Inverno do Mundo
Capítulo treze
1942 (II)
Aenferm eira-chefe Carla von Ulrich entrou na sala de m aterial em purrando um carrinho e fechou a porta atrás de si.
Tinha que agir depressa. Se fosse flagrada, poderia ser m andada para um cam po de concentração.
Pegou dentro de um arm ário vários curativos diferentes, um rolo de atadura e um pote de crem e antisséptico. Então destrancou o gabinete de rem édios. Separou m orfina para aliviar a dor, sulfonam ida para com bater infecções e aspirina para baixar a febre. Pegou tam bém um a seringa hipodérm ica nova, na em balagem .
Ao longo de algum as sem anas, j á havia falsificado os registros para fazer parecer que o que estava roubando tinha sido usado de form a legítim a. Fizera isso antes de pegar as coisas, para que qualquer verificação pontual revelasse excesso de m aterial – sugerindo um m ero descuido –, não falta dele, que indicaria roubo.
Já fizera tudo isso duas vezes, m as ainda sentia o m esm o m edo.
Ao em purrar o carrinho para fora da sala, torceu para que parecesse inocente: um a enferm eira transportando m aterial m édico até o leito de um paciente.
Entrou na enferm aria. Para sua consternação, viu que o Dr. Ernst estava ali, sentado j unto a um leito, m edindo o pulso de um doente.
Todos os m édicos deveriam estar alm oçando.
Agora era tarde para m udar de ideia. Tentando adotar um a expressão de confiança, que era o oposto do que realm ente sentia, levantou a cabeça bem alto e passou pelo m eio da enferm aria, em purrando o carrinho.
O Dr. Ernst ergueu os olhos e sorriu.
Berthold Ernst era o sonho de todas as enferm eiras. Cirurgião de talento, de m odos afáveis, era alto, bonito e solteiro. Segundo os boatos do hospital, j á saíra com a m aioria das enferm eiras bonitas e fora para a cam a com m uitas delas.
Carla m eneou a cabeça para o m édico e passou depressa.
Em purrou o carrinho para fora da enferm aria e então fez um a curva repentina, entrando no vestiário das enferm eiras.
Sua capa de chuva estava pendurada num gancho. Debaixo dela, um a cesta de com pras continha um velho lenço de seda, um repolho e um a caixa de toalhas higiênicas dentro de um saco de papel pardo. Carla esvaziou a cesta e transferiu rapidam ente o m aterial m édico do carrinho para o saco. Escondeu-o com o lenço, um m odelo de estam pa geom étrica azul e dourada que sua m ãe devia ter com prado nos anos 1920. Pôs o repolho e as toalhas higiênicas por cim a, pendurou a cesta num gancho e arrum ou a capa de m odo a cobri-la.
Consegui, pensou. Percebeu que estava trem endo um pouco. Respirou fundo, controlou-se, abriu a porta – e deu de cara com o Dr. Ernst em pé do lado de fora.
Será que ele a havia seguido? Estaria prestes a acusá-la de roubo? No entanto, seu com portam ento não era hostil; na verdade, ele parecia sim pático. Talvez ela tivesse m esm o conseguido.
– Boa tarde, doutor – falou. – Posso aj udá-lo em algum a coisa?
Ele sorriu.
– Com o vai, enferm eira Von Ulrich? Tudo está correndo bem ?
– Sim , perfeitam ente, eu acho. – A culpa a fez com pletar a resposta com um a frase aduladora: – Mas quem deve dizer se as coisas estão correndo bem é o senhor, doutor.
– Ah, não tenho do que reclam ar – disse ele, com naturalidade.
Então que história é essa?, pensou Carla. Será que ele só está brincando com igo, adiando sadicam ente a hora de m e acusar?
Não disse nada, m as ficou esperando, tentando não trem er de tão nervosa.
O Dr. Ernst baixou os olhos para o carrinho.
– Por que trouxe isso para o vestiário?
– Queria pegar um a coisa – respondeu ela, im provisando. – No bolso da m inha capa. – Tentou reprim ir o trem or de m edo na voz. – Um lenço. – Pare de tagarelar, disse ela a si m esm a. Ele é m édico, não agente da Gestapo. Mas a assustava do m esm o j eito.
Ele pareceu achar graça, com o se o fato de ela estar nervosa fosse divertido.
– E o carrinho?
– Vou pôr de volta no lugar.
– Organização é fundam ental. E um a enferm eira tão boa com o a senhorita... Fräulein Von Ulrich... ou será Frau?
– Fräulein.
– Deveríam os conversar m ais.
A form a com o ele sorriu deixou claro que aquilo não tinha nada a ver com roubo de m aterial m édico. Ele estava prestes a convidá-la para sair. Caso ela aceitasse, seria alvo da invej a de dezenas de outras enferm eiras.
Mas Carla não tinha o m enor interesse no doutor. Talvez por ter se apaixonado por um libertino cheio de estilo, Werner Franck, e ele ter se revelado um covarde egoísta. Deduzia que Berthold Ernst fosse parecido.
No entanto não queria correr o risco de contrariá-lo, por isso apenas sorriu, sem dizer nada.
– A senhorita gosta de Wagner? – perguntou ele.
Ela podia ver aonde aquela conversa iria chegar.
– Não tenho tem po para m úsica – respondeu, firm e. – Eu cuido da m inha m ãe idosa. – Na verdade, Maud tinha 51 anos e um a saúde perfeita.
– Tenho dois ingressos para um recital am anhã à noite. Vão tocar o Idílio de Siegfried.
– Música de câm ara! – com entou ela. – Que raro. – A m aior parte da obra de Wagner era m ais grandiosa.
O m édico pareceu satisfeito.
– Estou vendo que entende de m úsica.
Ela desej ou não ter dito aquilo. Só servira para incentivá-lo.
– Minha fam ília é bem m usical... m inha m ãe dá aulas de piano.
– Neste caso, a senhorita deveria vir. Tenho certeza de que alguém pode ficar com sua m ãe por um a noite.
– Não dá m esm o – respondeu Carla. – Mas m uito obrigada pelo convite.
Ela viu um a expressão de raiva nos olhos dele: o m édico não estava acostum ado a ser rej eitado. Virou-se para com eçar a em purrar o carrinho para fora do vestiário.
– Um a outra vez, quem sabe? – disse ele enquanto ela saía.
– O senhor é m uito gentil – retrucou ela sem dim inuir o passo.
Teve m edo de que ele a seguisse, m as a resposta am bígua à sua últim a pergunta pareceu fazê-lo desistir. Quando ela olhou por cim a do om bro, ele j á havia ido em bora.
Ela guardou o carrinho e conseguiu respirar m elhor.
Voltou a seus afazeres. Verificou todos os pacientes de sua enferm aria e atualizou os prontuários. Então chegou a hora de passar o plantão para a equipe da noite.
Vestiu sua capa de chuva e pendurou a cesta no braço. Agora precisava sair do prédio levando o m aterial que tinha roubado, e seu m edo tornou a aum entar.
Frieda Franck estava indo em bora na m esm a hora, e as duas saíram j untas. Sua am iga não fazia a m enor ideia de que Carla estava contrabandeando m aterial. Elas seguiram até a parada do bonde sob o sol do m ês de j unho. Carla só usava a capa para m anter o uniform e lim po.
Acreditava estar passando um a im pressão convincente de norm alidade até Frieda lhe perguntar:
– Está preocupada com algum a coisa?
– Não, por quê?
– Você parece nervosa.
– Estou bem . – Para m udar de assunto, apontou para um cartaz. – Olhe só aquilo.
O governo tinha inaugurado um a exposição no Lustgarten, o parque que ficava em frente à catedral de Berlim . “Paraíso Soviético” era o título irônico da m ostra que retratava a vida sob o regim e com unista, qualificando o bolchevism o de truque dos j udeus e os russos de eslavos sub-hum anos. No entanto, os nazistas não estavam m ais alcançando todos os seus obj etivos, e alguém tinha percorrido a cidade colando um cartaz fictício que dizia:
Instalação Permanente
O PARAÍSO NAZISTA
Guerra Fom e Mentiras Gestapo
Por quanto tempo ainda?
Um desses cartazes estava pregado no abrigo da parada do bonde, e Carla sentiu um a onda de satisfação.
– Quem será que cola esses cartazes? – perguntou.
Frieda deu de om bros.
– Sej a quem for, são pessoas de coragem – com entou Carla. – Se fossem pegos, seriam m ortos. – Então se lem brou do que trazia na cesta. Ela tam bém seria m orta caso fosse pega.
– Com certeza – respondeu Frieda.
Dessa vez foi sua am iga que pareceu um pouco nervosa. Seria ela um a das pessoas que colavam aqueles cartazes? Era pouco provável. Mas talvez seu nam orado Heinrich fosse. Ele era bastante im petuoso e idealista, propenso a fazer esse tipo de coisa.
– Com o vai Heinrich? – perguntou Carla.
– Ele quer se casar.
– E você, não?
Frieda baixou a voz:
– Não quero ter filhos. – Era um com entário subversivo: as m oças supostam ente deveriam , de boa vontade, produzir filhos para o Führer. Frieda m eneou a cabeça para o cartaz ilegal. – Não gostaria de trazer um a criança para este paraíso.
– Acho que eu tam bém não – concordou Carla. Talvez por isso houvesse recusado o convite do Dr. Ernst.
Um bonde chegou, e as duas subiram . Carla pousou a cesta no colo de m odo casual, com o se esta não contivesse nada m ais suspeito que um repolho. Exam inou os outros passageiros. Ficou aliviada por não ver ninguém de uniform e.
– Venha com igo até m inha casa – disse Frieda. – Vam os ouvir j azz. Podem os pôr os discos de Werner.
– Adoraria, m as não posso – respondeu Carla. – Tenho que dar um telefonem a. Você se lem bra da fam ília Rothm ann?
Frieda olhou em volta, cautelosa. Rothm ann podia ou não ser um nom e j udeu. Mas ninguém estava por perto para escutá-las.
– É claro. Ele era nosso m édico.
– Ele não deveria m ais exercer a profissão. Eva Rothm ann foi para Londres antes da guerra e se casou com um soldado escocês. Mas os pais dela, é claro, não conseguem sair da Alem anha. O filho deles, Rudi, fabricava violinos... Parece que era um m estre nisso. Só que perdeu o em prego e agora conserta instrum entos e afina pianos. – Ele ia à casa dos Von Ulrich quatro vezes por ano para afinar o Steinway de cauda. – Enfim , eu disse que passaria hoj e à noite para lhes fazer um a visita.
– Ah – respondeu Frieda. Era o “ah” longo de quem tinha acabado de entender algum a coisa.
– Ah, o quê? – indagou Carla.
– Agora percebo por que você está segurando essa cesta com o se contivesse o Santo Graal.
Carla ficou pasm a. Frieda tinha descoberto o seu segredo!
– Com o você sabe?
– Você disse que ele não deveria praticar. Dando a entender que ele ainda pratica.
Carla se deu conta de que havia denunciado o Dr. Rothm ann. Deveria ter dito que ele não podia praticar. Felizm ente, só revelara o segredo a Frieda.
– O que m ais ele poderia fazer? – indagou. – As pessoas batem à sua porta im plorando aj uda. Ele não pode m andar os doentes em bora! Não que ganhe algum dinheiro com isso... Todos os seus pacientes são j udeus ou pobres, e lhe pagam com um as poucas batatas ou um ovo.
– Não precisa defendê-lo para m im – disse Frieda. – Eu o considero coraj oso. E você é um a verdadeira heroína por roubar m aterial do hospital e levar para ele. É a prim eira vez?
Carla fez que não com a cabeça.
– Terceira. Mas m e sinto um a tola por ter deixado você descobrir.
– Você não é tola. É que eu a conheço bem dem ais.
O bonde se aproxim ou do ponto de Carla.
– Desej e-m e sorte – pediu ela, e desceu.
Ao entrar em casa, ouviu notas hesitantes vindas do piano que ficava no andar de cim a. Maud estava com um aluno. Carla ficou contente. Dar aulas alegrava sua m ãe e lhe rendia algum dinheiro.
Ela tirou a capa de chuva e entrou na cozinha para cum prim entar Ada. Quando Maud havia anunciado que não podia m ais pagar seu salário, a criada perguntara se poderia ficar m esm o assim . Agora tinha um em prego à noite, com o faxineira num escritório, e trabalhava na casa dos Von Ulrich em troca de casa e com ida.
Carla tirou os sapatos debaixo da m esa e esfregou os pés um no outro para aliviar a dor. Ada lhe preparou um a xícara de Ersatz.
Maud entrou na cozinha com os olhos brilhando.
– Um aluno novo! – falou. Mostrou a Carla um m aço de notas. – E ele quer ter um a aula por dia!
Maud o deixara treinando escalas, e seu dedilhar de iniciante ecoava ao fundo com o se um gato estivesse andando sobre o teclado.
– Que ótim o – com entou Carla. – Quem é?
– Um nazista, claro. Mas precisam os do dinheiro.
– Qual é o nom e dele?
– Joachim Koch. É bem j ovem e tím ido. Se conhecê-lo, por favor, m orda a língua e sej a educada.
– Claro.
Maud saiu da cozinha.
Carla bebeu com gosto o arrem edo de café. Com o quase todo m undo, j á tinha se acostum ado com o sabor de cereais queim ados.
Passou alguns m inutos batendo papo com Ada. A criada, outrora rechonchuda, estava m agra. Poucas pessoas eram gordas na Alem anha desses tem pos. Mas havia algo errado com ela. A m orte de Kurt, seu filho deficiente, fora um golpe e tanto. Ada tinha um aspecto letárgico. Era com petente no que fazia, m as depois passava horas sentada olhando pela j anela, com um a expressão vazia. Carla tinha carinho por ela e podia sentir sua angústia, m as não sabia com o aj udá-la.
O som do piano cessou e, pouco depois, Carla ouviu duas vozes no hall de entrada, a da m ãe e a de um hom em . Supôs que Maud estivesse acom panhando Herr Koch até a porta. Instantes depois, ficou horrorizada ao vê-la entrar na cozinha seguida de perto por um hom em vestido com um im pecável uniform e de tenente.
– Esta aqui é m inha filha – apresentou Maud, alegre. – Carla, este é o tenente Koch, m eu novo aluno.
Koch era um rapaz atraente, de 20 e poucos anos, e parecia tím ido. Tinha um bigode louro que fez Carla se lem brar das fotos do pai quando j ovem .
Seu coração disparou de m edo. A cesta com o m aterial m édico roubado estava em cim a da cadeira da cozinha ao seu lado. Será que ela sem querer revelaria seu segredo para o tenente Koch, do m esm o j eito que fizera com Frieda?
Quase não conseguiu falar.
– Pr-pr-prazer em conhecê-lo – articulou, por fim .
Maud olhou para a filha com um ar curioso, surpresa por vê-la tão nervosa. Queria apenas que Carla fosse sim pática com seu novo aluno, na esperança de que ele continuasse com as aulas. Não via m al nenhum em convidar um oficial do Exército para entrar em sua cozinha. Nem desconfiava que Carla estivesse carregando m aterial roubado na cesta de com pras.
Koch fez um a m esura form al e disse:
– O prazer é todo m eu.
– E esta é Ada.
Ela lançou ao tenente um olhar hostil, m as ele não percebeu: não reparava em criadas. Apoiou o peso do corpo em um a das pernas e postou-se m eio de lado, tentando parecer à vontade, m as passando a im pressão contrária.
Koch se com portava com o se fosse m ais j ovem . Tinha um ar inocente que sugeria um a criança superprotegida. Mesm o assim , era um a am eaça.
Mudando de posição, ele apoiou as m ãos no encosto da cadeira sobre a qual Carla havia posto a cesta.
– Estou vendo que a senhorita é enferm eira – falou.
– Sim .
Carla tentou pensar com calm a. Será que Koch tinha algum a ideia sobre quem eram os Von Ulrich? Talvez fosse j ovem dem ais para saber o que era um social-dem ocrata. Já fazia nove anos que o partido era ilegal. E era possível que a infâm ia da fam ília tivesse sido esquecida com a m orte de Walter. Koch parecia considerá-las um a fam ília alem ã respeitável, que só era pobre porque havia perdido o hom em que a sustentava, situação na qual se encontravam m uitas m ulheres bem -criadas.
Não havia m otivo algum para que ele olhasse o que havia na cesta.
Carla forçou-se a ser agradável.
– Com o está se saindo no piano?
– Acho que estou progredindo depressa! – Ele olhou de relance para Maud. – Pelo m enos é o que diz m inha professora.
– Ele j á m ostrou que tem talento, m esm o no com eço – disse Maud.
Ela sem pre dizia isso para incentivar os alunos a pagarem um a segunda aula. No entanto, Carla achou que a m ãe estava sendo m ais encantadora do que de hábito. É claro que Maud tinha o direito de flertar; j á fazia m ais de um ano que era viúva. Mas não era possível que tivesse algum interesse rom ântico por um hom em com m etade da sua idade.
– Mas resolvi não contar nada aos m eus am igos antes de ter dom inado o instrum ento – prosseguiu Koch. – Depois poderei surpreendê-los com m eu talento.
– Que divertido vai ser! – disse Maud. – Por favor, tenente, sente-se. Se tiver alguns m inutos. – Ela apontou para a cadeira sobre a qual estava a cesta.
Carla estendeu a m ão para pegá-la, m as Koch foi m ais rápido. Ergueu a cesta dizendo:
– Perm ita-m e. – Olhou rapidam ente para o conteúdo. – Seu j antar, im agino? – com entou ao ver o repolho.
– Sim – respondeu Carla. Sua voz saiu com o um guincho.
Koch se acom odou na cadeira e pousou a cesta no chão aos seus pés, do lado m ais distante de Carla.
– Sem pre im aginei que pudesse ter talento m usical. Agora decidi que é hora de averiguar se isso é verdade. – Ele cruzou e descruzou as pernas.
Carla se perguntou por que ele estava tão nervoso. Não tinha nada a tem er. Ocorreu-lhe que talvez o nervosism o fosse de cunho sexual. Ele estava sozinho com três m ulheres solteiras. O que estaria lhe passando pela cabeça?
Ada pôs um a xícara de café sobre a m esa diante do tenente. Ele pegou cigarros. Fum ava com o um adolescente, com o se estivesse experim entando. Ada lhe deu um cinzeiro.
– O tenente Koch trabalha no Ministério da Guerra, na Bendlerstrasse – disse Maud.
– Isso m esm o!
Era lá que ficava a sede do Estado-Maior. Seria m esm o m elhor que Koch não falasse a ninguém do m inistério sobre as aulas de piano. Aquele prédio abrigava todos os grandes segredos das Forças Arm adas alem ãs. Ainda que o próprio Koch não soubesse, alguns de seus colegas talvez se lem brassem de que Walter von Ulrich tinha sido antinazista. E isso seria o fim das aulas de piano com Frau Von Ulrich.
– É um grande privilégio trabalhar lá – acrescentou o tenente.
– Meu filho está na Rússia – disse Maud. – Estam os m ortas de preocupação.
– Nada m ais natural quando se é m ãe, claro – respondeu Koch. – Mas não sej a pessim ista, por favor! A recente contraofensiva russa foi fortem ente repelida.
Isso era m entira. A m áquina de propaganda do regim e não conseguia esconder o fato de que os russos tinham vencido a batalha de Moscou e obrigado os alem ães a recuar m ais de 150 quilôm etros.
– Agora estam os em condições de retom ar nosso avanço – prosseguiu o tenente.
– Tem certeza? – Maud tinha um a expressão ansiosa, e Carla sentia a m esm a coisa. O tem or do que poderia acontecer com Erik as torturava.
Koch tentou abrir um sorriso de quem sabe das coisas.
– Frau Von Ulrich, pode acreditar em m im : eu tenho certeza. Naturalm ente não posso revelar tudo o que sei. No entanto, posso lhe garantir que um a nova e m uito agressiva operação está sendo planej ada.
– Claro. Estou certa de que nossos soldados têm tudo de que precisam : com ida suficiente, essas coisas. – Ela pousou a m ão no braço de Koch. – Mesm o assim , fico preocupada. Sei que não deveria dizer isto, tenente, m as sinto que posso confiar no senhor.
– É claro que pode.
– Há m eses não tenho notícias do m eu filho. Não sei se ele está vivo ou m orto.
Koch levou a m ão ao bolso para pegar um lápis e um bloco de notas.
– Com certeza posso descobrir para a senhora – falou.
– Pode m esm o? – perguntou Maud com os olhos arregalados.
Carla pensou que talvez fosse esse o m otivo do flerte.
– Ah, sim – respondeu Koch. – Faço parte do Estado-Maior, a senhora sabe... m esm o que m eu cargo sej a hum ilde. – Ele tentou aparentar m odéstia. – Posso perguntar sobre...
– Erik.
– Erik von Ulrich.
– Seria m aravilhoso. Ele é ordenança m édico. Estava estudando m edicina, m as ficou im paciente para lutar pelo Führer.
Isso era verdade. Erik era um nazista fervoroso – em bora suas últim as cartas para casa tivessem dem onstrado um tom m ais brando.
Koch anotou o nom e.
– O senhor é um hom em m aravilhoso, tenente Koch – disse Maud.
– Não por isso.
– Fico tão feliz que estej am os prestes a contra-atacar no front oriental... Mas o senhor não deve m e dizer quando esse ataque vai com eçar. Mesm o que eu estej a desesperada para saber.
Maud estava tentando obter inform ações. Carla não entendeu por quê. Sua m ãe não teria com o usá-las.
Koch baixou a voz, com o se um espião pudesse ouvi-lo pela j anela aberta da cozinha.
– Será m uito em breve – falou.
Então correu os olhos pelas três m ulheres. Carla viu que ele estava se deleitando com a atenção que recebia. Talvez fosse raro ter m ulheres sorvendo suas palavras daquele j eito. Para prolongar o instante, ele arrem atou:
– A Operação Azul vai com eçar m uito em breve.
Maud olhou para ele, e seus olhos chisparam .
– Operação Azul... que em ocionante! – falou, com o m esm o tom que um a m ulher usaria se um hom em a convidasse para passar um a sem ana no Ritz de Paris.
– No dia 28 de j unho – sussurrou ele.
Maud levou a m ão ao peito.
– Mas j á? Que notícia m aravilhosa.
– Eu não deveria ter dito nada.
Maud cobriu a m ão do tenente com a sua.
– Mas estou m uito feliz que tenha dito. O senhor m e fez sentir m uito m elhor.
Koch ficou encarando a m ão dela. Carla percebeu que o tenente não estava acostum ado a ser tocado por m ulheres. Ele ergueu os olhos da m ão de Maud para seus olhos. A m ãe abriu um sorriso caloroso – tão caloroso que Carla quase não acreditou que fosse com pletam ente falso.
Maud retirou a m ão. Koch apagou o cigarro e se levantou.
– Preciso ir andando – falou.
Graças a Deus, pensou Carla.
Ele se inclinou para ela.
– Prazer em conhecê-la, Fräulein.
– Até logo, tenente – respondeu Carla, indiferente.
Maud o acom panhou até a porta dizendo:
– Am anhã à m esm a hora, então.
Ao voltar para a cozinha, falou:
– Que achado! Um m enino bobo que trabalha no Estado-Maior!
– Não entendo por que você está tão entusiasm ada – disse Carla.
– Ele é m uito bonito – com entou Ada.
– Ele nos deu inform ações secretas! – continuou Maud.
– E de que elas nos servem ? – desdenhou Carla. – Não som os espiãs.
– Agora sabem os a data da próxim a contraofensiva. Com certeza podem os dar um j eito de inform ar os russos.
– Não sei com o.
– Dizem que estam os cercados por espiões.
– Isso não passa de propaganda. Tudo que dá errado é atribuído à subversão de agentes secretos j udeus-bolcheviques, e não à im perícia dos nazistas.
– Mas deve haver alguns espiões de verdade.
– E com o entraríam os em contato com eles?
Sua m ãe pareceu refletir um pouco.
– Eu falaria com Frieda.
– Por que está dizendo isso?
– Intuição.
Carla se lem brou daquele instante na parada do bonde, quando fizera um com entário sobre quem pregava os cartazes antinazistas e Frieda havia ficado calada. Tinha a m esm a intuição da m ãe.
Mas esse não era o único problem a.
– Mesm o se conseguíssem os, querem os trair nosso país?
A resposta de Maud foi enfática:
– Precisam os derrotar os nazistas.
– Detesto os nazistas m ais do que qualquer pessoa, m as continuo sendo alem ã.
– Entendo o que você está dizendo. Não gosto da ideia de m e tornar um a traidora, m esm o tendo nascido na Inglaterra. Mas só vam os nos livrar dos nazistas se perderm os a guerra.
– Mas im agine que déssem os um j eito de transm itir aos russos inform ações que garantissem a derrota alem ã. Erik poderia m orrer nessa batalha! Seu filho... m eu irm ão! Nós poderíam os ser responsáveis pela m orte dele.
Maud abriu a boca para responder, m as não conseguiu falar. Em vez disso, com eçou a chorar. Carla se levantou e abraçou a m ãe.
Um m inuto depois, Maud sussurrou:
– Ele pode m orrer de qualquer form a. Pode m orrer lutando pelo nazism o. Melhor que sej a perdendo um a batalha do que ganhando.
Carla não tinha tanta certeza.
Ela soltou a m ãe.
– De toda form a, gostaria que você m e avisasse antes de trazer um a pessoa assim para dentro da cozinha – falou, pegando a cesta do chão. – Foi um a sorte o tenente Koch não ter exam inado isto aqui m ais a fundo.
– Por quê? O que há dentro dessa sua cesta?
– Rem édios para o Dr. Rothm ann, roubados do hospital.
Maud deu um sorriso orgulhoso por entre as lágrim as.
– Essa é a m inha m enina!
– Quase m orri quando ele pegou a cesta.
– Desculpe.
– Você não tinha com o saber. Mas vou m e livrar destas coisas agora m esm o.
– Boa ideia.
Carla tornou a vestir a capa por cim a do uniform e e saiu.
Andou rapidam ente até a rua em que os Rothm ann m oravam . A casa não era tão grande quanto a dos Von Ulrich, m as era um a residência urbana de boas proporções, com côm odos agradáveis. As j anelas, porém , estavam fechadas com tábuas, e um a placa grosseira na porta inform ava: “Consultório fechado”.
Os Rothm ann j á haviam sido um a fam ília próspera. O Dr. Rothm ann tinha um bem -sucedido consultório, com m uitos pacientes ricos. Tam bém atendia os pobres por preços m ais m ódicos. Agora, porém , restavam apenas os pobres.
Carla deu a volta até os fundos, com o faziam os pacientes.
Na m esm a hora percebeu que havia algo errado. A porta estava aberta e, quando entrou na cozinha, viu um violão com o braço quebrado caído no chão de ladrilhos. Não havia ninguém ali, m as ela ouviu ruídos vindos de outro lugar da casa.
Atravessou a cozinha e chegou ao hall de entrada. Havia dois côm odos principais no térreo. Antigam ente, eram a sala de espera e a de consultas. Agora, a prim eira estava disfarçada de sala de estar; e a segunda fora transform ada em ateliê para Rudi: um a bancada, ferram entas para trabalhar a m adeira e m eia dúzia de bandolins, violinos e violoncelos em estágios variados de conserto. Os equipam entos m édicos costum avam ficar guardados em arm ários trancados, escondidos.
Só que não m ais, constatou Carla ao entrar.
Os arm ários tinham sido abertos; e seu conteúdo, j ogado para fora. O chão estava coalhado de vidro quebrado e com prim idos, pós e líquidos diversos. Em m eio aos destroços, Carla viu um estetoscópio e um m edidor de pressão. Partes de vários instrum entos estavam espalhadas, obviam ente derrubadas da m esa e pisoteadas.
Carla sentiu choque e repulsa. Quanto desperdício!
Então espiou dentro do outro côm odo. Rudi Rothm ann estava caído num canto. Era um rapaz de 22 anos, alto, de porte atlético. Tinha os olhos fechados e gem ia de dor.
Hannelore, sua m ãe, estava aj oelhada ao seu lado. Outrora um a loura atraente, Hannelore agora estava grisalha e m agra.
– O que houve? – perguntou Carla, tem endo a resposta.
– A polícia – respondeu Hannelore. – Eles acusaram m eu m arido de tratar pacientes arianos. Levaram -no em bora. Rudi tentou im pedi-los de destruir tudo. Eles... – Ela engasgou.
Carla pousou a cesta no chão e foi se aj oelhar ao lado de Hannelore.
– O que eles fizeram ?
Hannelore recuperou a voz:
– Quebraram as m ãos dele.
Foi então que Carla viu. As m ãos de Rudi estavam verm elhas e terrivelm ente deform adas. A polícia parecia ter quebrado seus dedos um a um . Não era de espantar que ele estivesse gem endo. Carla ficou enj oada. No entanto, via horrores com o aquele todos os dias, e sabia reprim ir os próprios sentim entos para prestar auxílio prático.
– Ele precisa de m orfina – falou.
Hannelore apontou para a bagunça no chão.
– Se tínham os algum a, não tem os m ais.
Carla sentiu um a onda de raiva. Até m esm o os hospitais estavam trabalhando com estoques lim itados, e ainda assim a polícia tinha desperdiçado rem édios preciosos num a orgia de destruição.
– Eu trouxe m orfina.