Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 39 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo II

Não há tormenta que abale minha calma interior Enquanto a esta rocha eu me agarrar

Já que o amor é senhor da terra e do céu

Como posso me impedir de cantar?

 

II

Três dias depois, Daisy estava term inando de escrever para seu m eio-irm ão, Greg. Quando a guerra havia estourado, ele lhe enviara um a carta carinhosa e preocupada e desde então os dois se correspondiam m ais ou m enos todo m ês. Ele contara a Daisy que tinha visto sua antiga paixão, Jacky Jakes, em Washington, na Rua E, e lhe perguntara o que faria um a garota sair correndo daquele j eito. Daisy não fazia ideia. Disse isso a Greg, desej ou-lhe boa sorte e então assinou a carta.

Olhou para o relógio. Faltava um a hora para o j antar dos oficiais do curso, de m odo que as aulas j á deviam ter acabado e ela teria um a boa chance de encontrar Lloy d no quarto.

Subiu até a antiga ala dos criados, no sótão. Os j ovens oficiais liam ou escreviam , sentados ou deitados em suas cam as. Ela encontrou Lloy d num quarto exíguo com um antigo espelho de pé, sentado j unto à j anela, estudando um livro ilustrado.

– Está lendo algo interessante? – perguntou ela.

– Oi, que surpresa – disse ele, levantando-se com um pulo.

O rosto de Lloy d estava verm elho de vergonha. Provavelm ente ainda tinha um a quedinha por ela. Havia sido m uito cruel da parte de Daisy tê-lo beij ado m esm o sem a m enor intenção de dar continuidade ao relacionam ento. Mas aquilo j á fazia quatro anos, e os dois eram crianças na época. Ele j á deveria ter superado.

Ela olhou para o livro que ele tinha nas m ãos. Estava em alem ão e m ostrava desenhos coloridos de distintivos.

– Tem os que conhecer as insígnias alem ãs – explicou ele. – Muitas das inform ações de inteligência são obtidas interrogando prisioneiros de guerra logo depois da captura. Alguns não dizem nada, é claro, então o interrogador precisa saber, só de olhar para o uniform e do prisioneiro, qual é a sua patente, a que corporação ele pertence, se é da infantaria, da cavalaria, da artilharia, ou se faz parte de algum a unidade especial, com o, por exem plo, a de veterinários, e assim por diante.

– É isso que você está aprendendo aqui? – perguntou ela, cética. – O significado dos distintivos alem ães?

Lloy d riu.

– Entre outras coisas. Essa é um a das que posso lhe contar sem revelar segredos m ilitares.

– Ah, entendo.

– E você? O que está fazendo aqui no País de Gales? Fico surpreso que não estej a contribuindo para o esforço de guerra.

– Lá vem você outra vez – disse ela. – Com suas reprim endas m orais. Alguém lhe falou que esse era um bom j eito de conquistar as m ulheres?

– Peço que m e perdoe – disse ele, rígido. – Não quis ofendê-la.

– De toda form a, não tem havido esforço de guerra nenhum . Só balões flutuando no céu para am eaçar aviões alem ães que nunca chegam .

– Pelo m enos em Londres você teria um a vida social.

– Sabe, antigam ente isso era a coisa m ais im portante do m undo, m as agora não é m ais – com entou ela. – Devo estar ficando velha.

Havia outro m otivo para ela ter saído de Londres, m as não iria contar a ele.

– Eu im aginava você num uniform e de enferm eira – disse Lloy d.

– Pouco provável. Detesto gente doente. Mas, antes de m e brindar com m ais um a dessas suas expressões de reprovação, dê um a olhada nisto aqui. – Ela lhe entregou o porta-retratos que tinha na m ão.

Ele estudou a fotografia com o cenho franzido.

– Onde você arrum ou isto?

– Estava olhando um a caixa de fotos antigas no quartinho do porão.

Era um a fotografia de grupo tirada no gram ado leste de Tŷ Gwy n num a m anhã de verão. No centro estava o j ovem conde Fitzherbert com um grande cão branco a seus pés. A m oça ao seu lado devia ser sua irm ã Maud, que Daisy nunca chegara a conhecer. Enfileirados de cada lado deles estavam quarenta ou cinquenta hom ens e m ulheres da criadagem usando uniform es variados.

– Dê um a olhada na data – falou Daisy .

– Mil novecentos e doze – leu Lloy d em voz alta.

Ela o observou, estudando sua reação à foto que segurava.

– Sua m ãe está na foto?

– Meu Deus! Talvez estej a m esm o. – Lloy d olhou m ais de perto. – Sim , acho que está – falou, depois de um m inuto.

– Quem é ela?

Lloy d apontou.

– Acho que é esta aqui.

Daisy viu um a m oça m agrinha e bonita, de uns 19 anos, com cabelos escuros e cacheados sob um a touca branca de criada e um sorriso que tinha m ais que um traço leve de travessura.

– Puxa, ela é um a graça! – exclam ou.

– Era, pelo m enos – disse Lloy d. – Hoj e em dia as pessoas a definem m ais com o intim idadora.

– Você conhece Lady Maud? Acha que é esta aqui, ao lado de Fitz?

– Acho que a conheço desde que m e entendo por gente, em bora não a vej a com frequência. Ela e m inha m ãe lutaram j untas pelo direito de voto fem inino. Eu não a vej o desde que fui em bora de Berlim , em 1933, m as com certeza é ela aí na foto.

– Não é m uito bonita.

– Mas tem porte e se veste extrem am ente bem .

– Enfim , achei que você talvez fosse gostar de ficar com a foto.

– Para m im ?

– Claro. Ninguém m ais a quer... por isso estava num a caixa no porão.

– Obrigado!

– De nada. – Daisy foi até a porta. – Pode voltar aos seus estudos.

Enquanto descia a escada, torceu para não ter flertado com ele. Provavelm ente não deveria nem ter ido procurá-lo. Havia sucum bido a um im pulso de generosidade. Torceu para que ele não interpretasse aquilo de form a equivocada.

Sentiu um a pontada de dor na barriga e parou no patam ar interm ediário da escada. Passara o dia inteiro com um a leve dor nas costas – que atribuíra ao colchão vagabundo no qual estava dorm indo –, m as aquilo era diferente. Pensou no que havia com ido naquele dia, m as não conseguiu identificar nada que pudesse ter lhe caído m al: não com era frango m alpassado, nem frutas pouco m aduras. Não com era ostras... infelizm ente! A dor foi em bora logo, tão depressa quanto havia surgido, e ela disse a si m esm a para esquecer aquilo.

Voltou para seus aposentos, no porão. Estava m orando no que antes era o apartam ento da governanta: um quarto m inúsculo, um a saleta, um a pequena cozinha e um banheiro razoável, com um a banheira. Um lacaio j á idoso cham ado Morrison fazia as vezes de zelador da casa, e um a j ovem de Aberowen era a criada de Daisy. Em bora fosse bem grandona, a m oça se cham ava Pequena Maisie Owen.

– Minha m ãe tam bém se cham a Maisie, então sem pre fui a Pequena Maisie, em bora hoj e em dia sej a m ais alta do que ela – explicara a m oça.

O telefone tocou assim que Daisy entrou. Ela atendeu e ouviu a voz do m arido.

– Com o você está? – perguntou ele.

– Bem . A que horas você chega?

Ele tinha ido de avião cum prir um a m issão em St. Athan, um a grande base aérea da RAF perto de Cardiff, e prom etera ir visitá-la e passar a noite com ela.

– Sinto m uito, não vou conseguir passar aí.

– Ah, que pena!

– Haverá um j antar de gala aqui na base e tenho que estar presente.

Ele não parecia particularm ente desanim ado por não vê-la e ela se sentiu rej eitada.

– Que bom para você – com entou.

– Vai ser chato, m as não dá para m e livrar.

– Não tão chato quanto m orar aqui sozinha.

– Deve ser m esm o horrível. Mas, na sua condição, é m elhor você ficar aí.

Milhares de pessoas tinham deixado Londres após a guerra ter sido declarada, m as a m aioria voltara depois que os esperados bom bardeios e ataques com gás não acontecerem . No entanto, Bea, May e até m esm o Eva tinham concordado que, por conta da gravidez, era m elhor Daisy ficar m orando em Tŷ Gwy n. Muitas m ulheres davam à luz com segurança em Londres todos os dias, argum entara Daisy , m as naturalm ente o caso do herdeiro do título de conde era diferente.

Na verdade, ela não estava ligando tanto para aquilo quanto pensara que ligaria. Talvez a gravidez a houvesse deixado m ais passiva do que de costum e. Desde a declaração de guerra, porém , a vida social de Londres não tinha m ais a m esm a energia, com o se as pessoas não se sentissem no direito de se entreter. Pareciam padres num bar: sabiam que em princípio aquilo deveria ser divertido, m as não conseguiam se soltar.

– Gostaria de ter m inha m oto aqui – com entou ela. – Assim poderia ao m enos explorar o País de Gales. – A gasolina estava racionada, m as não m uito.

– Daisy, por favor! – disse ele, em tom de censura. – Você não pode andar de m oto... o m édico proibiu term inantem ente.

– Enfim , descobri a literatura – continuou ela. – A biblioteca daqui é incrível. Algum as das edições raras e valiosas foram guardadas, m as quase todos os livros continuam na estante. Estou recebendo a educação que m e esforcei tanto para evitar na escola.

– Maravilha – disse ele. – Bem , vá se deitar com um bom livro de m istério e assassinato, e aproveite a noite.

– Senti um a pontada na barriga m ais cedo.

– Deve ser indigestão.

– Espero que você tenha razão.

– Mande lem branças para Lowthie, aquele pateta.

– Não exagere no Porto no j antar.

Na m esm a hora em que desligou, Daisy sentiu outra pontada na barriga. Dessa vez, durou m ais tem po. Maisie entrou, viu o rosto dela e perguntou:

– A senhora está bem , m ilady ?

– Foi só um a fisgada.

– Vim perguntar se quer j antar agora.

– Não estou com fom e. Acho que não vou j antar hoj e.

– Preparei um a torta de carne deliciosa – disse Maisie, em tom de reprim enda.

– Pode cobrir e deixar na despensa. Am anhã eu com o.

– Quer que eu prepare um a boa xícara de chá?

– Quero, por favor – aceitou Daisy, só para se livrar da criada. Mesm o depois de quatro anos no país, ainda não tinha aprendido a gostar do chá forte com leite e açúcar dos britânicos.

A dor passou, então ela se sentou e abriu O moinho à beira do rio. Obrigou-se a tom ar o chá de Maisie e se sentiu um pouco m elhor. Ao term inar a bebida, depois de Maisie lavar a xícara e o pires, dispensou a criada. A m oça precisava andar quase dois quilôm etros no escuro a fim de voltar para casa, m as tinha um a lanterna e disse que não se im portava.

Um a hora m ais tarde, a dor voltou, e dessa vez não passou. Daisy foi ao banheiro na vaga esperança de conseguir aliviar a pressão na barriga. Ficou surpresa e preocupada ao ver m anchas escuras de sangue em sua roupa íntim a.

Trocou de calcinha e, agora seriam ente preocupada, foi até o telefone. Encontrou o núm ero da base aérea da RAF em St. Athan e ligou para lá.

– Preciso falar com o capitão visconde Aberowen – disse ela.

– Não podem os passar ligações pessoais para os oficiais – respondeu um galês pedante.

– É um a em ergência. Tenho que falar com m eu m arido.

– Não há telefone nos quartos. Isto aqui não é o Hotel Dorchester.

Talvez fosse só im aginação de Daisy, m as a voz dele soava bastante satisfeita por não poder aj udá-la.

– Meu m arido deve estar no j antar de gala. Por favor, m ande um ordenança cham á-lo ao telefone.

– Não tenho nenhum ordenança e, de toda form a, não está havendo um j antar de gala.

– Com o assim , não está havendo um j antar? – Por um instante, Daisy ficou sem entender.

– Só o j antar norm al no refeitório – disse o hom em . – E j á term inou faz um a hora.

Daisy bateu o fone com força. Não havia j antar de gala? Boy lhe dissera explicitam ente que precisava com parecer a um j antar de gala na base. Ele devia ter m entido. Daisy teve vontade de chorar. Ele decidira não ir vê-la para beber com os colegas ou talvez visitar algum a m ulher. O m otivo não fazia diferença. Ela não era prioridade para ele.

Respirou fundo. Precisava de aj uda. Não sabia o telefone do m édico de Aberowen, se é que havia um . O que iria fazer?

Da últim a vez que Boy fora em bora, ele lhe dissera:

– Aqui tem pelo m enos cem oficiais do Exército para cuidar de você.

Mas ela não podia dizer ao m arquês de Lowther que estava sangrando pela vagina.

A dor aum entava, e ela sentiu algo m orno e pegaj oso entre as pernas. Foi ao banheiro outra vez e se lim pou. Viu que o sangue estava cheio de coágulos. Não tinha toalhas higiênicas – grávidas não precisavam disso, pensara antes de viaj ar. Rasgou um pedaço de um a toalha de m ão e a enfiou dentro da calcinha.

Foi então que pensou em Lloy d William s.

Ele era um hom em gentil. Fora criado por um a m ulher forte, um a fem inista. Tinha adoração por Daisy . Iria aj udá-la.

Ela subiu até o hall de entrada. Onde será que ele estava? Os alunos do curso a essa altura j á deviam ter acabado de j antar. Talvez ele estivesse lá em cim a. A barriga de Daisy doía tanto que ela achou que não fosse conseguir chegar até o sótão.

Talvez ele estivesse na biblioteca. Os alunos usavam aquele côm odo para estudar sossegados. Ela entrou lá. Um sargento estava debruçado sobre um atlas.

– O senhor teria a bondade de cham ar o tenente Lloy d William s para m im ? – pediu.

– É claro, m ilady – respondeu o sargento, fechando o atlas. – Qual é o recado?

– Pergunte se ele poderia descer ao porão um instante.

– A senhora está bem ? Parece um pouco pálida.

– Vou ficar bem . Mas cham e William s o m ais rápido que puder.

– Agora m esm o.

Daisy voltou para seus aposentos. O esforço de parecer norm al a deixara exausta, e ela se deitou na cam a. Não dem orou m uito para sentir o sangue encharcar seu vestido, m as a dor estava forte dem ais para que ela se im portasse. Olhou para o relógio. Por que Lloy d ainda não havia aparecido? Talvez o sargento não tivesse conseguido encontrá-lo. Aquela casa era tão grande... Talvez ela fosse sim plesm ente m orrer ali.

Alguém bateu à porta e então, para seu im enso alívio, ela ouviu a voz dele:

– Sou eu, Lloy d William s.

– Pode entrar – disse ela, alto.

Ele iria vê-la naquele estado lam entável. Quem sabe isso não o fizesse perder o desej o por ela de vez?

Ela o ouviu entrar no côm odo ao lado.

– Dem orei para encontrar seus aposentos – disse ele. – Onde você está?

– Aqui.

Ele entrou no quarto.

– Meu Deus do céu! – exclam ou. – O que aconteceu?

– Cham e aj uda – pediu ela. – Tem algum m édico na cidade?

– Claro. O Dr. Mortim er. Ele atende aqui há séculos. Mas talvez não haj a tem po. Deixe eu... –

Ele hesitou. – Você pode estar tendo um a hem orragia, m as só vou ter certeza se olhar.

Ela fechou os olhos.

– Vá em frente. – Estava apavorada dem ais para sentir vergonha.

Ela o sentiu levantar seu vestido.

– Ah, não – com entou Lloy d. – Coitada. – Então rasgou sua calcinha. – Desculpe – falou. – Tem água em algum ...?

– No banheiro – disse ela, apontando.

Ele entrou no banheiro e abriu um a torneira. Instantes depois, ela sentiu que ele a lim pava com um pano m orno e úm ido.

– É só um filete – disse ele. – Já vi hom ens sangrarem até a m orte, e você não corre esse perigo. – Ela abriu os olhos a tem po de vê-lo baixar sua saia. – Onde fica o telefone?

– Na saleta.

Lloy d foi até lá e ela o ouviu dizer:

– Passe-m e o Dr. Mortim er o m ais rápido que puder. – Houve um a pausa. – Aqui é Lloy d William s, estou em Tŷ Gwy n. Posso falar com o doutor? Ah, boa noite, Sra. Mortim er... quando acha que ele vá voltar? É um a m ulher com dores abdom inais e sangram ento vaginal. Sim , eu sei que a m aioria das m ulheres tem isso todo m ês, m as esta situação está claram ente fora do norm al... Vinte e três anos... sim , casada... sem filhos... espere, vou perguntar. – Ele ergueu a voz. – Você pode estar grávida?

– Estou – respondeu Daisy . – De três m eses.

Lloy d repetiu a resposta e então houve um longo silêncio. Depois de algum tem po, ele desligou e voltou ao quarto. Sentou-se na beira da cam a.

– O m édico virá assim que puder. Está operando um m ineiro que foi esm agado por um vagão desgovernado. Mas a m ulher dele tem quase certeza de que você sofreu um aborto espontâneo. – Ele segurou sua m ão. – Sinto m uito, Daisy .

– Obrigada – sussurrou ela.

A dor parecia m ais fraca, m as ela sentiu um a tristeza indizível. O herdeiro do título não existia m ais. Boy ficaria tão chateado...

– A Sra. Mortim er disse que é m uito com um e que a m aioria das m ulheres sofre um ou dois abortos espontâneos entre gestações – disse Lloy d. – Não há perigo, contanto que a hem orragia não estej a m uito forte.

– E se piorar?

– Se piorar, terei que levá-la ao hospital de Merthy r. Mas percorrer m ais de 15 quilôm etros num cam inhão do Exército seria m uito ruim para você, por isso devem os evitar isso, a m enos que a sua vida estej a em risco.

Ela não estava m ais com m edo.

– Que bom que você está aqui.

– Posso dar um a sugestão?

– Claro.

– Você acha que consegue dar alguns passos?

– Não sei.

– Deixe-m e encher a banheira para você tom ar um banho. Se conseguir, vai se sentir m uito m elhor quando estiver lim pa.

– Está bem .

– Quem sabe você não consegue im provisar um curativo?

– Está bem .

Ele voltou para o banheiro, e ela ouviu água correndo. Sentou-se m ais ereta na cam a. Ficou tonta e descansou por alguns segundos até sua cabeça desanuviar. Colocou os pés no chão. Estava sentada sobre um a poça de sangue coagulado e sentiu noj o de si m esm a.

As torneiras se fecharam . Lloy d tornou a entrar no quarto e a segurou pelo braço.

– Se ficar tonta, é só m e dizer – falou. – Não vou deixá-la cair.

Ele era surpreendentem ente forte e a am parou até o banheiro. Em algum m om ento, sua calcinha rasgada caiu no chão. Ela ficou em pé ao lado da banheira e deixou que ele abrisse os botões nas costas de seu vestido.

– Consegue tirar o resto sozinha? – perguntou ele.

Ela assentiu e Lloy d saiu do banheiro.

Apoiada no cesto de roupa suj a, ela se despiu devagar, deixando as roupas suj as de sangue am ontoadas no chão. Com m ovim entos cuidadosos, entrou na banheira. A água estava na tem peratura ideal. Sentiu um alívio ao se deitar de costas e relaxar. Foi tom ada de gratidão por Lloy d. Sua bondade era tanta que lhe dava vontade de chorar.

Depois de alguns m inutos, um a fresta da porta se abriu e a m ão dele apareceu segurando algum as roupas.

– Cam isola, essas coisas – explicou ele. Pousou as roupas em cim a do cesto de roupa suj a e tornou a fechar a porta.

Quando a água com eçou a esfriar, ela se levantou. Ficou tonta outra vez, m as só por alguns segundos. Secou-se com um a toalha, depois vestiu a cam isola e a calcinha que ele trouxera. Pôs um a toalha de m ão dentro da calcinha para absorver o sangue que ainda escorria.

Quando voltou para o quarto, encontrou a cam a feita, com lençóis e cobertores lim pos. Subiu na cam a e recostou-se na cabeceira, puxando as cobertas até o pescoço.

Ele veio da saleta.

– Deve estar se sentindo m elhor agora – falou. – Você parece constrangida.

– Constrangida não é bem a palavra – disse ela. – Totalm ente hum ilhada de vergonha, talvez, m as m esm o isso parece um eufem ism o. – A verdade não era tão sim ples assim . Ela fez um a careta ao pensar em com o ele a tinha visto, m as, por outro lado, ele não parecera sentir repulsa.

Lloy d foi até o banheiro e pegou as roupas suj as. Não parecia ter frescuras com relação ao sangue m enstrual.

– Onde você pôs os lençóis? – perguntou ela.

– Encontrei um tanque na estufa. Deixei os lençóis de m olho em água fria. Vou fazer o m esm o com as suas roupas, tudo bem ?

Ela assentiu.

Ele tornou a desaparecer. Onde teria aprendido a ser tão com petente e autossuficiente? Na Guerra Civil Espanhola, supôs ela.

Ouviu-o se m ovim entar na cozinha. Ele reapareceu com duas xícaras de chá.

– Você deve odiar isto, m as o chá vai fazê-la se sentir m elhor. – Ela aceitou a bebida. Ele lhe m ostrou dois com prim idos brancos na palm a da m ão. – Quer um a aspirina? Talvez alivie as cólicas.