Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 104 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo dezessete

 

1943 (III)

 

– Quer se casar com igo? – perguntou Volody a Peshkov, e prendeu a respiração.

– Não – respondeu Zoy a Vorotsy ntsev. – Mas obrigada pelo pedido.

Zoy a era incrivelm ente direta em relação a tudo, m as aquela resposta foi rápida dem ais até m esm o para ela.

Os dois estavam na cam a, no elegante Hotel Moskva. Tinham acabado de fazer am or. Zoy a havia gozado duas vezes. Tinha preferência pela cunilíngua. Gostava de ficar reclinada num a pilha de travesseiros enquanto ele se aj oelhava entre suas pernas feito um adorador. Volody a se prestava de bom grado a esse culto, e ela retribuía com entusiasm o.

Fazia m ais de um ano que os dois estavam j untos, e tudo parecia estar correndo m aravilhosam ente bem . A recusa dela o deixou atônito.

– Você m e am a? – perguntou ele.

– Am o. Adoro você. Obrigada por m e am ar tanto a ponto de m e pedir em casam ento.

Aquilo era um pouco m elhor.

– Então por que não aceita?

– Não quero pôr nenhum a criança neste m undo em guerra – respondeu ela.

– Tudo bem , isso eu entendo.

– Peça de novo quando tiverm os vencido.

– Nesse dia talvez eu não queira m ais m e casar com você.

– Se você for tão inconstante assim , será bom que eu tenha recusado.

– Desculpe. Por um instante, esqueci que você não entende o conceito de provocação.

– Preciso fazer xixi.

Ela se levantou da cam a e atravessou o quarto nua. Volody a m al podia acreditar que tivesse o privilégio de ver aquilo. Zoy a tinha o corpo de um a m odelo ou de um a estrela de cinem a. Pele branca com o leite, cabelos louros bem claros – o pacote com pleto. Sentou-se na privada sem fechar a porta, e ele a ouviu urinar. A falta de pudor da nam orada era para ele um deleite constante.

Ele deveria estar no trabalho.

Toda vez que recebia a visita de um líder Aliado, a com unidade de inteligência m oscovita m ergulhava no caos, e a rotina de Volody a fora perturbada m ais um a vez pela Conferência de Ministros do Exterior iniciada em 18 de outubro.

Os visitantes eram Cordell Hull, secretário de Estado am ericano, e Anthony Eden, m inistro das Relações Exteriores britânico. Os dois tinham bolado um plano idiota para um pacto de quatro potências que incluía a China. Stalin achava aquilo tudo um a bobagem , e não entendia por que estavam perdendo esse tem po. Hull tinha 72 anos e tossia sangue – seu m édico o acom panhara a Moscou –, m as nem por isso se m ostrava m enos obstinado, e continuava a insistir no pacto.

Havia tanto a fazer durante a conferência que a NKVD se vira forçada a cooperar com seus odiados rivais da Inteligência do Exército Verm elho, instituição para a qual Volody a trabalhava. Era preciso cam uflar m icrofones em quartos de hotel – havia um ali, m as Volody a o desligara. Os m inistros visitantes eram m antidos sob vigilância constante, assim com o seus assessores. Sua bagagem tinha que ser aberta e exam inada clandestinam ente. Seus telefonem as eram gravados, transcritos e traduzidos em russo, lidos e resum idos. Quase todas as pessoas que esses estrangeiros encontravam , inclusive garçons e cam areiras, eram agentes da NKVD, m as todos com quem falassem por acaso, fosse no lobby do hotel ou na rua, tam bém tinham que ser verificados, talvez presos e interrogados sob tortura. Era um trabalho insano.

Volody a estava pisando em nuvens. Seus espiões de Berlim vinham fornecendo inform ações im portantíssim as. Haviam lhe conseguido o plano de batalha da principal ofensiva alem ã do verão, a Operação Cidadela, e o Exército Verm elho infligira um a trem enda derrota aos nazistas.

Zoy a tam bém estava feliz. A União Soviética havia retom ado as pesquisas nucleares, e ela fazia parte da equipe que tentava criar um a bom ba atôm ica. Estavam m uito atrás do Ocidente por causa do atraso provocado pela descrença de Stalin, m as, em com pensação, recebiam um a aj uda inestim ável dos espiões com unistas na Inglaterra e nos Estados Unidos, entre os quais Wilhelm Frunze, antigo colega de escola de Volody a.

Ela voltou para a cam a.

– Quando nos conhecem os, você não parecia gostar m uito de m im – com entou Volody a.

– Eu não gostava de hom ens – retrucou ela. – Continuo não gostando. A m aioria não passa de bêbados agressivos e burros. Levei algum tem po para entender que você era diferente.

– Obrigado... eu acho. Mas os hom ens são m esm o tão ruins assim ?

– Olhe em volta – respondeu ela. – Olhe para o seu país.

Ele esticou o braço por cim a da nam orada e ligou o rádio sobre a m esinha ao lado da cam a. Em bora houvesse desconectado o m icrofone atrás da cabeceira, todo cuidado era pouco. Quando o rádio esquentou, ouviu-se um a banda m ilitar tocar um a m archa. Convencido de que ninguém poderia escutá-los, Volody a disse:

– Você está pensando em Stalin e Beria. Mas eles não vão durar para sem pre.

– Você sabe com o m eu pai caiu em desgraça? – perguntou ela.

– Não. Meus pais nunca tocaram no assunto.

– E com razão.

– Conte.

– Segundo m inha m ãe, houve um a eleição na fábrica do m eu pai para escolher um representante que iria com parecer ao soviete de Moscou. Um candidato m enchevique se apresentou contra o bolchevique, e m eu pai foi a um a reunião ouvi-lo falar. Não apoiou o m enchevique nem votou nele, m as todos que assistiram a essa reunião foram dem itidos. Algum as sem anas depois m eu pai foi preso e levado para a Luby anka.

Ela estava se referindo à sede e prisão da NKVD na praça Luby anka.

– Minha m ãe procurou seu pai e im plorou aj uda – prosseguiu ela. – Na m esm a hora ele foi com ela a Luby anka. Conseguiram salvar m eu pai, m as viram outros operários serem fuzilados.

– Que horror! – com entou Volody a. – Mas foi Stalin quem ...

– Não. Isso foi em 1920. Stalin não passava de um com andante do Exército Verm elho que estava lutando na guerra entre soviéticos e poloneses. Nosso líder era Lenin.

– Isso aconteceu no governo de Lenin?