Inverno do Mundo
Capítulo quatro
1937
Ao atravessar a ponte sobre o rio Moscou, Volody a Peshkov baixou a cabeça para se proteger da neve que o fustigava. Usava um sobretudo grosso, um chapéu de pele e um pesado par de botas de couro. Poucos m oscovitas se vestiam tão bem . Volody a era um hom em de sorte.
Sem pre tivera botas de qualidade. Seu pai, Grigori, era com andante do Exército, m as não era nenhum figurão: em bora fosse um herói da revolução bolchevique e conhecesse Stalin pessoalm ente, sua carreira havia estagnado em algum m om ento da década de 1920. Apesar disso, a fam ília sem pre vivera com conforto.
Volody a, por sua vez, era um figurão. Depois da universidade, ingressara na prestigiosa Academ ia de Inteligência Militar. Um ano depois, fora transferido para o quartel-general do Serviço de Inteligência do Exército Verm elho.
Sua m aior sorte foi ter conhecido Werner Franck em Berlim , quando seu pai era adido m ilitar na em baixada soviética na capital alem ã. Werner estudava na m esm a escola que ele, num a série abaixo da sua. Ao saber que o rapaz alem ão odiava o fascism o, Volody a lhe sugerira que talvez a m elhor form a de com bater os nazistas fosse virando espião dos russos.
Na época, Werner tinha apenas 14 anos. Agora estava com 18, trabalhava no Ministério da Aeronáutica, detestava ainda m ais os nazistas e tinha um poderoso transm issor de rádio e um m anual para decifrar m ensagens em código. Era um rapaz coraj oso e cheio de recursos – corria riscos terríveis e estava coletando inform ações preciosas. E Volody a era o seu contato.
Fazia quatro anos que Volody a não via Werner, m as lem brava-se dele com clareza. Alto, de vistosos cabelos louros, Werner tinha a aparência e a postura de um rapaz m ais velho. Aos 14 anos, seu sucesso com as m ulheres j á era invej ável.
Recentem ente, o alem ão lhe dera inform ações sobre Markus, um diplom ata da em baixada alem ã em Moscou que na verdade era com unista. Volody a fora procurar Markus para recrutá-lo com o espião. Havia alguns m eses que Markus vinha fazendo um a série de relatórios que Volody a traduzia para o russo e transm itia a seu superior. O últim o deles era um fascinante relato de com o industriais norte-am ericanos pró-nazism o estavam fornecendo cam inhões, pneus e gasolina aos rebeldes espanhóis de direita. Torkild Rieber, presidente da Texaco e adm irador de Hitler, usava os petroleiros da em presa para contrabandear com bustível e abastecer os rebeldes, contrariando um a solicitação form al do presidente Roosevelt.
Nesse exato m om ento, Volody a estava indo se encontrar com Markus.
Percorreu a Kutuzovsky Prospekt e dobrou na direção da estação ferroviária de Kiev. O encontro desse dia era num bar de operários perto da estação. Eles nunca iam ao m esm o lugar duas vezes, m as ao fim de cada encontro com binavam o seguinte: Volody a era m eticuloso com relação à espionagem . Os dois sem pre se encontravam em bares ou cafés baratos, que os colegas diplom atas de Markus nem sequer cogitariam frequentar. Se por algum m otivo Markus levantasse suspeitas e fosse seguido por um agente alem ão de contraespionagem , Volody a saberia, pois um hom em assim se destacaria dos outros clientes.
O lugar escolhido dessa vez se cham ava Bar Ucrânia. Com o a m aioria das construções de Moscou, era feito de m adeira. As j anelas estavam em baçadas, indicando que, pelo m enos, estaria quente lá dentro. Mas Volody a não entrou im ediatam ente. Era preciso tom ar outras precauções. Atravessou a rua e se escondeu na entrada de um prédio residencial. Ficou em pé no corredor frio, observando o bar por um a j anelinha.
Im aginou se Markus iria com parecer ao encontro. Ele sem pre tinha ido, m as Volody a não podia ter certeza. Se aparecesse, que inform ações traria dessa vez? O assunto m ais quente da política internacional no m om ento era a Espanha, m as a Inteligência do Exército Verm elho tam bém estava m uito interessada nos arm am entos alem ães. Quantos tanques estavam sendo produzidos por m ês? Quantas m etralhadoras Mauser M34 eram fabricadas por dia? O novo bom bardeiro Heinkel He 111 era bom m esm o? Volody a ansiava por inform ações desse tipo para transm itir ao seu superior, o m aj or Lem itov.
Meia hora se passou e Markus não apareceu.
Volody a com eçou a ficar preocupado. Será que Markus tinha sido desm ascarado? Ele trabalhava com o assistente do em baixador e via tudo o que passava pela m esa do chefe. No entanto, Volody a o vinha pressionando a tentar acessar outros docum entos, sobretudo a correspondência dos adidos m ilitares. Teria sido um erro? Será que alguém tinha surpreendido Markus dando um a olhadinha em cabogram as que não eram da sua conta?
Nesse m om ento, porém , Markus apareceu andando pela rua: um hom em de ar professoral, com óculos de grau e um Loden, um sobretudo austríaco feito de lã verde im perm eável, salpicado de flocos brancos de neve. Ele entrou no Bar Ucrânia. Volody a esperou, ainda observando. Franziu o cenho, preocupado, ao ver outro hom em entrar no bar atrás de Markus, m as logo ficou óbvio que esse segundo hom em era um operário russo, não um agente de contraespionagem alem ão. Era baixinho, usava botas envoltas em trapos, tinha cara de rato e enxugava a ponta do nariz fino com a m anga do sobretudo puído.
Volody a atravessou a rua e entrou no bar.
O lugar estava enfum açado, não era m uito lim po e o cheiro de hom ens que não tom avam banho com m uita frequência im pregnava o ar. Nas paredes, aquarelas desbotadas de paisagens da Ucrânia pendiam em m olduras baratas. Era o m eio da tarde e não havia m uitos clientes. A única m ulher no recinto parecia um a prostituta j á de certa idade recuperando-se de um a ressaca.
Markus estava no fundo da sala, curvado sobre um copo de cervej a intocado. Em bora tivesse 30 e poucos anos, parecia m ais velho, com a barba e o bigode louros bem -aparados. Havia aberto o sobretudo, deixando à m ostra um forro de pele. O russo com cara de rato sentou-se a duas m esas de distância e com eçou a enrolar um cigarro.
Quando Volody a chegou perto, Markus se levantou e lhe deu um soco na boca.
– Seu filho da puta escroto! – gritou em alem ão.
Volody a ficou tão chocado que, por alguns instantes, não fez nada. Sua boca doía e ele sentiu gosto de sangue. Por reflexo, ergueu o braço para revidar o soco, m as se conteve.
Markus investiu contra ele de novo, m as dessa vez Volody a estava preparado e se esquivou com facildade.
– Por que você fez isso? – berrou Markus. – Por quê?
Então, tão subitam ente quanto havia se levantado, ele desabou de volta sobre a cadeira, enterrou o rosto nas m ãos e com eçou a soluçar.
– Cale a boca, seu im becil – disse Volody a, com os lábios sangrando. Virando-se, dirigiu-se aos outros clientes, que encaravam a cena: – Não foi nada, ele está só chateado.
As pessoas desviaram o olhar; um hom em saiu do bar. Moscovitas nunca se m etem em confusão à toa. Até separar dois bêbados engalfinhados j á era perigoso, pois um deles poderia ser influente no Partido. Os clientes sabiam que Volody a era um desses hom ens: seu casaco de boa qualidade o denunciava.
Volody a tornou a se virar para Markus. Em voz baixa, perguntou, zangado:
– Que porra foi essa? – falou em alem ão, pois Markus não dom inava a língua russa.
– Você m andou prender Irina – respondeu Markus, em prantos. – Queim ou os m am ilos dela com um cigarro, seu canalha de m erda.
Irina era a nam orada russa de Markus. Volody a fez um a careta. Com eçava a entender a situação e teve um m au pressentim ento. Sentou-se de frente para Markus.
– Eu não m andei prender Irina – declarou. – E sinto m uito se ela foi ferida. Agora m e conte o que aconteceu.
– Eles foram buscá-la no m eio da noite. A m ãe dela m e contou. Não se identificaram , m as não eram investigadores norm ais da polícia... suas roupas eram m elhores. Irina não sabe para onde foi levada. Eles fizeram perguntas sobre m im e a acusaram de ser espiã. Ela foi torturada, estuprada e depois eles a soltaram .
– Puta que pariu! – exclam ou Volody a. – Sinto m uito.
– Sente m uito? A responsabilidade deve ser sua... de quem m ais seria?
– Garanto que isso não tem nada a ver com a Inteligência do Exército.
– Pouco im porta – disse Markus. – Estou cheio de vocês e estou cheio do com unism o.
– Às vezes sofrem os baixas na guerra contra o capitalism o. – Mal havia pronunciado essas palavras, o próprio Volody a as achou levianas.
– Seu idiota – disse Markus, furiso. – Não entende que socialism o significa se libertar desse tipo de babaquice?
Volody a ergueu os olhos e viu um hom em forte de sobretudo de couro entrar. Seu instinto lhe disse que ele não estava ali para tom ar um drinque.
Algum a coisa estava acontecendo, m as Volody a não sabia o quê. Era novo naquela brincadeira e nesse m om ento sentiu que essa falta de experiência era com o um m em bro am putado. Pensou que talvez estivesse correndo perigo, m as não soube o que fazer.
O recém -chegado se aproxim ou da m esa em que os dois estavam sentados.
Então o hom em com cara de rato se levantou. Tinha m ais ou m enos a m esm a idade que Volody a. Para sua surpresa, quando ele falou foi com o um hom em instruído.
– Vocês dois estão presos.
Volody a soltou um palavrão.
Markus se levantou com um pulo.
– Eu sou adido com ercial da em baixada alem ã! – gritou em russo, com etendo m uitos erros de gram ática. – Vocês não podem m e prender! Eu tenho im unidade diplom ática!
Os outros clientes saíram do bar apressados, em purrando-se enquanto se esprem iam porta afora. Restaram apenas duas pessoas: o garçom , que enxugava nervosam ente o balcão com um trapo im undo, e a prostituta, que fum ava um cigarro encarando um copo de vodca vazio.
– Vocês tam bém não podem m e prender – disse Volody a, calm o. Sacou a identidade do bolso. – Sou o tenente Peshkov, Inteligência do Exército. Quem são vocês?
– Dvorkin, NKVD – falou o cara de rato.
– Berezovsky , NKVD – disse o hom em do casaco de couro.
A polícia secreta. Volody a soltou um grunhido: deveria ter desconfiado. Ele tinha sido avisado de que a NKVD e a Inteligência do Exército viviam se esbarrando, m as aquela era sua prim eira experiência com isso.
– Im agino que tenham sido vocês que torturaram a nam orada deste hom em .
Dvorkin enxugou o nariz na m anga da roupa: aparentem ente, esse hábito desagradável não fazia parte de seu disfarce.
– Ela não tinha nenhum a inform ação.
– Quer dizer que vocês queim aram os m am ilos dela a troco de nada.
– Ela teve sorte. Se fosse espiã, teria sido pior.
– Nunca lhes ocorreu nos consultar prim eiro?
– E quando foi que vocês nos consultaram ?
– Vou em bora daqui – disse Markus.
Volody a foi tom ado pelo desespero. Estava prestes a perder um colaborador valioso.
– Não vá em bora – im plorou. – Vam os dar um j eito de com pensar Irina. Vam os conseguir o m elhor tratam ento...
– Vá se foder – disse Markus. – Você nunca m ais vai m e ver. – E saiu do bar.
Dvorkin não soube o que fazer. Não queria deixar Markus ir em bora, m as estava claro que não podia prendê-lo sem fazer papel de bobo. Acabou dizendo a Volody a:
– Não deveria perm itir que as pessoas falem nesse tom com você. Isso o faz parecer fraco. Elas deveriam respeitá-lo.
– Seu babaca – retrucou Volody a. – Não percebe o que acabou de fazer? Aquele hom em era um a fonte de inform ações confiáveis... m as agora, graças à sua trapalhada, ele nunca m ais vai trabalhar para nós.
Dvorkin deu de om bros.
– Com o você m esm o disse, às vezes há baixas em um a guerra.
– Pelo am or de Deus, m e poupe – retrucou Volody a, e em seguida tam bém saiu do bar.
Sentiu-se levem ente enj oado enquanto voltava a atravessar o rio. O que a NKVD tinha feito com um a m ulher inocente lhe causava repulsa, e a perda de seu inform ante o deixava desanim ado. Tom ou o bonde: não era graduado o suficiente para ter um carro. Enquanto o veículo abria cam inho pela neve em direção ao seu local de trabalho, ele refletia. Tinha que relatar o ocorrido ao m aj or Lem itov, m as estava hesitante, sem saber m uito bem com o contar aquela história. Precisava deixar claro que a culpa não fora sua, m as não podia dar a im pressão de que estava inventando desculpas.
O quartel-general do Serviço de Inteligência do Exército ficava num a das extrem idades do cam po de pouso de Khody nka, onde um lim pa-neve se arrastava de um lado para outro, a fim de m anter a pista livre. A arquitetura era peculiar: um a construção de dois andares sem j anelas nas paredes externas cercava um pátio no qual se erguia um prédio de escritórios de nove andares, com o se fosse um dedo em riste despontando de um punho de tij olo. Para não acionar os detectores de m etal da entrada, era proibido entrar com isqueiros ou canetas-tinteiro, por isso o Exército fornecia esses obj etos, um de cada, a seus funcionários. Fivelas de cinto tam bém eram um problem a, assim a m aioria usava suspensórios. Essa segurança toda naturalm ente era supérflua. Os m oscovitas fariam de tudo para m anter distância de um prédio assim : ninguém seria louco o bastante para querer se esgueirar lá para dentro.
Volody a dividia um a sala com três outros subalternos. O espaço era tão apertado que a m esa de Volody a im pedia a porta de se abrir com pletam ente. Kam en, o engraçadinho de plantão, olhou para sua boca inchada e disse:
– Deixe eu adivinhar... o m arido chegou antes da hora.
– Nem pergunte – respondeu Volody a.
Sobre sua m esa havia um a m ensagem decodificada pela seção de rádio, com as palavras em alem ão escritas a lápis, letra por letra, sob os blocos de código.
Era um a m ensagem de Werner.
A prim eira reação de Volody a foi de m edo. Será que Markus j á havia relatado o que acontecera a Irina e convencido Werner a tam bém desistir da espionagem ? Aquele dia parecia azarado o bastante para um desastre desse tipo.
Mas a m ensagem não era um desastre, m uito pelo contrário.
Volody a leu o texto com assom bro crescente. Werner explicava que as Forças Arm adas alem ãs tinham decidido despachar para a Espanha espiões disfarçados de voluntários antifascistas dispostos a lutar ao lado do governo na guerra civil. Eles enviariam relatórios clandestinos de trás das linhas inim igas para as estações de escuta operadas por alem ães do lado rebelde.
Só isso j á era um a inform ação quentíssim a.
Mas não era tudo.
Werner tinha os nom es.
Volody a teve de se conter para não pular de alegria. Um a sorte daquelas podia só acontecer um a vez na vida de um funcionário da inteligência, pensou. Aquilo com pensava com folga a perda de Markus. Werner era um a m ina de ouro. Volody a não quis nem pensar nos riscos que o alem ão devia ter corrido para tirar aquela lista de nom es do quartel-general do Ministério da Aeronáutica em Berlim .
Sentiu-se tentado a correr até a sala de Lem itov, m as se conteve.
Os quatro subalternos dividiam um a única m áquina de escrever velha e pesada. Volody a a pegou da m esa de Kam en e a pôs sobre a sua. Usando apenas os dedos indicadores das duas m ãos, datilografou um a tradução em russo da m ensagem de Werner. Enquanto o fazia, a claridade do dia dim inuiu e potentes luzes de segurança se acenderam do lado de fora do prédio.
Pegou a folha, deixando sobre sua m esa um a cópia da m ensagem em carbono, e subiu até o andar de cim a. Lem itov estava em sua sala. Era um belo hom em de cerca de 40 anos, os cabelos escuros cheios de brilhantina. Era esperto e tinha o dom de estar sem pre um passo à frente de Volody a, que se esforçava para im itar o poder de antecipação do chefe. Lem itov não com pactuava com a visão m ilitar tradicional, segundo a qual um a organização com o o Exército funcionava na base do grito e da intim idação, m as era im placável com os incom petentes. Volody a o respeitava e o tem ia.
– Esta inform ação pode ser incrivelm ente útil – disse Lem itov depois de ler a tradução.
– Pode ser? – Volody a não via m otivo para dúvida.
– Talvez sej a um a desinform ação – assinalou Lem itov.
Volody a não queria acreditar nisso, m as percebeu, com um a pontada de decepção, que precisava considerar a possibilidade de Werner ter sido capturado e transform ado em agente duplo.
– Que tipo de desinform ação? – perguntou, desanim ado. – Os nom es não existem , para nos fazer seguir um a pista falsa?
– Pode ser. Ou então são nom es verdadeiros de voluntários genuínos, com unistas e socialistas que fugiram da Alem anha nazista e foram à Espanha lutar pela liberdade. Nós poderíam os acabar prendendo antifascistas de verdade.
– Droga.
Lem itov sorriu.
– Não fique tão desanim ado! A inform ação ainda é m uito boa. Tem os nossos próprios espiões na Espanha, j ovens soldados e oficiais russos que se apresentaram com o “voluntários” para lutar nas Brigadas Internacionais. Eles podem investigar. – O m aj or pegou um lápis verm elho e com eçou a escrever na folha de papel com um a caligrafia m iúda e certinha. – Bom trabalho – falou.
Volody a interpretou aquilo com o um a dispensa e encam inhou-se para a porta.
– Você esteve com Markus hoj e? – indagou Lem itov.
Volody a deu m eia-volta.
– Houve um problem a.
– Foi o que im aginei, pelo m achucado em sua boca.
Volody a lhe contou o que havia acontecido.
– Então perdi um bom inform ante – concluiu. – Mas não sei o que poderia ter feito de outro m odo. Será que deveria ter contado à NKVD sobre Markus e lhes avisado que m antivessem distância?
– Não, porra – respondeu Lem itov. – Eles não m erecem confiança nenhum a. Nunca conte nada à NKVD. Mas não se preocupe, você não perdeu Markus. Vai ser fácil recuperá-lo.
– Com o? – indagou Volody a, sem entender. – Ele agora nos odeia.
– Prenda Irina outra vez.
– O quê? – Volody a ficou horrorizado. Ela j á não tinha sofrido o bastante? – Ele vai nos odiar m ais ainda.
– Diga a ele que, se não cooperar m ais conosco, vam os interrogá-la outra vez.
Volody a fez de tudo para esconder sua repulsa. Era im portante não parecer fraco. E ele entendia que o plano de Lem itov iria dar certo.
– Está bem – conseguiu articular.
– Diga a ele que, da próxim a vez, vam os enfiar os cigarros acesos na boceta dela – prosseguiu Lem itov.
Volody a teve a sensação de que iria vom itar. Engoliu em seco e falou:
– Boa ideia. Vou buscá-la agora m esm o.
– Pode ser am anhã – disse Lem itov. – Às quatro da m anhã. Para o choque ser m aior.
– Sim , m aj or. – Volody a saiu e fechou a porta atrás de si.
Passou alguns instantes parado no corredor, sentindo-se tonto. Então um auxiliar que passava o olhou com um ar estranho e ele se forçou a se afastar.
Teria que fazer aquilo. É claro que não iria torturar Irina: só a am eaça j á bastaria. Mas ela com certeza pensaria que estava prestes a ser torturada outra vez e isso a deixaria com pletam ente aterrorizada. Volody a teve a sensação de que, no lugar dela, ficaria louco. Ao entrar para o Exército Verm elho, j am ais im aginara que teria que fazer essas coisas. É claro que estar no Exército significava m atar pessoas, isso ele sabia, m as torturar m oças?
O prédio estava se esvaziando, as luzes das salas iam sendo apagadas, hom ens de chapéu passavam pelos corredores. Era hora de ir para casa. Volody a voltou para sua sala, ligou para a Polícia do Exército e com binou de encontrar um a equipe às três e m eia da m anhã para prender Irina. Então vestiu o sobretudo e saiu para pegar o bonde até sua casa.
Volody a m orava com seus pais, Grigori e Katerina, e com sua irm ã, Any a, de 19 anos, que ainda estava na universidade. No bonde, ficou pensando se poderia conversar sobre aquilo com o pai. Im aginou-se perguntando: “Na sociedade com unista tem os que torturar as pessoas?” Mas sabia qual seria a resposta. Aquilo era um a necessidade tem porária, essencial para proteger a revolução de espiões e subversivos a serviço de im perialistas capitalistas. Talvez pudesse questionar: “Quanto tem po vai dem orar até poderm os abandonar essas práticas detestáveis?” É claro que seu pai não saberia a resposta. Ninguém sabia.
Na volta de Berlim , a fam ília Peshkov se m udara para a Casa do Governo, às vezes cham ada de Casa do Aterro, um prédio residencial que ocupava um quarteirão inteiro do outro lado do rio, bem em frente ao Krem lin, habitado por m em bros da elite soviética. Era um prédio im enso, em estilo construtivista, com m ais de 500 apartam entos.
Volody a m eneou a cabeça para o policial m ilitar na porta do prédio, em seguida atravessou a espaçosa portaria – tão grande que às vezes abrigava bailes ao som de um a banda de j azz – e pegou o elevador. O apartam ento era luxuoso pelos padrões soviéticos, com água quente à vontade e um telefone, m as não era tão agradável quanto sua casa em Berlim .
Encontrou a m ãe na cozinha. Katerina era péssim a cozinheira e dona de casa pouco dedicada, m as o pai de Volody a a adorava. Era apaixonado por ela desde 1914, quando a resgatara das atenções indesej adas de um policial truculento em São Petersburgo. Aos 43 anos, Katerina ainda era bonita e, com o a fam ília frequentava o circuito diplom ático, aprendera a se vestir com m ais elegância do que a m aioria das russas – em bora tom asse cuidado para não parecer ocidentalizada, um a ofensa gravíssim a em Moscou.
– Machucou a boca? – perguntou ela depois que o filho lhe deu um beij o.
– Não foi nada. – Volody a sentiu cheiro de frango. – Jantar especial?
– Any a vai trazer o nam orado.
– Ah! Um colega da universidade?
– Acho que não. Não sei m uito bem o que ele faz.
Volody a ficou satisfeito. Tinha carinho pela irm ã, m as sabia que ela não era bonita. Era baixinha e gorducha, e usava roupas sem graça, de cores insossas. Não tivera m uitos nam orados, e o fato de aquele gostar dela o suficiente para ir j antar na sua casa era um a boa notícia.
Foi até o quarto, tirou o paletó e lavou o rosto e as m ãos. Seus lábios j á tinham praticam ente voltado ao norm al: o soco de Markus não fora m uito forte. Enquanto enxugava as m ãos, ouviu vozes, e im aginou que Any a e o nam orado tivessem chegado.
Vestiu um cardigã de tricô para ficar confortável e saiu do quarto. Quando entrou na cozinha, encontrou Any a sentada à m esa com um hom em baixinho e com cara de rato que reconheceu no m esm o instante.
– Ah, não! – exclam ou. – Você?
Era Ily a Dvorkin, o agente da NKVD que prendera Irina. Seu disfarce havia desaparecido e ele usava um terno escuro norm al e botas decentes. Encarou Volody a espantado.
– Mas é claro... Peshkov! – falou. – Eu não tinha ligado o nom e à pessoa.
Volody a virou-se para a irm ã.
– Não vá m e dizer que esse é o seu nam orado!
– Qual é o problem a? – indagou Any a, consternada.
– Nós nos encontram os hoj e m ais cedo – disse Volody a. – Ele estragou um a im portante operação do Exército m etendo o nariz onde não foi cham ado.
– Eu estava fazendo o m eu trabalho – defendeu-se Dvorkin. Enxugou a ponta do nariz na m anga.
– E que trabalho!
Katerina interveio para contornar a situação.
– Não falem de trabalho dentro de casa – disse ela. – Volody a, por favor, sirva um a vodca para o nosso convidado.
– Está falando sério? – indagou Volody a.
A raiva fez os olhos de sua m ãe chisparem .
– Estou!
– Tudo bem . – Com relutância, ele pegou a garrafa na prateleira. Any a tirou copos de um arm ário e Volody a serviu a bebida.
Katerina pegou um dos copos e disse:
– Agora, vam os com eçar de novo. Ily a, esse é m eu filho Vladim ir, que nós sem pre cham am os de Volody a. Volody a, esse é Ily a, am igo de Any a, que veio j antar conosco. Por que não se cum prim entam ?
Volody a não teve alternativa senão apertar a m ão de Ily a.
Katerina pôs tira-gostos sobre a m esa: peixe defum ado, picles de pepino, linguiça fatiada.
– No verão, tem os alface que m ando cultivar na nossa datcha, m as nesta época do ano não há nada, é claro – disse ela, com o quem pede desculpas.
Volody a notou que a m ãe tentava im pressionar Ily a. Será que ela queria m esm o que a filha se casasse com aquele suj eito detestável? Im aginou que sim .
Grigori chegou, vestido com seu uniform e do Exército, todo sorridente. Ao sentir o cheiro do frango, esfregou as m ãos. Tinha 48 anos, as faces rosadas e um corpo volum oso: era difícil im aginá-lo invadindo o Palácio de Inverno em 1917, com o de fato fizera. Ele devia ser m ais m agro na época.
Grigori beij ou a esposa com vontade. Volody a pensou que a m ãe se sentia grata pela lascívia explícita do m arido sem chegar de fato a retribuí-la. Sorria quando ele dava um tapinha em sua bunda, correspondia a seus abraços, lhe dava quantos beij os ele quisesse, m as nunca era ela quem tom ava a iniciativa. Gostava do m arido, respeitava-o e parecia feliz casada com ele, m as estava claro que não ardia de desej o. Volody a esperaria m ais que isso de um casam ento.
Mas essa era um a ideia puram ente hipotética: ele j á tivera diversos nam oros rápidos, m as ainda não conhecera nenhum a m ulher com quem quisesse se casar.
Volody a serviu um a dose de vodca para o pai, que a tom ou de um só gole, com gosto, e em seguida com eu um pouco de peixe defum ado.
– Ily a, em que você trabalha?
– Sou da NKVD – respondeu o hom em , orgulhoso.
– Ah! Um a ótim a organização em que se trabalhar!
Volody a desconfiou que o pai não achasse aquilo de verdade; só estava tentando ser sim pático. Na sua opinião, a fam ília devia era ser antipática, a fim de fazer Ily a ir em bora.
– Pai, im agino que, quando o resto do m undo seguir o exem plo da União Soviética e adotar o sistem a com unista, não haverá m ais necessidade de um a polícia secreta, e a NKVD poderá ser extinta – falou.
Grigori optou por tratar a questão com leveza.
– Nenhum a polícia precisará existir! – falou, alegre. – Nem tribunais crim inais, nem prisões. Nem departam ento de contraespionagem , um a vez que não haverá espiões. E tam pouco nenhum exército, pois não terem os inim igos! Com o será que vam os todos ganhar a vida? – Ele deu um a risada gostosa. – Mas isso talvez ainda pertença a um futuro distante.
Ily a fez cara de desconfiado, com o se sentisse que algum a coisa subversiva estava sendo dita, m as não conseguisse identificá-la com precisão.
Katerina pôs na m esa um a travessa de pão preto e cinco tigelas de borche quente, e todos com eçaram a com er.
– Quando eu era m enino, lá no cam po – com eçou Grigori –, durante todo o inverno m inha m ãe guardava cascas de legum es, m iolos de m açã, as folhas externas dos repolhos que não eram usadas, a parte cabeluda das cebolas, qualquer coisa desse tipo, dentro de um grande barril do lado de fora da casa, onde tudo congelava. Então, quando vinha a prim avera e a neve derretia, ela usava tudo para fazer borche. Na verdade o borche é isso, sabiam ? Um a sopa de cascas. Vocês j ovens não fazem ideia da sorte que têm .
Alguém bateu na porta. Grigori franziu o cenho, pois não estava esperando visitas, m as Katerina disse:
– Ah, esqueci! A filha de Konstantin vem j antar conosco.
– Zoy a Vorotsy ntsev? – indagou Grigori. – Filha de Magda, a parteira?
– Eu m e lem bro de Zoy a – disse Volody a. – Um a m enina m agra de cachinhos louros.
– Ela não é m ais um a m enina – corrigiu Katerina. – Tem 24 anos e é cientista. – Sua m ãe se levantou para abrir a porta.
Grigori tornou a franzir o cenho.
– Não a vem os desde que a m ãe dela m orreu. Por que ela entrou em contato assim , do nada?
– Ela quer falar com você – respondeu sua esposa.
– Com igo? Sobre o quê?
– Sobre física. – Katerina saiu da sala.
– Konstantin, o pai dela, foi representante do Soviete de Petrogrado com igo em 1917 – disse Grigori com orgulho. – Fom os nós que em itim os a célebre Ordem Núm ero Um . – Seu rosto ficou som brio. – Infelizm ente, ele m orreu depois da guerra civil.
– Ele devia ser bem j ovem ... Morreu de quê? – perguntou Volody a.
Grigori olhou de relance para Ily a, depois desviou os olhos depressa.
– De pneum onia – respondeu, e Volody a soube que o pai estava m entindo.
Katerina voltou acom panhada por um a m ulher que deixou Volody a sem ar.
Zoy a tinha um a beleza russa clássica: alta e m agra, cabelos louros quase brancos e olhos de um azul tão claro que quase pareciam sem cor, além de um a pele branca perfeita. Usava um vestido sim ples entre o verde e o am arelo cuj o despoj am ento cham ava ainda m ais atenção para seu corpo longilíneo.
Depois de ser apresentada a todos os presentes, ela se sentou à m esa e aceitou um a tigela de borche.
– Quer dizer que você é cientista, Zoy a? – perguntou Grigori.
– Sou pós-graduanda, estou fazendo doutorado, e dou aula para a graduação – respondeu ela.
– O nosso Volody a aqui trabalha para a Inteligência do Exército Verm elho – inform ou Grigori, orgulhoso.
– Que interessante – com entou ela, obviam ente querendo dizer o contrário.
Volody a percebeu que o pai via Zoy a com o um a nora em potencial. Torceu para que ele não fizesse alusões m uito óbvias a isso. Já havia decidido cham á-la para sair antes do final do j antar, m as podia se virar sozinho. Não precisava da aj uda de Grigori. Muito pelo contrário: se o pai fosse pouco sutil nos elogios ao filho, a m oça poderia não gostar.
– Com o está a sopa? – perguntou Katerina a Zoy a.
– Um a delícia, obrigada.
Volody a tinha a im pressão de que, por trás daquela aparência deslum brante, havia um tem peram ento bem prático. Que com binação intrigante: um a m ulher linda que não fazia nenhum esforço para ser sedutora.
Any a retirou as tigelas de sopa enquanto Katerina trazia o prato principal: ensopado de frango com batatas. Zoy a com eu com vontade: levava o garfo à boca, m astigava, engolia e com ia m ais. Assim com o para a m aioria dos russos, um a refeição tão boa com o essa era um a raridade para ela.
– Qual é a sua especialidade, Zoy a? – perguntou Volody a.
Ela parou de com er para responder, claram ente contrariada:
– Sou física. Estam os tentando entender o átom o: de que ele é com posto, o que m antém seus com ponentes unidos.
– É interessante?
– É totalm ente fascinante. – Ela pousou o garfo. – Estam os descobrindo de que o Universo é feito. Não há nada m ais em polgante do que isso. – Seus olhos agora brilhavam . A física parecia ser a única coisa capaz de distraí-la do j antar.
Ily a se pronunciou pela prim eira vez:
– Mas com o toda essa teoria aj uda a revolução?
Os olhos de Zoy a chisparam de raiva e Volody a gostou dela ainda m ais.
– Alguns cam aradas com etem o erro de subestim ar a ciência pura e preferir as pesquisas práticas – disse ela. – Mas os progressos tecnológicos, com o por exem plo aviões m ais potentes, na verdade dependem de avanços teóricos.
Volody a reprim iu um sorriso. Ily a tinha sido derrubado por um golpe despretensioso.
Mas Zoy a ainda não havia term inado.
– Era por isso que eu queria falar com o senhor – disse ela, dirigindo-se a Grigori. – Nós, físicos, lem os todos os periódicos científicos publicados no Ocidente... eles são tolos o bastante para revelar seus resultados ao m undo inteiro. E ultim am ente percebem os que têm feito progressos alarm antes na com preensão da física atôm ica. A ciência soviética corre grave risco de ficar para trás. Pergunto-m e se o cam arada Stalin tem consciência disso.
Todos na cozinha ficaram em silêncio. A sim ples sugestão de um a crítica a Stalin j á era perigosa.
– Ele sabe quase tudo – disse Grigori.
– É claro – respondeu Zoy a autom aticam ente. – Mas talvez haj a ocasiões em que cam aradas leais com o o senhor precisem cham ar a atenção dele para questões im portantes.
– Sim , é verdade.
– Com certeza o cam arada Stalin acredita que a ciência deveria ser praticada de acordo com a ideologia m arxista-leninista – disse Ily a.
Volody a viu um brilho desafiador cruzar o olhar de Zoy a, m as ela baixou os olhos e falou, em tom hum ilde:
– Não há dúvida de que ele está certo. Nós cientistas precisam os redobrar os esforços, claro.
Aquilo era um a bobaj ada e todos ali sabiam , m as ninguém diria nada. Era preciso m anter as aparências.
– De fato – concordou Grigori. – Mesm o assim , vou m encionar o fato na próxim a vez que tiver a oportunidade de falar com o cam arada secretário-geral do Partido. Ele talvez queira exam inar a questão m ais de perto.
– Espero que sim – disse Zoy a. – Querem os estar à frente do Ocidente.
– E depois do trabalho, Zoy a? – perguntou Grigori, alegre. – Você tem um nam orado, ou quem sabe um noivo?
– Pai! Isso não é da sua conta – protestou Any a.
Mas Zoy a não pareceu se im portar.
– Não tenho noivo – disse ela, suave. – Nem nam orado.
– Você é tão ruim quanto m eu filho, Volody a! Ele tam bém é solteiro. Tem 23 anos, é instruído, alto e bonito... m as não tem nam orada!
Volody a se rem exeu na cadeira, incom odado com a obviedade daquela sugestão.
– Difícil de acreditar – com entou Zoy a e, quando ela olhou de relance para Volody a, ele pôde ver um a pontinha de hum or nos olhos dela.
Katerina levou a m ão ao braço do m arido.
– Já chega – disse ela. – Você está deixando a pobre m oça constrangida.
A cam painha tocou.
– De novo? – estranhou Grigori.
– Desta vez não faço ideia de quem possa ser – disse Katerina enquanto saía da cozinha para atender.
Voltou acom panhada pelo chefe de Volody a, o m aj or Lem itov.
Espantado, Volody a se levantou da cadeira com um pulo.
– Boa noite, m aj or – falou. – Este é Grigori Peshkov, m eu pai. Pai, este é o m aj or Lem itov.
Lem itov bateu um a continência ligeira.
– Descansar. Sente-se, m aj or, e com a um pouco de frango. Meu filho fez algum a coisa errada?
Era exatam ente esse pensam ento que fazia as m ãos de Volody a trem erem .
– Não, com andante... m uito pelo contrário. Mas... eu poderia dar um a palavrinha em particular com o senhor e com ele?
Volody a relaxou um pouco. Talvez, no final das contas, não estivesse encrencado.
– Bem , nós praticam ente j á acabam os – disse Grigori, levantando-se da m esa. – Vam os até m eu escritório.
Lem itov olhou para Ily a.
– O senhor não trabalha na NKVD? – perguntou.
– Com m uito orgulho. Meu nom e é Dvorkin.
– Ah, sim ! Foi o senhor quem tentou prender Volody a hoj e à tarde.
– Achei que ele fosse um espião. E eu estava certo, não estava?
– O senhor precisa aprender a prender espiões inim igos, não os nossos. – Lem itov saiu da cozinha.
Volody a sorriu. Era a segunda vez na m esm a noite que Dvorkin era colocado em seu devido lugar.
Ele cruzou o hall de entrada com Grigori e Lem itov. O escritório de seu pai era um côm odo pequeno e pouco m obiliado. Grigori ocupou a única poltrona que havia ali. Lem itov sentou-se diante de um a m esinha. Volody a fechou a porta e perm aneceu em pé.
– O cam arada seu pai está sabendo sobre a m ensagem que você recebeu de Berlim esta tarde? – perguntou Lem itov a Volody a.
– Não, m aj or.
– É m elhor contar a ele.
Volody a relatou ao pai a história dos espiões na Espanha. Grigori ficou radiante.
– Muito bem ! – elogiou. – É claro que pode ser um a pista falsa, m as duvido m uito: os nazistas não são tão criativos assim . Mas nós som os. Podem os prender os espiões e usar seus rádios para transm itir m ensagens erradas para os rebeldes de direita.
Volody a não tinha pensado nisso. Seu pai podia até bancar o bobo com Zoy a, m as ainda tinha um a m ente afiada para o trabalho de inteligência.
– Exatam ente – disse Lem itov.
– Esse seu am igo de escola, Werner, é um hom em coraj oso – com entou Grigori com o filho. Então virou-se outra vez para Lem itov: – Com o pretende organizar isso?
– Vam os precisar de alguns bons agentes de inteligência na Espanha para investigar esses alem ães. Não deve ser m uito difícil. Se forem m esm o espiões, haverá provas: m anuais de decodificação, aparelhos de rádio, essas coisas. – Ele hesitou. – Vim aqui sugerir ao senhor que m andem os seu filho.
Volody a ficou estarrecido. Não esperava por isso.
O rosto de Grigori m urchou.
– Ah – disse ele, pensativo. – Devo confessar que essa perspectiva m e assusta. Sentiríam os m uita saudade dele. – Então assum iu um a expressão resignada, com o se estivesse percebendo que não tinha alternativa. – Mas a defesa da revolução deve vir em prim eiro lugar, é claro.
– Um agente de inteligência precisa de experiência de cam po – disse Lem itov. – O senhor e eu j á participam os de ações concretas, com andante, m as a geração m ais nova nunca esteve num a batalha.
– É verdade. Quando ele iria?