Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 62 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo XI

– E quem vai ser o líder desse com itê?

– O senhor, cam arada Stalin.

Volody a quis gritar: “Não!”

Houve outro longo silêncio.

Por fim , Stalin disse:

– Muito bem . E quem m ais fará parte dele?

Beria deu um passo à frente e com eçou a propor nom es.

Estava tudo acabado, percebeu Volody a, sentindo a cabeça girar de tanta frustração e decepção. Eles tinham perdido sua chance. Poderiam ter deposto um tirano, m as não tiveram coragem . Com o os filhos de um pai violento, tem iam não conseguir continuar sem ele.

Na verdade, constatou com um pessim ism o crescente, era pior do que isso. Talvez Stalin tivesse m esm o sofrido um colapso nervoso – com certeza parecia o caso –, m as tam bém tinha dado um a cartada política de m estre. Todos os hom ens que poderiam substituí-lo estavam naquela sala. Na hora em que seu j ulgam ento equivocado e catastrófico fora exposto aos olhos do m undo, ele havia forçado os rivais a procurá-lo e im plorar que voltasse a ser seu líder. Apagara seu erro lam entável e proporcionara a si m esm o um novo com eço.

Stalin não tinha apenas voltado.

Ele agora estava m ais forte do que nunca.

 

XI

Quem teria coragem de protestar publicam ente contra o que estava acontecendo em Akelberg? Carla e Frieda tinham visto tudo com seus próprios olhos e trazido Ilse König com o testem unha, m as agora precisavam de um advogado. Não havia m ais representantes políticos eleitos na Alem anha: todos os deputados do Reichstag eram nazistas. Tam pouco havia j ornalistas de verdade, apenas baj uladores sem talento. Os j uízes, todos nom eados pelos nazistas, eram subservientes ao governo. Carla nunca tinha percebido com o costum ava ser protegida pelos políticos, j ornalistas e j uristas. Sem eles, constatava agora, o governo podia fazer o que bem entendesse, até m esm o m atar pessoas.

A quem poderiam recorrer? Heinrich von Kessel, adm irador de Frieda, tinha um am igo que era padre católico.

– Peter era o garoto m ais inteligente da m inha turm a – contara-lhes ele. – Mas não era o m ais popular. Era um pouco sério, tenso. Acho que vai nos ouvir.

Carla achava que valia a pena tentar. O pastor protestante da igrej a que ela frequentava tinha abraçado sua causa até a Gestapo aterrorizá-lo e obrigá-lo a se calar. Talvez a m esm a coisa voltasse a acontecer. Mas ela não via alternativa.

Num dom ingo do m ês de j ulho, de m anhã bem cedo, Heinrich levou Carla, Frieda e Ilse até a igrej a de Peter, em Schöneberg. Heinrich estava elegante, de terno preto; as m oças usavam seus uniform es de enferm eira, sím bolos de confiabilidade. Entraram por um a porta lateral e foram até um côm odo pequeno e em poeirado, m obiliado com algum as cadeiras velhas e um grande arm ário. Encontraram o padre Peter sozinho, orando. Ele devia ter ouvido quando entraram , m as perm aneceu aj oelhado por alguns instantes antes de se pôr de pé e se virar para cum prim entá-los.

Peter era alto e m agro, tinha traços regulares e um corte de cabelo caprichado. Tinha sido da turm a de Heinrich, então Carla calculou que tivesse 27 anos. Sem se dar o trabalho de esconder a irritação por ter sido interrom pido, ele franziu o cenho para os quatro j ovens.

– Estou m e preparando para a m issa – falou, severo. – Fico feliz em vê-lo na igrej a, Heinrich, m as preciso ficar só. Podem os nos ver depois.

– Trata-se de um a urgência espiritual, Peter – disse Heinrich. – Sente-se, tem os algo im portante a lhe dizer.

– Não deve ser m ais im portante do que a m issa.

– É, sim , Peter. Acredite em m im . Em cinco m inutos você vai concordar.

– Está bem .

– Esta é m inha nam orada, Frieda Franck.

Carla ficou espantada. Frieda era nam orada de Heinrich agora?

– Eu tinha um irm ão m ais novo que nasceu com espinha bífida – disse Frieda. – No com eço deste ano, ele foi transferido para um hospital em Akelberg, na Bavária, para receber um tratam ento especial. Pouco depois, recebem os um a carta dizendo que ele tinha m orrido de apendicite.

Ela se virou para Carla, que continuou a história:

– Minha criada teve um filho que nasceu com problem as m entais. Ele tam bém foi transferido para Akelberg. Ela recebeu um a carta igualzinha à dos Franck, no m esm o dia.

O padre Peter abriu os braços, num gesto de quem pergunta “E daí?”.

– Já ouvi esse tipo de coisa antes. É propaganda contra o governo. A igrej a não se m ete em política.

Que bobaj ada, pensou Carla. A igrej a estava m ergulhada até o pescoço na política. Mas deixou aquilo passar.

– O filho da m inha criada não tinha apêndice – prosseguiu ela. – Tinha sido subm etido a um a cirurgia para rem ovê-lo dois anos antes.

– Por favor – disse o padre Peter. – O que isso prova?

Carla ficou desanim ada. Era óbvio que o padre estava de m á vontade com eles.

– Espere, Peter – disse Heinrich. – Você ainda não ouviu a história toda. Esta é Ilse, ela trabalhava no hospital de Akelberg.

O padre Peter olhou a enferm eira com ar de expectativa.

– Eu fui criada de acordo com o catolicism o, padre – disse Ilse.

Carla não sabia disso.

– Não sou um a boa católica – prosseguiu Ilse.

– Nenhum de nós é bom , filha, só Deus – disse o padre Peter, devoto.

– Eu sabia que o que estava fazendo era pecado – disse Ilse. – Mas fiz m esm o assim , porque eles m andaram e eu estava com m edo. – Ela com eçou a chorar.

– Fez o quê?

– Matei aquelas pessoas. Ah, padre, será que Deus vai m e perdoar?

O padre ficou encarando a j ovem enferm eira. Não podia descartar aquilo com o propaganda: estava olhando para um a alm a atorm entada. Ele em palideceu.

Os outros não disseram nada. Carla prendeu a respiração.

– Os deficientes chegam ao hospital em um ônibus cinza – disse Ilse. – Não recebem nenhum tratam ento especial. Nós lhes aplicam os um a inj eção e eles m orrem . Depois nós os crem am os. – Ela ergueu os olhos para o padre. – Será que algum dia serei perdoada pelo que fiz?

O padre abriu a boca para falar. As palavras ficaram presas em sua garganta, e ele tossiu. Por fim , perguntou baixinho:

– Quantos?

– Em geral, quatro. Quero dizer, quatro ônibus. Cada um com cerca de 25 doentes.

– Cem pessoas?

– Sim . Por sem ana.

Seu rosto estava cinza, quase branco; e a boca, escancarada.

– Cem deficientes por sem ana?

– Sim , padre.

– Que tipo de deficiência?

– Todos os tipos, m entais e físicas. Alguns idosos com dem ência senil, alguns bebês com m alform ações, hom ens e m ulheres paralíticos, retardados ou sim plesm ente incapazes.

O padre não conseguia parar de repetir aquilo:

– E os funcionários do hospital m atam todo m undo?

Ilse com eçou a soluçar.

– Perdão, perdão, eu sabia que era errado.

Carla observou o padre Peter. Ele não tinha m ais um ar arrogante. Era um a transform ação notável. Depois de anos ouvindo os católicos ricos daquele subúrbio arborizado confessarem seus pecados sem graça, ele de repente se via diante do m al em estado puro. E estava chocado.

Mas o que iria fazer?

Peter se levantou. Pegou Ilse pela m ão e a fez ficar de pé.

– Retorne ao seio da Igrej a – disse ele. – Confesse seus pecados ao seu padre. Deus irá perdoá-la. Tenho certeza disso.

– Obrigada – sussurrou ela.

Ele soltou as m ãos da m oça e olhou para Heinrich.

– Talvez não sej a tão sim ples para o restante de nós – falou.

Então lhes virou as costas e se aj oelhou para rezar outra vez.

Carla olhou para Heinrich, e o rapaz deu de om bros. Eles se levantaram e saíram da saleta, Carla com o braço em volta de Ilse, que ainda chorava.

– Vam os ficar para a m issa – disse ela. – Talvez ele volte a falar conosco depois.

Os quatro subiram a nave da igrej a. Ilse parou de chorar e se acalm ou. Frieda segurou o braço de Heinrich. Eles se sentaram entre os fiéis ali reunidos, hom ens prósperos, m ulheres roliças e crianças agitadas vestidas com suas roupas m ais elegantes. Um a gente assim j am ais m ataria os deficientes, pensou Carla. Mas seu governo m atava em seu nom e. Com o isso podia acontecer?

Não sabia o que esperar do padre Peter. Ele obviam ente acreditara na história de Ilse. Quisera dispensá-los dizendo que a m otivação deles era política, m as a sinceridade da enferm eira o convencera. Ele ficara horrorizado. No entanto, não tinha feito nenhum a prom essa, exceto ao afirm ar que Deus iria perdoá-la.

Carla correu os olhos pela igrej a. A decoração era m ais colorida do que a dos tem plos protestantes aos quais estava habituada. Havia m ais estátuas e pinturas, m ais m árm ores e dourações, estandartes, velas. Protestantes e católicos tinham travado guerras por causa daqueles detalhes sem im portância. Com o parecia estranho que, num m undo no qual crianças podiam ser assassinadas, alguém se im portasse com velas.