Inverno do Mundo
Capítulo VI
Guardou a arm a. Ofegante, apoiou-se num a das bancadas.
No chão, reparou em duas guim bas de cigarro, um a delas suj a de batom . Não pareciam m uito antigas.
– Eles estavam aqui – disse a Werner, apontando para o chão. – Eram dois. O barulho da porta os alertou, e eles fugiram .
– Fui um tolo – disse Werner. – Desculpe-m e. Não estou acostum ado com esse tipo de coisa.
Macke foi até a j anela do canto. Na rua, viu um rapaz e um a m oça se afastando apressados. O hom em carregava um a pasta de couro bege. Enquanto ele olhava, os dois desapareceram na estação de trem .
– Merda – praguej ou.
– Não acho que eles fossem espiões – disse Werner. Ele apontou algum a coisa no chão, e Macke viu que era um preservativo am assado. – Usado, m as vazio – com entou o rapaz. – Acho que os pegam os no flagra.
– Espero que estej a certo – falou Macke.
VI
No dia em que Joachim Koch prom eteu levar o plano de batalha, Carla faltou ao trabalho.
Provavelm ente poderia ter cum prido seu plantão da m anhã e ainda assim chegado em casa a tem po – m as “provavelm ente” não bastava. Sem pre havia o risco de algum grande incêndio ou um acidente na estrada a obrigarem a ficar depois do horário por causa do excesso de vítim as. Assim , ela passou o dia em casa.
No fim das contas, Maud nem precisara pedir a Joachim que levasse os planos. O tenente lhe dissera que tinha que cancelar um a das aulas; então, sem conseguir resistir à tentação de se gabar, explicara que precisava levar um a cópia do plano até o outro lado da cidade.
– Passe aqui no cam inho, para a aula – sugerira Maud; e ele havia concordado.
O alm oço foi tenso. Carla e Maud com eram um a sopa rala feita com o osso de um presunto e ervilhas secas. Carla não perguntou o que a m ãe tinha feito, ou prom etido fazer, para convencer Koch. Talvez houvesse lhe dito que ele estava evoluindo bastante, m as não podia se dar ao luxo de faltar a um a aula. Talvez tivesse lhe perguntado se ele possuía um cargo tão baixo no Ministério a ponto de ser m onitorado o tem po todo: um com entário assim iria ferir seus brios, j á que ele vivia fingindo ser m ais im portante do que de fato era, e poderia facilm ente fazer com que ele fosse até lá só para m ostrar que ela estava errada. No entanto, a estratégia de sucesso m ais provável era j ustam ente aquela em que Carla não queria pensar: sexo. Sua m ãe flertava com Koch abertam ente, e ele retribuía com um a devoção digna de um escravo. Carla desconfiava que fosse essa a irresistível tentação que tinha feito Joachim ignorar a vozinha em sua m ente que dizia: “Não sej a tão burro.”
Ou talvez não. Quem sabe ele não cairia em si? Talvez aparecesse nessa tarde não com um a cópia em papel carbono dentro da bolsa, m as com um esquadrão da Gestapo e um par de algem as.
Carla carregou um dos film es na m áquina Minox, em seguida guardou a câm era e os dois film es restantes na prim eira gaveta do arm ário baixo da cozinha, sob uns panos. O arm ário ficava ao lado da j anela, onde a luz era forte. Ela fotografaria o docum ento sobre o tam po do arm ário.
Não sabia com o o film e exposto chegaria a Moscou, m as Frieda lhe garantira que chegaria, e Carla im aginava algum m ascate – um vendedor de produtos farm acêuticos, talvez, ou de Bíblias em alem ão – com autorização para fazer com ércio na Suíça que pudesse entregar o film e discretam ente a alguém da em baixada soviética em Berna.
A tarde foi longa. Maud foi para o quarto descansar. Ada lavou roupa. Carla ficou sentada na sala de j antar, que ela e a m ãe agora raram ente usavam , e tentou ler um livro, m as não conseguiu se concentrar. O j ornal só publicava m entiras. Ela precisava estudar para um a prova de enferm agem que faria em breve, m as as expressões m édicas do m anual se em baralhavam diante de seus olhos. Estava lendo um exem plar antigo de Nada de novo no front, um sucesso de vendas alem ão sobre a Grande Guerra, agora proibido por sua honestidade excessiva em relação às agruras dos soldados. No entanto, só conseguiu ficar segurando o livro, olhando pela j anela para o sol de j unho que aquecia a cidade poeirenta.
Por fim , o tenente apareceu. Carla ouviu passos no cam inho que conduzia à casa e pulou para olhar pela j anela. Não viu nenhum esquadrão da Gestapo, apenas Joachim Koch de uniform e passado e botas engraxadas, com seu rosto de galã de cinem a ilum inado pela m esm a expectativa ansiosa de um a criança que chega a um a festinha de aniversário. Com o sem pre, trazia a bolsa de lona pendurada no om bro. Teria m antido a prom essa? Será que aquela bolsa continha um a cópia do plano de batalha da Operação Azul?
Ele tocou a cam painha.
Daquele m om ento em diante, Carla e Maud haviam planej ado cada um de seus m ovim entos. Seguindo o com binado, Carla não atendeu. Instantes depois, viu a m ãe atravessar o hall vestida com um robe de seda roxa e calçando chinelos de salto alto – praticam ente um a prostituta, pensou Carla, cheia de vergonha e constrangim ento. Ouviu a porta da frente se abrir, depois tornar a se fechar. Um farfalhar de seda acom panhado de sussurros carinhosos vindos do hall sugeriu um abraço. Então o robe roxo e o uniform e cinza passaram pela porta da sala de j antar e desapareceram no andar de cim a.
A prioridade de Maud era se certificar de que ele havia trazido o docum ento. Devia lê-lo, fazer algum com entário de adm iração e, em seguida, deixá-lo de lado. Conduziria Joachim até o piano. Então arrum aria algum pretexto – Carla tentou não pensar em qual seria – para conduzir o rapaz pela porta dupla que levava ao escritório contíguo, um côm odo m enor e m ais íntim o, com cortinas de veludo verm elho e um grande sofá j á m eio deform ado. Assim que os dois estivessem lá dentro, Maud daria o sinal.
Com o era difícil prever a coreografia exata de seus m ovim entos, havia vários sinais possíveis, m as todos significavam a m esm a coisa. O m ais sim ples era que Maud bateria a porta com força suficiente para que o barulho ecoasse pela casa inteira. Ou então usaria a sineta de puxar que ficava ao lado da lareira e fazia soar um a cam painha na cozinha, parte do sistem a para cham ar os criados que j á não era m ais usado. Mas as duas haviam decidido que qualquer outro barulho tam bém poderia servir: em caso de desespero, ela derrubaria no chão o busto de m árm ore de Goethe, ou então quebraria um vaso “por acidente”.
Carla saiu da sala de j antar e ficou em pé no hall, olhando para o alto da escada. Não ouviu nada.
Espiou dentro da cozinha. Ada estava lavando a panela na qual havia preparado a sopa, e a esfregava com um a energia sem dúvida gerada pela tensão. Carla lhe lançou o que torceu para ser um sorriso encoraj ador. Ela e Maud teriam preferido não com partilhar toda aquela história com Ada, não por não confiarem nela – m uito pelo contrário: sua hostilidade em relação aos nazistas beirava o fanatism o –, m as porque o sim ples fato de saber a tornava cúm plice de traição e passível da m ais severa punição. As três, porém , eram próxim as dem ais para que fosse possível m anter um segredo assim , e Ada sabia de tudo.
Carla ouviu o retinir distante da risada de Maud. Conhecia aquele som . A risada tinha um traço artificial, e indicava que sua m ãe estava esticando ao m áxim o seus poderes de sedução.
Será que Joachim tinha m esm o trazido o docum ento?
Um ou dois m inutos depois, Carla ouviu o piano. Não havia dúvida de que era Joachim tocando. A m elodia era um a canção infantil sim ples sobre um gato na neve: A.B.C., Die Katze lief im Schnee. Seu pai cantara essa m úsica para ela um a centena de vezes. Ao pensar nisso, sentiu um nó na garganta. Com o os nazistas se atreviam a cantar m úsicas assim quando deixavam tantas crianças órfãs?
De repente, a m úsica parou no m eio. Algum a coisa havia acontecido. Carla apurou os ouvidos – tentou detectar vozes, passos, qualquer coisa –, m as não ouviu nada.
Um m inuto se passou, depois outro.
Algo dera errado – m as o quê?
Olhou para Ada pela porta da cozinha. A criada parou de esfregar a panela e abriu os braços no gesto de quem diz: Não faço a menor ideia.
Carla precisava descobrir.
Subiu a escada sem fazer barulho, pisando com cuidado no carpete puído.
Postou-se em frente à porta da sala de estar. Continuou sem ouvir coisa algum a: nem o som do piano, nem qualquer m ovim ento ou voz.
Abriu a porta o m ais silenciosam ente que pôde.
Espiou lá para dentro. Não viu ninguém . Entrou na sala e olhou em volta. Estava vazia.
Não havia nem sinal da bolsa de lona de Joachim .
Então olhou para a porta dupla que conduzia ao escritório. Um a das folhas estava entreaberta.
Carla atravessou a sala pé ante pé. Não havia tapete sobre os tacos de m adeira encerada, e seus passos não foram totalm ente silenciosos; m as ela precisava arriscar.
Quando se aproxim ou, ouviu sussurros.
Chegou à porta. Colou-se à parede e arriscou um a olhada para dentro do escritório.
Os dois estavam de pé, abraçados, aos beij os. Joachim estava de costas para a porta e para Carla: sua m ãe devia ter tom ado cuidado para deixá-lo nessa posição. Enquanto Carla os observava, Maud interrom peu o beij o, olhou por cim a do om bro do tenente e seus olhos encontraram os da filha. Largou o pescoço de Joachim e apontou com urgência para algum a coisa.
Carla viu a bolsa de lona em cim a de um a cadeira.
Na m esm a hora entendeu o que dera errado. Quando Maud convencera Joachim a ir até o escritório, ele não havia facilitado a vida delas deixando a bolsa na sala, m as, nervoso, a levara consigo.
E agora Carla tinha que pegá-la.
Com o coração aos pulos, entrou no escritório.
– Ah, sim , continue fazendo isso, m eu doce m enino – m urm urou Maud.
– Am o você, querida – grunhiu Joachim .
Carla deu dois passos à frente, pegou a bolsa de lona, virou as costas e saiu do escritório sem fazer barulho.
A bolsa estava leve.
Ela atravessou depressa a sala de estar e desceu correndo a escada, ofegante.
Na cozinha, pôs a bolsa em cim a da m esa e abriu as fivelas. Lá dentro, viu a edição do dia do j ornal berlinense Der Angriff, um m aço fechado de cigarros Kam el e um a pasta sim ples de cartolina parda. Com as m ãos trêm ulas, pegou a pasta e a abriu. Era a cópia em papel carbono de um docum ento.
O cabeçalho da prim eira página dizia:
DIRETRIZ Nº 41
Na últim a página havia um a linha pontilhada para um a assinatura. O docum ento ainda não estava assinado, sem dúvida por se tratar de um a cópia, m as o nom e datilografado j unto à linha pontilhada era Adolf Hitler.
Entre essas duas páginas estava o plano da Operação Azul.
Carla sentiu o coração se encher de j úbilo, m isturado à tensão que ela j á sentia e ao terrível pavor de ser descoberta.
Pôs o docum ento em cim a do arm ário baixo j unto à j anela da cozinha. Abriu a gaveta com um puxão e pegou a câm era Minox e os dois rolos de film e. Posicionou o docum ento com cuidado e com eçou a fotografar cada página.
Não dem orou m uito. Eram só dez folhas. Nem precisou trocar o film e. Pronto. Tinha roubado o plano de batalha.
Esta foi por você, pai.
Tornou a guardar a câm era na gaveta, fechou-a com um em purrão, recolocou o docum ento dentro da pasta de cartolina, pôs a pasta dentro da bolsa e a afivelou.
Cam inhando o m ais silenciosam ente possível, tornou a levar a bolsa até o andar de cim a.
Quando entrou na sala de estar pé ante pé, ouviu a voz da m ãe. Maud falava de form a clara e distinta, com o quem quer ser ouvido, e Carla sentiu na hora que aquilo era um alerta.
– Por favor, não fique assim – dizia Maud. – É que você estava excitado dem ais. Nós dois estávam os.
Joachim respondeu com um a voz baixa e envergonhada:
– Sinto-m e um tolo. Foi só você tocar em m im e tudo acabou.
Carla pôde adivinhar o que havia acontecido. Não tinha nenhum a experiência no assunto, m as as m oças conversavam , e as conversas das enferm eiras chegavam a ser brutais de tão detalhadas. Joachim devia ter tido um a ej aculação precoce. Frieda lhe contara que o m esm o havia acontecido com Heinrich várias vezes no com eço do nam oro, e que ele tinha m orrido de vergonha, m as logo esquecido. Era sinal de nervosism o, explicara ela.
O fato de as carícias de Maud e Joachim terem acabado tão cedo criava um a dificuldade para Carla. Joachim agora estaria m ais atento, e não cego e surdo a tudo o que acontecia à sua volta.
Ainda assim , Maud devia estar fazendo o possível para m antê-lo de costas para a porta. Se Carla conseguisse entrar no escritório por apenas um segundo, para recolocar a bolsa na cadeira sem que Joachim a visse, elas conseguiriam se safar.
Com o coração batendo feito um tam bor, Carla atravessou a sala e parou j unto à porta aberta.
– Isso acontece... – disse Maud, tentando reconfortá-lo. – O corpo fica im paciente. Não é nada.
Carla passou a cabeça pela porta.
Os dois continuavam de pé no m esm o lugar, m uito próxim os. Maud espiou por trás de Joachim e viu a filha. Levou a m ão ao rosto do tenente para im pedi-lo de olhar na direção de Carla e disse:
– Beij e-m e outra vez e diga que não m e odeia por causa desse pequeno incidente.
Carla entrou no escritório.
– Preciso de um cigarro – disse Joachim .
Antes que ele se virasse, Carla tornou a sair depressa.
Ficou esperando j unto à porta. Será que ele estava com os cigarros no bolso, ou iria procurar o m aço fechado na bolsa?
A resposta veio um segundo depois.
– Onde está m inha bolsa? – perguntou ele.
Carla sentiu o coração parar.
A voz de Maud soou distinta:
– Você deixou na sala de estar.
– Não deixei, não.
Carla atravessou a sala, largou a bolsa em cim a da cadeira e saiu. Então parou no patam ar da escada para escutar.
Ouviu os dois saírem do escritório e entrarem na sala.
– Ali está, com o eu disse – falou Maud.
– Eu não a deixei aqui – rebateu Joachim , teim oso. – Jurei não deixar esta bolsa longe dos m eus olhos. Mas foi isso que fiz... quando a estava beij ando.
– Querido, você está chateado por causa do que aconteceu entre nós. Tente relaxar.
– Alguém deve ter entrado na sala enquanto eu estava distraído...
– Que ideia m ais absurda.
– Eu não acho.
– Vam os nos sentar ao piano, bem j untinhos, com o você gosta – disse ela, m as sua voz estava com eçando a soar desesperada.
– Quem m ais está em casa?
Adivinhando o que iria acontecer em seguida, Carla desceu correndo a escada e entrou na cozinha. Ada a fitou, alarm ada, m as não houve tem po para explicações.
Ela ouviu as botas de Joachim na escada.
Instantes depois, o tenente entrou na cozinha. Trazia na m ão a bolsa de lona. Tinha um a expressão zangada no rosto. Olhou para Carla e para Ada.
– Um a de vocês duas olhou dentro desta bolsa! – exclam ou.
Carla falou com a voz m ais calm a de que foi capaz:
– Não sei por que você acha um a coisa dessas, Joachim .
Maud surgiu atrás do tenente e passou por ele para entrar na cozinha.
– Vam os tom ar um café. Ada, por gentileza – falou, alegre. – Joachim , por favor, sente-se.
Ele a ignorou e correu os olhos pela cozinha. Seu olhar se deteve no tam po do arm ário baixo j unto à j anela. Para seu horror, Carla constatou que, em bora tivesse guardado a câm era na gaveta, esquecera os dois rolos de film e do lado de fora.
– São rolos de film e de oito m ilím etros, não são? – perguntou Joachim . – Você tem um a câm era em m iniatura?
De repente, ele não parecia m ais tão infantil.
– É para isso que servem essas coisas? – indagou Maud. – Bem que eu estava m e perguntando. Outro aluno as esqueceu aqui. Um oficial da Gestapo, na verdade.
Foi um a im provisação inteligente, m as Joachim não se deixou enganar.
– E será que ele tam bém esqueceu a câm era? – perguntou, abrindo a gaveta.
A pequena câm era de aço inox estava sobre um pano branco, tão visível quanto um a m ancha de sangue.
A expressão de Joachim era de puro choque. Talvez ele realm ente não acreditasse que tinha sido vítim a de traição e estivesse apenas fazendo um cena para com pensar o vexam e sexual, m as agora estava encarando a verdade pela prim eira vez. Qualquer que fosse o m otivo, passou alguns instantes atônito. Ainda segurando o puxador da gaveta, ficou encarando a câm era com o se estivesse hipnotizado. Nesse breve instante, Carla viu que o sonho de am or de um rapaz fora despedaçado e que sua ira seria enorm e.
Por fim , ele levantou o rosto. Olhou para as três m ulheres à sua volta e seu olhar se cravou em Maud.
– Você fez m esm o isso – falou. – Você m e enganou. Mas vai ser punida. – Pegou a câm era e os rolos de film e e os guardou no bolso. – Frau Von Ulrich, a senhora está presa. – Dando um passo à frente, ele a segurou pelo braço. – Vou levá-la para a sede da Gestapo.
Maud soltou o braço e deu um passo para trás.
Joachim lhe deu um soco, com toda a sua força. Era um hom em alto, forte e j ovem . O soco acertou Maud no rosto e a derrubou no chão.
Joachim ficou de pé ao seu lado.
– Você m e fez de bobo! – gritou, com voz aguda. – Você m entiu, e eu acreditei! – Ele estava fora de si. – Vam os ser torturados pela Gestapo, os dois, e m erecem os isso!
Então com eçou a chutá-la. Ela tentou rolar para longe, m as esbarrou no fogão. A bota direita dele a atingiu nas costelas, na coxa e na barriga.
Ada correu até Joachim e arranhou seu rosto com as unhas. Ele a enxotou com um m ovim ento do braço. Então deu um chute na cabeça de Maud.
Isso fez Carla agir.
Ela sabia que as pessoas podiam se recuperar de vários tipos de traum a, m as que um golpe na cabeça m uitas vezes causava danos irreparáveis. Esse pensam ento, entretanto, não chegou a ser consciente. Ela agiu sem prem editação. Pegou sobre m esa da cozinha a pesada panela de sopa que Ada havia esfregado com tanta determ inação. Segurando-a pelo cabo com prido, ergueu-a bem alto e baixou-a com toda a força na cabeça de Joachim .
O tenente cam baleou, aturdido.
Carla tornou a bater, dessa vez com m ais força ainda.
Joachim desabou no chão, inconsciente. Maud saiu da frente para não ser atingida pelo corpo dele e sentou-se apoiada na parede, segurando o próprio peito.
Carla tornou a erguer a panela.
– Não! Pare! – gritou Maud.
Carla pousou a panela sobre a m esa da cozinha.
Joachim se m exeu, tentando se levantar.
Então Ada agarrou a panela e tornou a bater no tenente com fúria. Carla tentou segurar seu braço, m as a criada estava louca de raiva. Golpeou a cabeça do rapaz inconsciente inúm eras vezes, até ficar exausta, e então deixou a panela cair no chão com um clangor de m etal.
Com dificuldade, Maud se aj oelhou e encarou Joachim . O tenente tinha os olhos arregalados e fixos. Seu nariz estava torto. O crânio parecia deform ado. Sangue escorria da orelha. Ele não parecia estar respirando.
Carla se aj oelhou ao seu lado e levou a ponta dos dedos ao pescoço à procura de pulso. Não encontrou.
– Ele está m orto – falou. – Nós o m atam os. Ah, m eu Deus.
– Seu pobre m enino tolo – disse Maud, chorando.
– O que vam os fazer agora? – perguntou Ada, ainda ofegante por causa do esforço.
Carla se deu conta de que precisavam se livrar do corpo.
Maud levantou-se com esforço. O lado esquerdo de seu rosto j á com eçava a inchar.
– Meu Deus, que dor – reclam ou, segurando a lateral do corpo.
Carla deduziu que estivesse com um a costela quebrada.
Ada baixou os olhos para Joachim e disse:
– Poderíam os escondê-lo no sótão.
– Sim , até os vizinhos com eçarem a reclam ar do cheiro – retrucou Carla.
– Então vam os enterrá-lo no quintal.
– E o que as pessoas vão pensar quando virem três m ulheres cavando um buraco de dois m etros de com prim ento no quintal de um a casa em Berlim ? Que estam os procurando ouro?
– Poderíam os cavar de noite.
– E isso por acaso iria parecer m enos suspeito?
Ada coçou a cabeça.
– Tem os que levar o corpo para algum lugar e j ogá-lo fora – disse Carla. – Num parque ou num canal.
– Mas com o vam os carregá-lo? – perguntou Ada.
– Ele não é m uito pesado – disse Maud com tristeza. – Tão m agro e forte.
– O problem a não é o peso – disse Carla. – Ada e eu podem os carregá-lo. Mas tem os que dar um j eito de fazer isso sem levantar suspeitas.
– Queria que tivéssem os um carro – falou Maud.
Carla fez que não com a cabeça.
– Ninguém consegue gasolina.
Elas se calaram . Lá fora, a noite caía. Ada pegou um a toalha e envolveu a cabeça de Joachim para im pedir que o sangue suj asse o piso. Maud chorava baixinho, e lágrim as rolavam por seu rosto contorcido de angústia. Carla queria reconfortar a m ãe, m as prim eiro tinha que resolver aquele problem a.
– Poderíam os colocá-lo dentro de um a caixa – falou.
– A única caixa desse tam anho é um caixão – com entou Ada.
– Que tal um m óvel? Um aparador?
– Pesado dem ais. – Ada pareceu refletir. – Mas o guarda-roupa do m eu quarto não pesa tanto.
Carla assentiu. Partia-se do princípio de que um a em pregada não tinha m uitas roupas nem precisava de m óveis de m ogno, pensou, constrangida. O quarto de Ada tinha apenas um cabideiro estreito feito de pinho barato.
– Vam os pegar o guarda-roupa – falou.
Antigam ente, Ada m orava no subsolo, m as esse côm odo agora tinha virado um abrigo antiaéreo, e ela dorm ia no andar de cim a. Carla e ela subiram . Ada abriu o arm ário e tirou todas as suas roupas de dentro. Não eram m uitas: dois conj untos de uniform e, alguns vestidos, um sobretudo de inverno, todos velhos. Dispôs as roupas com esm ero sobre a cam a de solteiro.
Carla inclinou o guarda-roupa para avaliar seu peso, e então Ada segurou a outra ponta. O m óvel não era pesado, m as era grandalhão, e elas levaram algum tem po para conseguir fazê-lo passar pela porta e descer a escada.
Por fim , deitaram o arm ário no hall com a porta virada para cim a. Carla o abriu. O m óvel agora parecia um caixão com tam pa de dobradiça.
Carla voltou à cozinha e abaixou-se j unto ao cadáver. Tirou a câm era e os film es do bolso de Joachim e tornou a guardá-los na gaveta da cozinha.
Então segurou o corpo pelos braços. Ada pegou as pernas e, j untas, o ergueram . Carregaram -no para fora da cozinha até o hall e o puseram dentro do guarda-roupa. Em bora o sangram ento j á tivesse parado, Ada rearrum ou a toalha em volta da cabeça do tenente.
Será que deveriam despir seu uniform e, perguntou-se Carla? Isso tornaria o corpo m ais difícil de identificar – m as geraria dois problem as de elim inação de indícios em vez de um . Resolveu que era m elhor não.
Pegou a bolsa de lona e a j ogou dentro do arm ário, com o corpo.
Fechou a porta do arm ário e girou a chave para garantir que ele não se abrisse por acidente. Guardou a chave no bolso do vestido.
Foi até a sala de estar e olhou pela j anela.
– Está escurecendo – falou. – Isso é bom .
– O que as pessoas vão pensar? – indagou Maud.
– Que estam os transportando um m óvel... Para vender, quem sabe, e conseguir dinheiro para com prar com ida.
– Duas m ulheres transportando um guarda-roupa?
– Mulheres fazem esse tipo de coisa o tem po todo agora que tantos hom ens m orreram ou estão no Exército. Afinal de contas, não podem os cham ar um cam inhão de m udanças... Eles não conseguiriam com prar gasolina.
– Por que vocês estariam fazendo isso ao anoitecer?
Carla deixou a frustração aflorar:
– Não sei, m ãe. Se alguém perguntar, vou ter que inventar um a desculpa. Mas o cadáver não pode ficar aqui.
– Quando encontrarem o corpo, vão saber que ele foi assassinado. Vão exam inar os ferim entos.
Carla tam bém estava preocupada com isso.
– Não há nada que possam os fazer.
– Eles podem tentar investigar os lugares aos quais ele foi hoj e.
– Ele disse que não contou a ninguém sobre as aulas de piano. Queria surpreender os am igos com sua habilidade. Com sorte, ninguém saberá que ele esteve aqui. – E sem sorte, pensou Carla, estam os todas m ortas.
– O que será que vão im aginar que m otivou o assassinato?
– Eles vão encontrar vestígios de sêm en na roupa de baixo dele?
– Sim – disse Maud, olhando para outro lado, constrangida.
– Nesse caso, partirão do pressuposto de que foi um encontro sexual, talvez com outro hom em , que term inou em briga.
– Tom ara que você tenha razão.
Carla não tinha certeza nenhum a, m as não conseguia pensar em nada que pudessem fazer a respeito.
– Vam os j ogá-lo no canal – disse ela.
Mais cedo ou m ais tarde, o corpo flutuaria e seria encontrado, e haveria um a investigação de assassinato. Tudo o que podiam fazer era torcer para que esta não conduzisse até elas.
Carla abriu a porta da frente.
Ficou em pé diante do arm ário, à esquerda, e Ada se posicionou atrás, à direita. As duas se abaixaram .
A criada, sem dúvida m ais experiente em carregar peso do que as patroas, deu as instruções:
– Incline um pouco o guarda-roupa e ponha as m ãos por baixo.
Carla obedeceu.
– Agora levante um pouquinho o seu lado.
Carla assim o fez.
Ada pôs as m ãos sob o seu lado e disse:
– Dobre os j oelhos. Segure o peso. Agora levante.
Elas ergueram o guarda-roupa até a altura dos quadris. Ada então se abaixou e pôs o om bro debaixo do m óvel. Carla a im itou.
As duas ficaram de pé.
Ao descerem os degraus da porta da frente, o peso tom bou para o lado de Carla, m as ela aguentou firm e. Quando chegaram à rua, viraram na direção do canal, que ficava a alguns quarteirões dali.
Agora escurecera por com pleto e não havia lua, apenas um as poucas estrelas que em itiam um a luz débil. Com o blecaute, havia um a boa chance de que ninguém as visse j ogar o guarda-roupa no canal. A desvantagem era que Carla m al conseguia ver um palm o à sua frente. Ficou m orta de m edo de tropeçar, cair e de o guarda-roupa se espatifar, revelando o hom em m orto lá dentro.
Um a am bulância passou, com os faróis tapados por protetores. Provavelm ente se dirigia ao local de algum acidente. Havia m uitos, por causa do blecaute. Isso significava que haveria carros de polícia por perto.
Carla se lem brou de um caso de assassinato que fora sensação no início do blecaute. Um hom em havia m atado a m ulher, enfiado o corpo dentro de um caixote e atravessado a cidade com o caixote no selim da bicicleta, no escuro, antes de j ogá-la no rio Havel. Será que a polícia se lem braria do caso e desconfiaria de qualquer um que estivesse transportando um obj eto volum oso?
No m om ento em que pensava isso, um carro de polícia passou. Um policial olhou pela j anela para as duas m ulheres carregando o guarda-roupa, m as o carro não parou.
O peso pareceu aum entar. A noite estava quente, e em pouco tem po Carla ficou coberta de suor. A m adeira do guarda-roupa m achucava seu om bro, e ela desej ou ter pensado em pôr um lenço dobrado dentro da blusa para servir de proteção.
Ao dobrar um a esquina, elas viram o acidente.
Um cam inhão articulado de quatro eixos carregado de m adeira havia batido de frente com um Mercedes sedã que ficara seriam ente am assado. Os faróis do carro de polícia e da am bulância ilum inavam o acidente. Na pequena poça de luz fraca, um grupo de hom ens estava reunido em volta do carro. A batida devia ter acontecido poucos m inutos antes, pois ainda havia pessoas dentro do carro. Um dos funcionários da am bulância, com o corpo debruçado pela porta traseira, devia estar exam inando os ferim entos dos passageiros para ver se estes podiam ser retirados do veículo.
Por um instante, Carla foi dom inada pelo pânico. A culpa a petrificou, e ela parou onde estava. Mas ninguém as tinha visto carregando o arm ário, e em poucos instantes ela entendeu que bastava sair de fininho dali, recuar e pegar outro cam inho até o canal.
Com eçou a se virar. Nesse exato m om ento, porém , um policial m irou a lanterna na sua direção.
Seu im pulso foi largar o guarda-roupa e sair correndo, m as ela se conteve.
– O que vocês estão fazendo? – perguntou o policial.
– Transportando um guarda-roupa, senhor – respondeu ela. Recuperando a presença de espírito, fingiu um a curiosidade m acabra para disfarçar o nervosism o e a culpa: – Que acidente foi esse? – indagou. – Alguém m orreu? – com pletou, para garantir.
Sabia que os profissionais não gostavam desse tipo de curiosidade m órbida – ela m esm a era um a profissional. Conform e previa, o policial reagiu com descaso.
– Não é da sua conta – respondeu ele. – Só não atrapalhem . – Dando-lhes as costas, ele virou a lanterna para o carro acidentado.
A calçada do lado da rua m ais perto delas estava livre. Carla tom ou um a decisão rápida e seguiu direto. Ela e Ada foram carregando o guarda-roupa com o tenente m orto bem na direção do acidente.
Carla m anteve os olhos pregados no pequeno grupo de funcionários de em ergência que trabalhavam dentro do restrito círculo de luz. Estavam todos m uito concentrados, e ninguém ergueu os olhos quando elas passaram .
Chegar ao final do cam inhão de quatro eixos pareceu levar um a eternidade. Então, quando finalm ente chegaram à parte traseira, Carla teve um a inspiração.
Parou.
– O que foi? – sibilou Ada.
– Por aqui. – Carla desceu para a rua, j unto à traseira do cam inhão. – Ponha o guarda-roupa no chão – sussurrou. – Não faça barulho.
Delicadam ente, as duas pousaram o guarda-roupa na rua.
– Vam os deixar aqui? – sussurrou Ada.
Carla tirou a chave do bolso e destrancou a porta do arm ário. Ergueu os olhos: até onde podia ver, os hom ens continuavam reunidos em volta do carro, a uns sete m etros de onde elas estavam , na outra ponta do cam inhão.
Ela abriu a porta do guarda-roupa.
Joachim Koch apareceu: olhos vazios a fitá-las do chão, cabeça envolta num a toalha ensanguentada.
– Vam os desová-lo – falou. – Perto das rodas.
Elas inclinaram o guarda-roupa e o corpo rolou para fora, indo parar perto dos pneus.
Carla pegou o pano suj o de sangue e o j ogou dentro do arm ário. Deixou a bolsa de lona caída j unto ao cadáver: ficou feliz em se livrar dela. Fechou e trancou a porta do guarda-roupa; então as duas tornaram a suspender o m óvel e saíram andando.
Era fácil carregá-lo agora.
Quando estavam a uns cinquenta m etros, j á na parte escura, Carla ouviu um a voz distante dizer:
– Meu Deus, m ais um a vítim a... parece que um pedestre foi atropelado!
As duas dobraram um a esquina, e Carla foi engolfada por um a onda de alívio. Ela havia se livrado do corpo. Se conseguisse chegar em casa sem cham ar m ais atenção – e sem ninguém olhar dentro do guarda-roupa e ver a toalha suj a de sangue –, estaria segura. Não haveria investigação nenhum a de assassinato. Joachim havia se transform ado num pedestre m orto num acidente causado pelo blecaute. Se de fato houvesse sido arrastado pela rua calçada com paralelepípedos, talvez tivesse tido ferim entos parecidos com aqueles causados pela pesada panela de sopa de Ada. Um bom m édico legista poderia até ver a diferença – m as ninguém j ulgaria necessário fazer um a necrópsia.
Carla pensou em j ogar fora o guarda-roupa, m as achou m elhor não. Mesm o sem o pano, havia m anchas de sangue em seu interior, e isso poderia gerar um inquérito policial. Melhor levar o m óvel de volta e lim pá-lo bem .
As duas chegaram em casa sem cruzar com m ais ninguém .
Puseram o guarda-roupa no chão do hall. Ada pegou a toalha, levou-a para a pia da cozinha e abriu a torneira de água fria. Carla sentiu um m isto de exultação e tristeza. Tinha roubado o plano de batalha dos nazistas, m as para isso precisara m atar um rapaz que era m ais tolo do que m au. Passaria m uitos dias pensando nisso, anos talvez, antes de saber o que sentia a respeito. Por ora, estava cansada dem ais para pensar.
Contou à m ãe o que tinham feito. O lado esquerdo do rosto de Maud estava tão inchado que o olho quase não abria. Ela pressionava o flanco esquerdo com o quem tenta aliviar um a dor. Tinha um aspecto lastim ável.
– Você foi m uito coraj osa, m ãe – disse Carla. – Eu a adm iro m uito pelo que fez hoj e.
– Não m e sinto digna de adm iração – retrucou Maud, cansada. – Estou m orta de vergonha. Tenho desprezo por m im m esm a.
– Porque não o am ava? – indagou Carla.
– Não – respondeu Maud. – Pelo contrário: porque am ava.