida e envergonhada por lhe causar preocupação. Ela decidiu se portar de form a im pecável.

No cam inho, a m ãe cum prim entou várias pessoas. Até onde Carla conseguia se lem brar, ela sem pre escrevera a coluna e era bastante conhecida no m undo j ornalístico. Todos a cham avam de “Lady Maud”, assim m esm o, em inglês.

Perto do prédio onde ficava o escritório da revista, elas toparam com um conhecido da fam ília. O sargento Schwab havia lutado com o pai de Carla na Grande Guerra e ainda usava os cabelos m uito curtos, ao estilo m ilitar. Depois da guerra, passara a trabalhar com o j ardineiro, prim eiro para o avô de Carla, depois para o pai. Mas roubara dinheiro da bolsa de sua m ãe e fora m andado em bora. Schwab estava usando o feio uniform e m ilitar das tropas de assalto, os cam isas-pardas, que não eram soldados, m as nazistas que gozavam da autoridade de um a polícia auxiliar.

– Bom dia, Frau Von Ulrich! – cum prim entou Schwab em voz alta, com o se não sentisse qualquer vergonha de ser ladrão. Ele nem sequer levou a m ão ao quepe.

A m ãe de Carla aquiesceu com frieza e passou por ele sem parar de andar.

– O que será que Schwab está fazendo aqui? – m urm urou ela, aflita, enquanto as duas entravam .

A revista ocupava o prim eiro andar de um prédio com ercial m oderno. Carla sabia que um a criança não seria bem -vinda ali e torceu para que conseguissem chegar à sala da m ãe sem serem vistas. Na escada, porém , cruzaram com Herr Jochm ann. O chefe de sua m ãe era um hom em pesado, que usava óculos de lentes grossas.

– O que é isso? – perguntou ele em tom brusco, sem deixar cair o cigarro que tinha na boca. – Isto aqui agora virou um j ardim de infância?

A m ãe não reagiu à grosseria.

– Estive pensando no com entário que o senhor fez outro dia – disse ela. – Sobre com o os j ovens pensam que o j ornalism o é um a profissão cheia de glam our e não entendem com o é preciso trabalhar duro.

Ele franziu o cenho.

– Eu disse isso? Bem , com certeza é verdade.

– Então trouxe m inha filha aqui para ver a realidade. Acho que vai ser bom para a educação dela, sobretudo se virar escritora. Ela vai fazer um relato sobre a visita para a turm a da escola. Tive certeza de que o senhor iria concordar.

A m ãe estava im provisando, m as Carla achou que a desculpa soava convincente. Ela m esm a quase acreditou. O botão do charm e finalm ente havia sido acionado.

– A senhora não vai receber um a visita im portante de Londres hoj e? – perguntou Jochm ann.

– Vou, sim . Ethel Leckwith. Mas ela é um a velha am iga... conheceu Carla ainda bebê.

Isso fez Jochm ann se acalm ar um pouco.

– Hum . Bem , tem os reunião editorial daqui a cinco m inutos, assim que eu com prar cigarros e voltar.

– Carla pode ir para o senhor. – A m ãe virou-se para ela: – Há um a tabacaria nesta m esm a rua, três prédios depois do nosso. Herr Jochm ann fum a cigarros da m arca Roth-Händle.

– Ah, isso vai m e poupar a viagem . – Jochm ann entregou a Carla um a m oeda de um m arco.

– Quando voltar, pode m e encontrar na sala no alto da escada, ao lado do alarm e de incêndio – disse-lhe a m ãe. Então deu as costas para a filha e segurou o braço de Jochm ann, confiante. – Acho que a edição da sem ana passada talvez tenha sido a m elhor que j á fizem os – declarou enquanto os dois subiam a escada.

Carla saiu correndo para a rua. Sua m ãe conseguira se safar usando a m istura de ousadia e flerte que lhe era característica. Ela às vezes dizia: “Nós, m ulheres, tem os que usar todas as arm as de que dispom os.” Ao pensar nisso, Carla notou que tinha usado a m esm a tática para conseguir a carona de Herr Franck. Talvez, no final das contas, fosse parecida com a m ãe. Talvez por isso ela houvesse lhe lançado aquele sorrisinho curioso: estava se vendo trinta anos m ais j ovem .

Havia fila na tabacaria. Metade dos j ornalistas de Berlim parecia estar com prando seu estoque para o dia. Por fim , Carla conseguiu seu m aço de Roth-Händle e voltou para a sede da revista O Democrata. Foi fácil encontrar o alarm e de incêndio – um a grande alavanca presa à parede –, m as sua m ãe não estava na sala. Sem dúvida devia ter ido à tal reunião editorial.

Carla seguiu pelo corredor. Todas as portas estavam abertas e a m aioria das salas, vazia, exceto por algum as m ulheres que deviam ser datilógrafas e secretárias. Nos fundos do prédio, depois de virar num corredor, havia um a porta fechada na qual se lia “Sala de Reuniões”. Carla ouviu vozes m asculinas exaltadas discutindo lá dentro. Bateu na porta, m as ninguém respondeu. Hesitou, então girou a m açaneta e entrou.

A sala estava tom ada pela fum aça de cigarro. Havia de oito a dez pessoas sentadas em volta de um a m esa com prida. Sua m ãe era a única m ulher. Todos se calaram , aparentem ente espantados, quando Carla foi até a cabeceira e entregou a Jochm ann os cigarros e o troco. Aquele silêncio a fez pensar que tinha sido errado entrar ali.

Mas Jochm ann apenas disse:

– Obrigado.

– De nada, senhor – respondeu ela e, por algum m otivo, fez um a leve m esura.

Os hom ens riram . Um deles falou:

– Assistente nova, Jochm ann?

Então Carla entendeu que estava tudo bem .

Saiu depressa da sala de reuniões e voltou para a de sua m ãe. Não tirou o casaco – fazia frio lá dentro. Olhou em volta. Sobre a m esa, viu um telefone, um a m áquina de escrever e pilhas de papel e papel-carbono.

Ao lado do telefone havia um porta-retratos com um a fotografia de Carla e Erik com o pai. Fora tirada alguns anos antes, num dia ensolarado, na praia às m argens do lago Wannsee, a uns 25 quilôm etros do centro de Berlim . Seu pai estava de short. Todos riam . Aquilo fora antes de Erik com eçar a fingir que era um hom em adulto e durão.

A única outra fotografia, pendurada na parede, m ostrava sua m ãe com o herói social-dem ocrata Friedrich Ebert, prim eiro presidente da Alem anha depois da guerra. Havia sido tirada uns dez anos antes. Carla sorriu ao ver o vestido solto e de cintura baixa da m ãe e seus cabelos curtos: aquela devia ser a m oda da época.

A estante continha publicações que listavam as figuras im portantes da sociedade, cadernetas de telefone, dicionários e atlas em várias línguas, m as nada para ler. Na gaveta da m esa, Carla encontrou lápis, vários pares novos de luvas form ais, ainda em brulhados em papel de seda, um pacote de toalhas higiênicas e um caderno com nom es e núm eros de telefone.

Carla acertou a data no calendário de m esa: segunda-feira, 27 de fevereiro de 1933. Então inseriu um a folha de papel na m áquina de escrever. Datilografou seu nom e com pleto: Heike Carla von Ulrich. Aos 5 anos, ela declarara que não gostava do nom e Heike e queria que todos usassem seu segundo nom e. De algum m odo, para sua surpresa, a fam ília aceitara.

Cada um a das teclas da m áquina fazia um a haste de m etal se erguer e bater no papel por cim a de um a fita de tinta, im prim indo assim um a letra. Sem querer, Carla apertou duas teclas ao m esm o tem po e as hastes ficaram presas. Tentou soltá-las, m as não conseguiu. De nada adiantou apertar outra tecla: agora eram três hastes em boladas. A m enina soltou um gem ido: estava encrencada.

Um barulho vindo da rua a distraiu. Ela foi até a j anela. Uns dez cam isas-pardas m archavam pelo m eio da rua gritando palavras de ordem : “Morte a todos os j udeus! Vão para o inferno, j udeus!” Carla não entendia por que toda aquela raiva dos j udeus, que pareciam iguais a todo m undo, a não ser pela religião. Ficou espantada ao ver o sargento Schwab à frente do grupo. Sentira pena quando ele fora dem itido, pois sabia que seria difícil para ele arrum ar outro em prego. Havia m ilhões de desem pregados na Alem anha: segundo seu pai, o país passava por um a depressão. Mas a m ãe dissera: “Com o podem os ter um hom em que rouba dentro de casa?”

Os gritos então se m odificaram . “Destruição aos j ornais de j udeus!”, entoaram os hom ens em uníssono. Um deles atirou algum a coisa e um legum e podre se espatifou na porta da sede de um j ornal de circulação nacional. Então, para horror de Carla, eles se viraram para o prédio onde ela estava.

A m enina recuou e ficou espiando pelo canto da m oldura da j anela, torcendo para não ser vista. O grupo parou do lado de fora, ainda cantando. Um dos hom ens j ogou um a pedra, que acertou a j anela de Carla sem quebrá-la. Mesm o assim , a garota soltou um gritinho de m edo. Instantes depois, um a das datilógrafas, um a m oça de boina verm elha, entrou na sala.

– O que houve? – perguntou e então olhou pela j anela. – Ai, droga!

Os cam isas-pardas entraram no prédio e Carla ouviu botas na escada. Estava com m edo: o que eles iriam fazer?

O sargento Schwab entrou na sala de sua m ãe. Hesitou ao ver a m oça e a m enina, m as depois pareceu tom ar coragem . Pegou a m áquina de escrever e atirou-a pela j anela, estilhaçando a vidraça. Carla e a datilógrafa gritaram .

Mais cam isas-pardas passaram no corredor gritando suas palavras de ordem .

Schwab segurou a m ulher pelo braço e disse:

– E agora, querida, onde fica o cofre do escritório?

– Na sala do arquivo! – respondeu a secretária com voz aterrorizada.

– Mostre para m im .

– Sim , tudo o que o senhor quiser!

Ele a em purrou para fora da sala m archando.

Carla com eçou a chorar, m as então obrigou-se a parar.

Pensou em se esconder debaixo da m esa, m as hesitou. Não queria m ostrar a eles que estava com m edo. Algum a coisa dentro dela queria desafiá-los.

Mas o que ela deveria fazer? Decidiu avisar à m ãe.

Foi até o lim iar da porta e espiou. Os cam isas-pardas entravam e saíam das salas, m as ainda não tinham chegado ao final do corredor. Carla não sabia se as pessoas na sala de reuniões podiam ouvir a confusão. Disparou pelo corredor o m ais depressa que pôde, porém um grito a deteve. Ela olhou para dentro de um a das salas e viu Schwab sacudindo a datilógrafa de boina verm elha, aos berros:

– Onde está a chave?

– Não sei, eu j uro que não sei! – gritava a m oça.

Carla ficou indignada. Schwab não tinha o direito de tratar um a m ulher daquele j eito.

– Deixe a m oça em paz, Schwab, seu ladrão! – esbravej ou.

Schwab olhou com ódio para a m enina e, de repente, ela ficou dez vezes m ais assustada. Então o olhar se desviou para alguém atrás dela e ele disse:

– Tire essa porcaria de criança da m inha frente.

Alguém a agarrou por trás.

– Você por acaso é um a j udiazinha? – perguntou um a voz de hom em . – Parece que é, com todo esse cabelo escuro.

Aquilo a deixou em pânico.

– Eu não sou j udia! – gritou ela.

O cam isa-parda carregou Carla de volta para o corredor e a deixou na sala da m ãe. Ela cam baleou e caiu no chão.

– Fique aqui – disse ele e se afastou.

Carla se levantou. Não estava m achucada. O corredor agora estava cheio de cam isas-pardas e ela não conseguiria chegar até a m ãe. Mas precisava pedir aj uda.

Olhou pela vidraça quebrada. Um pequeno grupo j á se j untava na rua. Dois policiais conversavam no m eio desses observadores. Carla gritou para eles:

– Socorro! Socorro, polícia!

Eles a viram e com eçaram a rir.

Isso a deixou furiosa, e a raiva fez seu m edo dim inuir. Ela se virou de novo para o corredor. Seu olhar pousou no alarm e de incêndio preso à parede. Ela ergueu a m ão e segurou a alavanca.

Hesitou. Não devia soar o alarm e se não houvesse um incêndio, e um aviso na parede alertava quanto às severas penalidades para quem descum prisse a regra.

Ela puxou a alavanca m esm o assim .

Por um instante, nada aconteceu. Talvez o m ecanism o não estivesse funcionando.

Então um barulho alto e estridente de sirene encheu o prédio, o volum e variando entre alto e baixo.

Quase na m esm a hora, as pessoas que estavam na sala de reuniões surgiram no final do corredor. Jochm ann veio na frente.

– Que diabo está acontecendo aqui? – perguntou com raiva, gritando m ais alto que o alarm e.

– Esta revistazinha j udaico-com unista insultou nosso líder e nós vam os fechá-la – disse um dos cam isas-pardas.

– Saiam j á do m eu escritório!

O cam isa-parda o ignorou e entrou em um a sala ao lado. Instantes depois, ouviu-se um grito de m ulher e um estrondo que soou com o um a m esa de aço sendo derrubada.

Jochm ann se virou para um de seus funcionários e ordenou:

– Schneider, cham e a polícia agora m esm o!

Carla sabia que isso não iria adiantar. A polícia j á estava lá e não fazia nada.

A m ãe abriu cam inho entre as pessoas ali reunidas e correu na sua direção.

– Você está bem ? – exclam ou, envolvendo a filha num abraço.

Carla não queria ser consolada com o um a criança. Em purrou a m ãe para longe e disse:

– Estou bem , não se preocupe.

A m ãe olhou em volta.

– Minha m áquina de escrever!

– Eles a j ogaram pela j anela. – Carla então se deu conta de que agora não estava m ais encrencada por ter em perrado as teclas.

– Tem os que sair daqui. – A m ãe pegou o porta-retratos, segurou a m ão de Carla e as duas deixaram a sala às pressas.

Ninguém tentou im pedi-las de descer correndo a escada. À sua frente, um rapaz forte que devia ser um dos repórteres tinha im obilizado um dos cam isas-pardas por trás, pelo pescoço, e o arrastava para fora do prédio. Carla e a m ãe seguiram os dois até a rua. Outro cam isa-parda saiu atrás delas.

Ainda arrastando o cam isa-parda, o repórter chegou perto dos dois policiais.

– Prendam este hom em – disse. – Eu o peguei roubando nosso escritório. No bolso dele há um a lata de café roubada.

– Solte-o, por favor – disse o m ais velho dos policiais.

Com relutância, o repórter obedeceu.

O segundo cam isa-parda se postou ao lado do colega.

– Qual é o seu nom e, senhor? – perguntou o policial ao repórter.

– Rudolf Schm idt. Sou o principal correspondente parlam entar da revista O Democrata.

– Rudolf Schm idt, o senhor está preso por agredir um policial.

– Não sej a ridículo. Eu flagrei este hom em roubando!

O policial m eneou a cabeça para os dois cam isas-pardas e falou:

– Levem -no para a delegacia.

Os dois seguraram Schm idt pelos braços. Ele deu a im pressão de que ia resistir, m as depois m udou de ideia.

– Todos os detalhes deste incidente serão publicados na próxim a edição da revista! – gritou ele.

– Não vai haver m ais nenhum a edição da revista – disse o policial. – Levem -no em bora daqui.

Um carro de bom beiros chegou e m eia dúzia de hom ens saltaram . O líder se dirigiu aos policiais em tom brusco.

– Precisam os evacuar o prédio – falou.

– Voltem para o quartel, não há incêndio algum aqui – esclareceu o policial m ais velho. – São só as tropas de assalto fechando um a revista com unista.

– Isso não m e diz respeito – retrucou o bom beiro. – O alarm e foi acionado e nosso prim eiro dever é esvaziar o prédio, com ou sem tropas de assalto. Vam os nos virar sem a sua aj uda, então. – Ele conduziu seus hom ens para dentro do prédio.

– Ah, não! – exclam ou a m ãe de Carla.

Quando a m enina se virou, viu que a m ãe estava olhando para a m áquina de escrever, espatifada na calçada onde caíra. O corpo de m etal havia se soltado, expondo as conexões entre teclas e hastes. O teclado estava deform ado, irreconhecível. Um a das extrem idades do cilindro arrebentara e a cam painha que tocava para indicar o fim de um a linha j azia no chão, abandonada. Um a m áquina de escrever não era um obj eto precioso, m as a m ãe parecia à beira das lágrim as.