Inverno do Mundo
Capítulo IV
Volody a suspirou. Werner Franck ainda não conseguira pôr as m ãos no docum ento.
– Se eu conseguir, Stalin vai reconsiderar?
– Se você conseguir, pedirei a ele que faça isso.
– Com binado – concluiu Volody a.
Estava sendo precipitado. Não fazia ideia de com o poderia conseguir um docum ento desses. Werner, Heinrich, Lili e os outros j á estavam correndo m uitos riscos. No entanto, teria que pressioná-los ainda m ais.
Zoy a chegou à m esa, e Grigori se levantou. Com o cada um tom aria um a direção diferente, despediram -se ali m esm o.
– Nos vem os à noite – disse Zoy a a Volody a.
Ele lhe deu um beij o.
– Chegarei às sete horas.
– Leve a escova de dentes – com pletou ela.
Ele foi em bora feliz.
IV
Um a garota sem pre percebe quando sua m elhor am iga tem um segredo. Pode não saber o que é, m as tem certeza de que ele existe, com o um m óvel im possível de identificar escondido debaixo de um lençol. Com base em respostas desconfiadas e relutantes a perguntas inocentes, percebe que a am iga está saindo com alguém que não devia e, em bora não saiba seu nom e, pode supor que o am ante proibido sej a um hom em casado, um estrangeiro de pele escura, ou então outra m ulher. Adm ira o colar novo da am iga e sabe, por sua reação m uda, que ele tem ligação com algo vergonhoso, em bora talvez leve anos para descobrir que foi roubado da caixa de j oias de um a avó senil.
Era essa a im pressão que Carla tinha com relação a Frieda.
Ela guardava um segredo, e tinha a ver com a resistência aos nazistas. Talvez estivesse profundam ente envolvida em algum a atividade crim inosa; talvez vasculhasse todas as noites a pasta do irm ão, Werner, copiasse docum entos secretos e entregasse as cópias para algum espião russo. O m ais provável, porém , era que não fosse nada tão radical assim : talvez aj udasse a im prim ir e distribuir os cartazes e folhetos ilegais que criticavam o governo.
Dessa form a, Carla decidira contar a Frieda sobre Joachim Koch. Só não teve um a oportunidade im ediata. Carla e Frieda eram enferm eiras num grande hospital, cada um a trabalhava num setor e tinham escalas diferentes, por isso não se viam todos os dias.
Enquanto isso, Joachim ia à casa dos Von Ulrich diariam ente para ter aulas de piano. O tenente não fez m ais nenhum a revelação indiscreta, m as Maud continuava flertando com ele.
– Você acredita que tenho quase 40 anos? – Carla ouviu a m ãe dizer certo dia, em bora na verdade Maud tivesse 51.
Joachim estava totalm ente fascinado por ela. Maud se alegrava por ainda ter o poder de fascinar um rapaz atraente, m esm o que m uito ingênuo. Ocorreu a Carla a ideia de que a m ãe talvez estivesse desenvolvendo sentim entos m ais profundos por aquele rapaz de bigode louro que lem brava um pouco Walter quando j ovem ; m as isso lhe pareceu ridículo.
Joachim estava louco para agradar Maud e não dem orou a lhe trazer notícias do filho. Erik estava vivo e gozando de boa saúde.
– A unidade dele está na Ucrânia – disse Joachim . – É tudo o que posso lhe dizer.
– Seria tão bom se ele conseguisse um a licença para vir para casa... – disse Maud, em tom sonhador.
O j ovem oficial hesitou.
– Preocupação de m ãe é coisa séria – disse ela. – Se ao m enos eu pudesse vê-lo, m esm o que só por um dia, seria um grande consolo para m im .
– Eu talvez consiga arranj ar isso.
Maud fingiu surpresa:
– É m esm o? Você é tão influente assim ?
– Não tenho certeza, m as poderia tentar.
– Obrigada por ao m enos tentar. – Ela beij ou a m ão do tenente.
Um a sem ana se passou antes de Carla encontrar Frieda de novo. Quando a viu, contou-lhe sobre Joachim Koch. Falou com o se estivesse apenas com partilhando um a novidade interessante, m as teve certeza de que a am iga não iria interpretar aquilo com o um a inform ação inocente.
– Im agine só! – exclam ou. – Ele nos disse o codinom e de um a operação e a data do ataque! – Esperou para ver com o Frieda iria reagir.
– Ele poderia ser executado por isso – disse a am iga.
– Se conhecêssem os alguém capaz de entrar em contato com Moscou, poderíam os m udar o curso da guerra – continuou Carla, com o se ainda estivesse falando sobre a gravidade do crim e de Joachim .
– É, pode ser – disse Frieda.
Aquilo era um a prova irrefutável. A reação norm al de Frieda a um a história com o aquela incluiria expressões de surpresa, um grande interesse e m ais perguntas. No entanto, ela se ateve a expressões neutras e grunhidos vagos. Carla foi para casa e disse à m ãe que sua intuição estava certa.
No dia seguinte, no hospital, Frieda entrou na enferm aria de Carla com ar de desespero.
– Preciso falar com você. É urgente – anunciou.
Carla estava trocando o curativo de um a m oça que havia sofrido graves queim aduras na explosão de um a fábrica de m unição.
– Vá para o vestiário – falou Carla. – Irei assim que puder.
Cinco m inutos depois, encontrou Frieda no côm odo apertado, fum ando j unto a um a j anela aberta.
– O que houve? – perguntou.
Frieda apagou o cigarro.
– É sobre o tenente Koch.
– Pensei m esm o que fosse.
– Você tem que descobrir m ais coisas sobre ele.
– Tenho? Que história é essa?
– Ele tem acesso a todo o plano de batalha da Operação Azul. Já sabem os algum as coisas sobre a operação, m as Moscou precisa dos detalhes.
Frieda estava partindo de vários pressupostos, m as Carla entrou no j ogo:
– Posso perguntar a ele...
– Não. Você tem que fazer com que ele leve o plano até sua casa.
– Não tenho certeza se isso vai ser possível. Ele não é com pletam ente burro. Você não acha...
Mas Frieda nem sequer estava ouvindo.
– Então você tem que fotografar os planos – prosseguiu. Ela tirou do bolso do uniform e um a caixinha de aço inox m ais ou m enos do tam anho de um m aço de cigarros, só que m ais com prida e m ais estreita. – Isto aqui é um a câm era em m iniatura especialm ente proj etada para fotografar docum entos. – Carla reparou na palavra “Minox” escrita na lateral. – Cada film e tira onze fotos. Aqui tem três film es. – Ela sacou três cartuchos com o form ato de halteres de ginástica, só que pequenos o suficiente para caberem na pequena câm era. – É assim que se põe o film e. – Frieda lhe m ostrou. – Para tirar a foto, você olha por este visor aqui. Se não estiver segura, leia este m anual.
Carla nunca im aginou que Frieda fosse tão m andona.
– Preciso pensar m elhor.
– Não há tem po para isso. Esta capa é sua, não é?
– É, m as...
Frieda enfiou a câm era, os film es e o m anual de instruções no bolso da capa. O fato de não estar m ais com essas coisas pareceu deixá-la aliviada.
– Tenho que ir – disse Frieda e se encam inhou para a porta.
– Mas, Frieda!
Por fim , ela parou e encarou Carla.
– O que foi?
– Bem ... Você não está se com portando com o am iga.
– Isso é m ais im portante que am izade.
– Você m e encurralou.
– Quem criou essa situação foi você, ao m e falar sobre Joachim Koch. Não venha fingir que achou que eu não tom aria nenhum a atitude em relação à inform ação que m e deu.
Era verdade. A própria Carla criara aquela situação. No entanto, não havia previsto que as coisas fossem se desenrolar daquela form a.
– E se ele disser não?
– Nesse caso, você provavelm ente vai passar o resto da vida sob o j ugo dos nazistas. – Frieda saiu do vestiário.
– Droga – resm ungou Carla.
Ficou parada lá dentro, pensando. Não poderia nem se livrar da pequena câm era sem correr riscos. O aparelho estava no bolso de sua capa, e ela não poderia j ogá-lo fora em um a das lixeiras do hospital. Teria que sair do prédio com a câm era no bolso e tentar encontrar um lugar onde pudesse j ogá-la fora sem que ninguém visse.
Mas queria m esm o fazer isso?
Por m ais ingênuo que Koch fosse, parecia-lhe im provável que pudesse ser convencido a tirar um a cópia do plano de batalha do Ministério da Guerra e levá-la para m ostrar à m ulher por quem estava apaixonado. No entanto, se havia alguém capaz de convencê-lo, essa pessoa era Maud.
Mas Carla estava com m edo. Se fosse pega, teria um destino inclem ente. Seria presa e torturada. Pensou em Rudi Rothm ann, gem endo de dor por causa dos ossos quebrados. Lem brou-se do pai ao ser solto da prisão, tão brutalm ente espancado que acabara m orrendo. Seu crim e seria pior que o deles; sua punição, bestial. Ela seria executada, é claro – m as só depois de m uito tem po.
Disse a si m esm a que estava disposta a correr esse risco.
O que não conseguia aceitar era arriscar-se a aj udar a m atar o próprio irm ão.
Erik estava no front oriental. Joachim tinha confirm ado isso. Seu irm ão devia estar envolvido na Operação Azul. Se Carla aj udasse os russos a vencer essa batalha, Erik poderia m orrer. E isso ela não podia suportar.
Voltou ao trabalho. Estava distraída e com eteu alguns erros, m as, por sorte, os m édicos não perceberam , e os pacientes não sabiam a diferença. Quando seu plantão finalm ente acabou, ela foi em bora depressa. A câm era parecia queim ar no bolso da capa, m as ela não viu nenhum lugar seguro para descartá-la.
Perguntou-se onde Frieda arrum ara o aparelho. Sua am iga possuía bastante dinheiro e poderia m uito bem ter com prado a câm era; m as para isso teria sido obrigada a inventar um a j ustificativa para precisar de um aparelho assim . O m ais provável era ter conseguido a câm era com os russos antes de eles fecharem sua em baixada, um ano antes.
Quando Carla chegou em casa, a câm era continuava em seu bolso.
Não ouviu o barulho do piano lá em cim a: Joachim devia ter aula m ais tarde nesse dia. Sua m ãe estava sentada à m esa da cozinha. Quando Carla entrou, Maud sorriu, radiante, e exclam ou:
– Olhe quem está aqui!
Erik.
Carla encarou o irm ão. Ele estava m uito m agro, m as aparentem ente ileso. Tinha o uniform e encardido e rasgado, m as havia lavado o rosto e as m ãos. Levantou-se e abraçou a irm ã.
Ela o apertou com força, sem se im portar em suj ar o uniform e im aculado.
– Você está vivo! – exclam ou.
Erik estava tão m agro que ela pôde sentir seus ossos através do tecido fino: costelas, quadris, om bros, coluna.
– Estou vivo, por enquanto – respondeu ele.
Ela o soltou.
– Com o você está?
– Melhor do que a m aioria.
– Não é possível que tenha suportado o inverno russo usando esse uniform e fino.
– Roubei um sobretudo de um russo m orto.
Carla sentou-se à m esa. Ada tam bém estava lá.
– Você tinha razão em relação aos nazistas. Tinha razão – disse Erik.
Ela ficou satisfeita, m as não entendeu direito o que o irm ão estava querendo dizer.
– Razão em que sentido?
– Eles m atam pessoas. Você m e disse isso. Papai tam bém m e disse, e m am ãe. Lam ento ter duvidado. Desculpe-m e, Ada, por não ter acreditado que eles m ataram seu pobre Kurt. Agora sei a verdade.
Aquilo era um a m udança e tanto.
– O que fez você m udar de ideia? – perguntou Carla.
– Eu vi com m eus próprios olhos lá na Rússia. Eles reúnem todas as pessoas im portantes da cidade, porque decerto são todas com unistas. E pegam os j udeus, tam bém . Não só os hom ens, m as m ulheres e crianças igualm ente. E velhos tão frágeis que são incapazes de fazer m al a um a m osca. – A essa altura do relato, lágrim as j á escorriam por seu rosto. – Quem m ata não são os soldados norm ais... há grupos especiais para isso. Eles levam os prisioneiros para fora da cidade. Às vezes há um a pedreira, ou algum outro tipo de vala. Ou então eles obrigam os m ais j ovens a cavarem um grande buraco. Aí...
Ele engasgou, m as Carla tinha que ouvir a história toda.
– Aí, o quê?
– Eles m atam 12 pessoas de cada vez. Seis pares. Às vezes os m aridos e m ulheres descem a encosta de m ãos dadas. As m ães carregam os bebês no colo. Os soldados arm ados com fuzis esperam os prisioneiros chegarem ao lugar certo. Então atiram . – Erik enxugou as lágrim as com a m anga suj a do uniform e.
Um longo silêncio caiu sobre a cozinha. Ada chorava. Carla estava horrorizada. Apenas Maud m antinha um sem blante im passível.
Depois de algum tem po, Erik assoou o nariz e tirou os cigarros do bolso.
– Fiquei espantado ao receber a licença e um a passagem para casa – falou.
– Quando você precisa voltar? – perguntou Carla.
– Am anhã. A licença é só de 24 horas. Mesm o assim , todos os m eus colegas ficaram com invej a. Eles dariam tudo para passar um dia em casa. O Dr. Weiss disse que eu devo ter am igos m uito bem situados.
– E tem m esm o – disse Maud. – O nom e dele é Joachim Koch, um j ovem tenente que trabalha no Ministério da Guerra e tem aulas de piano com igo. Pedi a ele que lhe conseguisse um a licença. – Ela olhou de relance para o relógio. – Ele deve chegar em alguns m inutos. Afeiçoou-se a m im ... acho que deve estar precisando de um a figura m aterna.
Figura m aterna o caram ba, pensou Carla. Não havia nada de m aternal na relação de Maud com Joachim .
– Ele é m uito inocente – prosseguiu Maud. – Disse-nos que vai haver um a ofensiva no front oriental, m arcada para o dia 28 de j unho. Chegou até a nos revelar o codinom e da ofensiva: Operação Azul.
– Ele vai acabar sendo fuzilado – com entou Erik.
– Joachim não é o único que pode ser fuzilado – disse Carla. – Contei para um a pessoa o que tinha ouvido. Agora m e pediram que convencesse Joachim , não sei com o, a m e trazer o plano de batalha.
– Meu Deus do céu! – Erik estava abism ado. – Isso é alta espionagem ... Você está correndo m ais perigo do que eu no front!
– Não se preocupe, duvido m uito que Joachim faça isso – disse Carla.
– Não tenha tanta certeza – disse Maud.
Todos olharam para ela.
– Talvez ele faça isso por m im ... se eu souber pedir.
– Ele é tão ingênuo assim ?