Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 97 de 153

Páginas do PDF

Inverno do Mundo

Capítulo V

Daisy ficou triste por ele.

– Ah, Boy , sinto m uito por isso.

– E vai sentir m ais ainda, porque não vou m e divorciar de você.

De repente, ela congelou.

– Com o assim ? Por que não?

– Para quê? Não quero m e casar de novo. Não posso ter filhos. O filho de Andy vai herdar o título.

– Mas eu quero m e casar com Lloy d!

– E por que eu deveria m e im portar com isso? Por que ele deveria ter filhos se eu não posso?

Daisy ficou arrasada. Será que a felicidade lhe seria arrancada bem na hora em que parecia estar ao seu alcance?

– Boy , você não pode estar falando sério!

– Nunca falei m ais sério em toda a m inha vida.

– Mas Lloy d quer ter filhos! – exclam ou Daisy , com a voz angustiada.

– Ele deveria ter pensado nisso antes de trepar com a m ulher de outro.

– Muito bem então – disse ela, desafiadora. – Eu vou m e divorciar de você.

– Sob que pretexto?

– Adultério, claro.

– Mas você não tem provas. – Ela estava prestes a dizer que isso não deveria constituir nenhum problem a quando ele abriu um sorriso m alicioso e acrescentou: – E tom arei cuidado para que não consiga nenhum a.

Cada vez m ais consternada, Daisy entendeu que ele de fato poderia fazer isso: bastava ser discreto em relação aos seus casos.

– Mas você m e expulsou de casa! – falou.

– Vou dizer ao j uiz que você será bem -vinda se quiser voltar.

Ela tentou segurar o choro.

– Nunca pensei que você fosse m e odiar tanto – falou, arrasada.

– Ah, não? – zom bou ele. – Bom , então agora você sabe.

 

V

Lloy d William s foi à casa de Boy Fitzherbert em May fair no m eio da m anhã, horário em que Boy estaria sóbrio. Apresentou-se ao m ordom o com o m aj or William s, um parente distante. Pensou que valeria a pena tentar um a conversa de hom em para hom em . Não era possível que Boy quisesse dedicar o resto da vida a um a vingança. Lloy d fez a visita de uniform e, esperando conseguir falar com Boy de m ilitar para m ilitar. Sem dúvida o bom senso iria prevalecer.

Foi conduzido até a sala íntim a, onde Boy estava sentado lendo o j ornal e fum ando um charuto. Ele levou alguns instantes para reconhecê-lo.

– Você! – exclam ou por fim . – Saia daqui im ediatam ente!

– Vim lhe pedir que conceda o divórcio a Daisy – disse Lloy d.

– Fora daqui! – Boy se levantou.

– Posso ver que você está cogitando m e dar um soco, então, para ser j usto, devo lhe avisar que não vai ser tão fácil quanto im agina – disse Lloy d. – Em bora eu sej a um pouco m ais baixo que você, sou m eio-m édio no boxe e j á ganhei várias lutas.

– Não vou suj ar m inhas m ãos com você.

– Essa é um decisão sensata. Mas vai reconsiderar a questão do divórcio?

– De form a algum a.

– Há um a coisa que você não sabe – disse Lloy d. – Estava im aginando se isso o faria m udar de ideia.

– Duvido m uito – disse Boy . – Mas vam os lá: agora que está aqui, vá em frente.

Ele se sentou, m as não ofereceu um a cadeira a Lloy d.

Você nem im agina a bom ba que está por vir, pensou Lloy d.

Tirou do bolso um a fotografia sépia desbotada.

– Dê um a olhada nesta foto m inha, por gentileza.

Pôs a foto sobre a m esa lateral, j unto ao cinzeiro de Boy , que pegou a foto.

– Este aqui não é você. Parece com você, m as o uniform e é vitoriano. Deve ser seu pai.

– Na verdade, é o m eu avô. Vire a foto.

Boy leu o que estava escrito atrás.

– Conde Fitzherbert? – indagou, com desdém .

– Sim . O últim o conde, seu avô... e m eu tam bém . Daisy encontrou esta foto em Tŷ Gwy n. – Lloy d tom ou fôlego. – Você disse a Daisy que ninguém sabe quem é m eu pai. Bem , posso lhe dizer quem é. O conde Fitzherbert. Você e eu som os irm ãos.

Ele esperou a reação do outro hom em .

Boy riu.

– Que coisa m ais ridícula!

– Tive a m esm a reação quando m e contaram .

– Bem , devo dizer que você m e surpreendeu. Eu esperava algo m elhor do que essa fantasia absurda.

Lloy d estava torcendo para a revelação deixar Boy chocado e fazê-lo m udar de atitude, m as até ali não estava funcionando. Mesm o assim , prosseguiu com seu raciocínio:

– Pense bem , Boy... Será m esm o tão im provável assim ? Acontece o tem po todo nas grandes m ansões. Criadas bonitas, j ovens nobres cheios de tesão, e a natureza segue seu curso. Quando o bebê nasce, o caso é abafado. Por favor, não finj a que não sabia que essas acontecem .

– Com certeza é bem frequente. – A segurança de Boy havia sido abalada, m as ele continuou arrogante: – Mas m uitas pessoas gostam de fingir que têm laços com a aristocracia.

– Ah, pelo am or de Deus – disse Lloy d com desdém . – Não quero laço nenhum com a aristocracia. Não sou nenhum m oleque com delírios de grandeza. Venho de um a im portante fam ília de políticos socialistas. Meu avô m aterno foi um dos fundadores da Federação dos Mineiros de Gales do Sul. A últim a coisa de que preciso é um parentesco secreto com um deputado nobre e conservador. É m uito constrangedor para m im .

Boy tornou a rir, m as dessa vez com m enos convicção.

– Constrangedor para você! Isso sim é esnobism o às avessas.

– Às avessas? Tenho m ais chances de m e tornar prim eiro-m inistro do que você. – Lloy d percebeu que os dois haviam com eçado um a disputa para ver quem era o m elhor, e não era isso que ele queria. – Mas nada disso im porta – disse ele. – Estou tentando convencê-lo de que você não pode passar o resto da vida se vingando de m im ... se por nenhum outro m otivo, pelo fato de serm os irm ãos.

– Eu ainda não acredito – disse Boy, pousando a foto sobre a m esinha e tornando a pegar o charuto.

– No com eço tam bém não acreditei. – Lloy d continuou tentando: era seu futuro que estava em j ogo. – Depois fiquei sabendo que m inha m ãe trabalhava em Tŷ Gwy n quando engravidou; ela sem pre havia se m ostrado evasiva em relação à identidade do m eu pai; e, pouco antes de eu nascer, arrum ara dinheiro para com prar um a casa de três quartos em Londres. Eu a confrontei com m inhas suspeitas, e ela confessou a verdade.

– Isso é risível.

– Mas você sabe que é verdade, não sabe?

– Não sei de nada.

– Sabe, sim . Nem que sej a pelo nosso parentesco, não pode agir de form a decente?

– De j eito nenhum .

Lloy d viu que não iria ganhar. Ficou desanim ado. Boy tinha o poder de fazer frustrar a vida de Lloy d, e estava determ inado a usá-lo.

Pegou a fotografia e tornou a guardá-la no bolso.

– Você vai questionar seu pai sobre isso. Não vai conseguir se conter. Terá que saber a verdade.

Boy respondeu com um m uxoxo de desdém .

Lloy d foi até a porta.

– Acho que ele vai lhe contar a verdade. Adeus, Boy .

Ele saiu e fechou a porta atrás de si.