Inverno do Mundo
Capítulo III
Torcia para que Gus tam bém pensasse assim .
Shapiro abriu a porta da sala e acenou para ele. Woody se levantou e entrou.
Shapiro era m ais j ovem do que Woody im aginava: 30 e poucos anos. Era o chefe do escritório da Agência Nacional de Im prensa na capital. Sentado atrás de sua m esa, perguntou:
– O que posso fazer pelo filho do senador Dewar?
– Gostaria de lhe m ostrar algum as fotos, se m e perm itir.
– Pois não.
Woody espalhou as fotografias sobre a m esa.
– Isso é Pearl Harbor? – indagou Shapiro.
– É. No dia 7 de dezem bro de 1941.
– Meu Deus!
Woody estava vendo as fotografias de cabeça para baixo, m as ainda assim elas deixaram seus olhos m arej ados. Viu Joanne, tão linda; e depois Chuck, sorrindo de felicidade por estar com a fam ília e com Eddie. Em seguida viu os aviões se aproxim ando, as bom bas e torpedos sendo lançados, as explosões de fum aça preta nos navios, e os m arinheiros se j ogando pelas am uradas, caindo no m ar e nadando para se salvar.
– Este aqui é seu pai. E esta é sua m ãe – disse Shapiro reconhecendo os dois.
– E esta aqui era m inha noiva, que m orreu m inutos depois. Meu irm ão, que m orreu em Bougainville. E o m elhor am igo do m eu irm ão.
– Que fotos incríveis! Quanto quer por elas?
– Não quero dinheiro – respondeu Woody .
Shapiro o encarou, surpreso.
– Quero um em prego.
III
Duas sem anas depois do Dia da Vitória na Europa, Winston Churchill convocou eleições gerais.
A fam ília Leckwith foi pega de surpresa. Assim com o a m aior parte da população britânica, Ethel e Bernie achavam que Churchill fosse esperar a rendição j aponesa. O líder trabalhista Clem ent Attlee havia sugerido eleições em outubro. Churchill pegou todos desprevenidos.
O m aj or Lloy d William s foi dispensado do Exército para se apresentar com o candidato do Partido Trabalhista à vaga no Parlam ento pelo distrito de Hoxton, no East End londrino. O futuro im aginado pelo partido lhe despertava um entusiasm o nervoso. O fascism o fora vencido e agora o povo britânico podia criar um a sociedade que aliasse liberdade e bem -estar. O Partido Trabalhista tinha um plano bem -elaborado para evitar as catástrofes dos últim os vinte anos: um seguro-desem prego universal e abrangente para aj udar as fam ílias a atravessarem os tem pos difíceis, um planej am ento econôm ico para evitar outra Depressão, e um a Organização das Nações Unidas para garantir a paz.
– Você não tem a m enor chance – com entou Bernie na cozinha da casa em Aldgate na segunda-feira, 4 de j unho. Seu pessim ism o foi ainda m ais convincente por ser tão pouco característico. – Com o Churchill ganhou a guerra, todos vão votar nos conservadores – prosseguiu ele, desanim ado. – Aconteceu a m esm a coisa com Lloy d George em 1918.
Lloy d estava prestes a responder, m as Daisy falou prim eiro:
– Não foram o livre-com ércio nem o em preendedorism o capitalista que venceram a guerra – disse ela, indignada. – Foram pessoas trabalhando j untas e dividindo obrigações, cada um a fazendo a sua parte. Socialism o é isso!
Era nesses m om entos arrebatados que Lloy d m ais a am ava, m as ele foi m ais ponderado:
– Já tem os m edidas que os velhos conservadores condenariam com o bolchevistas: controle público das ferrovias, das m inas e do transporte m arítim o, por exem plo, tudo im plem entado por Churchill. Além disso, Ernie Bevin foi responsável pelo planej am ento econôm ico durante toda a guerra.
Bernie balançou a cabeça, um gesto de m ais experiência que irritou Lloy d.
– As pessoas votam com o coração, não com a cabeça – disse Bernie. – Vão querer m ostrar sua gratidão.
– Bem , de nada adianta ficar sentado aqui discutindo com você – retrucou Lloy d. – É m elhor eu falar com os eleitores.
Ele e Daisy pegaram um ônibus e desceram algum as paradas m ais para o norte, no pub Black Lion, em Shoreditch, onde encontraram um a equipe encarregada de fazer cam panha porta a porta para o Partido Trabalhista no distrito de Hoxton. Na verdade, com o Lloy d bem sabia, esse m étodo não consistia em conversar com os eleitores. Seu principal obj etivo era identificar pessoas que j á iriam votar nos trabalhistas para que, no dia do pleito, a m áquina do partido pudesse garantir que todas elas com parecessem às urnas. Os trabalhistas decididos eram listados; aqueles que fossem votar em outros partidos eram riscados. Apenas quem ainda estivesse indeciso m erecia m ais do que alguns segundos de atenção: eram esses que tinham a chance de falar com o candidato.
Lloy d confrontou-se com algum as reações negativas.
– Maj or, é? – com entou um a m ulher. – Meu Alf é cabo. Segundo ele, os oficiais quase nos fizeram perder a guerra.
Houve tam bém acusações de nepotism o.
– O senhor não é filho da deputada por Aldgate? Por acaso isso é um a m onarquia hereditária?
Lem brou-se do conselho da m ãe: “Nunca se conquista um voto provando que o eleitor é tolo. Sej a encantador, m odesto e nunca perca a paciência. Se um eleitor se m ostrar hostil e grosseiro, agradeça-lhe por seu tem po e vá em bora. Assim ele pensará que talvez o tenha j ulgado m al.”
Os eleitores de classe operária eram trabalhistas fervorosos. Muitos elogiaram o trabalho de Attlee e Bevin durante a guerra. A m aioria dos indecisos pertencia à classe m édia. Quando as pessoas diziam que Churchill tinha vencido a guerra, Lloy d citava a suave reprim enda de Attlee:
– “O governo não foi de um hom em só, assim com o a guerra não foi de um hom em só.”
Churchill j á descrevera Attlee com o um hom em m odesto cheio de m otivos para sê-lo. A inteligência de Attlee era m enos brutal, e por isso m esm o m ais eficaz; ao m enos era essa a opinião de Lloy d.
Alguns eleitores m encionaram o atual deputado por Hoxton, um liberal, e disseram que votariam nele outra vez porque ele os aj udara a resolver algum problem a. Os m em bros do Parlam ento m uitas vezes eram solicitados por eleitores que sentiam estar sendo tratados de form a inj usta pelo governo, ou por algum patrão ou vizinho. Era um trabalho que tom ava tem po, m as tam bém angariava votos.
No fim das contas, Lloy d não soube dizer para que lado pendia a opinião pública.
Som ente um eleitor m encionou Daisy. O hom em apareceu na porta com a boca cheia de com ida.
– Boa tarde, Sr. Perkinson – cum prim entou Lloy d. – Soube que o senhor queria m e fazer um a pergunta.
– Sua noiva era fascista – disse o hom em , ainda m astigando.
Lloy d im aginou que aquele senhor tivesse lido o Daily Mail, que publicara um artigo ferino sobre ele e Daisy intitulado O socialista e a viscondessa.
Lloy d assentiu.
– Ela foi enganada pelo fascism o por um curto período, assim com o m uitas outras pessoas.
– Com o um socialista pode se casar com um a fascista?
Lloy d olhou em volta, viu Daisy e acenou para cham á-la.
– O Sr. Perkinson está m e perguntando sobre o fato de a m inha noiva ter sido fascista.
– Prazer em conhecê-lo, Sr. Perkinson. – Daisy apertou a m ão do eleitor. – Entendo bem a sua preocupação. Meu prim eiro m arido foi fascista nos anos 1930, e eu o apoiei.
Perkinson assentiu. Ele provavelm ente pensava que um a esposa devesse abraçar as opiniões do m arido.
– Com o fom os tolos... – prosseguiu Daisy. – Quando a guerra com eçou, porém , ele entrou para a RAF e lutou contra os nazistas com a m esm a coragem de todo m undo.
– É verdade?
– No ano passado, ele estava pilotando um Ty phoon na França, m etralhando um trem de soldados alem ães, quando foi abatido e m orreu. Portanto, sou viúva de guerra.
Perkinson engoliu a com ida.
– Lam ento m uito.
Mas Daisy ainda não havia term inado:
– Quanto a m im , passei a guerra toda em Londres. Dirigi um a am bulância durante a Blitz.
– Que coragem a sua.
– Bem , só espero que o senhor pense que tanto m eu falecido m arido quanto eu pagam os nossas dívidas.
– Isso eu j á não sei – retrucou Perkinson, carrancudo.
– Não vam os m ais tom ar o seu tem po – disse Lloy d. – Obrigado por com partilhar suas opiniões com igo. Boa noite.
Quando eles estavam se afastando, Daisy disse:
– Acho que não conseguim os o voto dele.
– Você nunca acha – com entou Lloy d. – Mas ele agora ouviu os dois lados da história, o que talvez o faça vociferar um pouco m enos sobre o assunto hoj e à noite, quando falar sobre nós no pub.
– Pode ser.
Lloy d sentiu que não tinha conseguido tranquilizar Daisy .
Eles term inaram cedo o boca a boca, pois nessa noite com eçavam os program as eleitorais na rádio BBC, e todos os funcionários do partido estariam ouvindo. Churchill teria o privilégio de fazer a prim eira transm issão.
No ônibus para casa, Daisy disse:
– Estou preocupada. Sou um problem a para sua cam panha.
– Não existe candidato perfeito – respondeu Lloy d. – O que im porta é com o você lida com as suas fraquezas.
– Não quero ser a sua fraqueza. Talvez devesse ficar fora do cam inho.
– Pelo contrário: quero que todos saibam sobre você desde o princípio. Se você for um problem a, desistirei da política.
– Nem pensar! Eu detestaria achar que o fiz desistir das suas am bições.
– Não vai chegar a tanto – disse ele, m as novam ente constatou que não conseguira aliviar a ansiedade da noiva.
Na Nutley Street, a fam ília Leckwith estava sentada em volta do rádio da cozinha. Daisy deu a m ão a Lloy d.
– Vim m uito aqui enquanto você estava fora – disse ela. – Nós ficávam os ouvindo swing e falando de você.
Pensar nisso fez Lloy d se sentir um hom em de m uita sorte.
Churchill com eçou a falar. Sua voz rascante e fam iliar era anim adora. Durante cinco anos som brios, aquela voz dera às pessoas força, esperança e coragem . Lloy d ficou desanim ado: até ele se sentia tentado a votar naquele hom em .
– Meus am igos – disse o prim eiro-m inistro. – Preciso lhes dizer que a política socialista é abom inável para os ideais britânicos de liberdade.
Aquelas eram as críticas de praxe. Qualquer ideia nova era condenada com o im portada do estrangeiro. Mas o que Churchill podia oferecer às pessoas? O Partido Trabalhista tinha um plano, m as qual seria a proposta dos conservadores?
– O socialism o está intrinsecam ente ligado ao totalitarism o – continuou Churchill.
– Não é possível que ele vá fingir que som os iguais aos nazistas – com entou Ethel.
– Acho que vai, sim – disse Bernie. – Dirá que derrotam os o inim igo no exterior e que agora tem os que derrotá-lo no m eio de nós. É a tática-padrão dos conservadores.
– As pessoas não vão acreditar nisso – disse Ethel.
– Shh! – resm ungou Lloy d.
– Um Estado socialista, um a vez com pleto, com todos os seus detalhes e sob todos os aspectos, não é capaz de tolerar oposição – afirm ou Churchill.
– Que absurdo! – exclam ou Ethel.
– Porém ouso ir ainda m ais longe – prosseguiu Churchill. – Declaro a vocês, do fundo do m eu coração, que nenhum sistem a socialista pode se estabelecer sem um a polícia política.
– Polícia política? – repetiu Ethel, indignada. – De onde ele está tirando essas coisas?
– De certa form a, isso é bom – afirm ou Bernie. – Com o não consegue encontrar nada para criticar em nosso m anifesto, está nos atacando pelas coisas que na verdade não estam os propondo. Que m entiroso.
– Vam os ouvir! – gritou Lloy d.
– Eles teriam que recorrer a algum a form a de Gestapo – disse Churchill.
De repente, todos se puseram de pé e com eçaram a protestar. Não se conseguiu m ais ouvir a voz do prim eiro-m inistro.