Inverno do Mundo
Capítulo III
Macke teve um pensam ento absurdo: será que a cabeça havia sentido algum a dor?
III
Carla topou com o coronel Beck no corredor do hospital. Ele estava de uniform e. Ao vê-lo, foi dom inada por um m edo súbito. Desde que o oficial recebera alta, ela era atorm entada pelo m edo de que ele a traísse e a Gestapo estivesse a cam inho.
No entanto, Beck sorriu e disse:
– Vim fazer um exam e de rotina com o Dr. Ernst.
Seria só isso m esm o? Será que o coronel se esquecera da conversa que tiveram ? Estaria fingindo ter esquecido? Será que havia um Mercedes preto da Gestapo esperando lá fora?
Beck carregava um a pasta de cartolina verde do tipo usado no hospital.
Um oncologista de j aleco branco se aproxim ou. Enquanto ele passava, Carla perguntou a Beck, com voz alegre:
– Com o vão as coisas?
– Estou ótim o. Nunca m ais vou liderar um regim ento em com bate, m as, tirando o exercício físico, posso levar um a vida norm al.
– Que notícia boa.
Mais pessoas continuavam a passar. Carla tem eu que Beck nunca tivesse a chance de lhe falar nada em particular.
Ele, porém , não se deixou abalar.
– Só gostaria de lhe agradecer por sua gentileza e seu profissionalism o.
– Não há de quê.
– Até logo, enferm eira.
– Até logo, coronel Beck.
Quando ele foi em bora, Carla estava com a pasta nas m ãos.
Seguiu depressa até o vestiário das enferm eiras. Não havia ninguém lá dentro. Ficou parada com o calcanhar encostado bem firm e na porta, para im pedir que alguém entrasse.
Dentro da pasta havia um envelope grande feito do m esm o papel pardo barato usado em qualquer escritório. Carla o abriu. Viu várias folhas datilografadas. Leu a prim eira sem tirá-la do envelope:
Ordem Operacional no 6
Código Cidadela
Era o plano de batalha para a ofensiva de verão no front oriental. Seu coração se acelerou. Aquilo valia ouro.
Tinha que passar o envelope para Frieda. Infelizm ente, a am iga não estava trabalhando: era seu dia de folga. Carla cogitou ir em bora na m esm a hora, no m eio do plantão, e passar na casa de Frieda. Mas logo desistiu da ideia. Era m elhor se com portar norm alm ente, para não cham ar atenção.
Guardou o envelope dentro da bolsa a tiracolo que estava pendurada no gancho do casaco. Cobriu-o com o lenço de seda azul e dourado que sem pre trazia para esconder coisas. Ficou alguns instantes parada, esperando que sua respiração voltasse ao norm al. Então retornou para a enferm aria.
Trabalhou da m elhor form a que conseguiu até o fim do plantão. Depois vestiu o casaco, saiu do hospital e foi a pé até a estação do trem rápido. Ao passar pelo local da explosão de um a bom ba, viu que os restos do prédio estavam pichados. Um patriota orgulhoso tinha escrito: “Nossos m uros podem ruir, m as não nossos corações.” No entanto, algum a outra pessoa havia reproduzido com ironia o slogan da cam panha eleitoral de Hitler em 1933: “Daqui a quatro anos, ninguém m ais reconhecerá a Alem anha.”
Ela com prou um a passagem até a estação Zoo.
No trem , sentiu-se um a extraterrestre. Todos os outros passageiros eram alem ães leais, enquanto ela carregava na bolsa segredos que revelaria a Moscou. Não gostou daquela sensação. Ninguém olhou para ela, m as isso só a fez pensar que todos a evitavam de propósito. Mal podia esperar para entregar o envelope a Frieda.
A estação Zoo ficava no final de Tiergarten. As árvores agora pareciam anãs ao lado de um a gigantesca torre antiaérea. Havia três torres daquele tipo em Berlim , e aquela era um bloco de concreto com m ais de trinta m etros de altura. Nos cantos do telhado estavam m ontadas quatro gigantescas peças de artilharia antiaérea de 25 toneladas cada. O concreto tinha sido pintado de verde, num a tentativa otim ista e inútil de fazer aquela m onstruosidade destoar um pouco m enos do parque.
Por m ais feia que fosse a torre, porém , os berlinenses a adoravam . Quando as bom bas caíam , o rugido que ela em itia os reconfortava, dizendo-lhes que alguém estava revidando.
Ainda m uito tensa, Carla cam inhou da estação até a casa de Frieda. Era o m eio da tarde, então o casal Franck devia estar fora – Ludi na fábrica e Monika visitando algum a am iga, possivelm ente a m ãe de Carla. Viu a m oto de Werner estacionada na frente da casa.
Um em pregado abriu a porta.
– A Srta. Frieda saiu, m as não vai dem orar – inform ou ele. – Foi à KaDeWe com prar luvas. O Sr. Werner está deitado com um a gripe m uito forte.
– Vou esperar Frieda no quarto dela, com o sem pre.
Carla tirou o casaco e subiu, sem largar a bolsa. No quarto de Frieda, tirou os sapatos e deitou-se na cam a para ler o plano de batalha da Operação Cidadela. Estava tensa com o um relógio no qual se houvesse dado corda dem ais. Iria se sentir m elhor depois que passasse adiante o docum ento roubado.
Ouviu soluços no outro quarto.
Ficou surpresa. Aquele era o quarto de Werner. Carla achou difícil im aginar aquele play boy bem -educado aos prantos.
Mas sem dúvida era o choro de um hom em , que parecia tentar, em vão, contê-lo.
Carla não pôde reprim ir o sentim ento de pena. Disse a si m esm a que algum a m ulher tem peram ental devia ter rej eitado Werner, provavelm ente com razão. Mas foi im possível não se deixar abalar pelo sofrim ento genuíno que ouvia.
Ela desceu da cam a, tornou a guardar o plano de batalha na bolsa e saiu do quarto.
Parou à porta de Werner e ficou escutando. Pôde ouvir o choro com m ais nitidez ainda. Tinha o coração bondoso dem ais para ignorar aquilo. Abriu a porta e entrou.
Werner estava sentado na beira da cam a, com a cabeça apoiada nas m ãos. Ao ouvir a porta, ergueu os olhos, espantado. Tinha o rosto verm elho e m olhado de lágrim as. Sua gravata estava frouxa; o colarinho, aberto. Ele olhou para Carla com um a expressão de profunda tristeza. Estava transtornado, arrasado, abalado dem ais para se im portar com quem pudesse saber.
Carla não conseguiu fingir que tinha o coração de pedra.
– O que houve? – perguntou.
– Não consigo m ais fazer isso – disse ele.
Ela fechou a porta atrás de si.
– O que aconteceu?
– Eles decapitaram Lili Markgraf... E fui obrigado a assistir.
Carla o encarou, boquiaberta.
– Que história é essa?
– Ela tinha só 22 anos. – Tirando um lenço do bolso, ele enxugou o rosto. – Você j á está correndo perigo, m as, se eu lhe contar essa história, vai ser m uito pior.
Inúm eras possibilidade incríveis passaram pela m ente de Carla.
– Acho que posso adivinhar, m as conte – pediu ela.
Ele assentiu.
– Você logo vai entender m esm o. Lili aj udava Heinrich a transm itir m ensagens para Moscou. É bem m ais rápido quando outra pessoa lê os blocos de código. E quanto m ais rápida for a transm issão, m enor a probabilidade de ser pego. Só que a prim a de Lili passou alguns dias hospedada em seu apartam ento e encontrou os m anuais de código. Piranha nazista.
As palavras dele confirm avam as espantosas desconfianças de Carla.
– Você sabia sobre a espionagem ?
Ele a fitou com um sorriso de ironia.
– Sou eu que estou no com ando.
– Meu Deus do céu!
– Foi por isso que precisei deixar para lá a história das crianças assassinadas. Recebi essa ordem de Moscou. E eles tinham razão. Se eu perdesse o em prego no Ministério da Aeronáutica, não teria acesso a docum entos secretos, nem a outras pessoas que pudessem m e transm itir segredos.
Ela precisava se sentar. Deixou-se cair na beirada da cam a ao lado dele.
– Por que você não m e contou?
– Partim os do pressuposto de que todo m undo fala sob tortura. Se você não sabe nada, não pode trair os outros. A pobre Lili foi torturada, m as só conhecia Volody a, que a esta altura j á está de volta a Moscou, e Heinrich, m as nunca soube o sobrenom e de Heinrich nem qualquer outra coisa a seu respeito.
Carla gelou até os ossos. Todo mundo fala sob tortura.
– Sinto m uito por ter lhe contado, m as, depois de m e ver assim , você estava a ponto de adivinhar, m esm o.
– Quer dizer que eu estava com pletam ente enganada a seu respeito?
– Não foi culpa sua. Eu fiz com que você se enganasse de propósito.
– Mesm o assim , m e sinto um a boba. Passei dois anos desprezando você.
– E durante todo esse tem po eu estava desesperado para lhe explicar tudo.
Ela passou o braço em volta dele.
Ele segurou sua outra m ão e a beij ou.
– Você m e perdoa?
Apesar de não estar segura em relação a seus sentim entos, ela não queria rej eitá-lo agora que ele estava tão triste, então respondeu:
– É claro que perdoo.
– Pobre Lili – disse Werner. Sua voz se transform ou num sussurro: – Tinha apanhado tanto que m al conseguiu andar até a guilhotina. Mesm o assim , im plorou por sua vida até o fim .
– O que você estava fazendo lá?
– Tive que fazer am izade com um agente da Gestapo, o inspetor Thom as Macke. Ele m e levou.
– Macke? Eu m e lem bro dele... foi ele que prendeu m eu pai.
Carla recordava nitidam ente um hom em de rosto redondo e bigodinho preto, e tornou a sentir a m esm a raiva do poder arrogante que Macke ostentava ao levar seu pai em bora, e a m esm a tristeza de vê-lo m orrer em decorrência dos ferim entos sofridos sob a guarda de Macke.
– Acho que ele desconfia de m im , e m e levar para assistir à execução foi um teste. Talvez achasse que eu fosse perder o controle e tentar intervir. Enfim , sej a com o for, acho que passei.
– Mas se você fosse preso...
Werner assentiu.
– Todo m undo fala sob tortura.
– E você sabe tudo.
– Conheço todos os agentes, todos os códigos... A única coisa que não sei é de onde são feitas as transm issões. Deixo os próprios espiões escolherem os locais, e eles não m e inform am .
Os dois perm aneceram de m ãos dadas, em silêncio. Depois de algum tem po, Carla falou:
– Vim entregar um a coisa para Frieda, m as acho que posso deixar com você.
– O que é?
– O plano de batalha da Operação Cidadela.
Werner ficou eletrizado.
– Mas estou tentando pôr as m ãos nesse plano há sem anas! Onde o conseguiu?
– Com um oficial do Estado-Maior. Talvez eu não deva dizer o nom e dele.
– É, não diga. Mas o plano é autêntico?
– É m elhor você dar um a olhada. – Ela foi até o quarto de Frieda e voltou com o envelope pardo. Jam ais lhe ocorrera que o docum ento pudesse não ser verdadeiro. – Parece-m e de verdade, m as com o posso saber?
Ele pegou as folhas datilografadas. Passou alguns m inutos lendo, e então disse:
– É isso m esm o. Fantástico!
– Que bom .
Ele se levantou.
– Tenho que levar isto aqui para Heinrich agora m esm o. Precisam os codificar os planos e transm iti-los hoj e à noite.